Síndrome de Alice
2 #02: Honra
Notas iniciais
#02: Honra.
Ele estava na minha frente, àquela coisa que tanto a Alice quanto aquela garota estranha comentaram, o meu Ego dos Sonhos.
Era sem dúvida igual á mim, se não fosse pelo cabelo arrumado e pelas roupas brilhantes que o mesmo usava acho que não daria para distinguir um do outro.
– Eu sou o Príncipe da Alice... – Disse o clone fazendo uma reverência. – Á seu dispor.
Atrás de mim, o grupo de antes havia parado para observar a mesma coisa que eu, porém não durou muito para que Meiske e a menina voltassem á fitar minha amiga.
– Agora que o óbvio aconteceu... Podemos continuar de onde paramos gêmea Alice? – Perguntou á maldita.
– Droga... Não vai dar para eu proteger o Rule deles e do Ego dos Sonhos... – Pensou Alice. – Preciso sair dessa rápido antes que meu corpo chegue ao limite.
Meiske se levantou dos destroços e posicionou-se para ficar preparado contra o próximo movimento que Alice faria.
– Colidam-se! – Exclamou Alice.
Com a ordem dada, o corpo dos dois inimigos foi levado um contra o outro e chocados com uma enorme força, fazendo-os caírem no chão de lados diferentes.
– Incrível gêmea Alice! – Parabenizou a maluca. – Sem dúvidas um poder digno de alguém como você!
A garota se levantou sem muita dificuldade e colocou a mão sobre seu braço esquerdo, afinal o mesmo havia sofrido uma colisão feia.
– Mas de certa forma eu já esperava algo como isso vindo de você... – Comentou a menina.
–... Quem é você? – Interrogou Alice. – Eu sei que faz parte daquela organização, porém... Por que se parece tanto comigo?
– Hoary Guillotine. – Apresentou-se Hoary. – Sou uma das novas membras da organização, eu vim nessa missão de treino com o Meiske para entender o que iremos enfrentar daqui em diante...
– Daqui em diante... – Sussurrou Alice.
– Contudo você não deveria perder sua atenção, não acha? – Sugeriu Hoary.
Meiske chegou por trás de minha amiga e cruzou seus braços no pescoço da mesma, forçando-os com força sobre a garganta dela.
– Droga! – Indagou Alice tentando respirar.
Alice tentava se movimentar contra aquela estrangulação, mas a mesma parecia não ter força para competir com Meiske, suas bochechas começavam a mudar de cor levemente.
Os olhos da minha amiga tentavam se mantiver abertos, porém a dor era muito maior do que parecia ser. As pálpebras continham-se, porém logo iriam se fechar.
– De fato sua habilidade é bastante poderosa, gêmea Alice. – Começou Hoary. – Mas sabe, a grande fraqueza é que só precisamos impedir que você conseguisse falar algo que estaremos seguros, além de que um poder como esse deve ter um limite de tempo, considerando a força que deve gastar para utilizá-lo.
– Seus...! – Alice forçou a cabeça para trás e a bateu contra a máscara de Meiske.
Uma pequena rachadura apareceu sobre o objeto que escondia a face da misteriosa pessoa, o mesmo pareceu se preocupar e acabou soltando-a, além de afastar-se significantemente dela.
– Droga Meiske... Com medinho só por causa da máscara?! – Exclamou Hoary furiosa.
– Cor... Corte... Corte-se... – Sussurrou Alice entre tosses.
Após a ordem mandada, um grande corte apareceu na barriga da oponente.
– O... Que... – Indagou Hoary.
Hoary caia de bunda no chão e sangue começava a aparecer por baixo de sua roupa e um pouco descia de seus lábios, a garota tentava estancar o dano com sua mão na barriga, contudo foi em vão.
– Sua... Vadia... – Xingou Hoary fechando um de seus olhos por causa da dor.
Minha amiga logo se virou na direção de Meiske, acho que depois de ter sido pega em uma armadilha daquelas, ela prestaria mais atenção no mascarado ao invés da louca Hoary.
– Vamos... – Chamou Alice suspirando entre as palavras.
–--x---
Enquanto isso, eu estava tentando debater com meu Ego dos Sonhos, mas só depois que iria perceber que foi uma péssima ideia...
– Então... Você seria eu no país das maravilhas? – Iniciei a conversa.
– Certamente, meu caro gêmeo. – Respondeu o clone cruzando os braços.
Engoli seco e parei para pensar um pouco, se o que aquelas duas tinham falado antes for verdade, então esse cara é incapaz de sobreviver enquanto eu estiver aqui e para que isso aconteça... Preciso morrer.
Porém até agora ele não tentou me matar ou fazer nada, algo que poderia ser bem aplicado enquanto eu estava distraído.
– Pelo que eu entendi dos Egos dos Sonhos... Você tomou a forma do meu sonho mais precioso e memorável, certo? – Continuei a perguntar.
– Com certeza, meu gêmeo. – Afirmava o clone.
– Então poderia me responder... Qual é ele? – Pedi enquanto engolia seco.
Mesmo estando um pouco preocupado por conta da situação em que eu estava ainda queria saber aquilo.
Qual seria meu sonho mais querido pelo subconsciente? Essa dúvida pairava sobre minha cabeça sem parar, contudo naquele momento sentia que finalmente acharia a resposta.
Todavia acho que era melhor não ter perguntado no final...
– Seu maior sonho é ser como eu. – Confirmou o Ego cruzando seus braços. – Um Príncipe capaz de proteger a sua tão amada princesa: Alice.
Por um momento minhas bochechas coraram levemente e eu levantei-me, mesmo com dificuldades, para olhá-lo de frente.
– O que quer dizer com isso? – Gaguejei um pouco em minhas falas.
– Ora... É mais do que óbvio o que eu quero lhe dizer. – Comentou o clone virando-se de costas. – Por quanto tempo mais você irá fingir que não entendeu?
De certa forma eu acho que consegui entender, mas ainda assim queria ter certeza se era realmente àquilo que pensei.
– Seu maior sonho é ser capaz de proteger a Alice... Mas espera... Tem certeza que é só isso? – O Ego começava a falar enquanto andava em círculos em volta de mim. – Exato, não é apenas isso. Você também deseja que ela goste de ti, não é?
Minha face ficou ainda mais rubra e eu decidi olhar para trás, por sorte a minha amiga e aqueles dois outros manés não estavam ouvindo a conversa que eu e meu clone estávamos tendo.
Aquilo era a hora perfeita para eu compreender mais ainda sobre os sonhos que esperava que fossem reais.
– Deseja que no futuro se casem, tenham filhos e que consiga proteger o sorriso que tanto lhe faz ficar abobalhado só de olhar... Né? – O Ego parava de andar quando ficava de frente para minhas costas. – Nós dois formamos um belo casal... Não acha?
Depois de ouvir tudo que meu clone tinha para dizer, meu coração estava palpitando rapidamente, digo... Já sabia que gostava dela, porém nunca poderia falar desses sentimentos tão abertamente como se fosse à coisa mais normal do mundo.
Por mais que aquelas duas dissessem que os Egos dos Sonhos eram pessoas malignas, pois apenas um de nós poderia sobreviver, eu não conseguia acreditar.
Até agora o mesmo respondeu e me obedeceu perfeitamente, não pareceu questionar nada e nem se achar superior ou mais original do que á mim.
– Mas... – Pude ouvir um barulho de uma lâmina sendo retirada de sua bainha. – Você está em nosso caminho.
...
Por um momento meus olhos pareceram ficar brancos, contudo assim que voltei ao normal eu tentei observar meu corpo, todavia tinha algo de errado...
A espada elegante que meu Ego estava carregando consegue agora estava fincada sobre minhas costas e aparecia do outro lado em minha barriga, aos poucos a camisa que eu trajava foi encharcando-se com o sangue.
– Esses sentimentos falsos que você sente por minha rainha... – O mesmo movimentava a arma branca pelo cabo, causando ainda mais dor para mim. – Jamais conseguirão chegar á pureza que tem o meu amor por ela...
Eu não conseguia me mover, não sei se era por causa da dor ou o choque daquele golpe que impediam meus movimentos. Só sabia que não estava em uma situação boa.
Já havia apanhado feio para aquele tal de Meiske, mas ser atingido por mim mesmo seria o fim da picada.
Além de que a lâmina dessa espada parecia contorcer-se dentro de mim por conta da força que o Ego colocava enquanto movimentava o cabo.
Finalmente o mesmo retirou a lâmina de mim e há balançou um pouco para que a sujeira do sangue fosse embora.
O clone fez dois cortes com a espada no ar, girou-a e no final a guardou dentro da bainha que carregava em sua cintura.
Sem muitas forças eu acabei caindo de joelhos e logo após deitei no chão, cansado.
O suor que passava pelo meu rosto não cessava de jeito nenhum, além de que a raiva que eu estava tendo por causa da minha ingenuidade de cair naquilo era critica.
Como eu não suspeitei que no final ele fosse sentir os mesmos sentimentos que tenho pela Alice e ficaria com ciúmes? Mesmo que de um jeito ou de outro o mesmo tentaria me matar, por que não deduzi que seria logo por esse?
Francamente... Aquele machucado não estava me ajudando para eu tentar reorganizar meus pensamentos e criar uma tática de tentar sair daquela situação.
– Agora se me der licença, eu necessito salvar a minha donzela em perigo. – Avisou o clone virando-se e começando á movimentar-se em direção onde Alice e os outros estavam.
Precisava pensar rápido, afinal com aquele maluco no meio ficaria ainda mais difícil para que minha amiga conseguisse escapar daquela situação.
Ela já estava tendo problemas demais com a garota sádica e aquele inimigo mascarado, pelo menos eu deveria conseguir cuidar de um sozinho.
Porém era meio que inútil se eu levasse em conta os ferimentos que meu corpo recebeu desde que cheguei aqui em no país das maravilhas.
Com o pouco de energia que me restava, eu levei minha mão até o bolso e peguei o Pocket Clock, abrindo-o na frente do meu campo de visão.
– 50 Minutos... – Sussurrei comigo mesmo.
Faltava pouco tempo para aquele pesadelo terminar, contudo se aquilo acabasse ali, como eu seria capaz de ajudar a Alice?
Ao invés de aumentar as chances dela voltar, eu apenas iria diminui-las se deixasse não só dois malucos por ela á solta e sim três!
Pense... Vamos... Preciso pensar em uma forma de escapar dessa situação, mas qual?!
Espera...
Se ele tem os mesmos sentimentos que eu tenho pela Alice, então tudo que senti em relação á essas coisas também o afetaria, espero.
Por hora esse plano era o mais sensato e menos perigoso que eu tinha para utilizar, tirando o fato de ser o único que pensei com toda aquela dor bagunçando minhas ideias.
Era hora de virar a mesa, pois dessa vez o jogo viraria para o meu lado com certeza!
– Ei... Meu clone... – Chamei-o entre alguns gaguejos.
O mesmo parou no meio do caminho e virou-se em minha direção, suspirou e perguntou:
– O que deseja agora? – Interrogou irritado. – Você não morre fácil, não é gêmeo?
– Gosta bastante da Alice, não é? – Comecei. – Digo pelo que eu sinto dentro de mim é muito... Então para você também, certo?
– Aonde quer chegar com isso? – O Ego cruzou os braços, ele estava ficando impaciente, porém eu precisava manter a conversa á qualquer custo.
– Indo direto ao assunto... – Estava na hora. – Se lembra daquele garoto que a Alice namorou?
Posso não ter visto, contudo com certeza eu senti que os olhos daquele meu clone se esbugalharam completamente!
Estava certo, o mesmo só sabia dos sentimentos que eu sentia. Qualquer outra coisa relacionada á Alice aquele cara não fazia a menor ideia!
– Quem ela... Está brincando... – O meu Ego cerrava os punhos fortemente. – Isso é mentira, a pureza da minha rainha só pertence á mim, você ouviu seu vassalo de merda?!
– Errado. – Retruquei me virando de frente para o mesmo enquanto eu ainda permanecia sobre o chão. – O menino que ela namorou 2 anos atrás... Não se lembra do quanto ficou com raiva? Do quanto quis que ela e ele terminassem? Do quanto... Você desejou que a única felicidade que a mesma poderia ter seria conosco?
– Calado! – Exclamou o clone retirando sua espada e posicionando-se. – Você entende o nível da calamidade do qual está mexendo, gêmeo?!
– É claro que sei... – Avisei. – A diferença é que eu sei de coisas da Alice que você jamais saberá Ego.
As pernas do meu clone começaram á tremer um pouco, isso! Não acredito que aquelas coisas que eu estava falando realmente causaram algum tipo de efeito.
Porém eu não podia parar e deixar daquele jeito. Deveria continuar e fazer com que a raiva dele ultrapasse limites para que o mesmo cometa alguma loucura...
– Diz que é o príncipe dela e todas essas outras coisas, contudo será que você é capaz de responder qual é a cor favorita dela? O filme? A comida? A flor? – Continuava enchendo-o de perguntas.
Aos poucos o Ego foi andando para trás e o medo começava a transparecer pela face dele.
– Pare... – Pediu o clone.
– Não sabe de nada sobre ela, não entende como conseguiu deixar que a mesma namorasse com alguém daquele tipo... – Usando as últimas forças do meu braço direito e minhas pernas, consegui-me por de pé. – Você é... Lamentável.
– Não! – Gritou o Ego fazendo com que sua voz ecoasse pela cidade. –
O mesmo havia entrado em estado de loucura, lançou sua espada e a bainha para qualquer lugar e caiu de joelhos no chão, apertando seus cabelos fortemente com as mãos.
– Eu sou tão desprezível! Fui traído pela minha própria rainha, a pureza dela jamais será minha e eu não conheço nenhuma informação primária dela! – Exclamava o clone sem piedade sobre si mesmo. – Me mate!
O Ego bateu sua cabeça no chão e começou a chorar enquanto deixava alguns soluços escaparem.
Eu andei com dificuldades até a frente do mesmo e abaixei-me para pegar a espada. Segurei-a com a mão direita e usei de apoio para ficar de pé novamente.
– Sabe... Agora que eu posso falar isso sem me arrepender... – Posicionei a espada no pescoço do meu clone. – Vá se danar.
Balancei a lâmina.
Pude sentir claramente o recuar da minha mão, entretanto já era tarda demais, a cabeça do meu clone saiu rolando para o outro lado da cidade e o corpo do mesmo virou-se.
Após isso eu cheguei ao meu limite, deixei que o peso que estava sobre meu corpo controlasse-me e caia no chão exausto.
Fitei o céu do País das Maravilhas uma última vez e peguei o relógio de bolso, abrindo-o e olhando o tempo restante.
“10 Minutos...”
– O tempo aqui passa rápido... – Comentei. – Até demais.
Acabei ficando sem forças e soltei o objeto que caiu sobre meu peito, minha mão deitou-se sobre mim também e meus globos oculares apenas fizeram o que deviam ter feito á muito tempo atrás: Descansaram.
–--x---
Enquanto isso Alice simplesmente continuava á permanecer de pé na luta contra aqueles outros dois malucos.
Mas naquele momento Meiske e Hoary estavam um do lado do outro, a garota mantinha-se apoiada á um destroço que permanecia atrás dela enquanto o mascarado ficava de pé fitando Alice sem descanso.
De certa forma a coisa havia ficado um pouco mais fácil para minha amiga, afinal agora os dois estavam juntos e ela não precisaria ficar virando de um lado para o outro.
Porém mesmo assim ela não atacava, não acho que seja porque não queria, mas sim porque não conseguia.
A habilidade dela tinha um grande poder, contudo coisas incríveis assim não vêm de um preço barato.
Não creio que a mesma tinha que fazer algum tipo de sacrifício para continuar com o poder ativado, contudo eu chuto que ela devia gastar uma grande energia.
Afinal tudo que Alice precisava fazer para atacar era falar uma palavra que aquilo iria ser realizado, não importava quão bobo ou irreal fosse.
Eu estava começando a entender porque Hoary referia-se á ela como algum tipo de deusa.
De qualquer forma, o silêncio foi destruído por conta de Hoary que decidiu voltar á conversar com minha amiga.
– Por que não continua atacando? – Perguntou Hoary arfando. – Está sentindo pena de nós agora, gêmea Alice?
Alice engoliu seco e deu dois passos para trás, a mesma estava começando a suar mais do que antes, mas ainda assim ela permanecia de pé.
– Eles já estão percebendo que tem algo de errado... Caso descubram sobre o limite da minha habilidade, não apenas eu... Mas o Rule também estará em perigo. – Pensava Alice. – Levando em conta o tanto de energia que gastei com as palavras utilizadas contra o mascarado e a Hoary... Devo conseguir usar mais duas vezes, porém chegarei ao meu limite...
Minha amiga revirou os olhos levemente para o meu lado, naquele momento eu ainda estava fazendo perguntas bestas para o meu Ego dos Sonhos, então tudo ocorria bem.
Sem demorar muito, Alice voltou seu olhar para a dupla que se mantinha estacionada na frente dela.
– Palavras de Deus, essa habilidade da gêmea Alice é realmente poderosa... Mas a organização não tem muito conhecimento sobre a mesma, as únicas informações que temos é que ela é capaz de mandar na realidade apenas com palavras. – Pensava Hoary. – Se isso fosse verdade, no instante em que a vadia ativou o poder, por que ela simplesmente não falou “Morram”? Seria mais fácil do que apenas falar “Saia” ou “Corte-se”.
Pelo visto não duraria muito tempo para que aquela parada que os mesmos deram na briga acabasse aos poucos. Hoary parecia começar a entender mais do poder da minha amiga, algo que eu não esperava que uma doida como ela pudesse ser capaz.
Alice tinha que arranjar um jeito de acabar com aqueles dois naquele momento, pois mais á frente acredito que seja impossível...
– Vamos... Preciso pensar mais... Cada vez que ela usou a habilidade, o que mudou? Tirando que a mesma está suando sem parar... – Hoary continuava tentando deduzir o significado daquilo. – Suar... Espera... Não deve ser apenas isso... Um simples cansaço acelerado por conta do poder dessa habilidade seria muito fútil e fraco para ser a consequência por ter tamanha força.
– É Algo a mais... Algo que a impeça de simplesmente falar para morrermos e acabar com tudo isso de uma vez... – Hoary mordia seu lábio inferior. – Vamos lá... Deixe-me infiltrar ainda mais á fundo na sua mente para descobrir a verdade, gêmea Alice...
– Quebre! – Gritou Alice repentinamente.
O susto foi tão grande para Meiske e Hoary que os mesmos não perceberam que o pouco que sobrara do prédio atrás deles desmoronou em cima dos próprios.
Uma cortina de poeira se levantou e minha amiga acabou se ajoelhando enquanto suspirava pesadamente.
– Acho que com isso deve ter acabado... – Disse Alice cansada.
Porém foi cedo demais para que minha amiga iniciasse a comemoração, dos destroços uma mão saiu e retirou alguns pedaços de pedra da frente, deixando um buraco para saída.
Assim Meiske e Hoary conseguiram sair daquele entulho de pedregulhos, contudo estavam mais feridos do que antes.
Com os cabelos sobre seus olhos e apenas linhas de sangue podendo ser vistas em sua boca, Hoary abriu um sorriso malicioso e começou seu discurso.
– Agora sim eu pude compreender completamente sua habilidade “Palavras de Deus” gêmea Alice. – Avisou Hoary. – Isso lhe dá o poder de forçar a realidade á obedecer à palavra que você diga enquanto ela está ativada... Contudo nada é tão fácil.
– Metade do dano que essa ação causar na realidade ou em seu alvo será lançado no seu corpo como pagamento por ter algo tão desumano. – Continuou Hoary enquanto cruzava os braços. – Por isso não falou para morrermos de uma vez, o dano que levaria por matar duas pessoas seria o mesmo que se matar.
Os olhos de Alice esbugalharam enquanto a mesma ouvia tudo o que Hoary tinha para dizer, seu nervosismo só foi aumentando á cada palavra dita pela albina.
Pela aparência e o modo como minha amiga estava naquele momento, devo dizer que aquela garota paranoica havia conseguido acertar de algum jeito.
– Pelo seu silêncio devo deduzir que acertei... Agora que consegui descobrir o modo como você usa e paga por isso, poderei usar a MINHA habilidade. – Disse Hoary tirando uma carta de avental, o problema é que ela tinha o mesmo símbolo de estrela que a da minha amiga. – Você não é a única estrela existente...
A carta de Hoary se transformava em um círculo amarelado com a mesma imagem da carta e ia até a testa da mesma, grudando ali e se fixando.
– “Condenação”. – Disse Hoary.
O céu do país das maravilhas inteiro ficava negro e várias faíscas passavam por todas as nuvens, aos poucos um gigantesco e grotesco portão descia daquela altura e pousava atrás da albina e do mascarado.
Aquele portão parecia ser feito de diamante e continha a estátua de uma mulher presa por correntes no centro de si, sem comentar os espinhos que se espalhavam por todo o resto do objeto.
De algum jeito aquela era a habilidade daquela louca, mas devo admitir que até fizesse sentido, afinal pessoas sem coisa boa na cabeça tinham que ter uma habilidade tenebrosa.
– Em nome da minha habilidade “Condenação”, eu condeno você por tudo que fez nesses tempos que passou no País das Maravilhas, gêmea Alice. – Explicou Hoary. – Julgue-a!
As portas do portão se abriram levemente e dentro do mesmo, por mais estranho que fosse existia um vácuo enorme.
O mesmo começou a sugar tudo que estava á sua frente aos poucos até que o vento chegasse a um nível critico e levasse minha amiga para dentro de lá.
De alguma forma, eu não estava sendo afetado por causa daquilo e olha que desmaiei fazia poucos minutos.
– Pare! Pare! Solte-me! – Exclamava Alice em desespero. – Eu não consigo usar minha habilidade, o que é isso?!
– Surpresa minha gêmea?! – Gritou Hoary. – Minha habilidade só pode ser utilizada após eu descobrir como funciona o poder do meu oponente e que tipo de pagamento ele deve fazer para usá-lo caso exista! Ao saber disso, posso ativá-lo e mandar o meu alvo á uma dimensão controlada por mim! Ah... E Para retirar sua dúvida, enquanto minha Condenação estiver fixada para atingir uma pessoa, essa pessoa se torna incapaz de usar sua própria habilidade.
No final, Alice acabou sendo engolida pelo vácuo e as portas do portão se fecharam.
Após isso o mesmo começou a ficar invisível aos poucos até desaparecer completamente da vista de qualquer um.
– Ai... Essa condição de usar minha habilidade é realmente um pé no saco... – Resmungou Hoary. – Não acha Meiske?
O mascarado nem pareceu ouvir o que aquela albina estava falando, o mesmo observava meu corpo zumbi estirado no chão.
– Ignore-o, a organização não deseja nada dele mesmo. – Disse Hoary. – Vamos embora agora.
A garota se virou e começou a andar para o local da onde a mesma tinha vindo, depois de um tempo pensando, Meiske fez o mesmo.
Não demorou muito para que a dupla desaparecesse e não sobrasse mais ninguém ali, tirando eu.
Contudo o horário do relógio de bolso logo se esgotou e o mesmo se transformou em uma luz negra que me encobriu completamente, levando-me de volta.
Pois é, tudo havia acabado ali.
Eu consegui derrotar meu Ego dos Sonhos, mas fiquei sem energias para ajudar minha amiga e acabei perdendo-a de vista novamente.
Tirando que conhecia dois malucos que jamais irei querer ver novamente em minha frente, porém creio que caso eu queira trazer a Alice de volta será inevitável que terei que topar com os mesmos novamente...
Contudo espero que não tenha que acontecer isso.
–--x---
Aos poucos eu fui abrindo os meus olhos, com a minha consciência sendo recobrada, consegui notar que havia voltado para o meu quarto.
Nada havia mudado, no chão dele ainda existia aquela caixa com o chocolate e a carta, além de que a porta não apresentava ter sido aberta ou algo do tipo.
Levantei-me da cama lentamente e observei o local por um inteiro, parecia que fazia anos que eu não estava nele.
– Que horas... São? – Perguntei para mim mesmo.
Andei até a porta trancada e a destranquei, saindo de lá e descendo as escadas que levavam até a sala de estar.
Tudo estava escuro lá em baixo, a única luz que podia ser vista era a da lareira que meu pai e minha mãe ascenderam antes de irem dormir.
No canto do cômodo estava à árvore de natal, por um momento uma pequena lágrima desceu de meu olho direito.
Acabei percebendo que não ajudei á arrumar a árvore com minha família, mas não era só por causa disso.
Pensando em como a Alice se sentia sozinha sem ter nenhum familiar por perto e ser incapaz de fazer coisas que famílias normais fariam, eu fiquei com medo.
A vontade que tinha de correr, subir as escadas e abraça-los era bastante grande, porém decidi deixar para lá e apenas limpei a lágrima.
A mesa de jantar que ficava alguns centímetros longe da árvore tinha sobre a mesma um prato com alumínio por cima.
Andei até o mesmo e retirei aquilo, revelando que era o jantar que minha mãe havia feito para hoje.
Macarronada com salsicha, o meu preferido. Assim que terminei de fita-lo, cobri o mesmo novamente e andei até o sofá que ficava de frente para a lareira, sentando sobre ele.
– Deve estar bem tarde... – Comentei. – Me pergunto se o tempo que passa no País das Maravilhas é diferente do que passa aqui...
Enquanto eu observava as chamas da lareira se propagando pela madeira, vários pensamentos começaram a passar em minha cabeça.
Todos os machucados que havia levado no País das Maravilhas era como se não existissem, a dor e o sangue que encobriram meu corpo quase que por inteiro, ao eu acordar não existiam mais.
Claro que isso era óbvio, afinal tudo aquilo era um sonho, porém mesmo assim parecia tudo muito real...
Contudo a coisa que mais me preocupava não era aquele realismo estranho que poderia existir em um sonho, mas sim a dupla que conseguiu sequestrar a Alice.
Meiske e Hoary.
Esses eram os nomes deles, pelo menos eu conseguia lembrar, o que já era um ponto positivo em tudo aquilo que passei.
O problema maior é: Para onde a levaram? E por que levarem logo a minha amiga?
Acho que a resposta mais plausível seria por conta da “habilidade” que ela tem, o que a faz ser vista como um tipo de deusa por aquela garota paranoica.
Mas mesmo assim eu ainda não conseguia acreditar que isso seria motivo o suficiente para caçar uma menina como a Alice.
– Além de que... Agora que eu matei meu Ego dos Sonhos, caso eu volte para lá... Conseguirei minha própria Carta Imaginária... – Comentei comigo mesmo. -... Se eu tivesse ficado acordado, acho que poderia ajuda-la mesmo que fosse pouco utilizando minha habilidade.
Posso ter falado isso, porém acredito que eu apenas atrapalharia porque não seria apenas pegar a carta e falar o tipo de poder que gostaria, pois de acordo com a Alice, os naipes já tem uma habilidade primaria que devemos utilizar para modelar algo nosso á partir disso.
Levando em conta o tempo que eu levaria para entender o poder primário do naipe e só depois conseguir criar o meu próprio... O resultado ainda seria o mesmo, creio.
Cerrei meus punhos com força e deixei um suspiro escapar dentre meus pensamentos, pensar em todas essas coisas estava me irritando.
Então simplesmente me levantei e subi as escadas, voltando para o meu quarto e fechando a porta.
Joguei meu corpo sobre a minha cama e fiquei de costas para cima, enquanto minha cabeça ficou afundada no travesseiro.
Não queria mais pensar em nada daquilo, apenas desejava ter o bom e merecido descanso que eu merecia por ter aguentado tudo aquilo...
Pouco tempo depois, meus olhos se apagaram e eu fui levado pelos sonhos.
...
No dia seguinte eu acabei sendo acordado pelas batidas continuas que minha mãe fazia na porta do meu quarto.
Levantei-me e ouvi o mesmo resmungo de sempre: “Você vai se atrasar”.
Fui para o banheiro, escovei os dentes e tomei banho, após isso troquei de roupa e coloquei o uniforme de frio da escola: uma camisa social azul escura com mangas que cobriam o braço e a mão por completo junto com uma calça preta que chegava á altura do tênis.
Desci e tomei o café da manhã, meus familiares não perguntaram nada de ontem e apenas me desejaram sorte no caminho para a escola.
Sai de lá e comecei a correr, por mais perto que a instituição fosse, eu ainda acordava bem tarde e graças á isso tinha que ser rápido na ida.
Ao chegar ao portão, eu estava um pouco cansado, contudo nada que me impedisse de continuar.
Adentrei no lugar e subi até a minha sala, abri a porta e vi que todos já haviam chegado, eu tinha sido o último.
E claro... O sinal já devia ter tocado por conta da professora estar na sala.
– Me deixa adivinhar... Ficarei depois da escola novamente? – Perguntei.
– Dessa vez não. – Respondeu a professora. – Pra falar a verdade, já iria te pedir para entregar alguns papeis de estudo para o Neko.
Estranhei a resposta da velha e um pouco confuso continue a conversa:
– Neko? Papeis de estudo? Como assim? – Interroguei.
– Neko é um aluno que... Bem... Ele tem problemas sobre vir até aqui a escola, então o mesmo estuda e faz as atividades e provas em casa. – Explicou a professora. – A antiga representante de classe entregava as coisas dele, mas agora que ela saiu temos que ficar variando de pessoa em pessoa.
–... Então é minha vez de entregar essas coisas para o recluso? – Deduzi.
– Senhor Samoh! Não chame um colega de classe por um nome tão ofensivo. – Repreendeu a professora.
– Certo. – Concordei enquanto andava até minha mesa.
Depois de todo o horário da escola, eu já estava me preparando para ir embora, já devia ser 13h10min quando a professora parou na minha frente.
Ela me deu os livros e papeis que deveria entregar junto com uma folha que mostrava o caminho para casa do menino.
Realmente não ia ter jeito, eu acabaria tendo que bancar a babá de um isolado, porém decidi deixar de lado.
Segui o caminho exatamente como dizia na folha e acabei chegando a um bairro humilde, o mesmo morava em uma casa normal, ela tinha dois andares e um pequeno quintal do lado de fora, além de uma garagem.
– Certo... Vamos lá. – Toquei a campainha e esperei até que alguém me respondesse.
Após um pequeno tempo uma voz meio tremula e um pouco medonha me respondeu.
– O... Que... Deseja... ? – Perguntou a voz gaguejando.
– Vim entregar os papeis de estudo e os livros que a professora mandou cara. – Respondi.
Um silêncio veio logo em seguida e eu pude ver a porta sendo aberta, quando a mesma foi totalmente escancarada, consegui ver a imagem do tal garoto.
O estranho tinha cabelos pretos lisos que chegavam até seu pescoço e suas íris eram vermelhas, usava um casaco vermelho aberto e por baixo uma camisa preta, sua calça era branca e estava um pouco surrada, o mesmo não trajava tênis.
Ele andou com um pouco de dificuldade visto que tentava proteger sua face do sol utilizando os braços.
– Esse ai tem realmente problemas... – Pensei.
O garoto até mim e abriu o portão, pegou as coisas, o fechou e saiu correndo de volta para casa, mas caiu no meio do caminho.
– Precisa... De ajuda? – Perguntei.
–... Não. – Respondeu ele se recuperando e voltando para casa, trancando a porta.
– Sinceramente... Da próxima vez irei pedir para que a professora me deixe depois da aula na escola e não me mande aqui para entregar essas coisas pra ele... – Cocei um pouco a cabeça e sai andando de lá.
– Mas isso não importa... Depois que eu almoçar e descansar um pouco voltarei para o País das Maravilhas... E além de criar minha habilidade, tentarei achar um jeito de salvar a Alice! – Pensei comigo mesmo determinado.
Cerrei meu punho direito um pouco e sorri levemente, eu realmente estava determinado á salvar minha amiga, não importa o que acontecer!
=== Fin. ===
A espada que mostra seu brilho pela primeira vez.
...
Uma pessoa que perdeu sua alma se isola da vida.
...
O lamento de um casal.
Próximo Capitulo: Significado.
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