S L Y T H E R I N

9 VIII - Antecipação.


Notas iniciais
VOCÊS NÃO SABEM O PRAZER QUE É ESTAR DE VOLTA! NÃO, ISSO NÃO É TREINAMENTO! REPITO, ISSO NÃO É TREINAMENTO! HÁ MESMO UM CAPÍTULO NOVO AQUI, EU REALMENTE POSTEI DEPOIS DE QUASE UM ANO E MEIO, ISSO NÃO É UMA ILUSÃO DE ÓTICA! Eu sei deveria estar envergonhada de aparecer aqui depois de tanto tempo, mas, honestamente, tanta coisa aconteceu nesse tempo que fiquei longe das att's de sly, tanta coisa mudou na minha vida, tantas foram as vezes que escrevia um capítulo quase inteiro e o apagava por não estar satisfeita com o que tinha produzido que, agora mesmo, estar aqui, conta como uma vitória. Eu poderia fazer um texto quilométrico com mais de cem desculpas diferentes e verdadeiras com motivos muito plausíveis de porquê eu demorei tanto tempo para atualizar uma fanfic que, teoricamente, está "escrita", entretanto, eu não vou fazer isso porque pela primeira vez em muito tempo estou feliz com algo que escrevi para SLY, pois, antes de mais nada, sempre fui crente de que meus leitores merecem o meu melhor, então eu espero, de coração, que os guerreiros que continuam firmes e fortes me acompanhando, também gostem deste capítulo que, assim como o título diz, é uma antecipação aos acontecimentos catastróficos que em breve estão por vir, rsrs Queria dedicar este capítulo, junto com todo o meu amor e gratidão, às pessoas lindas que recomendaram a fanfic e que fizeram meus dias - que não foram muito fáceis - milhares de vezes mais coloridos e felizes ♥ São elas: Miss Solo, Ero Hime, Prongsnitch e black! ♥ AMO VOCÊS, POCS! VOCÊS SÃO MARAVILHOSAS! OBRIGADA ♥ —-------------------------------------------- PS: cada capítulo contém sua "playlist" e eu vou deixar as músicas linkadas no decorrer do texto, então para quem quiser ouvir enquanto lê, cliquem nos "•", ok? Músicas do capítulo: • Panic! At The Disco - This is Gospel: https://youtu.be/tGE381tbQa8 • Shawn Mendes - In My Blood: https://youtu.be/36tggrpRoTI • Paramore - Ignorance: https://youtu.be/OH9A6tn_P6g • Shawn Mendes - Nervous: https://youtu.be/DGzy8FE1Rhk • Paramore - Monster: https://youtu.be/PoTEnaAI9Fo Ah, e para quem quiser o link da playlist completa (com as músicas sendo adicionadas no decorrer da fanfic), aqui está o link do spotify: https://goo.gl/sLVvgL —------------------------- Espero que gostem, amores! ♥

CAPÍTULO VIII

Antecipação (ou sobre imprevistos e impulsividade)

[SEGUNDA-FEIRA – 19 DE SETEMBRO, 1977]

— Que diabos está acontecendo, Padfoot? — Remus indagou assim que Sirius adentrou o dormitório.

— Quê? — Sirius arqueou uma sobrancelha antes de desfazer o nó da gravata e se atirar sobre a própria cama, afundando nos travesseiros de forma despreocupada. — Do que está falando?

— Do que eu estou falando? Oh, sim, deixe eu refrescar sua memória: você e a Evans na aula de Poções? — Remus estreitou os olhos para o amigo, esperando por sua resposta que veio em forma de suspiro entediado. — Padfoot! O que você pensa que está fazendo? Você está ficando louco? Porque se está pretendendo conquistar a Evans ou-

— Pelo amor de Merlin, Moony, que merda? Que merda, cara? — Sirius ergueu-se em seus cotovelos, fixando os olhos cinzentos sobre o amigo, o cenho franzido em uma expressão de desgosto. — Você sabe que eu nunca tentaria nada com a garota dos sonhos de um dos meus melhores amigos. — Ele disse aquilo em um tom mais baixo, olhando para os lados como se estivesse com medo de que alguém pudesse ouvir.

Ao ouvi-lo, Remus sentiu a tensão dos ombros diminuir em alívio.

— James ainda está na detenção com a McGonagall, não se preocupe, ele não está aqui para ouvir que todos sabem sobre o interesse dele pela Evans. — Ele disse, percebendo Sirius acalmar. — De qualquer forma, fico feliz em saber que não está tentando nada com ela-

— Por favor, Moony, ela não é o meu tipo, obrigado. — Sirius fingiu um estremecimento, recebendo um rolar de olhos do amigo em resposta.

— Eu pensei que o seu tipo fosse qualquer um que respirasse.

— Oh, Remie, você sabe que isso não é verdade. Você é o único para mim. — O moreno piscou exageradamente para Remus, erguendo as mãos para o próprio peito.

— Eu sempre desconfiei que vocês estivessem juntos mesmo. — Frank, que acabara de sair do banho e se deparara com a declaração de Sirius, sorriu para os dois, divertido.

— Oh, foda-se! — Remus bufou para ele, lançando um travesseiro em sua direção antes de voltar-se para Sirius. — E você ainda não explicou o que diabos estava fazendo sentando com a Evans, Sirius.

— O quê? — Frank parou em meio caminho de se abaixar para recuperar o travesseiro e ergueu os olhos para os dois parecendo atordoado. — Sirius e a Evans? Sério?

— Não foi nada. — Sirius resmungou, lançando um olhar cortante para os dois. — Eu tinha assuntos pendentes com ela sobre minha detenção e acabamos dando a sorte de sermos colocados como par para o trabalho de poções. — Deu de ombros. — E, bem, ela não é tão ruim.

Ao dizer aquelas palavras, Sirius recebeu um olhar incrédulo tanto de Remus quanto de Frank que rapidamente voltaram-se um para o outro como se não pudessem acreditar.

— Você ouviu isso, Frank? — Remus perguntou de forma dramática.

— Eu acho que sim, Remus. — Frank assentiu, tão dramático quanto o outro. — Seria este o primeiro sinal do fim do mundo se aproximando?

— Oh, eu não tenho dúvidas. — Remus assentiu solenemente.

— Vão à merda. — Sirius rolou os olhos e voltou a se atirar contra os travesseiros, deixando-se descansar. — Parem de ser dramáticos.

— Desculpe-me, Padfoot, mas não é drama se estou surpreso porque você sentou e conversou normalmente com a Evans durante dois períodos inteiros de Poções e, logo em seguida, sentou-se junto a ela para o almoço.

— Ele o quê? — Frank estava boquiaberto.

— Estou tão chocado quanto você. — Remus disse, meneando a cabeça em confirmação.

— Mas como assim sentou para almoçar com a Evans? — Frank indagou. — Quero dizer, eles são de casas diferentes, então-

— Aparentemente Marlene e Dorcas também viraram amigas da Lily, então praticamente arrastaram a garota para a mesa da Grifinória e Sirius decidiu que seria uma boa ideia se sentasse junto a elas também. — Remus respondeu, observando atentamente as reações de Sirius que eram amenas demais para o seu gosto.

— E quanto ao James? O que ele acha disso tudo? — Frank caminhou até o próprio malão, caçando suas vestes antes de começar a se secar.

— James não estava no almoço, mas do que viu na aula de poções... bem, ele parece estar enlouquecendo. — Remus disse, percebendo Sirius perder toda sua postura descontraída. — O que você vai dizer para ele, Sirius?

— A verdade. — Sirius disse, embora não parecesse muito convencido.

— A verdade que é...?

— Nada que te interesse, Moony. Será que você poderia encerrar o interrogatório? Eu estou realmente cansado e gostaria de dormir. — Sirius interrompeu o amigo, fechando os olhos firmemente num claro ponto final de conversa.

— Certo. — Remus suspirou, sabendo que não conseguiria arrancar mais nada de Sirius naquele momento, embora aquele assunto estivesse longe de ser encerrado.

Frank parecia concordar com ele, pois, ao sentar-se na própria cama para abotoar as botas, continuou:

— Vocês sabem, eu nunca tive uma opinião formada sobre a Evans, mas hoje ela superou qualquer expectativa que eu possuía.

— Do que está falando? — Remus perguntou, voltando-se para o garoto. Sirius continuava de olhos fechados, embora ouvisse atentamente. — Aliás, onde você esteve? Não te vi em nenhuma aula.

Frank soltou um longo suspiro, cerrando os punhos ao lembrar do porquê de ter se ausentado o dia inteiro dos assuntos escolares.

— Alice foi atacada pelo Mulciber, mas Evans conseguiu encontrá-los e a salvou. — A voz de Frank tremia de raiva ao pensar no que faria no momento em que aquele sonserino aparecesse em sua frente.

— O quê? — Foi Sirius quem perguntou, voltando a abrir os olhos e erguer-se dos travesseiros. — Do que está falando?

— Sim, do quê? — Remus indagou e franziu o cenho. — Na verdade, agora que parei para pensar, nem Mulciber ou os amigos dele estavam em qualquer aula hoje.

Sirius estreitou os olhos ao dar-se conta de que também não vira qualquer um deles. A imagem de Peter adentrando a sala de Poções para chamar Snape pipocou em sua mente, fazendo-o sentir-se ainda mais amedrontado sobre o que eles poderiam estar tramando ou se possuía alguma conexão com o sumiço de Frank das aulas.

— Eu não posso contar o que aconteceu exatamente, porque isso é um segredo da Alice, porém- — Frank estremeceu, fechando os olhos com firmeza enquanto tentava não estourar nada magicamente por conta da irritação. — Evans o encontrou fazendo algo realmente ruim e... bem, ela deu uma surra nele. Imagino que foi por isso que os amigos dele também não estavam nas aulas e-

— Evans fez o quê? — Sirius o interrompeu, a voz surpreendente alta ressoando pelo aposento.

— Alice... ela me contou que a Evans a ajudou. — Frank mastigou os lábios como se estivesse pensando em suas próximas palavras e então sorriu levemente, satisfação exalando de sua expressão. — Evans deu uma surra no Mulciber. E quebrou sua varinha.

Silêncio recaiu sobre os três: Frank, satisfeito pelo pouco de vingança que Evans havia proporcionado (embora não o suficiente), Remus, confuso e sem compreender como tudo aquilo acontecera e Sirius, olhos estreitos enquanto milhares de suposições vagavam em sua mente diante dos novos acontecimentos.

— Elas contaram para o Dumbledore sobre o que aconteceu? — Remus quebrou o silêncio por fim, o cenho franzido em confusão.

— Não, ainda não. — Frank negou.

Ainda? — Sirius repetiu, rapidamente voltando-se para Remus, encarando-o com a preocupação toldada em sua expressão, embora não soubesse o que fazer diante do ocorrido.

— Ainda. — Frank assentiu, sério.

Assim, o silêncio voltou a recair sobre os três, sóbrio e pesado, estendendo-se por muito tempo; tempo o suficiente para que Remus decidisse se erguer e ir para o banho, para que Frank terminasse de se vestir e saudasse Diggory que adentrara o dormitório pouco tempo depois. E tempo suficiente para Sirius voltasse a deitar e fechasse a cortina em volta de sua cama, lançando feitiços protetivos para que ninguém o incomodasse enquanto tentava contabilizar todas as coisas que haviam acontecido em um único dia.

Era bastante óbvio que Evans sabia muito mais do que deixara transparecer durante sua conversa, assim como era muito óbvio que ela estava bem mais envolvida em toda a trama contra os comensais do que ele teria imaginado. Sirius soube imediatamente que precisava conversar com a garota o mais cedo possível no dia seguinte.

E ele também precisava falar com James.

O que apenas pensar causava muito nervosismo em Sirius, afinal ele sabia que não estava fazendo nada errado, mas não queria que James acabasse imaginando coisas, principalmente coisas que envolvessem a garota que ele gostava.

Soltando um longo suspiro, Sirius fechou os olhos e concentrou-se nas próprias respirações, acalmando-as até que, por fim, o sono venceu e ele dormiu.

—--

Uma hora mais tarde, James adentrou o dormitório, exausto e completamente irritado.

Era tarde e ele estava com fome, mas cansado demais para se deslocar até a cozinha e conseguir algo para comer.

Retirando a gravata, James deixou seu olhar vagar por seus colegas adormecidos até parar sobre a única cama com as cortinas fechadas (e provavelmente protegidas) pertencente a Sirius.

Sentindo um nó esquisito se formar na garganta, James tentou não pensar no que aquele comportamento significava. Ele estava exausto demais para se preocupar com o que o seu melhor amigo poderia estar fazendo com aquela maldita sonserina.

Ou, bem, ele esperava que estivesse exausto o suficiente para adormecer sem que sua mente vagasse por lugares não muito saudáveis.

No dia seguinte ele se incomodaria com a nova virada nos acontecimentos, mas, por enquanto, James apenas tentaria dormir e descansar o suficiente depois de passar uma tarde inteira limpando banheiros sem magia.

[TERÇA-FEIRA – 20 DE SETEMBRO, 1977]

“Lily, como você está? A monitoria e os estudos estão indo bem? Espero que sim! Estou mandando esta carta, pois fui informado recentemente sobre uma partida que será jogada no estádio de Hogsmeade no dia 1º de outubro: um embate entre Holyhead Harpies e Puddlemere United, nossos times! O jogo seria inicialmente no estádio de Londres, mas houve um episódio envolvendo vasos sanitários enfeitiçados e outras coisas esquisitas e eles decidiram transferir para Hogsmeade (o estádio não é utilizado há algumas décadas, mas está em ótimas condições)! O que você acha de ir assistir comigo? Conversei com Dumbledore e ele disse que estaria tudo bem caso você quisesse ir, pois está pensando em adiantar o dia de visita em Hogsmeade para que todos que quiserem possam assistir. Eu já consegui os ingressos e acho que seria ótimo para relembrar os velhos tempos, sim? E quem sabe possamos conversar sobre outras coisas também.

Responda assim que possível, querida!

Com carinho, J. Evans”

Lily releu o pergaminho pelo menos dez vezes nos dez minutos que se passaram desde que o recebera e, ainda assim, não fazia sentido.

Jonathan Evans nunca mandava cartas. Era praticamente uma regra. Desde o momento em que Lily pôs os pés dentro de Hogwarts, ela poderia contar em uma única mão a quantidade de pergaminhos escritos por seu pai que recebeu ao longo dos anos.

Seu relacionamento não era ruim, claro que não, mas também não era o que poderia ser chamado de exemplar em termos de pai e filha. Jonathan sempre foi muito mais amigável que Helena, amoroso até, mas, ainda assim, havia muito tempo desde que ele e Lily tiveram qualquer tipo de interação que não fossem pequenas conversas fúteis em torno da mesa de jantar na casa dos Evans durante as férias escolares.

A verdade era que fazia muito tempo desde que Lily sentira o que era ter um pai.

Por conta disso, ela não sabia exatamente como reagir ao pergaminho que recebera naquela manhã, o mesmo que se encontrava em sua mão, que tinha suas palavras gravadas em seu cérebro tantas haviam sido as vezes que lera.

O quê, por Merlin, tudo aquilo deveria significar?

Assistir a uma partida com seu pai? Sério? Há alguns anos talvez aquele fosse um convite que ela poderia compreender e aceitar sem pestanejar, mas, agora? Depois de tanto tempo? Bem, era extremamente estranho. Para não falar desconcertante.

Lily definitivamente não sabia o que pensar.

— Hey, Lily, você vem? — A voz de Anne a arrancou de seus devaneios.

— Sim, sim, já estou indo. — Lily murmurou em resposta, dobrando o pergaminho e guardando-o no bolso interno das vestes, ainda incerta sobre como se sentir a respeito de tudo aquilo.

Incerta sobre o que deveria fazer.

Não que toda aquela incerteza fosse novidade para ela, é claro, afinal de contas aquele era o sentimento que parecia ocupar pelo menos oitenta por cento de seus pensamentos nas últimas semanas.

E ela odiava perceber que estava começando a se acostumar com tal sensação.

X—X

Exceto pelo momento em que fora escolhida pelo chapéu seletor e sentira como se sua vida houvesse acabado, Lily nunca, jamais, odiara ser sonserina.

Pelo menos... não até aquele momento.

Era realmente desconcertante perceber que, por mais que amasse sua casa e que tivesse vivido coisas incríveis fazendo parte dela, Lily não se sentia mais segura estando ali, na Sala Comunal que por anos fora seu refúgio.

Ao descer as escadas do dormitório junto de Anne e Elisa, deparou-se com Elphias no mesmo momento em que adentravam a sala comunal, mas, assim que Lily ergueu os olhos para observar a movimentação de seus colegas de casa, sentiu o estômago embrulhar ao perceber o olhar de Mulciber fixado sobre ela.

Ele estava sentado em uma das poltronas próximas à lareira junto de Bellatrix, Avery e Roockwood – todos muito perdidos em suas conversas, provavelmente obscuras, para prestarem atenção no olhar de Mulciber sobre ela. Enquanto se encaravam, Lily percebeu que o garoto tinha olheiras profundas e pálpebras roxas, sua pele era extremamente pálida e sua boca era uma linha fina de desgosto enquanto a observava como se fosse algo que precisava eliminar.

O que provavelmente era exatamente o que ele estava planejando.

Ao pensar naquilo, Lily sentiu-se estremecer e odiou-se por isso.

Ela não queria demonstrar fraqueza, principalmente em frente a alguém tão desprezível quanto aquele idiota, portanto, grudando em sua face sua melhor expressão fria, Lily estreitou os olhos para o garoto por alguns instantes, arqueando uma sobrancelha como se em desafio.

Por fim, Mulciber desviou o olhar – não sem antes cerrar os punhos em clara ameaça – e ela soltou um suspiro trêmulo de alívio.

— Você está bem? — Foi Elphias quem perguntou e, ao voltar-se para o garoto, percebeu que ele deveria ter acompanhado a troca estranha de olhares entre ela e Mulciber.

Sem saber se sua voz sairia firme o suficiente, Lily apenas assentiu, tentando transmitir a confiança que não sentia através de sua expressão. Pelo modo como Elphias franziu o cenho, ela não foi muito convincente.

Bem, aparentemente ela teria de melhorar em sua atuação. O que definitivamente não aconteceria naquele momento, pois, agora, ela sentia como se fosse explodir se continuasse mais alguns minutos dentro daquela sala que se tornara claustrofóbica demais para que conseguisse respirar corretamente.

— Hm... — Ela começou a falar, atraindo a atenção de Anne e Elisa que estavam conversando a respeito de qualquer coisa sobre a qual Lily não prestara atenção. — Eu, huh, preciso ir na sala de monitoria, então eu vou indo na frente, ok?

— Você não quer que a acompanhemos? — Elisa indagou, a expressão cheia de confusão como se não entendesse o porquê de Lily querer caminhar sozinha pelos corredores tão cedo da manhã.

— Não, tudo bem. Eu... bem, hm, eu realmente preciso falar com- — ela hesitou, sem saber exatamente sobre quem poderia falar que não soasse como uma mentira. A verdade era que, fora de seu pequeno círculo de amigos sonserinos, Lily não falava com mais ninguém naquela escola.

Pelo menos, não até os últimos dias, é claro. Mas não era como se fosse citar quaisquer um dos grifinórios aleatoriamente em uma conversa tão cedo da manhã. Principalmente porque nem mesmo ela fazia ideia do que diabos estava acontecendo.

— Com...? — Elphias tinha os olhos estreitos para ela, esperando pela continuação da frase que nunca veio.

Lily sentiu algo desconfortável se instalar em seu estômago ao perceber que teria de mentir.

— Hm, minha irmã? — Saiu mais como uma pergunta do que uma resposta e ela repreendeu-se por estar sendo tão malditamente transparente nos últimos dias.

Céus, o que diabos estava acontecendo? Por que ela não podia fingir estar bem como sempre fizera nos últimos anos? Era como se uma barreira houvesse sido destruída dentro dela no momento em que abraçara James Potter após a briga com Snape e, desde então, nada parecia estar em seu devido lugar.

Ela era uma bagunça e, por Merlin, Lily sempre odiara coisas bagunçadas.

Não era nenhuma novidade que estivesse se odiando naquele momento.

— Oh. — Foi toda reação que ela recebeu de Anne, acompanhada de um aceno de Elisa e um olhar compreensivo de Elphias, que parecia ter adotado o comportamento esquisito de Lily como algo relacionado à sua irmã.

Era quase engraçado, na verdade, pensar que, apenas alguns dias atrás, toda essa reação poderia, sim, estar relacionada à Petunia, mas, naquele momento, o fato de sua irmã estar na mesma escola que ela era uma das últimas coisas em sua mente.

Talvez ela devesse agradecer à James Potter por confundir sua mente. Agradecer à Snape por querer se aliar a Voldemort e decidir usar Remus, somente uma das melhores pessoas que Lily conhecia, como provação à sua devoção às Artes da Trevas. Agradecer à Sirius Black por fazê-la querer se envolver em planos mirabolantes. Agradecer à Mulciber por ser um monstro e aterrorizá-la até o cerne de seus ossos.

Agradecer ao seu pai por mandar cartas estranhas como se fosse uma ocorrência comum e não algo que não acontecia há anos.

Merlin, quando sua vida se tornara tão malditamente complicada? Ela não tinha certeza se queria descobrir a reposta.

— Vejo vocês mais tarde. — Ela disse por fim, acenando para os três e dando as costas sem esperar por uma resposta. Lily apressou-se para a saída sem dignar uma segunda olhada em direção onde Mulciber estava junto de seus amigos estúpidos, mesmo que pudesse sentir seus olhos pesarem sobre seus movimentos.

O frio dos corredores de pedra das masmorras que atingiu o rosto de Lily assim que ela saiu da sala comunal era quase uma benção. Ela poderia chorar de alívio se não tivesse medo que alguém a visse.

E, bem, ela já tivera sua cota de sessões de choro em frente à estranhos preenchida pelo que deveriam ser sete vidas. Ela não faria disso uma coisa recorrente (não mais, pelo menos).

Tomando duas longas e profundas respirações, Lily recomeçou a caminhar, o eco de seus passos reverberando em seus ouvidos como um relógio: tap, tap, tap. Estava tão perdida em pensamentos, sentindo-se tão desesperada para sair de perto da própria sala comunal, que sequer percebeu onde estava e que havia alguém vindo em sua direção até que quase colidiu com a pessoa.

— Me desculpe, eu- — Ela começou a falar, mas então percebeu de quem se tratava e então se interrompeu, soltando um longo suspiro de desgosto. — Petunia.

— Não pense que estou feliz em vê-la, irmã. — Petunia rolou os olhos, debochada. — Mas foi bom te encontrar, porque existem algumas coisas que gostaria de saber...

— Coisas? — Lily indagou, arqueando uma sobrancelha enquanto tentava recuperar sua compostura. Ela simplesmente odiava estar tão instável nos últimos dias e odiava ainda mais não ser capaz de esconder isso tão bem quanto todo o resto. — O que você queria saber?

— Hum... — Petunia olhou para os lados do corredor (que Lily tardiamente percebeu se tratar do que levava para o Salão Principal) e se aproximou um pouco mais. — O que exatamente houve com Alice Fawcett? — Ela perguntou, o tom de voz baixo, porém urgente. Seus olhos azuis vagaram pelo rosto de Lily e sua expressão era tão parecida com a de Helena, sua mãe, quando estava tentando descobrir algum segredo que Lily precisou piscar algumas vezes antes de finalmente reagir.

— Com a Alice? Por que você acha que eu saberia? — Lily moldou o tom de modo que parecesse despreocupado, rezando para que os anos de distância entre ambas fossem o suficiente para fazer a tensão em seus ombros e de sua voz passassem despercebidos pelos olhos e ouvidos investigadores da irmã.

— Há comentários de que você a ajudou... no que quer que tenha acontecido. Eu estava com ela quando o Mulciber a chamou. Ele parecia muito interessado em tirar ela de perto da gente. E, eu não sei, a atitude foi muito suspeita. — Petunia passou uma mão pelos longos cabelos loiros, suas unhas roídas eram o único indicativo de que ela não era tão perfeita quanto parecia. Por alguns instantes, Lily contemplou o que poderia ter causado aquele ataque de nervos à irmã, mas então decidiu que não era da sua conta e preferiu ignorar, focando no que ela havia acabado de dizer.

— Ele disse alguma coisa quando a chamou? O que ele fez? — Indagou, o pulso acelerando ao relembrar dos acontecimentos do dia anterior e do fato de que acabara de fugir do malfeitor em questão.

— Não. Ele apenas disse que queria falar com ela. Estávamos eu e Izoraiah Antunes da Corvinal, você a conhece? — Lily assentiu. — Sim, bem, ele parecia odiar estar falando com ela. E comigo. Ele apenas nos dispensou. Izoraiah não me deixou responder quando ele disse que deveríamos deixar Alice e então praticamente me arrastou para o Salão Principal. Eu não sei o que ele queria com a Fawcett, mas pela expressão de horror no rosto dela eu imagino que não deveria ser nada bom. — Petunia concluiu, seus olhos azuis brilhando levemente com algo parecido com temor, mas que logo desapareceu.

— E você não tentou impedi-lo? — Lily perguntou, sentindo-se irritada ao pensar que a irmã poderia ter evitado um momento traumatizante para Alice se houvesse se posicionado.

— Bem, eu não o conhecia, sim? E Izoraiah, que é amiga de Alice, parecia achar tudo bem deixá-los à sós. Estou aqui há poucos dias, Lily, não era como se eu fosse me meter em encrenca por conta de algo que não entendo. — Petunia deu de ombros, embora parecesse qualquer coisa menos desinteressada. Seus olhos azuis voltaram a fixarem-se sobre os de Lily. — Você sabe o que aconteceu com ela? O que ele poderia querer? Ela ainda está na Ala Hospitalar e há rumores sobre-

— Comensais da Morte em Hogwarts? — Lily completou a frase, sentindo-se levemente satisfeita ao perceber a irmã se encolher diante da possibilidade. Era bom notar que, por mais que Petunia fosse supostamente perfeita, ela ainda era capaz de sentir medo. De perceber que sua bolha não era assim tão intocável.

— Sim... ouvi algumas pessoas comentando sobre isso... e sobre coisas que aconteceram nos anos anteriores-

— Bem, Tuney, isso não é apenas um rumor. Há, sim, Comensais na escola. Mas ninguém sabe com certeza quem são ou o que eles fazem. — Lily passou uma mão pelos cabelos, afastando uma mecha rebelde para longe do rosto. — Olha, o que aconteceu entre o Mulciber e a Alice... isso não é um segredo meu para contar. Apenas- apenas tome cuidado, sim? — Ela encarou a irmã, firmeza em sua expressão. Por mais que odiasse as coisas que Petunia fizera para ela, por mais que há muito tempo não a considerasse uma amiga, ela ainda não lhe desejava nenhum mal. A possibilidade de que algum dos Comensais tentasse algo contra Petunia, por mais remota que fosse, a deixava mais aterrorizada do que gostaria de admitir.

— Mas se há Comensais... por quê Dumbledore não faz nada? Que tipo de escola é essa em que esse tipo de coisa acontece, mas ninguém toma uma atitude? — Os olhos de Petunia estavam arregalados em descrença.

Lily soltou um riso sem humor diante da ingenuidade da irmã.

— Dumbledore é um grande bruxo, sim. Mas Voldemort também é. — Petunia encolheu-se diante do nome. Lily prosseguiu: — E, embora ele seja vil, embora ele tenha princípios totalmente errados, ele ainda é muito poderoso. Voldemort sabe como manter seus segredos bem guardados, assim como sabe em quem confiar e com o quê confiar. Não é tão fácil de descobrir os planos dele. Se fosse, já teriam feito isso há algum tempo, certo? — Lily meneou a cabeça e então suspirou. — Olha, eu vou ir tomar café, tudo bem? Era só isso que você queria saber?

Petunia ficou em silêncio por alguns instantes, seu olhar vagando pelo rosto de Lily, brilhando com algo que ela não soube nomear. Por fim, ela apenas assentiu, afastando-se para que Lily passasse por ela pelo corredor.

Sem saber se deveria dizer alguma coisa, Lily apenas acenou, voltando a caminhar a passos rápidos em direção ao Salão Principal.

O único problema era que não estava com fome. E, depois de sua conversa com Petunia, o sentimento de urgência pareceu crescer em seu interior, ramificando-se por sua corrente sanguínea como fogo de rastilho.

Ela precisava falar com Alice. Precisava saber o que ela decidira, se pretendia contar para Dumbledore ou não. Ela não podia ficar quieta e esperar até que as coisas piorassem. Não depois do que descobrira na noite anterior. Não quando ela sabia que Remus estava na mira daqueles idiotas.

Cruzando em frente e à porta do Salão Principal sem olhar para dentro, Lily acelerou os passos rapidamente em direção às escadas, subindo-as de dois em dois até chegar ao segundo andar e praticamente correr até a Ala Hospitalar.

Somente desacelerou quando chegou em frente à entrada, respirando profundamente antes de esticar a mão para abrir a porta e soltando um suspiro de alívio ao perceber que não havia ninguém lá, exceto Alice, que voltara-se para a entrada com o cenho franzido ao ouvi-la adentrar.

Lentamente, um sorriso pequeno espalhou-se pelo rosto da corvinal enquanto observava Lily se aproximar.

— Hey, Lily. — Ela cumprimentou com simpatia.

— Hey, Alice. — Lily retribuiu o cumprimento, caminhando até estar em frente à garota, notando que seu rosto, embora ainda parecesse cansado, estava muito mais corado e de aparência mais saudável que no dia anterior. — Como você passou?

— Surpreendentemente bem. — Alice respondeu sem nem mesmo piscar, sinceridade transparecendo em seu tom. — Frank esteve aqui ontem. E hoje. Na verdade, ele saiu daqui pouco antes de você chegar.

— Ah, sim, eu o encontrei ontem. Achei que ele gostaria de saber que você havia se machucado... — Lily disse, sentindo-se levemente inquieta ao lembrar de quando encontrara o grifinório no dia anterior e do fato de que Frank parecia desconfiar de Mulciber. — Huh, ele... hm, ele te falou algo sobre-

— Mulciber? — Alice interrompeu seu balbuciar, erguendo as mãos para amarrar os cabelos escuros e cacheados em um rabo de cavalo no alto da cabeça. — Sim, ele disse que desconfiava dele há algum tempo, mas que nunca me perguntou porque estava esperando que eu me sentisse confortável para falar... — Ela mordeu os lábios, olhos escuros brilhando levemente com lágrimas que ela não derramou. Sem pensar, Lily esticou a mão para a garota, enroscando seus dedos junto aos de Alice e apertando-os levemente para oferecer conforto. Fungando, Alice sorriu. — Ele foi incrível, sabe. Eu tinha muito medo da reação dele, mas percebi que era estupidez da minha parte. Frank... ele disse que não era minha culpa.

— E não é, Alice. — Lily respondeu, apertando ainda mais a mão da outra. — Você não pediu por nada disso. Tampouco a Mary. O que aconteceu foi decorrência do comportamento doentio dessas pessoas estúpidas. A culpa é deles e apenas deles.

— Eu sei. — A voz de Alice soou levemente rouca, indicando a emoção que ela tentava amenizar sem sucesso. — É só que... bem, eu me sentia suja? Como- eu sabia que não era minha culpa, que eu não tinha pedido por nada daquilo, mas ao mesmo tempo eu não fiz nada para impedi-los e tive de aguentar as consequências porque-

— Você estava com medo, Alice! E, honestamente, é normal se sentir assustada. Isso não te faz fraca ou culpada. — Lily disse e tentou não pensar em quão irônico era o fato de que ela sempre se odiara por sentir medo porque, uma vez, há muito tempo, sua mãe disse que era uma fraqueza. Ela daria tudo para que alguém houvesse dito à Lily de oito anos o que ela acabara de dizer para Alice. — Seria estúpido se você não tivesse medo depois do que você viu!

— Mas agora eu não estou mais com medo. — Alice disse, a voz com uma firmeza que Lily não ouvira antes. Ela ergueu os olhos para analisar melhor a expressão da corvinal, percebendo determinação estampada em suas feições. — Quero dizer, óbvio que estou assustada, mas- eu não vou deixar isso tomar conta de mim, Lily. Eu passei a noite inteira pensando e cheguei à conclusão de que não posso viver com esse segredo me corroendo. Eu não quero ser a pessoa que sabe que pode fazer mais e não faz.

Lily sentiu o coração acelerar diante de suas palavras. Lançando um olhar rápido para o cômodo, percebendo que a porta da sala da Madame Pomfrey estava fechada, assim como a entrada para a Ala Hospitalar, inclinou-se para Alice, encarando-a fixamente e murmurando:

— Você vai contar para Dumbledore? — Indagou.

Alice mordeu os lábios, mas assentiu.

— Sim. Eu vou. — E então foi a vez de Alice apertar a mão de Lily. — E vou precisar de sua ajuda, Lily. Sei que não somos amigas, mas você- você me salvou de Mulciber. Eu- eu nunca vou ter palavras o suficiente para te agradecer pelo que fez, mas-

— Você não precisa, Alice. Está tudo bem. Você está à salvo. É isso que importa. — Lily sorriu de forma reconfortante para a garota, percebendo que era o primeiro sorriso sincero que dava desde que havia acordado.

Alice sorriu de volta, uma lágrima finalmente escapando de seus olhos e descendo por seu rosto.

— Não, mas você não está entendendo. — A garota ergueu a mão que não estava na de Lily para limpar a lágrima do rosto antes de prosseguir. — Foi aterrorizante estar lá. Eu sabia o que ele estava prestes a fazer e eu tentei, Lily, juro- mas não consegui ser forte o suficiente para resistir. Quando ele- quando ele estava me- — Ela balançou a cabeça, mais lágrimas descendo por seu rosto em um fluxo contínuo. — Eu não pensei que fosse ser salva. Estávamos em uma sala escura e longe de todos, ninguém sabia onde eu estava, ninguém poderia chegar lá a tempo. Eu estava tão desesperançada que eu- eu só queria que acabasse logo-

— Oh, Alice. — Lily esticou-se para a garota, puxando-a de modo que ambas estavam se abraçando. Ela podia sentir as lágrimas de Alice molharem sua camisa, entretanto não conseguia se importar, pois, naquele momento, lágrimas também escorriam pelo próprio seu rosto.

E ela jurara que não choraria mais, por favor, a quem ela pensara que enganaria?

Elas continuaram assim por um longo tempo, uma segurando a outra enquanto suas respirações se tornavam menos e menos ofegantes até que, por fim, se afastaram, encarando-se com um novo tipo de entendimento entre elas. Com um tipo de ligação que ninguém que não houvesse passado pelo que elas haviam passado juntas compreenderia.

Lily percebeu com surpresa que, ao entrar naquela sala escura e úmida das masmorras, não apenas impedira que algo muito ruim acontecesse, mas, também, conquistara uma nova amiga.

X—X

[QUARTA-FEIRA – 21 DE SETEMBRO, 1977]

Sirius sabia que estava evitando James. James também sabia que Sirius o estava evitando e, na verdade, estava evitando-o em resposta, o que era bastante ridículo da parte de dois caras maiores de idade que deveriam ser muito mais maduros do que estavam demonstrando ser.

O problema era que Remus, que normalmente funcionava como um apaziguador entre eles, já havia sido levado para a Casa dos Gritos, pois se sentia muito fraco e dolorido para continuar a comparecer nas aulas. Sendo assim, Sirius e James estavam agindo como duas crianças envergonhadas que não sabiam como reagir quando estavam perto um do outro porque ambos eram orgulhosos demais para dar o braço a torcer e iniciarem uma conversação que esclareceria todas as dúvidas e sanaria esse distanciamento que apenas crescia entre eles.

Nos últimos dois dias, suas interações tinham sido, basicamente, “bom dia” e “boa noite”, junto com um ou outro comentário murmurado e sem emoção toda vez que precisavam realmente interagir nas aulas em que compartilhavam uma classe – que eram praticamente todas.

Sirius odiava aquilo. E odiava ainda mais que ele era o único que começara toda aquela situação, mas agora não sabia como diabos agir para consertar tudo.

Ou, bem, ele sabia como consertar, entretanto, ele precisava falar com Evans antes de decidir o que contaria para James e como contaria para James e, por ironia do destino, Sirius não havia conseguido falar com a garota desde o almoço na segunda-feira, tendo sequer a avistado por mais de dois segundos antes de ela desaparecer misteriosamente para fazer o que quer que sua vida atarefada de monitora-chefe lhe obrigasse.

Ele odiava não ser capaz de falar com James sobre tudo o que estava acontecendo e odiava ainda mais o tanto que toda aquela situação o estava impedindo de conseguir dormir à noite.

Sirius Black sempre fora composto. Ele era sarcástico. Ele era arrogante. Ele era irritante e, sim, também era agitado e maroto. Mas, principalmente, Sirius Black era o retrato da frieza e impessoalidade.

Sirius Black não era nervoso.

Só que, naquele momento, quando sua pele parecia prestes a cair de tanto comichão que ele sentia para fazer alguma coisa, qualquer coisa para arrumar a situação com seu melhor amigo, ele estava quase saindo fora de si por conta da ansiedade que parecia povoar cada célula em seu corpo.

Ele estava nervoso e, por Merlin, odiava tal sentimento.

Portanto não foi exatamente uma surpresa que, ao ser encontrado num corredor qualquer do terceiro andar por uma Lily Evans com o cenho franzido e um olhar perscrutador pairando em seus olhos verdes, Sirius tenha se assustado ao ser arrancado de seus pensamentos totalmente enlouquecedores ao ser tocado levemente no ombro pela sonserina.

— Ei, Black, calma! — Evans disse, suas sobrancelhas erguendo-se ao ser surpreendida com a reação exagerada do garoto. — Você está bem? Parece nervoso.

— Eu não estou nervoso, Evans. — Sirius bufou para ela, respirando fundo algumas vezes para tentar acalmar as batidas erráticas de seu coração.

— Certo... — Ela murmurou, olhos estreitos com diversão, claramente não acreditando nele. —O que você está fazendo sozinho aqui? Devo me preocupar ou me preparar para alguma detenção?

— Haha, muito engraçada, Evans. Eu estava apenas caminhando e, pelo que eu me lembre, isso não é impedido pelas regras da escola, então pode ir guardando esse seu distintivo de monitora-chefe, pois não estou fazendo absolutamente nada de errado. — Sirius bufou, retomando seu comportamento sarcástico habitual enquanto voltava-se para encará-la. — Ei, você está bem? — Ele perguntou ao perceber as bolsas escuras abaixo dos olhos de Lily e a forma como seu rosto estava mais pálido que o normal, ressaltando as poucas sardas em suas bochechas e nariz.

— Huh, sim. — Ela murmurou, embaraçada com a mudança no foco de atenção. — Na verdade, eu queria falar com você.

— Sim, bem, isso é ótimo, porque eu também quero falar com você. dias. Fico feliz que você tenha encontrado espaço na sua agenda super atarefada de monitora para mim. — Ele disse sarcasticamente, divertindo-se com o rolar de olhos que recebeu em resposta.

— Sim, Black, eu deixei um horário vago na minha agenda apenas para você. Não me decepcione. — Lily resmungou, também sarcástica, e então voltou a caminhar em direção ao final do corredor, olhando para ele por cima do ombro. — Você vem?

— Sim, senhora, diretora Evans. — Sirius resmungou em resposta, apressando-se para acompanhá-la.

Sem surpresa, ela os encaminhou até a sala dos monitores, resmungando a mesma senha – “amargor” – e segurando a porta para que ele entrasse.

Sem quaisquer cerimonias, Sirius atirou-se em uma das poltronas enquanto a observava fazer a volta na escrivaninha e sentar-se à sua frente.

— Eu preciso contar para o James. — Foram as primeiras palavras que escaparam da boca de Sirius quando Lily o encarou.

As sobrancelhas ruivas da garota se arquearam, surpresa emanando de seus olhos enquanto franzia o cenho.

— Eu pensei que você já teria contado para ele até agora? — Ela disse, soando muito mais como uma pergunta do que uma afirmação.

— Bem, não. — Sirius sentiu suas bochechas esquentarem e remexeu-se desconfortavelmente no assento, odiando aquela demonstração tão óbvia de constrangimento. Ele detestava sentir-se tão transparente. Era uma sorte que estivessem apenas eles dois ali e que Evans parecesse não estar fazendo qualquer julgamento sobre ele. — Eu, huh, não sabia exatamente o que dizer? Principalmente porque você disse que não queria que ele soubesse-

— Mas você disse que ele precisava saber porque ele era seu melhor amigo, Black! — Lily franziu ainda mais o cenho, sua expressão totalmente confusa. — Óbvio que preferiria que ele não soubesse, mas, logicamente, ter mais uma pessoa a par da situação seria ótimo, principalmente se é alguém que também é amigo de Remus. Você não precisa esconder as informações dele por minha causa, Black, ainda mais se você for ficar tão ansioso por conta disso. — Ela sorriu para ele com conhecimento, embora fosse livre de julgamento. Sirius pensou que era estranhamente doce, mas então afastou tais pensamentos porque eram simplesmente ridículos. — Embora, preciso confessar que fiquei realmente tocada pela sua lealdade, Black.

Rolando os olhos numa tentativa de fingir que não estava corando ainda mais, Sirius bufou.

— Certo. Então eu posso contar tudo para ele? Exceto a parte da capa, obviamente.

— Sim, bem, eu agradeceria se isso fosse ignorado completamente. — Lily deu de ombros, fazendo-o sorrir marotamente.

— Bem, bem, então tudo bem. — Ele concordou e então inclinou-se para a frente, a lembrança da conversa com Frank pairando em sua mente. — Hey... huh, Frank comentou uma coisa-

À menção de Frank, Lily arqueou uma sobrancelha, a expressão tomada de confusão enquanto o encarava.

— O quê?

— Bem, ele disse que você duelou com o Mulciber e salvou a Alice. — Sirius disse, percebendo o tom avermelhado subir pelo pescoço da sonserina, tomando conta de seu rosto e orelhas. Era um desenvolvimento bastante divertido, na verdade.

— Ah, sim. — Lily murmurou, fingindo desinteresse, olhando para qualquer parte da sala, exceto o garoto à sua frente. — Eu acabei por encontrá-los quando ele- bem, huh, acho- acho que foi apenas sorte.

— Sorte... — Sirius murmurou, sorrindo de forma marota para o desconforto da garota. — Foi uma sorte você quebrar a varinha dele, então?

Com isso, Lily rolou os olhos para ele enquanto um sorrisinho divertido aparecia em seus lábios.

— Ah, não, isso foi para o meu deleite. — Ela disse, malícia em suas palavras.

— Oh, eu pagaria muitos galeões para ter visto a cara dele quando você fez isso. — Sirius disse, deliciando-se com a imagem mental que sua imaginação estava gerando, onde Antony Mulciber era completamente dizimado por uma Lily Evans muito revoltada. Oh, Merlin, era simplesmente incrível. Ele estava prestes a pedir mais detalhes das expressões faciais de Mulciber ao ter sua varinha quebrada quando outra coisa vagou por seus pensamentos, fazendo com que sua diversão fosse subitamente apagada. — Mas, hum... Evans, isso não é ruim para você? — Ele franziu o cenho, uma pequena parcela de preocupação povoando sua mente. — Quero dizer, você vive com eles. Literalmente. Você dorme e acorda junto deles. Você não está com medo da possibilidade de acordar e dar de cara com você-sabe-quem fungando em seu pescoço?

Como se vários graus houvessem caído na sala, Evans empertigou-se, cruzando os braços sobre o próprio peito e Sirius sentiu um leve tremor ao notar a expressão escura que pairou sobre o rosto da garota.

— Eu realmente nunca fui uma pessoa muito impulsiva. Honestamente, sempre foi bem o contrário. Mas, agora que eu fui lá e fiz isso, suponho que não tenha nada que eu possa fazer além de esperar as consequências. — Lily deu de ombros, soltando um longo suspiro antes de erguer os olhos verdes para encará-lo. — Eu não acho que eles vão fazer nada contra mim. Pelo menos, não ainda. Sei que eles ainda pensam que são capazes de me convencer a ir para o lado deles e- não, Black, não precisa me olhar assim, eu realmente não me interesso em me tornar uma seguidora descerebrada de Voldemort. — A forma como ela disse o nome, tão impessoal e sem preocupações, assustou mais Sirius do que se ela houvesse demonstrado temor. Ele percebeu, com uma clareza surpreendente, que Lily Evans era muito mais destemida do que ela deixava transparecer. Uma camada de respeito foi adicionada a sua coleção bastante nova de conceitos a respeito da sonserina. — Mas...

Mas...? — Sirius indagou quando a garota não concluiu a frase.

Lily mordeu os lábios e meneou a cabeça, como se estivesse ponderando o que deveria falar a seguir.

— Bem. Como você sabe, Mulciber- atacou a Alice. — Os olhos verdes da garota se fixaram sobre os de Sirius, penetrantes e firmes. — E ele fez isso porque ela viu que ele foi uma das pessoas que atacaram a Mary no ano passado.

Um ofego surpreso escapou da boca de Sirius, raiva tingindo seus pensamentos.

— Ele o quê?

— Sim. — Lily assentiu e então inclinou-se para ele, seus olhos nunca deixando os dele. — Mas isso fica entre a gente, Black. Ela não tinha contado para ninguém até agora porque eles ameaçaram ela e a Mary.

— Tudo bem, eu não vou contar para ninguém. — Sirius disse, embora seus punhos estivessem cerrados e seu corpo praticamente berrasse diante da necessidade de correr até encontrar cada um daqueles humanos sujos e soca-los até à morte.

— Certo. — Lily assentiu e então suspirou. — Eu tive uma conversa com a Alice e ela acabou decidindo contar para Dumbledore sobre isso e, também, sobre o último ataque de Mulciber. Nós iremos contar para ele amanhã, que é quando ele retorna do Congresso Internacional de Ministérios da Magia, mas, até lá, nós precisamos ficar quietas. E, é claro, precisamos ficar de olho neles, porque eu não duvido que eles tentem atacá-la para silenciá-la novamente.

— Oh, eu estou totalmente dentro disso. — Sirius assentiu, feliz com a possibilidade de tramar contra aqueles imbecis e, quem sabe, pegá-los tentando fazer algo errado só para ter uma justificativa para ataca-los.

— Se tudo der certo e Dumbledore acreditar na gente, o que ele vai, porque temos provas nas nossas lembranças, é bastante provável que não precisemos nos preocupar com Remus na sexta. — Lily disse, esperança brilhando em seus olhos.

Sirius sentiu o peito aliviar levemente diante da possibilidade, feliz em perceber que, talvez, tudo acabasse bem e que, talvez, Remus não precisasse sofrer qualquer consequência por conta de uma atividade egoísta e suja de pessoas que não valiam nem um terço da pessoa que ele era.

Assim que terminaram de conversar e organizar tudo – quando Sirius contaria para James (ainda naquele dia), onde eles se encontrariam na sexta-feira caso Dumbledore não agisse ou não conseguisse identificar os comensais (na orla da floresta, próxima à casa do Hagrid), como eles se comunicariam (via correio coruja até encontrarem algo melhor) e qual o curso de ação caso precisassem intervir nos planos diabólicos dos comensais (eles decidiriam no momento porque, aparentemente, ambos eram mais parecidos do que gostariam de admitir e preferiam reagir de acordo com o que a situação exigisse) – Sirius começou a se encaminhar para a saída, tendo sido dispensado pela sonserina após ela afirmar que precisava concluir algumas tarefas de monitoria, mas parou assim que chegou na porta, voltando-se para encará-la com um sorriso divertido estampado em seus lábios.

— Ei, Evans. — Ele chamou, fazendo com que ela afastasse o olhar de seus papéis para encará-lo devidamente.

— Sim?

— Você é bastante corajosa e, aparentemente, tem muito mais sangue grifinório em você do que gostaria de admitir. — Ele disse, piscando para ela.

— Coragem não é uma qualidade estritamente grifinória, Black. — Evans respondeu prontamente. — Se fosse assim, então quem não fosse da Corvinal não seria inteligente, quem não fosse da Lufa-Lufa não seria leal e quem não fosse da Sonserina não seria ambicioso e, cá entre nós, você tem todas essas qualidades e, ainda assim, está na Grifinória. — A garota inclinou a cabeça, encarando-o com um olhar perscrutador. — O que define a qual casa pertencemos é o que se destaca em nossa personalidade, mas isso não exclui todo o resto, certo?

Ele não podia negar que fazia sentido.

— Sabe de uma coisa, Evans? — Sirius disse, após recuperar-se do choque diante do discurso apaixonado da garota. — Você é muito diferente do que eu pensava que era.

— Bem, eu digo o mesmo sobre você.

— Espero que isso seja no bom sentido. — Ele estreitou os olhos.

— Ainda estou pensando sobre isso, Black. — Lily respondeu, embora fosse claramente uma brincadeira.

— Certo, Evans, vou te deixar para a triste e chata tarefa de ser monitora-chefe. — Sirius disse, por fim, finalmente voltando-se para a saída. — Eu sei que você preferiria mil vezes a minha companhia, mas, infelizmente, sou um bruxo ocupado.

— Tente não conseguir uma detenção para a sexta-feira, Black! — Ele a ouviu gritar assim que fechou a porta atrás de si, sorrindo em diversão, embora o sentimento de leveza não durasse muito.

Respirando profundamente e preparando-se para o que certamente seria uma conversa bastante difícil, Sirius fez seu caminho para a Torre da Grifinória, rezando para que James estivesse lá e, assim, eles finalmente pudessem conversar antes do treino de quadribol que aconteceria dali a algumas horas.

X—X

Então, talvez, James não tivesse sido muito compreensivo.

Ok, Sirius estava diminuindo muito a verdade: James estava sendo o oposto de compreensivo.

Ele estava sendo ridículo e infantil.

Faziam duas horas desde que eles tiveram “A Conversa”, onde Sirius explicara o que estava acontecendo, os planos dos comensais a respeito de Remus e o porquê de estar interagindo tanto com Evans e fora recebido por várias grosserias de James, desde “você deveria ter contado antes” até “honestamente, não sei se posso confiar em você agora que está andando com ela”.

Sirius sabia, racionalmente falando, que James estava reagindo daquela forma apenas porque estava com ciúmes.

Ele sabia, racionalmente falando, que James não estava furioso com ele, mas sim com a situação e com o fato de que haviam pessoas tramando contra Remus e que, infelizmente, Sirius era o único por perto em quem ele poderia descontar a raiva.

Ele também sabia, racionalmente falando, que logo seu melhor amigo esfriaria a cabeça e pediria desculpas.

O problema era que Sirius não era uma pessoa racional. Por Merlin, se havia uma coisa que ele definitivamente NÃO ERA, essa coisa era racional.

Então o fato de que, agora, eles estivessem no treino de quadribol e que James lançasse a goles fortemente em sua direção com desculpas esfarrapadas de que talvez os óculos estivessem ficando fracos e que ele estava perdendo o foco visual por causa disso, estava irritando-o profundamente, chegando ao ponto de que ele estava cogitando a possibilidade de sacar a varinha e lançar um estupefaça em James apenas para ele desmaiar e parar de agir como um imbecil por alguns instantes.

Sirius estava movendo-se para fazer isso, na verdade, quando Emmeline finalmente bradou em irritação, fazendo com que todos parassem o que estavam fazendo e voltassem-se para encará-la.

— CHEGA! ESTOU FARTA DISSO! — A garota disse, os punhos cerrados em fúria enquanto olhava para James. — Eu não sei qual é o inferno do seu problema, Potter, mas eu estou pedindo- não, eu estou mandando você tirar a cabeça da sua bunda e começar a resolvê-lo, porque, honestamente, ficar mandando a goles na direção do Black, que é um batedor, caso você tenha esquecido, não é exatamente uma jogada de gênio, querido. Então, se você pretende chegar perto de ganhar aquela fodida taça, seria bom se você começasse a agir como um cara maduro de dezessete anos e deixar os seus problemas fora desse maldito campo. — E, ofegante, ela lançou mais um olhar cortante em direção ao capitão antes de virar-se na vassoura e voar em direção ao solo, claramente encerrando o treino.

— Huh- — James começou a falar, suas bochechas coradas não apenas por conta do voo, mas também pelo constrangimento de ter sido repreendido por uma de suas jogadoras. — Certo. Hum- — Limpou a garganta. — Sim, é, fim do treino, pessoal. Sexta nós continuamos, ok?

Sua fala foi recebida por murmúrios fracos de concordância enquanto os jogadores começavam a se afastar em direção ao solo, todos parecendo muito contentes em sair daquele treino totalmente desastroso.

Sirius não podia negar que estava aliviado de que não precisaria desviar de mais goles novamente e-

BAM.

A goles bateu fortemente contra o lado esquerdo do seu rosto.

— Que diabos-? — Ele começou a falar, mas então as gargalhadas de James preencheram o ar, fazendo com que Sirius voltasse em sua direção, olhos estreitados, enquanto observava seu suposto melhor amigo dobrando-se de rir sobre sua vassoura. — Que diabos, James?

— A sua cara. — James conseguiu dizer por entre as gargalhadas, erguendo os olhos castanhos para encará-lo enquanto lágrimas de diversão escorriam por seu rosto. — Eu não posso-

— Ok, chega, estou farto. — Sirius resmungou, tirando a varinha do bolso e apontando-a para James.

Antes que o outro pudesse sequer reagir, ele lançou um levicorpus, fazendo com que James fosse colocado de cabeça para baixo e, assim, obrigado a soltar a vassoura que ficou flutuando sem rumo pelo campo. Em seguida, Sirius murmurou “accio varinha” fazendo com que ela saísse voando do bolso protegido no peito de James e pousasse em sua mão.

Com um sorriso malicioso pairando em seus lábios, sentou-se de lado na própria vassoura, aproximando-se lentamente de onde James estava pendurado em nada além do ar enquanto tentava desesperadamente manter os óculos no rosto.

— Foda-se. — James resmungou, embora não parecesse realmente irritado enquanto observava a aproximação de Sirius com desconfiança.

— Não, foda-se você, Potter. — Sirius disse quando parou bem em sua frente. — Honestamente, eu pensei que você tivesse amadurecido!

— Foda-se. — James voltou a repetir, rolando os olhos para dar um efeito maior.

Tsc, tsc. E eu pensando que poderíamos resolver nossas diferenças com conversa, mas, aparentemente, estava completamente enganado. — Sirius meneou a cabeça de forma dramática, soltando um longo e falso suspiro.

— Você pretende continuar com isso por muito tempo, Padfoot? — James murmurou, por fim, estreitando os olhos de forma desafiadora para Sirius.

— Depende.

— De...? — James insistiu.

— Você vai parar de ser idiota quando eu te tirar daí? Ou vai continuar agindo como uma criança birrenta? — Sirius arqueou uma sobrancelha em indagação, percebendo o rubor retornar para as bochechas de James, embora ele claramente tentasse não ser tão transparente.

— Me desculpe, ok? — O garoto disse, por fim, o tom cansado de sua voz deixava bastante claro que ele odiava ter de estar fazendo aquilo. Sirius sorriu com a percepção. — É só que- eu não sei, parece que tanta coisa mudou tão rápido e eu me sinto meio-

— Você se sente meio...?

— Deixado de lado. — As bochechas de James estavam chamejantes agora, brilhando quase da mesma cor da insígnia da grifinória. — É estúpido e eu sei disso, mas eu odeio não saber das coisas, Sirius. E, nos últimos dias, você ficou me evitando todo o tempo e, como se não bastasse, ainda estava andando com a Evans. Quero dizer, que diabos eu deveria pensar, Padfoot?

— Certo. — Sirius soltou outro suspiro, mas desta vez era verdadeiro. — Eu sei que fui idiota, mas eu pedi desculpas, tudo bem? Não sabia como você reagiria, principalmente porque nunca esteve nos meus planos começar a conversar normalmente com a Evans. Sempre pensei que você fosse ser o primeiro a fazer isso.

— Quê? — James indagou, seus olhos arregalando por trás dos óculos que ele segurava com uma das mãos. — Do que você está falando?

— Vamos lá, James, não se faça de desentendido. — Sirius rolou os olhos para o amigo, bufando quando este apenas deu de ombros. — Certo, tudo bem, você vai evitar esse tópico. Ótimo. De qualquer forma, cara, eu não planejei nada disso. E as coisas só foram aumentando e, de repente, eu não sabia como dizer tudo o que eu sabia para você porque eu não sabia como você iria reagir.

— Ainda assim, você deveria ter me contado.

— Eu sei.

— Ótimo.

— Ótimo.

— Certo. — James suspirou, por fim, fechando os olhos por alguns instantes, deixando o silêncio recair sobre eles por vários segundos antes de voltar a falar. — Então, você vai me deixar aqui a noite inteira, Padfoot?

— Oh. — Sirius disse, rindo ao perceber que ele ainda não havia desencantado James. — Certo. Tome. — E esticou-se para entregar a varinha para James que, rapidamente, convocou a vassoura para perto e desfez o encantamento, montando-a com maestria antes de colocar as duas mãos na cabeça quando a tontura o atingiu.

Sirius foi até ele, firmando-o enquanto direcionava-os em direção ao solo.

Eles continuaram em silêncio, ambos perdidos em pensamentos até depois do banho, quando se preparavam para deixarem o vestiário e James finalmente externou os pensamentos que pairavam em sua mente, seus olhos preocupados fixando-se nos de Sirius com uma determinação férrea bastante característica do grifinório.

— Nós não podemos deixar nada acontecer com o Moony, Sirius. — Ele disse.

— Nós não vamos. — Sirius concordou, sabendo que faria o que precisasse ser feito para impedir que Remus sofresse.

[QUINTA-FEIRA – 22 DE SETEMBRO, 1977]

James não estava perseguindo Lily Evans.

Ele definitivamente não estava.

O fato de que ele estivera a observando através do Mapa do Maroto durante toda a manhã, apenas esperando a oportunidade perfeita para encontrá-la e falar com ela sobre os planos para a sexta-feira – e, talvez, possivelmente, tentar entender o que aquele beijo significava para o relacionamento (ou a falta dele) para os dois – não significava que ele era um perseguidor.

Ele estava apenas sendo proativo, utilizando a ferramenta que possuía para que não precisasse vagar pelos corredores à esmo em busca da garota.

James Potter não era um perseguidor.

Mesmo que, naquele momento, ele estivesse mais ou menos escondido no final do corredor por onde sabia que Evans estava prestes a passar, depois de finalmente ter se separado de Marlene e Dorcas e onde, se Merlin permitisse, ele seria capaz de conversar com ela.

Ao ouvir seus passos se aproximando, James rapidamente murmurou “malfeito feito” para o mapa que ainda estava em suas mãos, guardando-o no bolso interno das vestes antes de passar as mãos pelos cabelos em um gesto nervoso.

Antes, porém, que pudesse ajeitar os óculos que estavam tortos em seu rosto e arrumar a expressão em algo mais casual, Lily Evans dobrou o corredor, quase esbarrando sobre ele até que, por fim, estacou completamente a apenas alguns centímetros de distância.

James sentiu como se todo ar houvesse sido expelido de seus pulmões, o que era simplesmente uma bosta, principalmente porque ele tinha certeza de que não havia oxigênio o suficiente indo para o seu cérebro para que ele pudesse ser capaz de pensar.

— Oh, huh- Potter. — Evans foi a primeira a reagir, dando dois passos para trás a fim de manter uma distância respeitosa entre eles.

James teve dificuldade em decidir se estava grato por aquilo – afinal o distanciamento ajudava a clarear seus pensamentos – ou se a odiava por estar tão longe. Decidindo afastar tais pensamentos, sabendo que eles não o levariam em uma boa direção, James respirou fundo, sorrindo levemente para a garota que corou.

— Hey, Evans. — Ele disse tentando parecer casual, embora sua voz soasse terrivelmente estrangulada.

Merlin, ele era ridículo.

— Hey. — Ela respondeu e então mordeu o lábio inferior, o que definitivamente não passou despercebido para James e, droga, ele precisava de foco!

— Então, hum- o que está fazendo por aqui? — Foram aquelas as palavras que escaparam de sua boca e também foram aquelas palavras o motivo pelo qual ele queria se atirar da primeira ponte que encontrasse. Por Merlin, o que diabos ele estava fazendo?

Com o cenho franzido, claramente confusa sobre o comportamento do garoto, Evans encarou-o estranhamente, como se procurasse respostas em seu rosto.

— Estava caminhando? — Ela respondeu mais como uma pergunta, meio como se não soubesse o que deveria responder à um questionamento tão estúpido.

— Uh, legal. — Legal, oh meu Merlin, James, que diabos? QUE DIABOS? — Eu, ah, uh-

— Está tudo bem, Potter? — Evans interrompeu o balbuciar de James, encarando-o com preocupação, o que era simplesmente ótimo, realmente. Haha. — Você está suando-

— Estou ótimo, Evans! — James a interrompeu antes que continuasse com aquela constatação constrangedora. — Eu estava correndo, por isso suei, mas não é importante. É bom que eu tenha te encontrado, na verdade, porque eu queria falar com você sobre algumas coisas.

O tom de vermelho que tomou conta do rosto de Evans quando ela o encarou após suas palavras era anormalmente atrativo, mas, antes que ele pudesse fazer algo estúpido como, por exemplo, segurar suas bochechas ou, quem sabe, beijá-la, Evans passou a mão pelo rosto, afastando uma mecha de cabelo enquanto dava mais um passo para trás.

— Sobre coisas? Que coisas?

— Bem, huh, Sirius me contou sobre o que vocês sabem sobre- — James olhou para os lados, preocupado que alguém pudesse ouvir sobre o que ele estava falando e odiando o fato de que não podia simplesmente puxar o mapa para ter certeza. — Coisas. — Ele completou enquanto arqueava as sobrancelhas de forma sugestiva para a garota, rezando para que ela compreendesse que ele estava falando sobre os comensais.

— Oh! Ah, sim, essas coisas. Certo! — Evans assentiu, o tom avermelhado diminuindo enquanto ela parecia inegavelmente aliviada que o rumo da conversa não fosse outro.

Bem, então talvez não fosse uma boa ideia falar sobre o beijo, então.

James deixaria para um outro dia, quem sabe. Talvez numa próxima vida.

Certo.

Ou, talvez, ele pudesse simplesmente mandar a vergonha para à merda e apenas falar sobre o maldito beijo.

Sim, James estava totalmente pronto para fazer aquilo.

Aproveitando o temperamento impulsivo que tomava conta de seus sentidos, James interrompeu o que quer que a garota estivesse prestes a falar, as palavras praticamente explodindo de sua boca enquanto sentia-se afogar naqueles olhos verdes que pareciam persegui-lo até mesmo em seus sonhos:

— Na verdade, Evans, eu também queria falar sobre o be-

— Lily! — Uma voz, uma maldita voz, interrompeu o vômito verbal de James, fazendo-o querer pegar a varinha e lançar uma maldição imperdoável sobre o ser humano absurdamente repulsivo que acabara de adentrar no corredor roubando a atenção da sonserina de James.

E é claro que era Snape. O maldito Snape.

James não podia negar que se sentiu imensamente satisfeito ao ver a expressão no rosto da ruiva mudar subitamente para uma máscara de frieza. Era renovador não ser o receptor daquela expressão, para variar.

— O que você quer? — As palavras da garota eram cortantes e, se James estava lutando (embora não realmente) contra um sorriso divertido, então ninguém precisava saber.

Parecendo finalmente perceber com quem Lily estava – e deixando bastante claro o quanto odiava aquilo – Snape parou de andar há alguns metros de distância, olhando de Lily para James com a expressão vazia.

Desculpe interromper, mas eu realmente preciso falar com você, Lily. — O garoto disse, aparentemente decidindo ignorar a existência de James e focar sua atenção apenas na garota.

— Mas eu não preciso falar com você, portanto, como pode ver, Snape, nós não vamos a lugar algum. — Lily disse, o tom ainda mais frio do que antes.

James até teria sentido pena se a pessoa a quem aquele tom estava sendo direcionado não fosse Snape. Mas, como era, ele estava realmente deliciado.

Snape, por outro lado, parecia bastante resignado, embora, para a surpresa de James, ele não deu as costas e foi embora como seria esperado após uma demissão daquelas. Não. O garoto simplesmente deu mais um passo para a frente, fixando seus olhos negros sobre os de Lily quase com urgência.

Sem pensar, James se aproximou de Lily, pronto para fazer o que fosse necessário caso o garoto tentasse fazer alguma coisa... qualquer coisa.

— Lily, isso é sério. — Snape disse e seu tom era muito mais suave do que antes. — Eu preciso falar com você e precisa ser agora.

— Não.

— Lily-

— Snape, você não ouviu o que ela disse? — James finalmente interrompeu a conversação, os punhos cerrados enquanto dava mais um passo até estar do lado de Lily e, se ele não estivesse muito louco (o que ele não podia comprovar), ele podia jurar que Lily se inclinara levemente em sua direção quando sentira sua aproximação. — Ela não quer falar com você.

Snape, que finalmente voltara sua atenção para James, mesmo que parecesse preferir fazer qualquer outra coisa no mundo do que encará-lo, apenas estreitou os olhos para ele antes de retornar para Lily.

— Lily- — O garoto baixou ainda mais o tom de voz, urgência ficando clara em suas palavras. — Isso é sério- é sobre- — Snape lançou mais um olhar rápido em direção à James antes de parecer decidir que não se importava que ele ouvisse e concluir: — é sobre o que aconteceu nas masmorras, sobre o que você viu.

James rolou os olhos para o drama do garoto, afinal parecia bastante claro que Snape estava apenas representando para parecer mais importante do que era. Ele estava prestes a retrucar sobre isso quando percebeu que Lily estava rígida ao seu lado.

Ai virar-se para encará-la, notou a palidez em seu rosto e a forma como seus olhos haviam escurecido.

— Evans, o que- — Ele começou a falar, mas a garota simplesmente balançou a cabeça, interrompendo-o.

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— Eu- eu preciso ir, Potter. — Ela murmurou fracamente, sem sequer olhar para ele antes de seguir pelo corredor com Snape em seu encalço.

E-

O que diabos?

Honestamente, que diabos?

James havia acabado de ser trocado pelo Snape?

— Foda-se! — Foi tudo o que ele foi capaz de proferir diante da irritação e o que quer que fosse aquele sentimento nauseante que tomava conta de seu corpo. — Malditos sonserinos!

X—X

— Eu não vou fazer isso, Severus! Eu não estou prestes a me mancomunar com o inimigo apenas porque alguns dos seus amiguinhos acham que podem me atacar. Se eles quiserem mesmo me atacar, não é? Eu não confio mais em você, não acredito em nada do que você diz, então não tenho como saber se é verdade! — A garota disse e, embora suas palavras fossem baixas, ainda eram fortes o suficiente para retumbar em cada partícula de ar ao seu redor. — Eu vou falar com o Dumbledore e todos vocês serão punidos. E esse é o meu ponto final! — O som de passos furiosos se afastando foi o suficiente para indicar que a conversa havia sido encerrada.

Isso e, é claro, a expressão totalmente apavorada que tomava conta do rosto de Snape enquanto ele observava a garota se afastar a passos largos, seu peito parecendo estar sendo dilacerado enquanto o completo terror parecia tomar conta de cada célula em seu corpo.

Ele não conseguira.

Oh, Merlin, ele não conseguira.

Snape sempre soubera que Lily era uma força indomável, alguém com ideais inabaláveis, mas ele pensou que, se dissesse para ela que ela estava correndo risco, se dissesse para ela que ela precisava se salvar, ela seria racional, pelo amor de Merlin!

Ele jamais pensou que ela simplesmente daria às costas para seus avisos. Ele jamais pensou que, mesmo implorando, ela iria dar as costas para ele.

“Eu não confio mais em você” fora o que ela dissera, tão cheia de certeza que era quase como se uma faca houvesse sido rasgada através de seu coração.

Snape não conseguia respirar, não conseguia pensar.

Oh, Merlin, o que ele faria?

A única certeza que ele tinha era que, acontecesse o que acontecesse, ele não poderia dizer nada daquilo para Mulciber. Nenhuma das palavras de Lily, nenhum pedaço de seu plano de contar para Dumbledore poderia chegar aos ouvidos de qualquer um de seus colegas, senão Lily sofreria as consequências e-, bem, por mais que amasse a causa, Snape não seria o único a deixa-la à mercê de algum outro seguidor do Lorde das Trevas.

Não.

Ele não contaria.

Ele seria obrigado a mentir e, quem sabe, tentar convencer Alice de que não deveria contar. Apagar sua memória, talvez.

Sim.

Ele sabia que Slughorn ainda tinha aquela poção. O bastante para apagar a memória de Alice. O bastante para que a palavra de Lily não fosse o suficiente diante da falta de lembranças para comprovar o que acontecera com Mary e, consequentemente, com a própria Alice.

Murmurando consigo mesmo, cheio de um novo propósito, Snape começou a caminhar em direção à sala de Slughorn, tecendo em sua mente um plano para conseguir roubar a poção sem ser pego.

—--

Entrementes o sonserino se afastava, o pequeno rato observava com atenção, aguçando suas orelhas até que, por fim, os passos estivessem muito longe para serem ouvidos, indicando que o outro estava distante o suficiente para que o rato pudesse se mover sem que fosse pego.

Colocando velocidade em suas patas enquanto agradecia o fato de ser um roedor e de conseguir se esgueirar pelos corredores com facilidade, o rato direcionou-se em direção às masmorras sem um segundo pensamento, sabendo que precisava ser rápido se quisesse ter algum uso para suas informações.

Tudo o que sabia era que precisava chegar à Mulciber antes de Snape, pois era capaz de perceber que o outro era inteligente demais, sorrateiro demais e que, embora tivesse sido claramente demitido pela Evans, ele era leal demais, apaixonado demais pela garota para que conseguisse ficar contra ela.

O rato lançou uma rápida prece de agradecimento à Merlin pelo fato de que, ao se aproximar da parede de pedra que dava entrar à sala comunal da sonserina, um estudante do terceiro ano estivesse acabando de sair, fazendo com que fosse muito fácil para ele arredondar e cruzar pela pequena fresta antes que a porta fechasse.

Parando atrás de uma poltrona luxuosamente estofada em verde e prata, o rato observou a sala com atenção, não encontrando quaisquer um de seus novos “companheiros” à vista. Sabendo que era tarde demais para que qualquer um deles estivesse em alguma aula, o rato decidiu arriscar e correr para as escadas que o levariam ao dormitório masculino.

Novamente, a porta pela qual precisava adentrar estava entreaberta e, desta forma, ele se esgueirou para dentro, percebendo, para sua alegria, que quase todos estavam reunidos ali.

Sem cerimônias, o rato foi até o meio do quarto, preparando-se para o que ele sabia que seriam olhares de choque e inveja assim que ele se transformasse.

Com uma facilidade praticada, o rato fechou os olhos, deixando a imagem de pernas e braços humanos tomarem forma em sua mente. Cabeça, ombros e peito, coxas e pés, tudo rapidamente crescendo até que, por fim, terminou.

Sacudindo as vestes com indiferença, Peter ergueu os olhos, sorrindo ao perceber que, sim, lá estavam os olhares de inveja e choque que estivera esperando.

— Pettigrew. — Foi Bellatrix quem o cumprimentou e, embora houvesse inveja em sua expressão, seu tom de voz indicava o nojo inerente ao fato de que ele era um intruso.

— Black. — Ele assentiu para ela, finalmente voltando-se para encarar Mulciber que o observava com expectativa. — Eu tenho novidades. — Peter disse, recebendo a atenção total de todos que estavam no cômodo. Sorrindo com satisfação, ele continuou: — Evans não aceitou as condições de Snape. Ela e a Fawcett pretendem falar com o Dumbledore ainda hoje.

Notas finais
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa oi, gente! e aí, o que acharam? não esqueçam de comentar e me contar, sim? fico muito feliz quando os vejo por aqui ♥ dúvidas, sugestões, para falar comigo e tudo o mais, estou sempre no twitter @wolfistar e também no https://curiouscat.me/prongsnitch ♥ beijos e, se merlin e minha inspiração permitir, até breve ♥ amo vocês!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.