Série Pacto - Conspiração

18 Todos os movimentos certos


Notas iniciais
LIVRO II - AMALDIÇOADOS “O sol brilha todo dia, mas está longe O mundo inteiro está morto. Eles têm todos os amigos certos nos lugares certos [...] Nós temos todos os movimentos certos nos rostos errados, Então sim, nós seremos derrotados” All The Right Moves One Republic

Eu estava diante do grande espelho no quarto dos meus pais. Que haviam me dado toda a privacidade e tempo necessário para que eu me preparasse para a festa.

Eu estava nervosa. Não só pela festa em si, mas pelo que aconteceria nessa noite.

Eu e Jacques.

Eu mal tinha acreditado, na semana anterior, quando fora entregar o anel, que ele diria o que disse, e faria o que fez. A parte em que tinha pedido pra que eu o ajudasse a se livrar dos fantasmas e o pedido de confiança. A primeira decisão não dera muito o que pensar, eu o amava, e ele queria voltar a fazer isso, jamais rejeitaria aquele pedido.

Somente a segunda decisão pesou mais. Eu não sabia o que fazer. Havia tantas coisas para se colocar na balança e pesar...

Mas eu confiaria nele. Eu precisava. Caso contrário, eu não poderia tê-lo. E eu o queria, eu o amava.

Minha avó, obviamente ficou mais que consternada com minha decisão. Completara uma semana de sua chegada, e ela se ajustou ao nosso ritmo como se sempre estivesse vivendo conosco.

Tirou muitas de minhas dúvidas sobre minha nova condição. Um exemplo eram aquelas visões estranhas, que havia tido, algumas vezes ao tocar Jacques.

Óh, isso é um dom que nem todas nós possuímos. Você tem sorte – ela sorrira, o mesmo sorriso do meu pai, que ficara feliz como um garotinho de rever a mãe depois de tantos anos – Se chama Impressão.

Mas por quê eu só vi coisas dele? Não é como se eu não encostasse em mais ninguém – tornei, torcendo a ponta do cobertor que tinha em cima de mim. O jardim era muito frio no Inverno – E teve umas vezes que eu fui Anne, e também Claire.

Não sei, querida, eu não tenho essa habilidade. Mas pode ser , talvez, por você se sentir mais próxima dele, ou porquê, bem, o ama – ela disse isso a contragosto, mas não de modo agressivo – E no caso das impressões sobre Anne e Claire, ele as conheceu, e você tem o sangue delas, às vezes acontece de vermos coisas de nossos antepassados. Agora não sei o que causou isso, você mesma ou sua aproximação com Jacques, nem tudo pode ser explicado.

E aquele sonho, vó? — essa parte era a mais alarmante pra mim, o sonho-pesadelo parecera real demais, pressageador demais, se formos analisar que nele meu irmão usava fogo (o que descobri que ele podia fazer mesmo), ou mesmo aquilo do vestido.

Bem, isso é comum, temos uma sensibilidade a emoções muito grande, às energias ao nosso redor. Sonhos costumam nos mostrar coisas que estão diante de nós e não vemos, como o caso do meu neto! — ela riu, feliz – Que incrível, um mago! Sabe, já expliquei que eles foram raríssimos, mas poderosos, e ter um na família é motivo de muito orgulho!? Homens em geral não tem habilidade com magia, mas às vezes, um nasce com ela no sangue e voilá! Aqui está seu irmão, assim como Merlim! — ela voltou a sua postura objetiva – Não despreze seus sonhos, mas tampouco faça deles algo pra se preocupar demais, querida. Como nós, sonhos podem ser bastante confusos.

Fiquei mais calma depois, mas certamente não esqueci a parte de não desprezá-los.

Houve também uma espécie de localização mental, quando tivemos que resgatar Alexandra de um outro vampiro. Eu soube onde ela estava, ou pelo menos deduzi depois.

Vovó sorriu pra mim.

- Em momento de grande tensão minha neta, nós bruxas, tendemos a demonstrar algumas capacidades bem impressionantes. Provavelmente foi o que aconteceu com você. É normal, não há com o que se preocupar.

Então meu irmão entrou gritando pela vovó no jardim. Queria que ela visse o que ele podia fazer pelo fogão sem ter gás.

Virei os olhos, mas vovó sorriu com apreciação e diversão. Graças à Deus meus pais estavam no mercado fazendo compras – incluindo um novo bujão de gás – então não puderam o ouvir se exibindo. Mas logo pensei que ele nunca ia mostrar o que sabia fazer aos nossos pais. Era essencial que eles ficassem de fora do assunto. Regra do nosso povo. Questão de segurança de ambas as partes. Eu concordava em número e grau.

Em todo caso eu estava feliz. Jean não havia mais me procurado, embora, pra total ira dos D'Crécy ele tenha aparecido na faculdade, matriculado no curso de Engenharia. Me lembre de um certo caçador de vampiros totalmente surtado depois de saber da notícia. Átila teria o acertado na hora se não fosse por Alexandra e eu o termos segurado, e dizendo que não seria bom pra ele ir parar numa delegacia por porte ilegal de armas. E talvez por homicídio culposo, como lembrou a filha do juíz, Alê.

Mesmo que soubéssemos que o infeliz não morreria.

Diante de tais argumentos, ele decididamente sentou sua bunda na cadeira de plástico da mesa onde estávamos na cantina.

Quanto ao Jacques, apesar do que tinha acontecido, não nos vimos muito, a não ser em sala de aula. Às vezes ficávamos juntos na hora do intervalo.

Seu pai havia ligado da Escócia, dizendo que agora surgira uns problemas por lá, mas estava bem e logo voltaria pra casa. Pelo menos eu ficava parando de sentir aquela fisgada de ansiedade e temor o tempo inteiro. Na verdade, o que eu sentia mais, o que era reforçado por minhas próprias emoções era excitação e impaciência.

Eu queria tanto que a festa chegasse logo!

Bem agora ela estava ali, e meu coração estava saindo pela boca.

Arrumei os cachos reunidos no topo da minha cabeça, e que caiam pelos meus ombros. Depois alisei a saia do vestido vermelho, mesmo que ele não estivesse nem um pouco amassado. O corpete tinha moldado minha cintura e meus seios de uma forma afrontosa. Eu parecia ótima, realmente deslumbrante.

Minha máscara rendada me dava um ar misterioso, mesmo que eu fosse facilmente identificável com ela. Parecia o figurino perfeito pra um baile de máscaras. Fui até onde estava minha família e amigos, amontoados na sala.

E apesar do meu coração estar na garganta, tudo que eu queria fazer agora era ir pra minha festa – cuja localização não me tinha sido revelada, em falar em injustiça – e não ter que esperar muito por Jacques.

Afinal, faltava uma meia hora pra mim aparecer, não ia doer se eu chegasse mais cedo. Mas minha melhor amiga, seguindo seu protocolo de muito boa educação me disse que eu teria que esperar como uma boa menina, fazendo Átila ter de espremer os lábios pra não rir, e meus pais e avó sorrirem uns para os outros.

Posso saber por quê está com tanta pressa, hem? — me perguntou, com olhos escuros estreitos, enquanto eu fingia arrumar minhas luvas pretas que subiam até meus cotovelos.

Alexandra estava completamente incrível esta noite. Qualquer princesa de contos de fada morreria só pra usar seu vestido. Era rosa-claro, com o corpete feito de renda, que ia se estendendo por seu colo e braços, terminando em lindos arremates da babadinhos em seus punhos. A saia esvoaçava e sussurrava, as grandes camadas de musselina roçando o chão. O cabelo dela estava amontoado no alto, como o meu, mas eu não tinha uma pequena coroa. A máscara dela era simples, de seda branca. Pra quem duvidasse, Cinderela estaria na minha festa.

Nada, apenas estou ansiosa e impaciente, o que isso tem de mal? — tentei manter um tom inocente, mas ela não baixou a guarda. Merda. Ela era esperta demais.

Até parece que vai me enganar com esse papinho. Anda, me fala, está com pressa por quê?

Eu olhei ao redor na sala. Estava todo mundo ocupado conversando, menos meu irmão, que digitava mensagens em seu celular. Provavelmente para Amelie. Eles obviamente eram mais que amigos pelo que eu notava.

Eu acho que não tenho que te explicar nada! — exclamei, realmente incomodada – Não posso ter um pouco de privacidade?

Não, não pode, desembucha – Alê sorriu, sem se deixar abalar – É o Jacques, não é? Tem que ter haver com ele, Marc me relatou que seu irmão andou avoado essa semana inteira, e de acordo com ele Jacques nunca foi do tipo avoado, é sempre muito pé no chão.

Bem, talvez ele possa ter mudado, não?

Acorda, ninguém muda tanto de uma semana pra outra. Até porque Marc também disse que ele ficou sorrindo sozinho por várias vezes, e aparentemente isso também não é normal. Eu mesma sei o quanto esse cara não é dado a mostrar os dentes. Então, me diz, o que está havendo?

Suspirei, exasperada. Será que alguém ia sentir falta se eu a estrangulasse???

Ah, sim, me lembrei. Eu sentiria falta. E Átila. E Marc, especialmente Marc. Então desisti dessa ideia.

E nem pense que não reparei que vocês dois não estão mais rusgando um pro outro, já que ficam de conversinha muitas vezes na faculdade e... — ela continuou ante meu silêncio.

Tá legal! — grunhi, erguendo as mãos pro alto – Nós estamos, não sei, nos entendendo! E quero vê-lo o mais rápido possível, satisfeita agora?

Na verdade ainda não, porque sei que você não me contou tudo – ela insistiu, seu olhar clínico percorrendo meu rosto.

Alê! — gemi, virando os olhos, cansada.

Ela ergueu uma sobrancelha, esperando.

Meu Deus, como Marc te aguenta é um mistério! Você fica fazendo perguntas invasivas pra ele o tempo inteiro e o deixando embaraçado?

Alexandra riu.

Bem, ele responde porque é sábio o suficiente pra sacar que enquanto não tenho uma coisa, não costumo desistir, então ele facilita bastante. E então, você vai facilitar?

Tenho escolha?

Você sabe que não.

Eu vou...bem, vai acontecer, hoje, com Jacques. Se é que está me entendendo – respondi, querendo me esconder embaixo de alguma coisa. Talvez do tapete?

Pra meu pasmo, Alê não soltou um gritinho alegre, que iria me constranger até a morte.

Bem, estava mais do que na hora. O lugar onde vamos tem quartos, aproveite e seja feliz – ela sorria, seus olhos negros tinindo de alegria. Por mim. Ela estava feliz por mim.

Meu Deus, o que aconteceu com você? — indaguei, piscando, sem entender nada – Achei que ia dar um escândalo, como seria previsível, foi Marc que fez alguma espécie de lavagem cerebral em você, é?

Alexandra ergueu sua sobrancelha escura, com superioridade, mas o sorriso continuou em seus lábios pintados de gloss transparente.

Ninguém fez lavagem cerebral em mim, sua monte. Apenas sei que não é nada legal gritar sobre a vida sexual das pessoas por aí.

Bem, você faz ótima propaganda da sua! — ri, e fiz minha amiga acompanhar.

De novo, eu digo que você é uma monte — ela murmurou, limpando as lágrimas de riso – Eu só revelo os detalhes picantes pra você, e espero pelos seus detalhes também, depois que voltar pra casa.

Veremos – respondi, evasiva. Era isso que eu temia.

Meia hora depois, suando as palmas das mãos, meu pai resolveu acabar com minha tortura.

Vamos indo, pessoal?! Temos uma festa pra comparecer! — ele sorriu exultante pra mim e se aproximou, oferecendo o braço.

Eu aceitei e fiz um curvatura com o corpo, o que fez todos rirem.

Você está fantástica, minha filha! — ele disse no meu ouvido, enquanto nos dirigíamos para a garagem.

Alexandra saiu pela porta da frente, para pegar seu próprio automóvel. Ela e Átila seguiriam conosco até metade do caminho e então iriam buscar Suzana.

Meu irmão nos deu tchauzinho com a mão quando mamãe apertou o controle, e a porta da garagem subiu. Ele seria o acompanhante de Amelie, então iria com ela, Alienor e Hugo até a festa.

Provavelmente ele nunca esteve tão bonito. Me surpreendi que meu irmão ficasse tão elegante dentro de um terno, e sua máscara era de cetim azul-claro, com um perfeito arremate de contas negras por toda a borda, que brilhavam misteriosamente a qualquer reflexo de luz. Um verdadeiro gato.

Estou com um pouco de medo de deixar minha melhor amiga andar por aí nesses trajes – comentou Átila, os olhos brincalhões através da sua máscara de Zorro. Sim, isso mesmo. Só não pude zoar muito com ele por estar agradecida demais por ele ter chamado alguns parentes para protegerem a cidade de qualquer outro vampiro que pudesse atacar. Mesmo que eu achasse bem difícil pegá-los, de qualquer maneira.

Mas Átila dera uma risadinha quando eu externei meus temores.

Não tema, nós temos alguns métodos de saber se eles estão num lugar ou não. Ocupe sua cabeça com sua festa e nada mais. Meu pai está comandando as tropas.

Bem, o que mais eu podia fazer? Certamente não iria sair caçando os responsáveis pela morte das duas moças que meu irmão não conseguira salvar.

As duas eram estudantes da minha faculdade, de acordo com os jornais televisivos, tinham vinte e um anos e eram do quarto ano de Enfermagem. A notícia correra como rastilho de pólvora, e pais de uma hora pra outra começaram a buscar seus filhos pessoalmente. Pra horror da maioria deles. Até eu foi vítima disso. Era tanto por este fato que não me foi permitido pegar caronas com o Jacques, mesmo que meus pais o conhecessem.

Eu lamentava não poder ter feito nada pelas garotas, mas pelo menos agora os de Castro estavam tomando conta da situação, mesmo que mais nenhum ataque tenha ocorrido na cidade depois destes.

— Eu vou ficar mais do que bem com meus trajes, Átila, portanto trate de acalmar seu temperamento! — eu virei os olhos exageradamente, entrando na dele.

- Muito bem, mas não diga que não avisei! — ele encolheu os ombros, fingindo indiferença, mas piscou, antes de ir encontrar Alexandra, que buzinava como louca pra ele se apressar – Meu Deus, até parece que um meteoro vai cair na terra a julgar pelo desespero dela — resmungou pra mim, que abanei a cabeça enquanto ria – Estou indo!

Minha avó me acompanhou no assento traseiro, mas mantendo uma distância cuidadosa das ondas luxuriantes de seda do meu vestido.

Ela pegou uma de minhas mãos enluvadas e a apertou.

- Você está incrível, minha neta. Espero que sua noite seja tão maravilhosa quanto sua beleza.

- Obrigada, vó! — eu senti lágrimas se formando nos meus olhos. Eu tinha lutado com unhas e dentes pra não haver uma festa de aniversário, mas sem dúvida tinha sido bom perder essa batalha. Eu poderia gritar tamanha era minha alegria – E obrigada por estar aqui e me ajudar – acrescentei, num sussurro.

- Por nada, meu anjo. Só espero que suas escolhas sejam as certas.

Ela falava de Jacques.

- Elas são, vó, elas são.

- Madames, prontas pra partir? — exclamou meu pai, colocando o carro pra funcionar.

Vi os olhos das minha mãe estreitos de tanto sorrir pelo retrovisor do carro, me admirando. Eu estava bem, eu sabia. Mas quem diria que meus pais pareciam um casal de nobres vestidos pra um baile de máscaras?

Papai estava de fraque. Nem sabia que ele tinha um. Seu cabelo estava todo repuxado pra trás, um estilo que me lembrava muito o de Julian D'Crécy. Ele ainda não estava usando a máscara porque era nosso motorista, mas eu a tinha visto no dia anterior, quando mamãe estava escolhendo as roupas. Era uma meia máscara cor de prata, como o do Fantasma da Ópera.

Mamãe era o par perfeito com seu longo cor de marfim. O corpete era feito inteiro de rendas e strass colorido e combinava com sua máscara de mão, que continha os mesmos, e mudava apenas na cor, que era lilás. Seus cabelos estava enrolado num coque simples.

Enfim. Perfeitos.

Até vovó parecia ser uma estrela feita pra brilhar na minha constelação.

Seu simples vestido preto e sua máscara emplumada de branco, lhe davam um ar muito distinto e respeitável. Como aquelas matriarcas importantes ou rainhas.

- Mais do que prontas, pai – respondi, sorrindo, enquanto meu coração, envolvido pela minha pressa e antecipação, também recebia um choque de excitação e calor.

E eu bem sabia de onde estes sentimentos vinham.