Só Que Não
19 O Baile Funk - Part. 1
Notas iniciais
Eu havia acordado meio cansada. Por que era sempre assim? Levantei-me pesadamente e olhei no relógio. 5hrs da manhã.
Eu era a que acordava mais cedo, naturalmente, depois que Kioko se mudou para nosso quarto. Até porque eu demorava pouco no banho e havia aprendido com Larissa a acordar cedo. Quer dizer, havia aprendido a levantar na hora que o despertador tocava, meio que sem enrolar e dizer “Ah, não...”.
Despertei-me na mesma hora, sacudindo a cabeça, e fui pegar minha toalha e tomar banho.
Após terminar o banho, vesti meu uniforme, fiz uma maquiagem leve e um coque desarrumado. Não estava com saco para fazer algo mais elaborado.
Calcei meu tênis e fui chamar Kioko. Ela sempre acordava no primeiro toque.
Ela tomou um banho rápido e vestiu seu uniforme, deixando seu cabelo como sempre, solto.
Larissa era a última a acordar, pois tinha criado o péssimo hábito de demorar dois séculos e meio no banho.
Ela acordou e foi viver sua vida no banheiro.
Enquanto isso eu mexia numa página do Facebook do nosso internato, o “Pérolas de Fox”. Até que uma página chamou minha atenção, e eu sabia que a garota que escrevia nesta página escrevia com muito veneno.
Decidi checar e me arrependi depois.
“Queridos Leitores, parece que a riquinha do pedaço, Branca Forbes, está ‘chutando o balde’ com o garoto mais galinha de toda Fox, Leandro Jacks.
Segundo uma fonte confiável, os dois andam brigando sem parar durante dias, tudo porque Branca beijou o talentoso pianista nerd, Charlie Kriens, depois do mesmo se declarar para a garota.
Segundo alunos, foi possível ouvir berros no jardim. Logo depois Forbes foi avistada saindo aos prantos do jardim.
Será que os dois eram um casal e estão em crise?”
Logo depois chequei os comentários, e tinham 550.
Li alguns:
“Vish, Branca Forbes é alvo desta vez! Sempre soube que aquela garota tinha vocação para p... Claro que os dois estavam juntos.”
“Débora, vai arrumar o que fazer, você só fica difamando as pessoas nessa sua página nojenta!”
“Não acredito O.O o lindo do Leandro com essa garota nojenta metida a besta! Porra, por que ele não olha para mim?”
Decidi parar por aí e dar uma espiada em quem havia comentado a último.
Uma tal de Amanda Borges.
Levantei-me e falei para Kioko:
– Olha isso aqui.
Kioko me olhou confusa e depois leu a notícia. A boca dela havia ficado aberta num O perfeito.
Depois ela começou a rir que nem uma retardada e eu decidi nem perguntar o que ela havia achado.
Larissa saiu já arrumada do banheiro, com o uniforme e um rabo de cavalo, então fomos ao armário pegar nossas coisas.
Logo que chegamos na sala, nos sentamos e olhamos ao redor. Não havia ninguém.
Comecei a desenhar caretas na última folha do meu caderno e escrever frases como “Carpe diem” e outras coisas assim, quando o professor entrou na sala.
Ele vinha acompanhado de Charlie.
Dei um pequeno sorriso e um aceno de mão a Charlie. Ele ainda era meu amigo, apesar de tudo. Ele sorriu de volta e fez um sinal de ok.
– Alunos, este é o novo Charlie Kriens, que passou para nossa sala. Charlie, apresente-se, por favor.
Todas as garotas que eu sabia que liam o Pérolas de Fox começaram a cochichar e dar risadinhas.
Charlie corou, respirou fundo e começou a falar:
– Olá, eu me chamo Charlie, tenho 16 anos, costumava estudar à tarde, mas mudei de horário. Gosto de tocar piano e comer pizza.
– Muito bem, pode se sentar. – falou o professor.
Charlie sentou-se na única cadeira vaga: uma atrás de mim.
– E aí? – sussurrou ele enquanto o professor começava a falar.
– Tô bem. E você? – perguntei.
– Melhor agora. Aí, eu quero convidar você para uma festa que terá. Quer ir? Quero provar para o Pérolas de Fox que eu não sou um nerd.
Sorri na hora e concordei com a cabeça.
**
Na hora do intervalo, Charlie sentou-se comigo e com as garotas e então eu perguntei:
– Que festa é essa?
Charlie deu um sorrisinho de canto e respondeu:
– Um baile funk que terá no salão de festas. Música alta... mas as bebidas que foram aprovadas foram apenas água, refrigerante e suco. Nada de bebidas alcoólicas.
A minha boca caiu, e as das meninas também.
– Tá dizendo que você quer me levar a um baile funk? – sussurrei.
Charlie concordou com a cabeça, mordendo o lábio e dando um sorriso.
– As meninas querem ir? – perguntou ele.
Larissa concordou com a cabeça, meio que sem convicção, e Kioko na hora negou.
– Não. Mulheres semi-nuas, jovens trocando salivas por todos os lados, aquelas músicas com letras terríveis... não, muito obrigada.
– Vamos, Kioko! – implorou Larissa.
Kioko respirou fundo e então concordou com a cabeça.
Charlie bateu palmas e então falou:
– Vai ser às nove. Eu passo no dormitório de vocês.
E então ele levantou da mesa e se foi.
Larissa virou-se para mim, com um sorriso gigantesco e murmurou:
– Quero ver você fazendo quadradinho de oito, Branca!
Fiz cara de assustada.
Afinal, o que era quadradinho de oito? Fiquei assustada só de pensar.
**
Já eram 19hrs quando eu e as garotas começamos a nos arrumar.
Larissa que separou algumas roupas nossas, e como Kioko não tinha nenhuma roupa que combinasse, Larissa emprestou algumas dela mesma.
Tomei meu banho e vesti minha roupa, logo depois fazendo a maquiagem.
Não demorou muito e logo eu estava pronta, andando pelo quarto com o salto. Eu havia meio que me desacostumado, mas logo eu estava desfilando pelo quarto enquanto Larissa batia palmas.
Kioko saiu do banheiro e vestiu sua roupa, dando umas voltas com o salto também.
Larissa incrivelmente não demorou muito, e exatamente às nove estávamos prontas.
Charlie bateu na porta e fomos logo atender.
Ele estava com uma calça jeans, uma camisa, um chapéu e um cordão grande que balançava em seu peito. Ele nos avaliou e disse:
– Vocês estão muito lindas!
Kioko bufou.
– Estou parecendo uma periguete.
Cutuquei seu braço.
– Você tá linda nesse vestido. Agora vamos logo. Aliás... Larissa, o Pedro vai?
Larissa sorriu.
– Obviamente. – respondeu ela.
Meu coração começou a palpitar. Se Pedro estaria lá, provavelmente ele também estaria...
Fechei a porta do quarto e segui as meninas e Charlie para o salão de festas.
Estávamos no corredor e já dava pra ouvir uma música.
O bonde passou, as novinhas observou
O bonde passou, as novinhas observou
Chegamos meio tímidas e eu vi a coisa mais louca possível. Ali estava lotado.
Estilo panicat, gosta do seu Facebook
Faz vídeo do Mc Gui, pra posta no YouTube
Eu tô na mira dela, ela tá na minha mira
Aí eu te pergunto
De onde veio essa novinha?
Entramos no salão e lá já haviam várias pessoas dançando. Era como Kioko falara: mulheres semi-nuas, jovens trocando salivas por todos os lados. Não haviam mesas. As mulheres rebolavam o bumbum para cima e para baixo.
Os homens observavam.
– Branca, olha o quadradinho de oito! – apontou Larissa.
Me assustei ao ver uma garota de cabeça para baixo mexendo o bumbum, formando um quadrado.
De repente, a música já tinha se metamorfoseado em outra.
Tapa, tapa, tá patrão
Quando dá uma hora da manhã
É que o bonde se prepara pra vibe
Abotoa a polo listrada
Dá um nó no cadarço, no tênis da Nike
Larissa já foi a procura do namorado, enquanto Charlie começou a dançar com uma garota estranha.
Joga o cabelo pra cima
Ou põe o boné que combina com a roupa
A picadilha pode ser de boy
Mas não vale esquecer que somos vida loca
Foi quando eu vi Leandro dançando, rebolando, beijando... Clara. Simplesmente.
As mais top vem do nosso lado
Ficam surpresas, ganha mó moral
Se o paparazzi chega nesse baile
Amanhã seu pai vê sua foto no jornal
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