Série Pacto - Conspiração
5 O elo perdido (Jean Dupré)
Notas iniciais
Jean atravessou uma das ruas sujas e maltratadas do bairro mais pobre e mais decadente de Dourados, Ilha Bela. Onde estava o belo, Jean não tinha noção. Mas eles estavam ali por motivos de segurança, eram originais, mas cautelosos o suficiente pra não procurar uma briga direta com os D'Crécy, da primeira vez eles tinham perdido, e embora tivesse sido a muito tempo as recordações eram vívidas. Pra ele aquele tempo também o era, por motivos diferentes. Quem se esqueceria de uma cabeça rolar pra dentro de um cesto depois de ser dilacerada por madame la guilhotine?
Ele certamente não esqueceria nunca. A dele também teria rolado, se não fosse um vampiro e além disso, esperto.
Torcendo o nariz para as mulheres que se ofereciam abertamente na calçada pela qual andava, pisou no degrau da escada que o levaria ao primeiro patamar de apartamentos decadentes onde os Stuart se encontravam instalados.
Ouviu gritos de criança através das portas pelas quais passou no corredor, de televisão ligada e o cheiro de comida quente. O quanto não daria pra sentir o gosto das coisas como humano novamente?
Afastou o pensamento. Ele teria isso de volta, e os Stuart estavam dispostos a ajudar. Os D'Crécy provavelmente estariam pensando que agia sozinho. Pobres tolos, ele tinha seus maiores inimigos colaborando com ele.
Parando em frente à porta de madeira descascada, com o número 213 pintado à tinta, Jean ergueu a mão e bateu de leve, três vezes, uma pausa e depois mais três vezes. Era o sinal.
A porta abriu rangendo, e a voz de William Stuart encheu seu ouvido.
Como está Jean?
Se o plano tiver funcionado ficarei bem, certamente – respondeu, batendo a porta para fechá-la.
O espaço era amplo, mas atravancado de móveis velhos e agora estava felizmente limpo, graças ao horror de sujeira que Mary tinha. Ela não estava na sala, mas ele ouvia sua voz e do seu irmão Peter na outra sala ao lado.
Sentou-se diante de William, na poltrona que ocupava todas as vezes que tinha ido até ali.
William lembrava um pouco de Julian D'Crécy, naquela força de expressão e no refinamento esculpido há séculos. Mas ao contrário do rival, ele não tinha aquela forma bruta e maciça de encher um espaço só com sua presença, nem tampouco aquele brilho sagaz nos olhos.
William também era diferente, no aspecto físico, ele era grande como um leão, seus cabelos eram castanho-claro, e tinha olhos verdes que poderiam tanto tremeluzir de fúria, quanto de prazer ao morder o pescoço de alguma linda e desprevenida mulher. E Will não aparentava mais de trinta anos, jovem demais pra comandar uma família com tantos jovens entre quinze a vinte e cinco anos.
Mas o caso, é que graças a luta feroz uma vez travada com os D'Crécy, o ancião deles fora morto, e William subira para este posto por ser o mais antigo depois de Richard. Vampiros originais não podiam reproduzir, vampiros originais se multiplicavam e viravam clãs perigosos que muitas vezes acabavam disputando territórios de domínio uns com os outros. Morte que carregava armas maravilhosamente atraentes.
Está tudo feito, meu caro Jean – ele sorriu, mostrando dentes perfeitos e retos – Não há o que temer. Henry me ligou hoje pela manhã, dizendo que a explosão foi precisa e matou muitos trabalhadores do Julian. Ele deve estar a caminho da África em algumas horas. A partir do momento em que ele sair desta cidade, Emma partirá atrás dele.
Ela já está na fronteira da cidade? — indagou Jean, com surpresa e satisfação mescladas em sua voz agradável.
Yeah, ela ligou não faz muito tempo. Perguntou novamente se era mesmo necessário o que ela pretende fazer.
Jean riu sem emoção.
Eu não me importo com nada, desde que seja feito. Meu drama tem que ser perfeito. Emma tem que cumprir o plano, caso contrário ninguém conseguirá esmagar o crânio de nenhum dos D'Crécy com as próprias mãos.
William lhe lançou um olhar entediado.
Espero que estejas certo na questão da encenação, ou irá fazer teatro por nada. E não esqueça, Jean, temos o segredo um do outro nas mãos, procure não cometer deslizes também. Os D'Crécy são em sete, és apenas um.
Jean sustentou os olhos verdes penetrantes nos seus até Will voltar o rosto pra janela aberta. Não poderia demonstrar medo diante dele, ou Will poderia usar dessa fraqueza. Não que estivesse com medo deles em si, seu maior temor era de que simplesmente esquecessem do trato e agissem por vontade própria, sem se importar em ajudá-lo com seu esquema.
Isso não poderia acontecer. Nunca iria conseguir alcançar seu intento sozinho.
Não quando Jacques a essa altura já sabia que ele conversara com Elisabete. E ele bem sabia que a raiva deste só poderia ter aumentado depois do ocorrido.
Ao lembrar dele, recordou de Amelie. A única que daria problemas pra ele.
Jean podia odiar aquela família, mas jamais esquecia um favor. Amelie o ajudara numa hora crítica, teria que dar um jeito de livrá-la do expurgo que os Stuart estavam planejando. Teria que ser cuidadoso.
Eu não esqueci deste ponto, William, não se preocupe. Desde que tudo saia certo, não há o que temer da minha parte.
Ele sorriu, com um toque de ameaça.
E não há o que temer do nosso lado, se sua parte for cumprida, Jean.
Jean devolveu o sorriso na mesma medida.
Então não há porque tocarmos mais neste assunto. Me avise quando Emma iniciar sua missão, oui? — indagou, polido.
Certamente – William inclinou a cabeça, na mesma boa educação – So long, have a good night.
Arrevouir, mon ami – Jean levantou-se da poltrona e se dirigiu a porta, os passos firmes – Bône nute.
Ele deixou o aposento tão silenciosamente como entrara. Um sorriso de triunfo brincava em seus lábios.
A satisfação de saber que os D'Crécy estariam arruinados em breve. Assim como sua chance de voltarem a ser humanos.
E de saber que ele conquistaria de volta o que eles nunca mais teriam chance de ter.
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