Só Existe o Agora
5 "Não tenha medo"
Notas iniciais
Mais dias se passaram. O Natal se aproximava e era inevitável não entrar no clima. Mesmo para quem fosse averso à comemoração. Já era antevéspera e os preparativos na mansão Khoury continuavam.
No meio de toda aquela agitação, havia a aventura que o motorista e o copeiro se lançaram. Estava sento tão revigorante aquela relação que eles decidiram ter naquele momento. Explorando um sentimento até então desconhecido. Parecia estranho, mas fazia os dois se sentirem bem. Transformaram-se em adolescentes descobrindo a si mesmos.
Uma relação que não tinha definição e que era mantida em segredo dentro daquela casa. Não por medo, pois não seria um grande problema assim. Mas como eles assumiriam uma relação se nem mesmo eles sabiam o que eram naquele momento?
Durante a tarde, Wagner ainda tinha que cuidar dos últimos toques para a ceia. Ainda tinha que comprar muita coisa. Para comprar as comidas que faltavam, ele foi ao Mercadão de São Paulo. Era seu lugar favorito para escolher ingredientes. Sempre produtos frescos e variados para fazer a diferença na hora das refeições na mansão.
E mais uma vez, Maciel o levou até o local. Era quase sempre com ele que o tatuado ia aos lugares quando necessário. O motorista sabia os melhores caminhos para evitar os congestionamentos, que naquele dia estavam piores. Fora que era uma ótima companhia, principalmente no momento em que eles estavam.
— Vai ser dispensado quando, Maciel? — Perguntou se referindo ao dia seguinte.
— Não sei, deve ser lá pras seis da noite. Acho.
— Sorte sua. Eu acho que vou sair só lá pras uma. Talvez eu saia antes.
— E depois você vai pra onde?
— O que você acha? Dormir no quartinho. É o único lugar que eu posso ficar.
— É mesmo. Mas se você quiser, pode ficar na minha quitinete.
— Ué? Como assim.
— É. Não é tão grande assim, mas acho que cabe nós dois. É que eu só queria uma companhia pra amanhã, sabe? É Natal. E agora que a gente tá junto…
— Entendi. Eu também adoraria uma companhia nesse Natal. Se eu conseguir ser liberado, eu vou.
— Tem problema não. Eu fico te esperando. Eu compro umas cervejas aí e aproveito e te trago um presente.
— Presente? Poxa, Maciel, sabe que não precisa.
— Eu faço questão. Você foi o único que ficou comigo nesse últimos tempos. Queria te retribuir de alguma forma. — Os dois trocaram sorrisos.
— Você já me me faz muito bem. — Sorriu. — Mas eu vou aceitar teu convite. — Aproveito e trago uma marmita com o que sobrou. Sei que a gente vai estar faminto.
— E tem problema você pegar um pouco da comida que sobrou?
— Tem nada. Te garanto que vai sobrar muito daquela comida da ceia. Eu pegando um pouco não vai fazer muita diferença. Sabem como eles são.
— Eu sei. Bom, pelo menos vai ser bom estar com você amanhã a noite. Com ou sem comida.
— Vai ser mesmo.
— Sabe. Essa experiência de nós dois ficarmos juntos. Tô achando bem interessante. Fiquei pensando em algumas coisas aqui.
— No que pensou?
— Tudo isso acontecendo, tudo o que estou sentindo. Será que eu virei gay e não estou sabendo.
— Ué? Você não virou gay.
— É que, não sei. Nunca senti esse tipo de coisa por outro cara. E agora isso aconteceu.
— Ah. Eu não posso falar com tanta certeza. Mas eu acho que essas coisas não se vira. Acho que a gente descobre.
— Por que você fala isso?
— É que, sei lá, eu não acho que virei gay por causa disso.
— Falando desse jeito. Parece que já curtia a fruta. — Maciel viu o parceiro ficar em silêncio depois dessa. — Peraí, você já curtia?
— Ah. Não sei se é curtir. Mas já aconteceu no passado de aparecer os caras, e eu sentir algo diferente. Só isso.
— Nossa. Por que você nunca me contou isso?
— E fazia sentido eu contar? Se eu contasse era capaz de nem sermos amigos.
— Falando assim, parece que eu sou um ogro.
— Não é isso. É que… não é uma coisa que fica se contando por aí. E depois, isso não tem a menor importência.
— Tudo bem. Desculpa eu insistir nisso.
— Precisa se desculpar não, cara. A gente tá junto, e estamos nos abrindo. Faz parte. — Os dois trocaram sorrisos.
— Olha. Já chegamos. — O motorista fez umas manobras para estacionar o carro. — Você vai demorar muito?
— Depende. Se eu consegui encontrar o que eu preciso.
— Tudo bem, eu fico esperando aqui. Só não demora muito que eu ainda tenho mais gente pra levar nesse carro.
— Não vou, não. — Tirou o cinto. — Só mais uma coisa.
— Fale.
— É que… — Deu um sorriso malicioso. — Pode me dar um beijo?
— Um beijo? — Fez uma careta e deu risada.
— É, um beijinho. Só pra eu poder ir embora feliz.
— Tem certeza? Com o povo tudo olhando? — Olhando para o vidro aberto.
— É só rapidinho. Ninguém vai prestar atenção.
— Humm. — Olhou para os lados. — Tá bom.
Maciel aproximou seu rosto rápido e Wagner fez o mesmo. Deram um beijo curto, singelo. O barbudo jamais poderia negar isso à ele. Era muito reconfortante sentir aqueles lábios. Depois disso, o mordomo saiu do carro e se afastou. Enquanto isso, Maciel se sentou mais confortável no banco e deu um suspiro. Depois, saiu do carro para dar uma respirada.
O tempo estava mais ameno, então dava para tomar um ar. Estava tão distreaído com seus pensamentos que nem percebeu quem chegava por perto. Alguém muito familiar que viu toda aquela cena dentro do carro, inclusive o beijo.
— Pelas rugas de Matusalém. Maciel, quem diria, hein?
— Hein? — Ele se virou de costas. — Ah. Felix? O que você tá fazendo aqui?
— “Felix”? Pelo visto você perdeu o respeito, né criatura? O respeito e a vergonha na cara.
— Como assim?
— Ora como assim? Eu vi você e o mordomo se esfregando no carro da mami. Nem adianta mentir que eu vi com meus belos olhos.
— Você viu é?
— Quem diria, hein Maciel? Você com o tapete persa? Nunca imaginei. E olha que eu já insisti muito e você nem dava bola. Fazia a hétera mas gostava mesmo de pegar no freio de mão!
— Ei, você me respeite, viu? — Bradou. — Ou não sou mais seu empregado.
— Eu devo ter feito pole dance no cajado de Moisés pra estar passando por isso. — Resmungou.
— Cajado de quem?
— De ninguém, Maciel! De ninguém! — Gritou.
— Olha, vê se não implica comigo hoje, tá bom? Ou quer que eu te lembre da promessa que você me fez lá na casa da Márcia?
— Tá bom. — Abaixou o tom de voz. — Da minha boca não sai mais nada. — Passou o dedo mindinho na sobrancelha.
— Acho bom mesmo. Aliás, o que você está fazendo aqui?
— Eu vim com a Márcia, ela queria comprar algumas coisas pra amanhã e eu quis vir junto.
— E pelo visto, você não está tão junto dela. — O sarcasmo de Maciel era algo que surgia assim que Felix aparecia.
— É que eu vim falar com você. Queria saber como a mami poderosa está.
— Está bem, dentro do possível.
— E ela falou alguma coisa sobre mim.
— Não comigo. Sabe que eu só sou o motorista.
— Claro que sei, né criatura? Mas é bom ter alguém pra me informar o que acontece por lá.
— Sinto lhe dizer, mas não vai ser por muito tempo. Eu pedi demissão.
— Pediu demissão, mas como assim?
— Eu quis sair, só isso. Os motivos não interessa.
— Ah, entendi. Deve ter sentido a minha falta, por isso quis sair, né espertinho? — Ironizou.
— Vai sonhando.
— Nossa, Maciel. Só tava brincando. Mas enfim, você faz o que você quiser da vida. Eu vou indo senão a Márcia é capaz de depenar aquela flor de preocupação comigo. Até outro dia. — Levantou a cabeça e se afastou.
— Tá bom, vai lá. — Soltou um riso.
Maciel se divertia com os comentários nada discretos do seu ex-patrão. E o motorista sempre respondia a altura. O barbudo tinha um senso sarcástico bem afiado, que adorava usar quando era atiçado.
Uma noite e um dia se passaram. A esperada noite de Natal chegou. A área externa da mansão estava linda como todos os anos. As delicadas e pequenas luzes que ornamentavam todo o jardim deixavam o lugar mais aconchegante, assim como os singelos enfeites espalhados pela área. Fazia muito bem o trabalho de disfarçar o vazio em que aquela casa se encontrava.
Era umas dez e meia da noite quando Maciel chegou na mansão. Não estava com seu terno de sempre, estava de folga naquele dia. Vestia seu conjunto favorito de jaqueta e calça jeans, e por baixo, uma camiseta branca. Não era um figurino dos mais elegantes, mas eram as roupas que faziam ele sentir-se mais confortável. Não tinha o mesmo empenho de escolher o figurino mais requintado como o copeiro.
Com mãos nas costas, ele subia a pequena escadaria quando Wagner apareceu com um presente não mãos. Deu um sorriso quando viu o mais alto. Para o tatuado, seu parceiro ficava mais bonito tem aquela roupa toda formal. Parecia que o semblante e a posturas eram outros. Não era o motorista sisudo que estava à sua frente. Era apenas o Maciel Pereira.
Enquanto ele, sempre elegante. Mas daquela vez, com um figurino mais sério, como a ocasião pedia. Com uma camisa branca que estava ajeitada até os cotovelos, e uma gravata preta.
— Nossa. não advinhei que você chegaria tão cedo.
— É que tava sem fazer nada. Não me aguentei e vim antes.
— Fico feliz que tenha vindo agora. O clima lá dentro não tá dos melhores.
— Tá tão ruim assim?
— Ruim não tá. Mas tá bem desanimado. Já tô imaginando que vai sobrar comida para a semana inteira.
— Que coisa, hein?
— É, mas deixa pra lá. Não vamos falar dessas coisas chatas, não.
— É mesmo. — Estendeu sua mão lhe entregando uma sacola. — Toma, é pra você.
— Maciel, eu já te disse que não precisava me dar nada.
— Sabe que eu tenho meu orgulho, né? — Riu discretamente. — E eu só queria te oferecer alguma coisa. Já fez tanto por mim mesmo.
— Tá bom vai. — Pegou o seu presente e entregou o que estava em sua mão. — Eu também tenho um presente pra você.
— Brigado. — Sorriu, —Feliz Natal. — Disse em voz baixa.
— Feliz Natal pra você também. — Sorriu também.
Maciel abriu seu presente. Era uma pequena caixinha, Ficou impressionado com o que viu dentro. Um belo e elegante relógio de pulso.
— Nossa. Relógio bonito esse.
— É que você tinha me falado que aquele que você usava era velho e não estava funcionando direito. E também, já que você vai embora. Vai ser bom um relógio novo pro seu novo emprego.
— Nossa. Nem sei o que dizer.
— Não precisa dizer nada. — Sorriu. — Posso abrir o meu?
— Faça as honras.
Wagner começou a abrir o seu presente, era uma sacola maior. Era um colete cinza, mais um para a coleção do tatuado.
— Nossa, que lindo cara. — Disse olhando para a peça.
— Eu sei que você gosta muito de coletes. Eu vi isso na loja e logo pensei em você. — Riu tímido. — Sei que é só mais um que você vai ter.
— Que isso. Acho que eu vou fazer questão de usar. Na semana que vem mesmo. — Riu. — Aliás, acho que daqui a pouco eu já estou livre. Não tenho mais nada pra fazer aqui mesmo.
— Posso ficar no quartinho te esperando?
— Pude, claro. Se não for um problema.
— Claro que não. Aí a gente vai embora junto.
— E eu aproveito e eu trago a marmitinha. Pelo menos comida não faltar. — Os dois riram.
Assim que os risos cessaram, Maciel puxou Wagner e lançou um beijo. Sem se importar com mais nada. O mordomo nem ligou que o seu presente quase amassou.
— Seu besta. E se alguém vê a gente?
— Vê nada. Duvido que alguém vai passar aqui justo agora.
Wagner ficou alguns segundos fazendo manhã até eles voltarem a se beijar. Um beijo bem mais longo que o outro.
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