Série Pacto - Conspiração
16 Promessa (Jacques D'Crécy)
Notas iniciais
Eu estava no telefone, mesmo que mamãe dissesse para eu parar de insistir, que ela conversara com a família encarregada dos negócios na África, que papai estava ocupado, cuidando dos problemas que haviam surgido com a explosão de uma das minas. Eu ignorei, havia uma voz, no fundo da minha mente, que me dizia que algo estava errado, muito errado, fora do lugar. E não tinha sido somente isso que me deixava apreensivo. Os noticiários não melhoraram nada meu humor. Duas moças haviam sido encontradas mortas na Praça São Miguel, por volta de três horas da manhã. Elas tinham tido os pescoços dilacerados, e o sangue de seus corpos havia sido totalmente drenado. Sem um pingo pra contar a história. Como sempre, Átila tinha feito uma visita matutina ameaçadora, mas de novo ele teve de se dar conta de que cumpríamos o trato.
Já parou pra pensar que podem ser nômades? Já devem ter ido embora, Átila. E cadê o restante de seus familiares caçadores?
Eles estão a caminho, não é como se eu pudesse estalar os dedos e eles aparecessem! — ele rusgou, os punhos cerrados – Todos tem suas próprias coisas pra fazer. Agora eu vou embora, e de novo vampiro, estou avisando, mantenha o acordo, pro bem de vocês.
Tive de me conter muito custo pra não revirar os olhos pro teto. Era como se a todo momento, ele esperasse uma traição de nossa parte.
Nós sabemos o que temos que fazer, agora me dê licença. Preciso voltar a dormir, não foi uma ideia muito simpática da sua parte interromper meu sono.
Não sou simpático com sua raça, e não ligo pro horário em que dorme. Só lembre do acordo.
Eu estava começando a me irritar. Tal qual pessoa normais, falta de sono nos deixa além de famintos de um jeito medonho e perigoso, cansados e irritadiços.
Eu já disse que sabemos de nosso dever. Por favor, vá embora – pedi, falando com o resto de educação que me sobrava, embora minhas palavras tenham sido pronunciadas entredentes.
Como quiser, sanguessuga – ele ergueu uma sobrancelha de modo sardônico e deu as costas.
Não que eu tenha conseguido dormir muito. O sono se foi após duas horas e depois eu estava acordado novamente.
Fiquei perambulando pela casa, toquei um pouco de piano e depois tentei me distrair com um livro. Mas nada funcionou.
Foi nessa etapa que decidi tentar contato com meu pai. Mas quando liguei, me disseram que ele estava fora, cuidando das coisas em relação ao acidente nas minas. E depois mamãe apareceu e me avisou pra parar de me incomodar.
Por quê não volta a dormir? Você sabe que não é bom perder tempo de sono. Ficamos mais violentos. Não favorece nosso auto controle.
Eu sei, mas queria falar com papai.
Ele está ocupado. Os Meghan disseram que está resolvendo os problemas com o feridos, mortos e suas famílias. Ele logo volta pra casa, pare de se preocupar – ela arrumou a gola de seu elegante casaco de lã preta – Eu estou saindo, vou fazer umas compras pra festa.
Ergui os olhos e a encarei, confuso.
Festa? Que festa? Está organizando alguma coisa, mãe?
Uma de suas sobrancelhas subiu, incrédula.
Francamente, você e seus irmão não checam o correio? Eu coloquei o convite na cabeceira de cada um de vocês ainda ontem a noite, é a festa de aniversário da Elisabete, na verdade um baile de máscaras, algo muito elegante se quiser minha opinião. Todos nós fomos convidados.
Bem, suponho que todos nós vamos? — me sentei reto no divã onde estava deitado – Estou até espantado dela ter nos convidado, os últimos acontecimentos relacionados a nossa família e Elisabete não foram muito felizes.
Exatamente por isso é que seus irmãos e você irão. Eu ficarei, com seu pai fora eu sou a responsável pela segurança da casa. Tem interesse em alguma máscara em especial? — ela colocou os óculos grandes de sol no rosto e esperou por minha resposta.
Confio em seu bom gosto, mãe. Compre o que quiser – dei de ombros. Por mim eu nem iria a esse baile, tinha certeza de que Elisa ainda não queria ter contato muito maior comigo. As coisas haviam acontecido rápido demais na vida dela. Talvez tudo que eu pudesse dar era distância e tempo pra pensar. Mas eu não tinha saída quando era uma ordem explícita dos meus pais, portanto, eu iria. Amelie e Alienor iriam gostar, Marc adorava festas, e Hugo... bom, ele teria que ir.
Ótimo, estou indo – ela se aproximou e baixou o rosto no meu nível – Fique bem – seus lábios formaram um beijo na minha testa.
Você também, mãe – sorri, era inevitável, por mais mau-humorado que eu estivesse ela sempreconseguia me arrancar um sorriso.
Ela tocou o lado do meu rosto onde estava minha cicatriz, então saiu da sala, a passos decididos. Provavelmente voltaria lotada de sacolas.
Consegui dormir mais um tanto, ali mesmo na sala, e acordei o que pareceu um minuto depois, com a campainha de casa tocando.
Levantei me arrastando e remexendo nos cabelos, e quando abri a porta me deparei com Elisabete, com ar cansado, mas com um olhar de determinação.
Eu te acordei? — foram suas primeiras palavras ao me analisar dos pés a cabeça. Eu não tirara o pijama e meus cabelos estavam emaranhados. Com certeza não era a aparência distinta que eu mantinha todos os dias.
Eu não estava num sono muito profundo, acordei com o som da campainha. A que devo sua visita? — dei uma passo pra frente na soleira, mas sem sair da segurança da sombra, estava claro demais. Elisabete não se afastou ou teve qualquer tipo de sobressalto diante do meu movimento, um bom sinal, considerando as circunstâncias.
Ela mexeu dentro do bolso da jaqueta de jeans verde-escuro e tirou meu anel.
Vim lhe devolver, agora que já tenho o meu – ela ergueu a mão esquerda, e uma pedra preta brilhou em seu dedo. O anel de Claire Saint Germain – Acho que não é justo que eu fique com o seu – ela o estendeu e eu entrei mais pra dentro de casa. Ainda estava nublado, mas eu sabia que era uma questão de tempo pra que o sol expulsasse as nuvens.
Entre, o sol não vai demorar a aparecer, e não vai ser bom pra mim – pedi, fazendo um gesto com a mão pra que ela me acompanhasse.
Elisabete não entrou, continuando a me encarar da soleira da porta.
Por favor, pegue o anel. Eu só vim devolvê-lo, tenho um compromisso – ela protestou, e seus olhos baixaram na direção dos tênis.
Espero que não seja com alguém perigoso – tentei quebrar o clima tenso, mas quem me dera não o ter feito.
Na verdade, eu conversei com Jean pela manhã – Elisabete admitiu, ainda não olhando pra mim.
Se ela queria me deixar mais azedo, ela conseguira. Senti um comichão de raiva, subir desde meus pés até me atingir a cabeça, minhas mãos tremeram impulsivamente, as fechei em punho pra ela não perceber o quanto me atingira com aquela informação.
Ele não é boa companhia, acho que sabe disso, não Lis? — minha voz era baixa, mas eu senti o tom de ameaça por baixo, muito leve, mas presente.
Não pode ser pior dos que eu conheço. Ou você acha que é melhor que ele, Jacques? — havia alguma coisa no modo que ela falou que me quebrou um pouco, seus olhos estavam brilhando, como se estivesse prestes a chorar. Como se... como se... me ver doesse.
Não, eu sei que não sou... — minha raiva evaporara, deixando a frustração por não ter conseguido conter minha fúria num episódio tão longínquo, mas que afetara toda a confiança que Elisabete tinha em mim. Não foi surpresa eu saber que aquilo me machucava tanto quanto a machucava – Mas eu já pedi perdão, e não posso, infelizmente, voltar no passado e desfazer o que já está feito.
Eu sei, por favor, vamos parar de falar dessas coisas. Tome seu anel, Jacques. Eu preciso ir – ela esticou a mão, meu anel no centro de sua palma, branca e suada.
Investiguei sua expressão. De novo ela evitava me encarar diretamente, como se estivesse com medo de alguma coisa. E não era de mim, caso contrário ela já teria ido embora como uma flecha.
O peguei, e deixei meus dedos escorregarem sobre sua pele por um momento. Mesmo que tentasse esconder, vi uma luz acender em seus olhos azul-escuro e uma contração em seu corpo.
Então era isso. Não era medo de mim. Mas da sua reação em relação a mim.
Eu quis sorrir, puxá-la, enrolar meus dedos em seus cabelos tudo de uma vez só. Sentia o cheiro dela, muito perto, me afogando.
Ela seria uma ótima comida, mas não era isso que fazia minhas veias pulsarem e meu peito queimar como se brasas incandescentes estivessem ali dentro.
Era um desejo quente, uma chama alta e flamejante. Dominava todos os meus sentidos. Tato, olfato, paladar, visão. Meu Deus, há séculos essa onda não me atingia, nem ao menos esperava mais que ela me achasse e me levasse pra dentro dela novamente.
De repente minha mão estava segurando o pulso da Lis, meus dedos loucos pra sentir aquela pele quente. Eu a queria tanto que minha garganta doeu e apertou.
O que está fazendo? — ela estava sussurrando, suas pálpebras muito erguidas, o azul de suas íris me chamando pra mais perto. Então obedeci, a distância ainda mais curta.
Estou fazendo o que ambos queremos, Lis – respondi, agora minhas mãos segurando os dois pulsos dela, que não oferecia resistência.
Agora você lê mentes pra saber o que quero? — ela estreitou a vista, me desafiando, o queixo erguido. Essa posição estava ótima pra mim, mas eu não comentei, só abri um sorriso.
Sabe que não posso ler mentes, mas eu conheçovocê. Não tente fingir indiferença à mim.
Eu não tenho que fingir nada! — ela sibilou, agora começando a se mexer, tentando soltar-se do meu aperto – Quer me deixar ir?!
Você quer ir? — perguntei em resposta, a pegando desprevenida. Ela parou de lutar, me observando com perplexidade.
Seus lábios estavam entreabertos, seus cílios piscando, ainda em estado de estupefação.
Aproveitei o momento, a boca salivando.
A puxei e a apertei contra mim, uma mão em sua cintura, outra direto em seus cabelos.
Ouvi seu arquejo de surpresa e susto, então tudo que eu sentia era sua boca contra a minha, seu cheiro ao meu redor, sua pele contra a minha. Ela estava resistindo, me empurrando, os punhos contra meu peito, mas ela parou na hora em que deslizei a língua de encontro com a dela, calando sua luta. Ela relaxou, num suspiro, me beijando de volta, como se viver dependesse disso, sua respiração tão rápida e errante quanto a minha.
A parte prática da minha mente ainda funcionando, fez meus pés se moverem e minha mão empurrar a porta, a selando, e depois eu estava dando a ré, sem poder parar de sentir o corpo dela acompanhar minha caminhada de costas, colada em mim, agarrando meus cabelos, mordiscando minha boca, respirando a pele do meu rosto. Aquilo fez com que eu me apresasse pelo corredor da esquerda, o grande e escuro caminho, que levaria ao quarto onde eu dormia. Ouvi o som de algo caindo e quebrando em cacos, quando esbarrei numa mesinha.
Esperava que não fosse a porcelana chinesa de minha mãe. Ou eu teria muitos problemas.
Jac... — ela suspirou, respirando um pouco e me lançando um olhar urgente por baixo dos cílios.
Um minuto – sussurrei, tornando a beijá-la, mas ela me empurrou de leve segundos depois – O que foi?
Não posso fazer isso – ela disse, as mãos embaixo da minha camiseta, espalmadas contra minha pele – Não agora.
Hummm. Eu tinha interpretado sua urgência de outro modo.
Acho que já estamos perto demais, não...
Shii – ela tirou uma das mãos de mim e colocou sobre minha boca – Você provavelmente recebeu o convite da minha festa de aniversário, recebeu? Tenho certeza que Alexandra deve ter convidado a cidade inteira...
Sim, eu recebi – eu ainda ouvia minha própria respiração irregular, e a fúria de fogo incandescente de calor agora estava por todas as partes do meu corpo. Eu nunca tinha querido tanto alguém dessa maneira. Nem mesmo Anne.
Então vá, vá ao baile, e bom... sei lá que lugar Alê alugou pra festa, mas em todo caso, se não tiver quartos, eu posso jurar que ela arruma um num estalar de dedos! — Elisa corou, tingindo seu rosto num lindo tom de vermelho.
Você está sugerindo...? — enruguea testa, tentando alcançar sua ideia, mas ela estava me distraindo, seu aroma em toda parte, se infiltrando pela minha roupa.
Eu pensei que tivesse me feito bem clara – ela rolou os olhos – Nos vemos na semana que vem, na minha festa e … continuamos daqui.
Finalmente eu tinha entendido. Eu teria que esperar. Uma semana.
Tudo bem.
Está bem e Elisa... — eu precisava dizer, eu queria dizer – Me ajude a mandar os fantasmas embora e por favor, confie em mim, eu nunca mais vou perder o controle, eu prometo.
Por um momento um raio de desconfiança e incerteza reluziu em seus olhos, eu sabia que ela estava medindo minhas atitudes passadas, e eu não podia impedir ou culpá-la.
Então eles me fitaram inexpressivos por outro tempo, que eu sabia ser seu momento de reflexão, ela estava pensando em que atitude tomar.
E depois de quase dois minutos de silêncio, em que uma de suas mãos ainda estava sob minha camiseta de malha fina, Elisa finalmente respirou fundo e tremulamente.
Eu vou te ajudar, Jac. E vou confiar em você.
Merci, chérrie – não pude evitar o impulso de tocar seu rosto e abraçá-la com força. Ela ergueu os braços e enlaçou meu pescoço com eles.
Não me decepcione, por favor – pediu em meu ouvido, um arrepio correndo pela minha nuca quando ela falou.
Eu não irei.
E Jac... você está preocupado com alguma coisa? — seus lábios roçaram a curva do meu pescoço.
Minhas mãos afagaram suas costas, e ouvi seu suspiro lento.
Por quê?
Eu pude sentir, hoje cedo, uma emoção que não era minha, eu estava calma, então só podia ter sido você.
Não é nada. Só estou um pouco apreensivo por causa do meu pai, ele não telefonou desde que viajou, mas de acordo com a família encarregada dos negócios dele na África ele está bem, só cheio de coisas pra fazer.
Então não se aflija, ele volta logo – ela se afastou e vi que o suor borbulhava em sua testa, como se realmente tivéssemos feito mais que abraçar, apertar e beijar – Eu tenho que ir, Alexandra quer falar comigo sobre o baile.
Tenho a impressão que tudo foi planejado sem sua supervisão, não é? — eu ri, vendo Lis bufar.
Exatamente. Meu aniversário, é no fim de Setembro, não no começo, mas meus pais e Alê planejaram tudo tão bem que tudo ficou pronto antes, então, estamos adiantando a comemoração.
Me lembre de agradecer a Alexandra por isso – pisquei um olho, maliciosamente.
Elisabete riu nervosamente e tinha um tom veemente quando disse:
Além de querer agradecimentos tenho certeza de que ela pedirá detalhes, então não sei se é muito boa ideia!
Sei que irá se esquivar com elegância dos questionamentos – eu declarei, pegando em suas mãos e as beijando – Ou pelo menos vai tentar.
Eu sabia como Alexandra podia ser hábil em arrancar coisas das pessoas sem precisar de muita dica. Ela descobrira sozinha que meu irmão era vampiro.
Lis revirou os olhos.
É, pelo menos vou tentar – ela retirou as mãos com delicadeza – Tenho que ir, a gente se vê na faculdade.
Está bem, e posso te fazer um pedido?
Depende – Elisa concedeu, com expressão paciente.
Gostaria que não visse mais o Jean, ele...
Sua mão se ergueu, interrompendo meu discurso.
Eu sei me cuidar, Jacques. E não creio que Jean seja uma ameaça pra mim, afinal, eu também poderia retirar a maldição dele.
Você faria isso? — não queria ter soado tão ultrajado, mas não pude me conter a tempo.
Uma sobrancelha dela arqueou, de forma orgulhosa.
Acho que sim, se ele me pedisse. O que não é o caso. Jean só jogou conversa fora até agora.
De qualquer maneira, pense sobre o que eu disse – retomei, enquanto ela acenava positivamente.
Eu vou pensar, mas só mais tarde – um novo revirar de seus olhos me fez rir – Por enquanto só vou me estressar com meus problemas comuns, como festas malucas e fora da data.
Boa sorte – eu ri, vendo que ela estava mesmo com pressa.
Vou precisar... — ela deu um sorriso leve na minha direção, olhando com firmeza dentro dos meus olhos — … até mais tarde.
Até mais tarde – dei um aceno de cabeça, enquanto Lis dava um tchauzinho e sumia de volta pro começo do corredor.
Bem, as coisas tinham saído meio fora do controle. Mas talvez fosse melhor assim. É claro que eu não tinha esquecido Anne, mas eu expressara a verdade, o que ia dentro de mim, eu queria que Lis me ajudasse a superar o fantasma, assim ele poderia ser apenas mais uma lembrança agridoce.
Eu segui em direção ao meu quarto, já que estava no corredor era melhor que eu fosse dormir de verdade, meus irmãos estavam fazendo isso.
Até porque eu teria que esperar mais alguma horas pra rever Elisabete de novo, e eu não queria estar ranzinza ou frio demais.
Um sorriso despontou dos meus lábios. A um longo, longo, tempo eu não me sentia tão esperançoso. Ou feliz.
Sim, eu estava feliz.
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