Série Pacto - Conspiração

19 Vossa Majestade (Amelie D'Crécy)


Notas iniciais
Se divirtam meninas! Não resisti e tive que postas! Vestido da Amelie: http://1.bp.blogspot.com/_WQ7mEwb2hYU/SrJkEzHdUaI/AAAAAAAAAPA/bL_B5mwvPKw/s400/Anne-Boleyn.jpg

Ela sabia que escolhera o vestido certo. Era um dos antigos, nos moldes da época de sua confecção: século XV.

Sempre fora muito cuidadosa com suas roupas, ao longo do tempo teve que se livrar de algumas, mas preservou outros tantos, sabia que uma hora ou outra poderia ressuscitá-los do baú de madeira aos pés de sua cama.

Ergueu a máscara sobre o rosto, era branca, com longas penas de pavão. Coordenavam com a roupa. O vestido era azul, de seda, o decote quadrado decorado com pedrinhas de safira, que ninguém, a não ser um especialista saberiam ser verdadeiras. Só isso deixava o vestido luxuoso, junto com a saia e suas armações por baixo.

A parte da frente de seus cabelos estava presa por dois pentes de prata simples, ondulando com o restante, por seus ombros e costas, quase atingindo sua cintura.

Bem, vejo que alguém está pronta, finalmente – Alienor entrou, em seu traje do século XIX, a cintura alta marcada por uma faixa de cetim prata, o laço se fechando graciosamente em suas costas. Os cabelos louros estavam presos, num coque salpicado com fios de pérolas. Muito Jane Austen, pensou Amelie, apreciativa. Embora sua irmã combinasse muito mais com os vestidos atrevidos e curtos do século presente.

Sei o que está pensando – a irmã sorriu diabólica – Eu teria colocado um perfeito preto micro e colante que eu mesma comprei, mas mamãe... — ela suspirou — … me viu com ele e deixou sua moral da Idade Média tomar conta, então me proibiu de usá-lo.

Pelo menos enquanto ela está vendo, certo? — riu Amelie, sabendo bem que o micro estaria em alguma bolsa de couro ou compartimento dentro do carro, muito bem escondido.

Exato – ela arrumou a barra do seu vestido, fazendo com que a seda farfalhasse – Está numa bolsa, dentro do porta-malas do carro do Hugo – ela analisou sua aparência com olhos críticos e bem treinados – O espartilho está bem apertado, não? — seus olhos cor de jade relampejaram de malícia – Querendo impressionar alguém?

Cale a boca – Amelie resmungou, amarrando a fita de cetim que segurava a máscara em seu rosto – E se eu estiver não é problema seu.

Alienor bufou.

Nossa, quanto pudor. De qualquer maneira, se impressionar é o quer... admito que vai conseguir – ela deu uma olhadela no relógio cuco do quarto e agitou a máscara dourada com penas coloridas nas mãos – Se apresse, Hugo só está esperando você.

Desço em um minuto – respondeu Amelie. A irmã assentiu e saiu, deixando um perfume de jasmim no ar.

Seu celular apitou dentro de sua bolsa-carteira. Quando abriu a caixa de mensagens, ela deu um sorriso que brilhou como diamantes em seu rosto.

Já cheguei! Desça logo pra diversão começar!

É claro que Jefferson estava animado. A primeira vez que iriam sair juntos oficialmente em uma festa, finalmente chegara.

Em pensar que ela se preocupara tanto que ele a odiasse. Não podia negar que ele ficara com medo com o detalhe principal de sua dieta, mas sua mente aberta e seu conhecimento sobre ela e sua família acabaram por sobrepujar o resto.

O que você disse? — seus olhos pareciam pires de tão grandes.

Eu sou como eles, Jeffe. Eu sou uma vampira. Assim como todos da minha família.

Ele tinha deixado o queixo cair agora, e ela estava começando a sentir as mãos tremendo. Rezou pra que não tivesse uma crise, bem ali.

As expressões dele se mutaram em segundos distintos, bem a sua frente: choque, incredulidade, negação, raiva, pavor e então um suave e silencioso nada.

Amelie piscou pra afastar as lágrimas. Não apenas por orgulho, mas porque também temia que alguém visse seu pranto vermelho.

Estava quase saindo da mesa e deixando Jefferson encarando sua cadeira vazia em vez dela, quando sua voz fez morrer essa ideia:

Você não me atacou. E teve várias chances de fazer isso.

Claro que não te ataquei! Eu nunca poderia fazer uma coisa dessas! — seu corpo gelou com a imagem do corpo lívido e sem vida de Jefferson, e por sua culpa.

Mas você é esquizofrênica – ele argumentou, prático.

Eu não tive mais nenhuma crise desde que você realmente se aproximou de mim e Alienor. A última... bem, eu quase peguei sua irmã. Mas Jacques, ele conseguiu me controlar.

O rosto dele ficou branco, e ela percebeu que fez força pra engolir. Mas ela tinha que continuar. Era melhor que a verdade aparecesse.

Aqueles garotos, o da escola militar, e na minha casa. Fui eu. Eu posso ser controlada por remédios, mas eles não tem efeito muito duradouro. Era pior quando era humana, eu mal saia de casa, e na minha época, veja bem, achariam que eu era possuída por demônios, então era mais seguro me manter trancada. Só me deixavam sair quando estava realmente bem. De todo jeito, essa coisa de ser vampira cortou pela metade os efeitos da minha doença, mas... ainda me afeta.

É o que percebo – poderia ser uma frase sarcástica, mas não foi, como ela reparou. Era apenas como se ele constatasse algo – Mas... você precisa comer, certo? E...

Sim, sangue humano. Mas eu e minha família procuramos não matar inocentes. Então, na maioria das vezes, pegamos gente de má índole. É fácil, a noite eles ficam a solta – ela suspirou, triste – Mas não importa, sentimos as emoções da pessoa quando as matamos, é horrível. Por isso queremos voltar a ser humanos, desesperadamente.

Como assim? — a testa de Jefferson franziu, com estranheza – O que quer dizer com isso?

Nós não somos vampiros originais, os que você deve conhecer das lendas. Nós somos amaldiçoados, por magia. Isso foi imposto a nós, um feitiço de escuridão.

Por quem? — agora ele parecia muito interessado.

Ela deu um riso nervoso.

Bem, por duas ancestrais suas, Anne e Claire Saint Germain.

A partir daí ela correra com toda a história. No fim, Jefferson parecia o mesmo de sempre.

Parece que tenho uma dívida de sangue a pagar – ele mascou uma das últimas batatinhas em seu prato – Eu vou ajudar, se você me pedir.

Então você não me odeia? — não queria que seu tom fosse tão choroso, mas não conseguia evitar. Se o perdesse, não saberia o que fazer.

Num ato que a surpreendeu, ele pegou sua mão e a cobriu com a dele, carinhosamente.

Eu não iria conseguir te odiar jamais, garota. Não se odeia o que se ama – ele abriu um sorriso tímido, o rosto corado.

Ama? — ela arfou, apertando a mão dele na sua.

É – ele retirou a mão e voltou os olhos envergonhados pro chão – E é isso aí. Eu e minha irmã somos bruxos. Que doido!

Amelie riu com ele, quase histericamente, contendo a enxurrada que ameaçava cair.

Depois do ocorrido não houve estranheza, apenas a continuação de algo que já estava em andamento. Ela até mesmo contou mais alguns detalhes da história, a pedido dele.

O primeiro beijo tinha sido no domingo que passara. Estava chovendo, e ela e Jeffe estavam voltando do cinema, depois de assistirem um filme do Charlie Chaplin. Era a Semana dos Clássicos, promovido pelos estudantes de Cinema da UED. Na sexta eles já tinham visto Casa Blanca e no sábado E O Vento Levou..., Jefferson sempre rindo do fato de que ela assistira os filmes em suas épocas de lançamento.

Então, no domingo, eles decidiram não pegar um táxi, como nos outros dias, e sim andar a pé, mesmo se molhando por falta de guarda-chuva. O aguaceiro era frio, mas Jefferson não o sentia por causa da magia com o fogo e Amelie por ser insensível a mudança de temperatura por ser vampira.

Ele chacoalhou os cabelos quando pisaram nos degraus da soleira da porta de sua casa.

Ahh, não faz isso! — ela deu um gritinho de ultraje, mas era tudo brincadeira. Se afastou, ficando com as costas grudadas na porta.

Medrosa! — ele acusou, subindo o próximo degrau, e ficando na sua frente.

Mesmo no degrau mais elevado, ele ainda era mais alto que ela. Não era muito surpreendente.

Os pais dele eram altos, Elisabete também, embora assim como ela, fosse mais baixa que o irmão.

Os cabelos dele estavam pingando de volta, grudados em seu rosto de maçãs altas. Os olhos castanho-claro rutilavam de diversão, mas havia algo mais, Amelie não sabia o que era.

E ele não estava sorrindo. Jefferson a estava encarando, como se refletisse sobre alguma coisa.

Algum problema? — falou, esticando a mão instintivamente na direção dele. Era automático. Cada vez que sua expressão fechava, era como se seu corpo e mente tomasse uma posição protetora em relação a ele.

Ele pegou-a, e a colocou entre suas duas mãos grandes.

Não, nenhum – ele se aproximou mais dela, se inclinando – A gente se vê amanhã?

Claro! — era sempre sua resposta imediata, porque qualquer coisa que fazia, estando ele presente a deixava feliz e era divertido.

Nesse ponto, as mãos dele deixaram a sua, subindo pro seu rosto, suavemente.

Já te disseram, que molhada, você fica muito mais linda?

Ela riu, um pouco sem graça, mas lisonjeada.

Não, você é o primeiro que me diz – era verdade, nunca nenhum rapaz lhe fizera um elogio desse tipo. Talvez por nunca ter sido pega molhada por nenhum deles.

Seu cabelo parece veludo, e suas bochechas ficam mais vermelhas, sua boca também... — ele estava sussurrando, seu hálito batendo no rosto de Amelie.

Ela tentava não pensar no cheiro dele, sempre marcante desde que o conheceu. Era forte e denso, lembrava terra e eucalipto e baunilha. Também tinha uma coisa primitiva, sensual. Ela sabia que o morder seria uma volta no paraíso.

Você cheira a rosas – foi a última coisa que ele disse, antes de beijá-la.

Amelie tirou as mãos dele de seu rosto, pra poder envolvê-lo com os braços e sentir seu corpo mais perto.

Não. Ela não precisava mordê-lo. Beijá-lo já era como receber uma descarga elétrica.

Ele sorriu pra ela quando terminaram e ofegantes, se despediram.

Não tinha do que reclamar, certamente.

Talvez a maldição, em meio a sua dor, escuridão de sangue e morte, dera uma gratificação por todos aqueles longos séculos. Se sua família não fosse jogada no lado obscuro ela nunca teria conhecido Jefferson. No mínimo teria morrido louca em Provença. E seus ossos já seriam pó.

Uma batida na porta a despertou das memórias.

Entre – devia ser sua irmã ou Hugo, pronto pra levá-la pra baixo pelos cabelos – Eu já estava sai... — sua voz morreu e seu rosto se iluminou com o que viu.

Uau – Jefferson estava parado, os olhos atrás da máscara azul, como seu vestido, piscando loucamente, como se tivesse sido atingido por uma luz cegante. O terno que vestia lhe caia como uma luva – Acho que entrei no quarto errado, perdão vossa majestade – ele se curvou, numa reverência.

Amelie riu alegremente.

Está perdoado, nobre cavalheiro.

Ele se arrepiou e a fitou de modo mais sério.

Nossa, esqueci que você viveu nesse tempo. É como ver um quadro do século XV falar.

Tá me chamando de velharia? — ela colocou as mãos na pequena cintura.

Foi a vez dele rir.

Não, boba, você é tudo, menos uma velharia – ele retirou a máscara e deu os passos que faltavam até estar respirando em seu rosto. Seus olhos relancearam o espartilho apertado e seu conteúdo – Não tem definitivamente, nada de velho em você – ele colocou as mãos em sua cintura e beijou seu pescoço, depois seu queixo, então sua boca. Foi rápido, mas intenso. Suas pernas estavam moles, quando um pigarro os interrompeu.

Vocês podem continuar isso na festa, por favor?! Nós estamos atrasados! — Hugo estava na porta, vestido um blaser lindo de veludo preto, com botões grandes e dourados, jeans escuro e tênis All Star. Sua máscara era de tema geométrico, de porcelana fina, e tomava seu rosto até as bochechas. Mais descolado, impossível.

Amelie lembrou-se dos outros dois irmãos. Marc, sem vergonha alguma colocou seus gibões do século XV, todo de veludo vermelho, o chapéu com plumas finalizando. A máscara não passava de uma tira de seda preta, com buracos que ele mesmo tinha feito pros olhos. Ela tinha rido, mas ele estava lindo, do seu jeito grande e sexy.

E Jacques. Ahhh. O Jacques. Seu querido irmão mais velho.

Ele vestira o blusão tão tipicamente usado em 1200. Era feito de linho grosso, na cor azul-marinho, bordada com fios dourados, formando desenhos florais. Toda borda e mangas estavam decoradas com esse mesmo padrão. Havia o cinto de couro na cintura, e nela estava guardada a espada que ele usara de verdade nas cruzadas e na Guerra dos Cem Anos, mais tarde. As calças também eram do mesmo linho, mas da cor branca. As botas eram pretas e surradas, indo até os joelhos. A máscara cobria somente os olhos, e assim como a de Marc, não passava de uma tira, só que a de Jacques era de veludo vermelho. Ele ainda carregava uma capa com capuz num dos braços.

O que podia dizer?

Eles era um espectro de todos os anos, das tragédias, das guerras e do suor regado a sangue. Das cabeças que rolaram desde os 1100 até os 1400. Jacques era um soldado vivo, assim como seu irmão besteiro e depois arqueiro, Hugo. Ninguém diria isso ao vê-lo ali, mas as cicatrizes em seus dedos, do arco e da flecha, estavam ali, gravados em sua pele. E quem poderia saber que Marc tinha sido o príncipe das justas?

Em pensar que os três tinham lutado nos exércitos liderados pela Virgem de Lorena, a corajosa jovem de dezessete anos, Joana D'arc.

Fora na guerra que eles conheceram os Stuart.

A muito tempo que não pensava neles.

Com um arrepio Amelie se deu conta de que eles certamente não os tinham esquecido.

Amelie, quer fazer o favor de se mexer?

Ah, desculpe! — pediu, piscando os olhos – Vamos! — ela sorriu, e cruzou seu braço no de Jefferson.

Sua mãe desejou uma boa noitada quando passaram pela sala, e piscou pra ela por cima da borda do livro que estava lendo. Amelie sabia que a mãe era cem por cento a favor dela sair com Jeffe.

Quando entraram no carro e sua casa se transformou num espectro no escuro, seu estômago deu um solavanco desagradável. A lembrança do ódio que os Stuart tinham por sua família a fez querer voltar pra casa, e ficar com a mãe.

O que foi? — Jefferson apertou sua mão e ela virou-se pra ele.

Nada, só... não sei, a ideia de deixar mamãe sozinha me aflige.

Ela ficará bem, Amelie, pare de ser tão paranóica – disse Alienor virando os olhos jade por trás da máscara de ouro e plumagem.

Não se preocupe, ela sabe se cuidar melhor que nós, baixinha – Hugo piscou um olho azul-claro como água pra ela.

Amelie acenou com a cabeça.

Mas por quê ainda tinha aquela sensação ruim?

Notas finais
;)