SALVE O MORRO
4 Um crime perfeito
Na noite que capturaram o maior traficante do país, eu estava sentado na poltrona na sala de casa, lendo o diário de Anne Frank. Eu me lembro exatamente da última frase que li antes que invadissem minha casa. "Nunca mais recuarei diante da verdade; pois quanto mais tardamos a dize-la; mais difícil torna-se os outros ao ouvi-la". Eu jurei a mim mesmo que nunca testemunharia alguma mentira. Jurei para mim mesmo que nunca iria mentir sobre o que eu cresci vendo, ouvindo e lendo e fingindo a mim mesmo que nunca tinha acontecido. Eu morava no morro, morava na favela mais temida do mundo. Mas a favela mais temida do mundo não morava em mim. Em mim morava a favela que as crianças cresciam na rua brincando de pique esconde, a favela que ajudava a Dona Maria quando sua casa descia ladeira a baixo, que ajudou a Dona Judite a montar uma pastelaria quando ela fugia do marido que a agredia todos os dias. Na favela que ajudava os garotos a se tornar jogador de futebol, na favela que investia em dança pra tirar a molecada da rua, a que montava cestas básicas pro seu José, aposentado, gastava seu dinheiro com os remédios do coração. Era essa favela que morava em mim, e era essa favela que ia defender.
Eu acordei exatamente as quatro da manhã. Minha primeira aula iria começar apenas, as 10 horas. Seria hoje que a favela do Chapadão iria queimar em fogo. Não toda a favela, um porão em específico. Meu pijama listrado estava todo amarrotado, o pouco que consegui dormir, foi o bastante para me dar forças para fazer o que eu estava planejando. Me levantei e fui bem devagar para o banheiro, para não aguentar perguntas desses meninos. Peguei uma roupa preta dentro do armário e fui para o banheiro, me troquei e me arrumei.
Eu entrei na favela exatamente as quatro e meia da manhã. O carro importado iria chamar muita atenção se eu viesse mais tarde. Assim que entrei na favela, dei de cara com os "guardas" do morro. Mesmo depois de uma "pacificação" eles ainda estavam ali. Respirei fundo e tentei me acalmar. Eu sabia do que os "guardas" eram capazes de fazer. Eles eram pagos pra cuidar de quem entrasse na favela, ou de quem saísse. Eles me cercaram, assim que viram meu carro.
— Ei Playboy!
Um deles pulou na frente do carro.
Era Camilo, um garoto da minha idade, filho de uma das empregadas que meu pai tinha em casa. Nos costumávamos brincar juntos no quintal de casa enquanto sua mãe dava faxina. Ele levantou a arma e apontou para mim sair do carro. Eu imediatamente fiz o que eles mandaram. Abri a porta do carro e desci, coloquei a mão para cima para mostrar que eu não portava nenhuma arma.
— Charlie?
Ele imediatamente abaixou a arma.
— O que temos aqui Camilo?
Um homem veio para cima de mim, ele iria me agredir de alguma forma, dava para ver. Camilo pulou na frente dele e o empurrou.
— Idiota
O homem levantou imediatamente, e me encarou.
— Charlie Seth Clair.
Me apresentei e abaixei as mãos.
Ele riu alto.
— Então o príncipe voltou ao reinado?
— Não!
— O que veio fazer aqui então?
Camilo perguntou imediatamente.
— Vim cometer um crime.
Eles se olharam e depois me encararam.
— Como está a favela?
— Ardendo em problemas.
— Posso ajudar?
— Pode!
O outro homem disse rapidamente.
— Não, ele não pode.
— O que aconteceu?
— Charlie, Thomas assumiu o lugar do seu pai.
Thomas, pensei um pouco em quem era Thomas. Thomas era um rapaz um pouco mais velho que eu. Ele trabalhava junto com o meu pai. Ele distribuía a droga em grande parte do distrito. Ele era bom no que fazia, nunca tinha sido pego ou preso. Mas seu nome era conhecido. Balancei a cabeça positivamente.
— Desde que eu me entendo ele é bom no que faz.
— Sim, mas não é bom pras pessoas daqui.
O outro homem disse.
— Roger, cala a boca. O Charlie foi criado em berço de ouro. Ele nem se quer frequentava a favela. Estudou em escola no exterior. Ele não cresceu aqui como os moleques da quebrada.
Camilo respirou fundo.
Eu não podia ajudar. Não iria assumir o lugar do meu pai. Eu nem se quer entendia sobre isso.
— Eu preciso ir. Tem algo que eu possa fazer por vocês?
— O marido da dona Judite voltou, Thomas deu ordem pra gente para deixa-lo entrar.
Franzi a sobrancelha.
— Ok. O que querem?
— Permissão para matá-lo.
— Precisam de permissão pra fazer alguma coisa?
Encarei eles.
— Isso é um sim?
Camilo disse surpreso.
— Não.
Disse rapidamente.
Camilo balançou a cabeça positivamente.
— Precisamos de permissão para executar qualquer ordem aqui.
— Eu não sou o chefe de vocês.
— Você voltou pra favela, agora é!
Camilo disse.
Balancei a cabeça negativamente.
— Eu não sou o chefe de vocês, mas se é permissão que vocês querem, eu dou! Dou permissão a vocês para dar um susto no marido da Judite, um susto que ele não vai querer colocar o pé no Chapadão nunca mais.
Eles sorriram e se encaram.
— Eu preciso que tirem os policiais da porta da minha casa.
— O que vai fazer maluco?
— Prometo tentar ajudar vocês com os problemas da favela, sem envolver drogas no meio, se me ajudarem agora.
— Você manda e a gente obedece.
— Tira os policiais da porta da minha casa. Eu preciso colocar fogo em algumas coisas lá dentro.
— Quais coisas?
O Roger perguntou.
Balancei a cabeça negativamente.
— Sem perguntas. Disse.
— Falou maluco.
— Obrigado.
— Como podemos falar com você depois?
Camilo perguntou preocupado.
Quando amanhecer eu ligo pra vocês.
Entrei no carro, eles deram passagem para mim entrar. Entrei na favela exatamente as cinco da manhã. Ainda estava noite, o barulho do baile ainda ecoava pelos cantos da favela. Parei o carro onde eu sabia que as câmeras que estavam estaladas dentro da minha casa não pegavam. Coloquei um capuz preto e desci. Abri o porta malas e peguei os dois galões de gasolina que estavam atrás. A casa estava completamente desprotegida, nem o carro da polícia estavam lá mais.
— Bom trabalho.
Pensei alto assim que vi que o trabalho dos meninos foram significativos. Entrei para dentro de casa sem problema algum. A mansão estava com a porta aberta. Exatamente como tudo sempre esteve. Tirando umas mesinhas com uns computadores desmontados. Inclusive o meu.
Atravessei a sala e fui para o escritório. Uma das prateleiras de livros era a porta de entrado do porão. O porão era um sub-escritório que meu pai tinha montado para cuidar de problemas, principalmente relacionado a drogas. Tirei dois livros onde ficava o painel de números e coloquei a senha 020709. Uma senha fácil visando as coisas que tinham lá dentro. Entrei e deixei aberto, eu teria que ser rápido para sair. O computador, livros, pastas e pastas de finanças. Papéis. Tudo. Estava tudo ali, entocado. Comecei a jogar gasolina em tudo. Sem olhar onde estava pegando. Até que me deparei com um livro de capa preta ao lado da mesinha do computador. Um livro que na capa estava escrito "Lista de mortes" Então eu parei de jogar e o peguei, coloquei dentro do bolso do meu casaco e voltei a fazer o que eu estava fazendo. Espalhei os dois galões de gasolina pelo escritório e fui o mais próximo possível para a porta. Respirei fundo, o cheiro de gasolina era bom, cheirava a liberdade. Acendi o esqueiro e o joguei na gasolina. O fogo imediatamente se espalhou. Me virei e sai sem olhar para trás. Fechei a porta atrás de mim e sai do escritório. A fumaça já saia por de baixo da porta. Sai o mais rápido possível da casa. Atravessei a rua rápido e entrei no carro. Imediatamente eu desliguei o farol e sai de perto antes que os policiais voltassem.
Sai da favela, os meninos já estavam lá, rindo.
Respirei fundo, fiquei visivelmente aliviado ao ver eles.
Parei o carro ao lado deles, peguei um dos meus cartões e entreguei ao Camilo, que imediatamente se levantou e pegou e sorriu.
— Me liguem se precisarem de algo.
Disse e ele imediatamente sorriu.
— Bem vindo ao trono rei.
Sorri e balancei a cabeça negativamente.
— Não, mas estou a disposição para outras coisas. Obrigada.
Fechei a janela do carro e dirigi de volta para o Campus. Eu cheguei, os meninos ainda dormiam. Era perfeito caso algo caísse em cima de mim. Tirei minha roupa, vesti meu pijama novamente e me deitei. O dia nem tinha começado e eu já tinha colocado fogo na favela.
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