S L Y T H E R I N

8 VII - Imprudência.


Notas iniciais
Olar, amores! Tudo bem com vocês? Espero que sim e que estejam aproveitando o feriado de carnaval :) Dessa vez fui rápida na atualização, heim? Ah, eu estou MUITO feliz com a repercussão que SLYTHERIN está tendo. Estou recebendo tantos feedbacks maravilhosos, tantos comentários lindos. Saber que estão gostando da história me deixa muito motivada, sério! Dá um trabalhão enorme e precisa de muita boa vontade para reescrever uma história tão longa, mas com todo esse carinho, todo esse apoio que estou recebendo, a motivação vai às alturas e eu fico sorrindo feito boba ♥ Obrigada, amores, sério! Vocês são incríveis! ♥ Mais de 80% deste capítulo não existia na fanfic anterior, contudo, para mim ele é um dos mais importantes até agora, principalmente pela quantidade de informações e "pingos nos is" que ele colocou e irá colocar nos próximos capítulos :) —------------------------------- PS: cada capítulo contém sua "playlist" e eu vou deixar as músicas linkadas no decorrer do texto, então para quem quiser ouvir enquanto lê, cliquem nos "•", ok? Músicas do capítulo: • Thirty Seconds To Mars - This Is War: https://youtu.be/Zcps2fJKuAI?t=42s • Shawn Mendes - A Little Too Much: https://goo.gl/Lk2Fqr • Fleetwood Mac - The Chain: https://goo.gl/FcWE5T Ah, e para quem quiser o link da playlist completa (com as músicas sendo adicionadas no decorrer da fanfic), aqui está o link do spotify: https://goo.gl/sLVvgL Espero que gostem!

CAPÍTULO VII

Imprudência (ou sobre acordos, pedidos silenciosos e desencontros)

[SEGUNDA-FEIRA – 19 DE SETEMBRO, 1977]

Petunia terminou de escrever no pergaminho com um floreio de sua pena. Seus olhos ardiam enquanto ela dobrava a carta e a amarrava na pata da coruja albina que a observava de forma emproada. Era engraçado, ela pensou, o quanto aquela ave parecia com a mãe, Helena Evans: arrogante, impaciente e pronta para ir embora assim que terminassem de fazer o que ela queria.

Ela observou o animal voar janela à fora por algum tempo e então, com um suspiro, baixou o olhar para os terrenos da escola que por tanto tempo odiara e na qual agora estava presa.

Poderia ter rido da ironia do destino, entretanto, há muito havia parado de acreditar que as coisas aconteciam porque tinham de acontecer. Não, no caso dela, as coisas aconteciam porque Helena Evans queria que acontecessem.

Não que ela se sentisse incomodada, é claro, afinal a mãe sempre lhe dera bons conselhos, mesmo que, ultimamente, eles parecessem a cada dia mais difíceis de serem seguidos. Mas, ela sabia, logo as coisas se ajeitariam novamente... ou era o que rogava à Merlin.

Limpando o canto dos olhos, Petunia afastou-se da janela e terminou de arrumar a gravata azul e bronze de sua nova casa.

Corvinal. Não Grifinória.

— É... — Murmurou consigo mesma, parando em frente ao espelho próximo à sua cama e observando seu reflexo. O azul continuava caindo perfeitamente bem nela. — Nem tudo acontece como Helena quer...

— Hey, você está pronta? — A voz alegre de Alice Fawcett a despertou de seus devaneios. Petunia ergueu os olhos para a garota bonita de cabelos e olhos escuros que a observava cheia de energia. — Vai tomar café da manhã?

— Eu... sim. — Concordou e então forçou um sorriso.

— Ótimo! Eu estou indo para o Salão Principal também e, se quiser, posso te levar. Sei bem como esse castelo pode ser confuso, até mesmo para quem estuda aqui há anos. — Disse e sorriu mais um pouco, voltando-se para a saída em seguida, esperando para ver se ela a seguiria.

Pegando a mochila, Petunia desceu as escadas logo atrás da menina, chegando na sala comum onde os colegas as cumprimentaram com simpatia, alguns deles puxando assunto, indagando sobre como havia passado a noite, se estava gostando da estadia na escola – mesmo que ela tivesse chegado há apenas um dia – e dando algumas recomendações sobre as aulas, professores e o castelo.

Ela tentou ser simpática com todos, afinal eles seriam seus companheiros até o final daquele maldito ano, contudo não podia negar que sentiu um grande alívio quando Alice a puxou, junto de Izoraiah Antunes – uma garota baixinha que usava óculos redondos e grandes e a encarava como se a avaliasse – dizendo que perderiam o café caso não se apressassem.

Caminharam pelos corredores enquanto Alice e Izoraiah comentavam os assuntos que estavam sendo tratados em sala nas primeiras semanas de aula, dizendo-lhe que poderiam emprestar-lhe suas anotações para que ela não se sentisse perdida, afinal, assim como ela, Izoraiah pretendia seguir carreira de medibruxa e, deste modo, participariam das mesmas disciplinas.

Petunia não podia negar que, embora odiasse cada metro de pedra, quadros e armaduras feias e enferrujadas daquela escola, sua manhã não estava sendo tão ruim quanto teria imaginado. Alice era o tipo de pessoa que se enturmava fácil e, embora Izoraiah continuasse a encarando, a garota tinha algumas tiradas muito inteligentes.

Estavam quase chegando ao Salão Principal – e Petunia sentiu-se feliz ao perceber que reconhecia alguns corredores da tarde anterior, na ocasião em que o gentil monitor-chefe Remus Lupin a havia apresentado o castelo – quando um sonserino de cabelos escuros e ar arrogante parou bem em frente a elas, interrompendo a caminhada.

— Bom dia. — Ele disse e sorriu friamente e, embora sua expressão não fosse simpática, Petunia não pôde deixar de notar que ele era bonito. — Você deve ser a novata, irmã da Evans. — Adicionou, observando-a de cima abaixo quase com desprezo. Petunia remexeu-se, inquieta. — Anthony Mulciber. — Estendeu a mão para ela que a aceitou mais por educação do que por vontade. Assim que o garoto a soltou, contudo, seus olhos voltaram-se para Alice que pareceu se encolher ao seu lado. — Fawcett, será que podemos conversar?

— Ah... na-na verdade, eu estava acompanhando Petunia até- — A garota começou a gaguejar, mas ele a interrompeu.

— Nah, tenho certeza de que a... — Mulciber finalmente voltou o olhar para Izoraiah, franzindo o cenho como se estivesse tentando lembrar seu nome, mas, por fim, como se decidisse que não era importante, deu de ombros. — Essa daí pode acompanhá-la.

— Eu não acho que-

— Vamos lá, querida, vai ser rapidinho. Vocês sabem o caminho, não sabem? — Voltou-se para as outras duas. Petunia abriu a boca para responder com um comentário rude sobre sua indelicadeza, mas Izoraiah foi mais rápida.

— Sim. Vamos. — E, puxando Petunia pelo braço, a corvinal lançou um olhar cheio de culpa para Alice que assentiu, derrotada.

— Bem, finalmente! — Mulciber disse e Alice o encarou, seus olhos escuros e arregalados enchendo-se de algo semelhante ao horror. — Vamos, Fawcett, temos assuntos para tratar e você esteve fugindo por um longo tempo. — E, sorrindo de forma ardilosa para ela, segurou-a pelo braço direito e a puxou com ele pelos corredores que os levariam para as masmorras.

X—X

Pela primeira vez no que pareceu ser um longo tempo, Lily sentia-se completamente descansada ao acordar.

Ao sair da cama e deparar-se com a habitual carranca de Bellatrix, o olhar condescendente de Narcissa, a careta de Sarah Rogers e o bom dia de Anne e Elisa, sentiu como se finalmente estivesse em Hogwarts – o que, se fosse pensar, era algo tremendamente idiota, afinal de contas fazia quase três semanas desde que o ano letivo iniciara.

A verdade era que, desde que chegara na escola, nada parecia ter estado em seu lugar. Entre brigas com Snape, horas perdidas em detenções com James Potter, reuniões, detenções e temas de casa, Lily não tivera muito tempo para aproveitar o fato de que estava no lugar que mais amava no mundo – mesmo que às vezes fosse difícil sobreviver ali.

Naquela segunda-feira, contudo, as coisas pareciam estar em seus devidos lugares. Ou, melhor dizendo: nada estava em seu lugar habitual, entretanto tudo parecia certo. Até mesmo lembrar que Petunia, sua querida irmã, estava em Hogwarts, não parecia assim tão terrível se fosse levar em consideração o desencadeamento de coisas boas que a sua aparição havia causado: criara laços estranhos com McKinnon e Meadowes no dia anterior e ainda tivera uma conversa real e totalmente madura com Sirius Black – tendo, inclusive, um “encontro” marcado com ele...

Nenhuma daquelas coisas eram normais, porém, tinha total certeza de que conseguiria lidar com tudo de modo exemplar – ou esperava que sim, afinal não podia negar que ficava nervosa ao pensar em como deveria reagir ao rever as grifinórias ou ao imaginar a conversa que teria com Black antes do período duplo de poções.

É claro que ainda haviam algumas coisas que a estavam incomodando, como, por exemplo, a conversa que ouvira no dia anterior enquanto esteve escondida debaixo da capa do Potter. O modo como seus colegas de casa haviam falado... a forma despreocupada com que eles tramavam coisas tenebrosas a deixavam de cabelo em pé. E ainda havia Quirrell, o sextanista corvinal que sempre corava ao falar com ela e que parecia franzino e tímido demais para concordar com os absurdos que Voldemort defendia. Pelo visto havia se enganado a respeito do garoto.

Mas, pensou, aquilo não era novidade afinal de contas o que ela mais fazia nos últimos tempos era estar enganada sobre pessoas que acreditava conhecer.

Afastando aqueles pensamentos, não querendo anuviar seu raro bom humor matinal, terminou de se arrumar e então foi até o malão onde estava sua mochila e a pegou, virando-se para Anne e Elisa – que ainda não estavam prontas – para avisar-lhes que teria de passar na sala de monitoria antes do café, mas que logo as encontraria no Salão Principal.

As garotas assentiram e então ela saiu.

A sala comunal estava quase vazia àquele horário, o que a agradou, afinal estava pretendendo ficar longe de qualquer coisa que a deixasse irritada e ter de encarar Snape ou qualquer outro daqueles com certeza não seria um bom presságio. Reconhecia estar muito estressada nos últimos dias, haviam muitas coisas em sua cabeça e ela tinha certeza de que não era saudável sentir-se tão exausta quanto estivera na semana que havia passado.

Por Morgana, se ela continuasse daquele jeito acabaria tendo um ataque do coração!

— Certo, Lily, você precisa parar de dar tanta importância para coisas insignificantes. — Murmurou consigo mesma, soltando um longo suspiro logo em seguida. — Você também precisa parar de ficar falando sozinha pelos corredores antes que comecem a desconfiar que está ficando louca. — Adicionou, rolando os olhos para si mesma antes de dobrar em uma passagem secreta que havia atrás de uma parede falsa, a qual ela sabia que a levaria mais rápido até a sala dos monitores mesmo que o corredor não fosse assim tão agradável, afinal passava perto demais da entrada para as masmorras subterrâneas.

Lily queria devolver a capa da invisibilidade para a gaveta da qual havia retirado. Não gostava da ideia de andar com um pertence que não era seu, apesar de ter sido muito útil na noite anterior, assim como também não gostava da ideia de James Potter descobrir que ela a havia utilizado; as coisas entre eles já estavam confusas o suficiente sem que ele ficasse furioso com ela.

Estava tão perdida em pensamentos, os quais pela milésima vez haviam voltado para James Potter, que demorou para perceber: abafado e quase longe demais para que ela pudesse ouvir, o som de algo parecido com gemidos a despertara, fazendo-a parar no meio do corredor com o cenho franzido.

Lançando um olhar desconfiado para o corredor à sua direita – que era a entrada da ala oeste das masmorras subterrâneas – de onde o som parecia provir, Lily sentiu-se indecisa sobre o que deveria fazer.

Uma vez, no segundo ano, inventara de explorar aquela parte do castelo junto de Snape e a escolha se demonstraram não muito acertada. Seus doze dias na Ala Hospitalar com vários ossos quebrados depois de quase ser esmagada por um Trasgo, que Merlin sabia o que estava fazendo nos subúrbios daquelas masmorras, ainda eram memoráveis – e não de um jeito bom.

Entretanto, apesar dos arrepios de medo percorrerem por sua espinha ao pensar em ir até lá novamente, o som continuava e a única explicação era que ou havia alguém em alguma daquelas salas, ou os Trasgos estavam em época de acasalamento – o que não era uma imagem muito bonita para ter em mente – porque nenhum daqueles ruídos eram algo habitual.

Sentindo-se estupidamente imprudente, Lily murmurou “lumos” para sua varinha, fazendo-a brilhar antes de embrenhar-se nos corredores escuros, frios e úmidos. Odiava aquele lugar. O cheiro bolorento causava reboliço em seu estômago e o som de umidade escorrendo pelas paredes de pedra era enervante.

Lily percebeu tardiamente – já estava quase na metade do corredor – que o som esquisito que estivera ouvindo havia parado completamente. Agora, tudo o que ela escutava eram os resmungos ininteligíveis dos Trasgos mais ao fundo e som de outras coisas mais tenebrosas, que ela preferia não conhecer, arranhando paredes.

Estava decidida a dar meia volta e seguir para a sala de monitoria quando outro ruído a assustou: o som de algo batendo no chão, como uma mesa ou cadeira derrubada, provindo da porta à sua esquerda.

Xingando-se mentalmente por estar sendo tão imprudente, Lily esticou a mão para a porta, percebendo, ao tentar abrir, que estava trancada. Sem pensar muito – afinal provavelmente desistiria se o fizesse – utilizou-se de um “alohomora” não-verbal e a empurrou, adentrando a sala com ímpeto.

A claridade repentina a cegou e, por conta disso, demorou mais do que alguns instantes piscando para compreender o que estava vendo.

Antes que seu cérebro processasse o significado de toda aquela cena, seu corpo reagiu e, bradando um “expelliarmus”, Lily fez com que a varinha de Anthony Mulciber – que estivera empunhada contra o pescoço de Alice Fawcett – voasse para longe.

— Mas que mer-

— O que está acontecendo aqui? — Lily sentia-se lívida, mas pôde perceber o alívio preencher a expressão de Alice, indicando que, o que quer que estivesse sendo feito naquela sala, ela estava muito feliz por ter sido interrompida.

— Evans! Isso não é da sua conta! Onde está a minha varinha? — Mulciber, que havia ficado chocado com a aparição da garota, finalmente pareceu recobrar seus sentidos, seu rosto avermelhando e seus olhos esbugalhando de raiva.

— Você está muito ferrado, Mulciber. — Lily disse e caminhou um pouco mais para dentro da sala.

Parecia uma sala de aula comum, candelabros iluminavam as paredes, contudo havia algo no ar abafado que recendia à maldade. Sentiu um calafrio percorrer por sua coluna com o pensamento.

— O que estava acontecendo aqui? — Voltou a perguntar, mas dessa vez direcionando o olhar para Alice.

Percebeu que havia deixado de notar várias coisas que agora estavam bastante claras: Alice, que estava encolhida contra uma mesa emborcada – provavelmente a mesma que produzira o ruído que levara Lily até ali – sem qualquer reação, tinha arranhões no rosto e duas marcas roxas em seu pescoço e sua saia estava estranhamente amassada em ângulos esquisitos.

Ao ver aquilo, Lily sentiu seu estômago revirar ao dar-se conta do que deveria ter interrompido. Estava prestes a voltar-se para Mulciber e xingá-lo até a eternidade, quando o garoto foi mais rápido. Sem uma varinha, ele aproveitou do momento de distração de Lily para jogar-se nela, fazendo com que se desequilibrasse e caísse contra o piso frio, batendo a cabeça contra uma das classes, o peso do corpo dele sobre o dela deixando-a sem ar.

Mulciber certamente teria levado a melhor caso Lily não fosse rápida o suficiente para erguer o joelho na hora certa e acertá-lo no meio de suas pernas. Com um uivo de dor, o garoto se retorceu e, aproveitando-se daquilo, Lily firmou a varinha em sua mão e bradou um “Impedimenta” que o mandou pelos ares de encontro à parede oposta da sala.

Ofegante, ela se apoiou numa das classes para tentar se erguer. Finalmente parecendo desperta de seu torpor, Alice correu até ela, segurando-a com as mãos trêmulas e ajudando-a a ficar em pé.

— Evans, você vai me pagar... — Um Mulciber muito ofegante resmungou, cuspindo saliva cheia de sangue contra o chão antes de encará-la com ódio.

— Eu não teria tanta certeza, Mulciber. Acho que Dumbledore vai adorar saber o que aconteceu aqui. — Ela retrucou, furiosa. — Incarcerous. — Cordas voaram da ponta de sua varinha, enrolando-se no corpo do garoto, fazendo-o ficar completamente imóvel. — Accio varinha. — Duas varinhas, a de Mulciber e outra que deveria ser de Alice, voaram para sua mão. — Essa é a sua? — Indagou para a garota que apenas assentiu, mas não se moveu para recuperar o objeto. Dando de ombros, Lily empurrou a varinha para as mãos da garota, ficando apenas com a de Mulciber.

— Evans, não ouse...

— Você não está em posição de fazer ameaças, Mulciber. — Ela retrucou, encarando-o com firmeza.

O garoto cuspiu em sua direção.

— Sua putinha asquerosa. — Ele bradou, fazendo com que Lily perdesse o pouco de paciência que tinha, caminhasse até ele e desferisse um soco em seu rosto. O garoto gemeu de dor e, pelo som, Lily deveria ter quebrado seu nariz. — Vagabunda. — Mulciber prosseguiu, não ressabiado com o ataque, menosprezando-a.

Foi o que bastou para que Lily quebrasse sua varinha e a atirasse contra seu peito amarrado. O garoto arregalou os olhos e a encarou, lívido, contudo, antes que pudesse xingá-la, Lily apontou a varinha para o meio de seu rosto, fazendo-o calar-se diante da ameaça iminente. Ela o encarou daquele modo por mais alguns instantes, pensando em um milhão de maneiras diferentes de como poderia puni-lo, mas então lembrou-se do estado de Alice e decidiu que curá-la era mais importante naquele momento.

— Alice, venha comigo. — Lily chamou a colega quando retornou para o seu lado, mas, como esta não se moveu, seus olhos ainda grudados no garoto amarrado, a pegou pelo braço e direcionou-se para a saída. Antes que estivesse do lado de fora, entretanto, voltou-se para o garoto. — Não se mova. Em breve estarei de volta.

— Você vai deixá-la contar, Alice? Tem certeza? — Foram as últimas palavras do garoto antes de Lily fechar a porta atrás de si, trancando-o do lado de dentro sem remorso.

Firmando ainda mais o aperto contra o braço de Alice, sentiu-a estremecer contra suas mãos. Achou que seria melhor estar longe daquelas masmorras fétidas antes de finalmente verifica-la, portanto a puxou, apressada, pela direção na qual fora até ali. Quando saíram no corredor de onde havia ouvido os sons, ela parou, finalmente se voltando para a garota.

— Você está bem? — Indagou e então percebeu a pergunta estúpida que havia feito. — Quero dizer, está machucada? Ele te machucou muito? Ele fez algo com você?

Alice apenas a encarou, seus grandes olhos escuros arregalados de pavor.

Sentindo a urgência tomar conta de si, Lily imaginou que a garota deveria estar em estado de choque, portanto, sem esperar por uma resposta que claramente não viria, voltou a puxá-la, escoltando-a rapidamente até chegarem na Ala Hospitalar, ainda utilizando a passagem secreta, sem querer ficar muito tempo nos corredores onde poderiam ser vistas.

Madame Pomfrey correu até elas no momento em que adentraram, puxando a corvinal das mãos de Lily e analisando-a com olhos clínicos.

— O que aconteceu com ela? — Pomfrey perguntou, voltando-se para Lily com a expressão perscrutadora antes de arregalar os olhos. — O que aconteceu com você?

— Eu... quê? — Lily começou a falar, mas então franziu o cenho, não sabendo ao que a mulher estava se referindo.

Baixando o olhar para as próprias vestes, percebeu que tinha os joelhos e mãos machucadas, assim como um dos seus sapatos que estavam cheios de arranhões. A umidade latejante em sua testa, onde havia batido contra uma classe, indicava um provável corte. O tombo provocado por Mulciber parecia ter sido mais forte do que ela havia percebido.

— Eu estou bem. — Ela disse, voltando a olhar para a mulher. — Alice precisa de cuidados. Acho que ela está em choque ou-

Mas naquele momento – como se as palavras de Lily fossem o estopim – a garota desandou a chorar e, de forma surpreendente, agarrou a manga da camisa de Lily, puxando-a com força.

— Você... não pode... não pode... por favor. — Seus olhos cravaram-se nos da monitora-chefe, fazendo-a ofegar devido a intensidade.

— Alice, o que-?

— Não conte. Eu não... posso... eu... — Mas o choro tornou todo o resto ininteligível.

Era horrível de ver. A cena toda era tenebrosa. A garota, totalmente machucada e cheia de hematomas – que haviam se tornado muito mais visíveis agora que estavam sob uma luz mais forte – chorando e soluçando copiosamente segurando-se nas vestes de Lily.

Hesitante, ela esticou as mãos para os cabelos de Alice, tentando confortá-la com um pouco de carinho, mas a garota continuava chorando e, bem, Lily nunca fora muito boa naquela coisa de confortar.

Erguendo os olhos assustados para Pomfrey, Lily pediu ajuda silenciosa, mas a mulher apenas puxou a cortina em volta da cama onde elas estavam, dizendo que iria pegar algumas poções, deixando-a sozinha com a garota chorona.

Sem saber o que fazer, Lily sentou-se ao lado de Alice, colocando o braço livre sobre os ombros dela, tentando pensar em alguma coisa que pudesse dizer para acalmá-la. Nada parecia bom o suficiente, portanto, sentindo-se completamente estúpida, começou a cantarolar uma de suas músicas favoritas de uma banda trouxa.

Era uma mania bem antiga na verdade: quando era pequena e estava se sentindo triste, sua avó, Ellen Carter, cantava músicas para ela, dizendo que aquele era o modo que os trouxas tinham de fazer mágica, pois seus versos e melodias eram capazes de transmitir qualquer sentimento, inclusive a calma ou o amor.

Muitos anos depois, Lily continuava utilizando aquela técnica, fosse para afastar pensamentos ruins, fosse para matar a saudade que sentia da casa da avó. Ficou feliz ao perceber que os soluços da garota haviam se acalmado, tornando-se apenas esporádicos.

Com a respiração ofegante, Alice murmurou:

— Obrigada.

Afastando-se levemente, Lily baixou os olhos para ela, encarando-a com preocupação.

— O que aconteceu lá? — Foram as primeiras palavras que escaparam de seus lábios e, apesar de serem nada delicadas, foi a única coisa que veio à mente de Lily.

Alice ergueu as mãos para limpar as lágrimas dos olhos, estremecendo levemente ao tocar em uma ferida dolorida em sua bochecha esquerda.

— Por que eu não posso contar? — Lily insistiu, observando a garota soltar um longo e trêmulo suspiro antes de finalmente encará-la de volta.

— Você sabia que eu e Frank começamos a namorar pouco antes do final do sexto ano? — As palavras engroladas de Alice pegaram-na de surpresa, mas Lily assentiu, sem saber exatamente o que aquilo tinha a ver com o seu questionamento. — Nós passamos ótimos momentos nas férias, sabe, ele foi para a minha casa e... bem, foi um verão e tanto. Quando voltei, pensei que as coisas seriam diferentes... só que, após sair de uma reunião com Flitwick na primeira semana, acabei me deparando com uma cena nauseante. Mais ou menos... como a que você viu hoje. — Uma lágrima solitária desceu pelo rosto da corvinal, mas ela não se moveu para limpá-la. Parecia totalmente perdida em pensamentos. — Mulciber estava tentando... bem, ele estava sendo horrível com a Mary. Eu fiquei possessa, porque eu lembrei da outra vez... — Mais lágrimas desceram pelo seu rosto. — Poucas pessoas sabem, Lily, mas eu estava com a Mary quando ela foi atacada. Eles me estuporaram, claro, mas, antes que o fizessem, eu vi a cara de Mulciber e de Avery, sem a máscara, portanto eu sempre soube o que ele havia feito. E acabei dizendo aquilo para ele, ameaçando contar para Dumbledore... o que eu não tinha feito até então porque Mary pedira para que eu não fizesse. E então ele ficou com medo, eu acho. E começou a me perseguir. Eu estava conseguindo fugir até... até hoje.

— Isso é... horrível. — Lily conseguiu dizer, embora sempre tivesse suas desconfianças sobre quem havia atacado a lufana nascida-trouxa.

— É claro que agora eu entendo ela. Sempre achei que ela ter me feito prometer... prometer não contar ao diretor era algo estúpido, mas, agora, estando na mesma situação... eu não posso. Quero dizer, se Frank souber... — Alice colocou o rosto nas mãos e, pelo movimento de seus ombros, voltara a chorar.

— Mulciber estava te coagindo, Alice? Te ameaçando? Foi por isso que ele perguntou se você me deixaria contar? — Lily insistiu, sabendo que estava sendo insensível, mas não podia simplesmente deixar para lá.

A garota assentiu.

— Frank não vai ficar bravo se souber! Quero dizer, a culpa de tudo isso não foi sua, Alice! O que quer que Mulciber tenha feito... — Mas parou de falar ao ver a garota se encolher, provavelmente horrorizada demais com as lembranças do que Mulciber havia feito. A voz de Lily amainou, tornando-se um pouco menos ríspida. — Alice, você não pode deixar que ele te intimide. Se você não contar para Dumbledore, ele vai continuar fazendo isso. Mulciber vai saber que sempre vai ficar impune. Você não vê?

— Ele ameaçou a Mary, Lily. Ele disse que, se eu não fizesse o que ele queria, iria fazer muito pior. — Seus olhos escuros cheios de lágrimas fixaram-se sobre os de Lily. — E eu me pergunto: quão pior poderia ser? Quão pior do que a última vez? Pois não vejo nada pior do que aquilo, Lily, além de morte.

Um silêncio soturno recaiu sobre elas e, mais uma vez, Lily não soube como reagir. Não saberia dizer por quanto tempo ficara ali, apenas observando a garota chorar de forma dolorosa, enquanto pensava... e não chegava a conclusão nenhuma.

Por fim, Madame Pomfrey voltou, abrindo a cortina enquanto segurava um copo cheio de uma poção amarelada e de aspecto leitoso.

— Aqui, Srta. Fawcett. Tome isso. — E entregou o copo para ela, o qual a garota tomou sem nem pestanejar. Madame Pomfrey curou alguns de seus ferimentos, colocando unguento sobre outros e então voltou-se para Lily. — Srta. Evans, deixe-me dar uma olhada nesses arranhões.

Sem esperar por uma resposta, começou a tocar e limpar os cortes de Lily. Mais rápido do que teria imaginado, exceto pelo corte na testa, no qual Pomfrey colocara um pouco de unguento e tampara com um curativo, a ruiva estava totalmente curada (até mesmo suas roupas a curandeira havia desamassado e removido as manchinhas de sangue), o que era mais do que podia dizer de Alice que parecia extremamente abatida; os olhos da garota pesavam e ela piscava com lentidão, provavelmente por conta da Poção para o Sono que havia acabado de beber.

Madame Pomfrey a empurrou contra os travesseiros, fazendo-a deitar-se.

Alice lançou um último olhar para Lily, em que dizia claramente: não conte. E então ela adormeceu.

X—X

Uma batalha muito violenta estava sendo travada na mente de Lily enquanto ela caminhava à esmo pelos corredores. Sentia-se zonza, um pouco por conta da mistura que Madame Pomfrey a havia obrigado a tomar – não tão forte quanto uma poção, mas o suficiente para diminuir as dores musculares que haviam surgido em seu corpo devido à toda aquela tensão – e outro pouco por conta dos pensamentos enervantes que povoavam sua cabeça.

Odiava não saber o que fazer diante da situação em que se encontrava.

Por um lado, ela era a monitora-chefe e, como tal, deveria ser responsável e notificar ao diretor toda e qualquer atividade anormal da qual ela tivesse conhecimento, mas, por outro, havia Alice e seu pânico diante da possibilidade de que Mulciber descobrisse que ela havia contado.

Lily lembrava muito bem de quando Mary fora encontrada. Ela e Remus estavam em mais uma ronda de monitoria e haviam decidido se separar para cobrirem o castelo mais rapidamente – ela tinha um encontro com Edgar Bones numa das festas do Slug Club, portanto não queria se atrasar. Não estava há dois corredores de distância de Remus quando ouviu o seu grito e correu até ele. Em seus braços, a garota negra e de cabelos cacheados, Mary MacDonald, se encontrava, gemendo de dor e com a roupa encharcada de sangue.

Eles correram para a Ala Hospitalar onde Madame Pomfrey praticamente os expulsara, pois precisaria tirar a roupa da garota para avaliar melhor os ferimentos e, embora Lily não tivesse visto o suficiente, sabia, pela expressão no rosto de Mary, que o que quer que houvesse acontecido com ela, fora muito pior do que todo aquele sangue que a encharcava deixava transparecer.

“E eu me pergunto: quão pior poderia ser? Quão pior do que a última vez? Pois não vejo nada pior do que aquilo, Lily, além de morte”.

As palavras de Alice reverberavam por Lily. E se a garota estivesse certa? E se ela contasse e algo ruim acontecesse com Mary? E se Mulciber decidisse se vingar? Se decidisse colocar sua ameaça em prática?

Claro, Dumbledore poderia expulsá-lo caso Alice o dedurasse, mas, e todos os outros? Não haviam sido somente Mulciber e Avery os responsáveis pela tortura de Mary, Lily tinha certeza, contudo Alice somente vira os dois, portanto, mesmo que os dedurasse, mesmo que eles fossem expulsos, de que adiantaria caso os outros decidissem se vingar?

Por Morgana, porque as coisas precisavam ser tão complicadas?, ela se perguntava. E havia pensado que teria um dia bom! Seu bom humor matutino fora para as cucuias depois de todos aqueles acontecimentos tão cedo da manhã.

Suspirando, baixou os olhos para o relógio em seu pulso – presente de sua avó – e percebeu que havia perdido os dois primeiros períodos e que faltava menos de quinze minutos para a próxima aula. Com passos rápidos, começou a se direcionar novamente para as masmorras, onde teria o período duplo de poções.

Estava na metade do caminho, quando viu Frank Longbottom e pensou em chamá-lo. O único problema era quem o estava acompanhando: James Potter conversava com o colega, parecendo muito animado naquela segunda-feira. Por alguns instantes, Lily perguntou-se o que poderia tê-lo deixado naquele estado de ânimo, mas, assim que se deu conta que, mais uma vez, estava perdendo tempo penso nele, afastou tais pensamentos.

Reunindo o máximo de coragem que podia, Lily rogou à Merlin que suas bochechas se mantivessem pálidas e que não acabasse tendo um ataque cardíaco de nervosismo enquanto apressava o passo até estar quase ao lado dos dois garotos.

— Longbottom. — Chamou.

O garoto imediatamente voltou-se para ela – assim como seu companheiro, para o qual Lily evitou olhar – parecendo surpreso ao vê-la.

— Hey, Evans. — Cumprimentou-a, levemente desconfiado. Lily estava acostumada com aquele tipo de olhar, principalmente dos grifinórios, pois normalmente só falava com eles quando estava prestes a lhes dar alguma detenção, mas não podia deixar de sentir-se um pouquinho incomodada com aquele comportamento. — O que foi?

— É a Alice. — Disse-lhe e imediatamente a expressão no rosto do garoto mudou de desconfiada para preocupada. — Ela está na Ala Hospitalar.

— Como... o que...? — Frank não parecia saber o que dizer, tendo ficado pálido ao ouvi-la.

— O que aconteceu com ela, Evans? — Potter intrometeu-se, o cenho franzido enquanto a encarava.

— Ela... — Começou a responder, mas lembrou-se que a garota não queria que Frank soubesse. Desviando o olhar de Potter, voltou a encarar Longbottom. — Ah, Frank, acho... acho melhor você perguntar para ela.

— Do que está falando? Por que você não pode me dizer o que aconteceu, Evans? — Frank a questionou, novamente desconfiado.

Lily quis gemer de frustração, odiando-se por estar sendo tão evasiva.

— Eu a encontrei... ela... ah, foi atacada. — Fixou seu olhar no de Frank, querendo que ele compreendesse o que ela não podia lhe contar. Podia ver de longe que o garoto realmente se importava com Alice e ela não gostava de saber que estava escondendo algo que com certeza era do seu interesse. — Ah, Frank, me desculpe, mas ela me pediu...

— Isso tem algo a ver com o Mulciber? — O garoto a interrompeu, seus olhos brilhando de forma perigosa ao encará-la.

— Como você-?

— Ela estava agindo estranho toda vez que ele estava por perto e ele também, sempre a observando. Quando perguntei, ela fugiu do assunto e eu não quis insistir porque ela parecia realmente nervosa sobre tudo isso e eu não quis dar uma de namorado ciumento. Pensei que pudesse ser por causa da Mary, algo que ela não gosta muito de falar..., mas se tem algo a ver com ele-

— Sim. Tem. — Lily disse e suspirou. — Frank, você precisa conversar com ela. Precisa fazê-la reagir. Eu... diga para ela que vou ficar quieta por agora, mas eu realmente acho que seria melhor se ela se impusesse ou fizesse alguma coisa.

O garoto estava prestes a perguntar sobre o que ela estava falando, mas, parecendo pensar melhor, apenas assentiu, afastando-se pela direção oposta à da sala de aula. Lily observou-o se afastar, imaginando se ele conseguiria convencer Alice ou se a garota contaria para ele o que havia acontecido.

Estava tão perdida em pensamentos que se assustou ao sentir alguém tocar em sua testa.

Erguendo os olhos, sentiu o rosto aquecer imediatamente ao perceber que James Potter estava bem à sua frente, encarando-a com seus olhos castanho-esverdeados perscrutadores.

— O que aconteceu com você? — Ele perguntou e parecia verdadeiramente preocupado. Lily sentiu o coração descompassar contra seu peito, mas conteve-se, não querendo demonstrar quão patética ela era.

— Nada. — Disse, sucinta, odiando o fato de sua voz soar fraca demais.

— Está machucada. — O garoto indicou, voltando a tocar delicadamente em seu curativo. — Como isso aconteceu? — E desceu a mão, de forma involuntária, acariciando levemente o espaço entre a têmpora e a mandíbula de Lily.

— Ah... — Ela foi poupada de responder por conta da chegada esfuziante de outro grifinório.

— James. — Sirius Black chamou, no que Potter se voltou para ele, levemente corado, retribuindo o cumprimento. — Evans. — O garoto voltou-se para ela, seco, encarando-a com uma sobrancelha arqueada. Lily sentiu, se era possível, o rosto esquentar ainda mais ao retribuir o seu olhar.

— Oh! — Foi a coisa mais inteligente que ela conseguiu pronunciar ao dar-se conta que havia esquecido completamente o encontro que havia marcado na madrugada anterior com ele. — Black, eu-

— Vamos nos atrasar para a aula. — Ele a interrompeu, ainda em seu tom de voz frio. Dando um empurrão no ombro de Potter, Sirius seguiu junto deste para a sala de aula, deixando uma Lily totalmente mortificada para trás.

Sentindo-se como se houvesse acabado de levar um fora – o que era mais ou menos o que havia acontecido – Lily demorou alguns instantes até conseguir reagir, forçando as suas pernas a moverem-se em direção à sala.

Ao chegar lá, precisou de todo autocontrole do mundo para não acabar xingando alto: havia esquecido por completo que, até a semana anterior, Snape havia sido sua dupla naquela disciplina.

O garoto estava sentado em seu lugar de sempre, numa das primeiras classes no meio da sala. Ele ergueu os olhos para ela, sua expressão ilegível enquanto a esperava se aproximar. Só que Lily não se aproximou, pelo contrário: ignorando-o completamente, ela aproveitou o fato de que não haviam muitos setimanistas matriculados naquela disciplina, o que acabava deixando muitos lugares desocupados, e caminhou até a última classe no canto direito, atirando sua mochila abaixo da mesa e sentando-se na cadeira junto à parede.

Sempre havia odiado sentar no fundo da sala, pois pensava estar perdendo conteúdo, contudo, preferia milhares de vezes aquilo a ter de dividir a classe com ele. E, bem, ela era boa o suficiente em poções para não ter de se preocupar com o rendimento em sala por conta de algo tão trivial quanto o lugar em que escolhera sentar.

Entrementes Lily organizava seus materiais sobre sua nova classe, Peter Pettigrew adentrava a sala de aula, sentindo o olhar de vários colegas – mais especificamente três deles – recair sobre si.

Ignorando-os de forma deliberada, Peter encaminhou-se até estar em frente a Snape que não tinha a melhor das expressões. Mas, bem, não era como se Snape tivesse alguma boa expressão, portanto não se importou. Lançando um “abaffiato” não-verbal em volta deles, aproveitando a agitação da sala enquanto o professor não chegava, Peter o encarou.

— O que está fazendo? — O sonserino indagou. — As pessoas estão olhando, Pettigrew.

— As pessoas estão olhando há tempos, Snape. Estou pouco ligando para elas. — Pettigrew deu de ombros. — Avery pediu que eu te chamasse. Aconteceu alguma coisa com o Mulciber. Eles vão aproveitar o horário de aula para fazerem uma reunião na sala comunal da Sonserina e querem você lá. — E, terminando de dizer aquilo, retirou o feitiço, desviando-se de Remus Lupin antes de sair, sentindo um leve aperto no estômago ao pensar no que aconteceria com aquele garoto na próxima sexta-feira.

Não que se importasse.

Mais ao fundo na sala, James observava Snape juntar os materiais com um aceno da varinha, erguendo-se e saindo de forma apressada da sala de aula.

— Eles estão tramando alguma coisa. — Ele disse, irritado por não poder fazer nada, antes de jogar a mochila no chão e atirar-se contra a mesma cadeira de sempre.

— Bem, isso nós já sabemos. — Remus, que havia ouvido o relatório da investigação noturna dos dois amigos na noite anterior, comentou.

— Pettigrew nem disfarça mais! — Sirius estava possesso, olhando para a porta por onde o ex amigo havia saído como se não conseguisse acreditar em sua audácia. — Ele nem faz essa classe de Poções e tem a ousadia de vir aqui, chamar o Snape e sair como se fosse algo normal.

— Bem, Sirius, creio que é algo normal. Pelo menos agora ele não está atuando. Está agindo apenas como o rato asqueroso que é. — James praticamente cuspiu e então passou as mãos pelos cabelos. — Eu só queria saber que diabos eles estão tramando. Grande parte das coisas que ouvimos ontem não fazem sentido! É como ser um cego em um clube de duelos! Argh! — Bufou, irritado.

— É... — Sirius concordou e então voltou seu olhar para a última classe à direita, observando a garota que organizava seus pertences de forma metódica. — Prongs, o Moony vai ter de ser o seu parceiro hoje. — Disse ao amigo, fazendo com que James franzisse o cenho enquanto o observava se erguer e pegar sua mochila.

— O que-?

— Vou sentar com a Evans. — E, sem dizer mais nada, ignorando deliberadamente a expressão de James, afastou-se, encaminhando-se a passos largos até estar em frente à cadeira vazia logo ao lado da garota.

Erguendo os olhos para ele, o rosto de Evans toldou-se de confusão.

— O que-? — Ela começou a perguntar, exatamente como James havia feito, mas ele também a interrompeu.

— Normalmente não dou uma segunda chance para quem fura um encontro comigo, Evans, portanto sinta-se honrada. — E, dizendo aquilo, sentou-se na cadeira vazia, abrindo a mochila e começando a retirar seus materiais lá de dentro. — Aliás, Evans, o que houve com a sua testa?

— Não é da sua conta, Black. — Lily resmungou, irritada com a volubilidade do garoto. Não conseguia acompanhar aquela troca repentina de humor de Sirius Black. Não fazia o menor sentido para ela. Nada daquela interação fazia sentido para ela.

Sirius estava prestes a retrucar com algo que certamente o faria levar uma detenção, porém, naquele instante, Horace Slughorn adentrou na sala de aula, sorridente, acompanhado de Petunia Evans.

Sirius pôde perceber Lily retesar-se em seu lugar, o que fez com que ele próprio se retesasse. Xingando-se por tal comportamento infundado, voltou a prestar atenção ao professor, forçando-se a relaxar.

— Bom dia, classe. — O professor cumprimentou-os, simpático. Seus olhos passearam pela sala e Sirius pôde perceber a confusão se alastrar por sua face ao deparar-se com Lily Evans sentada ao lado dele, o que era exatamente a mesma expressão que permeava o rosto de noventa por cento dos alunos com quem dividiam a sala. Limpando a garganta, Slughorn prosseguiu: — Ora, muito bem. Hoje estamos recebendo uma aluna nova. Deem as boas-vindas à Petunia Evans, aluna transferida de Beauxbatons.

Houve um murmúrio pela sala enquanto todos davam às boas-vindas à garota, que agradeceu, e direcionou-se até o local vago ao lado de Izoraiah Antunes. Lily percebeu quando a irmã indagou “onde está Alice?” e Izoraiah apenas negou com a cabeça, indicando que não fazia ideia.

— Há algum motivo para a sala estar tão vazia hoje? — Slughorn perguntou para a turma, percebendo que havia mais lugares vagos do que o habitual.

— É o Mulciber, professor. Anthony se machucou hoje mais cedo. Creio que foram visitá-lo. — Narcissa Black quem respondeu.

Sirius notou que o lugar ao seu lado, onde Bellatrix normalmente sentava, estava vago, assim como vários outros lugares que, percebeu tardiamente, eram ocupados por colegas da sonserina. E, a menos que estivesse muito enganado, todos eles faziam parte da seita de adoradores de você-sabe-quem.

Na cadeira ao seu lado, Evans pareceu se encolher diante da menção à Mulciber. James, que ainda estava muito confuso sobre a escolha de cadeiras de Sirius, virou-se para olhar para a monitora-chefe, encarando-a com a expressão toldada de indagação após ouvir Narcissa falar que Mulciber estava machucado sendo que, pouco mais cedo, a ruiva dissera que ele atacara Alice.

Lily apenas retribuiu o olhar, sentindo o rosto enrubescer enquanto xingava-se mentalmente. Por Merlin, como pudera esquecer do garoto? Havia deixado Mulciber amarrado em uma masmorra e nem lhe ocorrera voltar até lá para verificá-lo! Será que estava muito machucado? Será que algum trasgo o havia encontrado?

Não que a ideia fosse de todo ruim, muito pelo contrário, entretanto tudo o que ela não precisava naquele momento era ter de lidar com um aspirante a comensal enraivecido – mesmo que, pensou, fosse inevitável.

E se ele decidisse denunciá-la? E se ele prestasse queixa à Dumbledore? Então Lily seria obrigada a contar o que havia acontecido para que ela o enfeitiçasse, o que era exatamente o que Alice não queria.

Sem perceber, deixou escapar um gemido alto demais, que fez com que Sirius arqueasse uma sobrancelha para ela, indagativo.

— Algum problema, Evans?

— Todos os problemas do mundo, Black. Todos eles. — Lily resmungou, mais mal-humorada do que gostaria.

Parecendo surpreso com o tom de voz da garota, Sirius foi impedido de perguntar o que estava acontecendo por conta da entrada de duas grifinórias na sala de aula. Marlene McKinnon e Dorcas Meadowes estavam ofegantes enquanto balbuciavam desculpas pelo atraso ao professor que as dispensou para suas classes com um aceno.

— Fico contente em saber que decidiram aparecer para minha aula, senhoritas. — Slughorn alfinetou-as, fazendo com que Dorcas corasse e Marlene rolasse os olhos. — Ora, muito bem. Durante as duas primeiras semanas de aula nós trabalhamos sobre a parte teórica do preparo da Amortentia. Agora chegou a hora de pormos em prática nossos conhecimentos. — O professor sorriu para a turma, como se estivesse dando a melhor notícia do ano. Para algumas garotas suspirantes, talvez fosse. — Entretanto, como sabem, o apresto desta poção é bastante complicado e leva cerca de três meses para ser concluído, portanto, levando isto em consideração, vocês e seus pares trabalharão neste projeto juntos até finalizarem o preparo. Não será permitida a troca de pares, assim como a desistência poderá acarretar em uma média não muito satisfatória para quem pretende ter uma carreira brilhante após sair da escola, independente de irem bem nos N.I.E.M.s.

— Desculpe, professor, mas quem serão... quem serão nossos pares? — Foi Evans quem perguntou, parecendo nervosa.

— Boa pergunta, Srta. Evans. Normalmente faço sorteio, mas como metade da minha turma decidiu não comparecer, seus pares serão a dupla com quem estão sentados neste momento. No seu caso, o Sr. Black. — E disse aquilo com um olhar cobiçoso, como se o fato de serem uma dupla fosse algo que sempre desejara.

— Mas- — Lily começou a protestar, mas Sirius deslizou um bilhete pelo tampo da mesa naquele momento, fazendo-a calar-se.

Você me deve uma, lembra?”

Bufando audivelmente, ela puxou a própria pena, rabiscando logo abaixo:

“E você acha que serei capaz de te aturar por três meses?”

“Quando esse tempo acabar, você vai implorar por mais”

Quando terminou de ler, Lily amassou o pergaminho, irritada. Sirius, por outro lado, parecia estar tendo dificuldade em conter um acesso de riso.

Marlene e Dorcas, que estavam há uma classe de distância de Lily, lançaram para ela um olhar de apoio, como se soubessem que ela havia acabado de entrar em uma fria. Lily acenou para elas, cumprimentando-as com um pequeno sorriso. Elas sorriram de volta e Dorcas murmurou “nos vemos no almoço?”, no que Lily respondeu com um aceno afirmativo de cabeça, mesmo que não soubesse como aquilo seria possível, afinal eram de casas diferentes e sentavam em mesas diferentes para as refeições.

Slughorn começou a explicar-lhes o que deveriam fazer e, assim que as instruções estavam no quadro – Lily tendo utilizado um feitiço muitíssimo útil para copiar as palavras para o próprio caderno – a aula encheu-se do som de caldeirões sendo empurrados contra tampos de mesa e frascos de ingredientes retinindo.

Sirius aproveitou aquele momento para lançar um abaffiato em volta deles, finalmente perguntando o que estivera o corroendo por toda a noite e início da manhã.

— O que você ouviu lá? — Indagou, direto deste jeito, fazendo-a soltar um longo suspiro.

— Tem certeza de que ninguém vai ouvir? — Lily indagou sem nem mesmo erguer os olhos dos ingredientes que separava.

— Está duvidando de minhas capacidades mágicas, Evans? — Sirius bufou, fazendo-a finalmente encará-lo, sua expressão muito mais séria do que antes.

— Estou perguntando isso, Black, pois esse assunto é delicado e envolve o seu amigo lupino e, por conta disso, não sei se você gostaria de falar sobre ele no meio da sala de aula.

Sirius ficou vários instantes encarando-a, boquiaberto. Sabia que não deveria estar tão chocado, mas a aparência calma da garota ao falar sobre aquilo era simplesmente desconcertante.

— Então você sabe. — Sirius finalmente conseguiu dizer, aceitando a pele de araramboia que ela lhe passava e começando a picá-la.

— Sempre tive minhas desconfianças. — Lily assentiu. — E sendo amiga de quem eu era... — Deu de ombros, sem concluir, mas Sirius entendeu o que ela queria dizer, afinal Snape sempre desconfiara da condição de Remus e, depois do quinto ano, quando ele... bem, quando Sirius fizera uma de suas imprudências, suas suspeitas apenas foram confirmadas.

— Mas isso não parece te incomodar. — Ele prosseguiu, olhando-a de soslaio enquanto a garota terminava de cortar as raízes de valeriana.

— E porque deveria? — Ela retrucou, erguendo os olhos muito verdes para ele. — Como eu poderia culpar ou julgar alguém por algo que foi imposto à essa pessoa? Se ela não escolheu ser isso? Eu seria um monstro muito pior do que ela é uma única noite por mês caso colocasse essa característica acima de todo o resto. Não, eu prefiro julgar as pessoas pelo caráter, afinal, se eu começar a odiar alguém pelo fato de ser mestiço ou o que for, quão melhor do que Voldemort eu seria? O mundo já é hipócrita o suficiente sem que eu comece a contribuir.

Mais uma vez, Sirius ficou sem palavras, tanto pelo fato de ela ter utilizado o nome do bruxo das trevas quanto por seu discurso. A garota voltou a atenção para as raízes de valeriana, medindo-as antes de começar a colocá-las dentro do caldeirão.

— Você terminou com a pele de araramboia? — Ela indagou.

Sirius assentiu e, erguendo a tábua onde havia picado a pele, emborcou-a sobre o cadeirão de forma lenta, exatamente como sugeriam as anotações.

— É melhor se você despejar tudo de uma vez. — Lily disse para ele.

— Mas nas instruções-

— Eu sei o que diz nas instruções, Black, mas é melhor se for tudo de uma vez. Assim a valeriana se dissolve junto e não forma o grude embaixo, entende? — Ela resmungou, autoritária, e Sirius fez o que ela disse.

Como se para comprovar as palavras da garota, a poção imediatamente começou a borbulhar. O sulco das raízes de valeriana se misturaram com a pele de araramboia, formando uma mistura borbulhante quase cristalina.

Arqueando uma sobrancelha, sem deixar de se surpreender, Sirius encarou-a.

— Agora eu entendi porque o Slughorn gosta tanto de você, Evans. — Disse e então sorriu, irônico. — Engraçado que a monitora-chefe certinha não siga as regras quando o assunto envolve poções.

Lily rolou os olhos para ele, mas não pôde evitar um sorrisinho de escapar de seus lábios.

Um pouco mais à frente, James tinha os olhos estreitos, observando o casal na última classe à direita com desconfiança.

— Que diabo Sirius está fazendo? — Resmungou, irritado, jogando suas raízes para dentro do caldeirão com força.

Remus, que parecia tão curioso quanto ele, embora muito mais controlado, respondeu:

— Talvez ele ache que a Evans possa saber alguma coisa sobre o comportamento dos comensais.

— E por que ela diria algo a ele caso soubesse? — James retrucou, mais rude do que seria necessário. — E por que eles estão sorrindo?

Virando-se para ver ao que James se referia, Remus deparou-se com uma das cenas mais estranhas que presenciara em toda sua vida – e, levando em consideração o que ele era, aquilo significava muito estranho mesmo. Em meio à névoa que as poções produziam, Remus pôde ver, com um pouco de esforço, que Sirius e Lily conversavam e sorriam um para o outro enquanto trabalhavam em conjunto, dividindo tarefas. Remus tentou forçar a audição – que, devido à sua parte lupina, era mais apurada que a das pessoas normais – contudo não ouviu nada daquela direção, exceto um zumbido estranho.

Franzindo o cenho, achou que sabia o que estava produzindo aquele ruído, entretanto preferiu não comentar com James. O que o amigo pensaria se soubesse que havia um feitiço abafador em volta de Sirius e Lily?

Não. Remus conversaria com Sirius mais tarde e tentaria descobrir o que estava acontecendo. Somente depois disso se posicionaria e decidiria como reagir àquela cena totalmente surreal que o grifinório e a sonserina estavam protagonizando.

— Merlin, eu vou matar o Padfoot. — James rosnou quando percebeu que sua poção estava completamente inutilizada por ter cozinhado a fogo muito alto. — Evanesco. — Resmungou, limpando o conteúdo e preparando-se para recomeçar.

Enquanto Remus e James trabalhavam, Sirius e Lily já haviam terminado a tarefa do dia e somente observavam a poção com cuidado, tomando notas sobre o comportamento e a aparência enquanto esta borbulhava a fogo lento.

— Eu deveria sentar mais vezes com você, Evans. Minhas notas melhorariam muito. — Sirius comentou com leveza.

— Fala sério, Black. Você não pode melhorar um O. — Ela rolou os olhos para a falsa modéstia do garoto. Todos sabiam que ele era um dos melhores alunos da escola, assim como o seu melhor amigo, James Potter.

— Na verdade, eu tenho apenas um Excede Expectativas em Poções. Acho que, se me esforçar um pouquinho, posso conseguir um Ótimo. — E piscou para ela, fazendo-a bufar. Respirando fundo e lançando um olhar rápido para os outros colegas, Sirius agradeceu à névoa fumarenta que se tornava mais espessa a cada minuto, tornando difícil de se enxergar muito longe. Voltou-se para a garota e, baixando a voz, disse: — Certo, me conte o que você ouviu.

Com o tom de voz tão baixo quanto o dele, Evans começou a explicar que, no momento em que adentrara – logo atrás de Alecto e Quirrell – Roockwood havia começado a falar sobre Lucius Malfoy, o namorado de Narcissa Black, sua prima, e que ele colaboraria com o plano deles, guarnecendo-os com alguma coisa que, infelizmente, nenhum deles explicou o que era, exceto que era extremamente perigosa. Seguido disso, Evans dissera que Snape já havia falado com Pettigrew sobre o plano e que tudo estava pronto.

— Foi quando Karkaroff se preocupou a respeito da — ela apenas moveu os lábios para indicar “Lua Cheia” e Sirius assentiu, indicando que havia compreendido — e Avery disse que Lucius estava ciente, mas que Narcissa se recusava a colaborar.

— Eu ouvi isso, só não entendi o que significava. — Sirius murmurou com o cenho franzido.

Lily encarou-o, receio toldando seus olhos.

— Ah, Black... ele estava falando sobre alguém ir até... o Salgueiro Lutador para soltar... — Ela não completou, mas Sirius compreendeu perfeitamente. Seus punhos cerraram sobre a mesa, a totalidade da situação recaindo sobre ele. Com a voz tremida devido à raiva, ele pediu:

— Continue, Evans.

— Eu não sei o que eles pretendem fazer, Black, não exatamente. Quirrell vai usar alguma distração, de modo que ninguém perceba que eles saíram do castelo e... o que quer que planejem para a próxima sexta-feira, eles querem cobrir seus rastros usando o Remus.

— Eu vou matá-los! — A voz de Sirius saiu um pouco mais alta do que deveria, o que fez com que Lily erguesse os olhos, temerosa, para a sala. Ficou aliviada ao perceber que ninguém pareceu notar e que o feitiço continuava funcionando.

— Shiu, Black. — Lily resmungou para ele, encarando-o de forma severa. — Eu também estou furiosa. Sei que não se compara, afinal o Remus é seu melhor amigo, mas ficar com toda essa raiva só vai levar à imprudência. E não podemos ser imprudentes.

— Não podemos? Você está planejando intervir também, Evans? — Sirius arqueou uma sobrancelha para ela, indagativo.

— Você acha que contei tudo isso por quê, Black? Eu preciso de ajuda. — Lily retrucou, séria.

Eles se encararam pelo que pareceu ser um longo tempo até que, por fim, Sirius assentiu.

— Temos um acordo.

— Okay. — Lily suspirou, aliviada. Pensar que não teria de fazer tudo sozinha lhe deixava um pouco menos ansiosa. — Só... não conte para o Potter. — Adicionou rapidamente, não querendo perder a coragem.

Sirius fitou-a sem compreender.

— Ele vai querer ajudar, Evans. Ele precisa ajudar. Não posso esconder algo assim dele. Remus é nossa responsabilidade, é nosso irmão. Simplesmente não posso.

Lily, que ficara surpresa com a intensidade repentina do garoto, suspirou.

— Certo... — Murmurou, sentindo o rosto esquentar. — Apenas não conte sobre minha escapada noturna, tudo bem? Nem sobre a capa-

— Eu já disse que não iria contar, ruiva. — Sirius disse, fazendo-a corar ainda mais com o apelido. Sorrindo para a reação dela, acrescentou: — Não se preocupe, vou dizer que você sabe tudo isso porque vive em um antro de cobras e, infortunadamente, também é uma delas. Não tão venenosa, é claro, mas ainda assim uma delas.

— Fico tocada com a sua sensibilidade, Black. — Lily resmungou.

— Sou praticamente um cavalheiro.

— É claro que é.

— Vamos lá, Evans, não seja tão carrancuda. — Ele piscou, galante. — Você sabe que gosta de mim.

Soltando uma risadinha debochada, Lily retrucou:

— Oh, mas é claro. E quem não gosta?

Exatamente, Evans. Você aprende rápido. Boa menina.

— Argh! Você é impossível! — Lily reclamou, o semblante levemente irritado, contudo ela não estava brava. Não realmente, pois, por mais que se recusasse a admitir em voz alta, Sirius Black tinha razão: ela estava começando a gostar dele.

X—X

— Você deveria ir para a Ala Hospitalar. — Roockwood resmungou, observando o amigo de vestes amassadas e manchadas de sangue que estava sentado em uma das camas do dormitório masculino. — Parece que apanhou para o salgueiro lutador.

— Que vergonha, Mulciber! Levar a pior para a Evans! — Bellatrix falou o nome da monitora-chefe com desprezo, como se ela não fosse digna de ser pronunciada. — Francamente, eu pensei que você fosse melhor do que isso.

— Ela me pegou desprevenido, Bella. — Mulciber retrucou, mas seus punhos estavam cerrados e sua face estava avermelhada de constrangimento e raiva.

— Pensei que ninguém mais utilizasse aquelas passagens! Como ela poderia saber sobre elas? — Avery indagou, tão furioso quanto Mulciber ao descobrir que Evans sabia sobre as masmorras subterrâneas.

Snape, que estava apoiado contra o dossel da própria cama, remexeu-se, inquieto, mas ninguém pareceu notar. Ele lembrava perfeitamente bem daquele dia, anos atrás, quando havia seguido James Potter para dentro de uma parede falsa perto da sala comunal da Sonserina, a qual, descobrira um pouco mais tarde em uma excursão desafortunada com Lily, levava para as masmorras subterrâneas onde trasgos e outras criaturas malignas viviam.

— Não fique tão irritado, Avery, vocês não são os únicos que sabem sobre as passagens secretas do castelo. — Pettigrew, que havia recebido a honra de ser convidado para a sala comunal da Sonserina, rolou os olhos para os garotos. — Potter, Black e Lupin conhecem esse castelo tão bem ou melhor do que vocês. — E Snape irritou-se ao perceber um pequeno brilho de orgulho que foi oculto rapidamente nos olhos do garoto.

— É, Mulciber, você foi imprudente, cara. No que estava pensando? — Foi Karkaroff quem indagou, soturno.

— Eu estava pensando, Igor, que a Fawcett sabe sobre o que fizemos com a MacDonald. Queria apenas eliminar o perigo iminente. — Mulciber praticamente cuspiu as palavras.

— E passou pela sua cabeça utilizar o feitiço da memória nela? Ou você pretendia coagi-la e chantageá-la de formas menos honradas, Mulciber? — Bellatrix retrucou, encarando-o com seus olhos escuros e cheios de tédio. — Eu entendo você querer se divertir, mas deveria ter sido um pouco menos estúpido!

— Evans pode ter ido direto ao Dumbledore! Se Fawcett contou para ela-

— Ela não contou. — Mulciber interrompeu a fala de Rosier. — Fawcett não deixaria ela contar. Eu fiz questão de avisar a ela o que aconteceria com a amiguinha sangue-ruim caso ela deixasse isso escapar.

— Mas você conhece a Evans, imbecil! Aquela garota é certinha demais, justa demais. Adora defender os fracos e oprimidos! Céus, Mulciber, olha a merda em que você nos meteu! — Bellatrix se exaltou. — Eu deveria torturá-lo por colocar em risco os planos do Lorde!

— Ora, sua- — Mulciber começou a vasculhar os bolsos em busca de sua varinha, xingando alto quando lembrou-se de que Evans a havia quebrado. Avery, que sabia que o amigo não teria chances contra Bellatrix, voltou-se para Snape.

— Você precisa falar com a Evans, Snape. Precisa convencê-la a não falar nada. Se ela abrir a boca, se isso sair do controle, seremos obrigados a utilizá-la na sexta-feira. — O tom de Avery era final, indicando que ele não toleraria qualquer resposta além do sim.

Bellatrix parecia deliciada diante da ideia de armar para Evans. Snape tinha os olhos sobre ela, a garota que tanto detestava e que conhecia bem o suficiente para saber que ela seria capaz de fazer qualquer coisa contra Lily caso tivesse chance, quando concordou.

— Eu vou falar com ela.

— Você vai convencê-la.

— Sim, eu vou. — Snape disse, soando muito mais convincente do que se sentia. A verdade era que nunca havia sido capaz de convencer Lily de qualquer coisa: o término da amizade era uma prova daquilo. Entretanto, daquela vez, a garota estava correndo riscos altos demais. Ele não poderia se dar ao luxo de não a convencer.

Não daquela vez.

Notas finais
Tem tanto leitor acompanhando, tantas visualizações... sei que a volta as aulas torna difícil de comentar e aparecer por aqui, mas, se puderem, por favor, me contem o que estão achando, sim? Me motivo muito quando tenho feedback, sem falar que estou amando poder respondê-los e interagir mais com vocês ♥ Será um prazer imenso vê-los por aqui e saber suas opiniões e teorias! Twitter: @wolfistar | Facebook: https://www.facebook.com/groups/millerfics/ Beijinhos e até breve ♥ PS: estava assistindo bem na hora, portanto: AFEOH GANHOU O OSCAR! Sei lá, só queria compartilhar minha felicidade ♥