Série Pacto - Conspiração
6 O elo perdido (Jefferson)
Notas iniciais
Eu estava com Amelie de novo,no meu quarto, que agora possuía o que parecia ser todo o estoque de velas que a cidade tinha.
Eu estava com um pouco de medo, mas mais do que tudo eu queria me testar, pra ver até que limite eu poderia levar aquele... poder? Dom? Fosse o que fosse não era qualquer coisa, era especial.
Olhei pra ela, sentada em cima do meu travesseiro na cama, me olhando com atenção. Ela era tão diferente de Alienor, tão doce, tão atenciosa e gentil, que até me perguntava como eu não me apercebi disso antes. Bom, talvez garotas como Alienor tivessem o poder de ofuscar todas ao seu redor. Claro que eu sentia falta dela, do beijo, do toque, de tudo, mas ela me descartara como uma peça de roupa velha, e eu apesar de tudo, acredite, tenho orgulho próprio, ela não me faria mais de bobo. Nunca mais.
Tem certeza de que quer fazer isso? Não é perigoso? Você pode colocar fogo na casa! — a voz de Amelie me alertou com seriedade, sua expressão era tão preocupada que beirava a cômica. Minha nossa, como ela podia ser doente? Quem a escutasse e olhasse jamais diria isto, ela era a melhor aluna da classe, junto comigo – sim, recuperei meu cargo de aluno exemplo – e tinha uma clareza e objetividade em tudo que fazia. Era difícil demais vê-la tendo um ataque esquizofrênico.
Tudo bem, Amelie, tenho certeza de que posso dar um jeito nisso — apontei o extintor de incêndio, que meus pais sempre compravam novo a cada ano por precaução – Tenho certeza que dará certo.
Ela suspirou, puxando a ponta da fronha do meu travesseiro ansiosamente.
Muito bem, se você acredita que vai dar certo, vamos lá – ela me lançou um olhar e sorriso confiantes e me senti repentinamente mil vezes mais corajoso.
Desligue a luz do abajur – pedi, respirando fundo e encarando as velas espalhadas pelo chão à minha volta, em cima da mesa do computador,da estante de livros e do meu som, sobre os dois criados mudos, enfileiradas diante do meu guarda-roupa.
Desde que eu queimara as árvores da escola – os bombeiros não conseguiram descobrir a causa, graças a Deus – eu vinha tentando fazer de novo com outras coisas, tipo o fogão da cozinha sem o gás ligado e com isqueiros velhos, e tinha funcionado, pra meu espanto total.
Você passa dezessete anos da sua vida preocupado com notas e time de futebol e de repente descobre que pode tacar fogo nas coisas? Cara, isso assusta!
Eu tinha que conversar com meu pai quando ele chegasse – e me livrar das velas mais rápido que pudesse, talvez coubesse na bolsa tamanho elefante da Amelie – uma vez ele comentara rindo que havia a lenda que a família do seu lado materno, precisamente as mulheres seriam bruxas. Queria saber mais. Agora, na ocasião presente, podia fazer sentido, sempre fui cético em relação a toda essa besteira de magia, até mesmo dos livros, sempre preferi uma boa explicação lógica, mas ao que parecia, o fogo que eu fazia nascer não podia ser relacionado a algum fenômeno científico que eu conhecesse, pra minha decepção, era além dos conhecimentos comprovados e analisados por especialistas. Frustrante.
O quarto ficou no breu, exceto pela luz tênue e opaca da lua, que conseguia se infiltrar pelo vidro da minha janela fechada. Por um instante admirei o padrão da luz no meu soalho e nas velas. Parecia uma coisa que você veria naqueles filmes antropológicos sobre rituais de tribos perdidas nesse mundão afora, ou pensando mais morbidamente naqueles lixos cinematográficos, como A Bruxa de Blair.
Senti um arrepio percorrer minha espinha e voltei a vista pra segurança da figura tranquila de Amelie sentada agora no meio da cama, na posição de índio. Ela reluziu outro sorriso caloroso.
Vamos lá, Jefferson, você é um Thomas, e os Thomas não são covardes.
Fechei os olhos e me concentrei. Tentei manter minha mente limpa de pensamentos negativos e me lembrei do calor de uma xícara de chocolate quente, do abraço dos meus pais, da chama quente de uma fogueira crepitante de acampamento, nas labaredas de fogo subindo pelas árvores da escola, em um banho escaldante de chuveiro pra afastar o frio, vulcões em erupção, devastadores, incêndios que transformavam material de construção em mera poeira...
Então ele veio, tomando meu corpo com rapidez, me queimando das pontas dos dedos dos pés até a raíz dos cabelos, explodindo no meu sangue como fogos de artifício. Eu pertencia ao fogo, e ele a mim. Um sussurro se desprendeu dos meus lábios, mas nem eu mesmo entendi o que dissera, o que eu sabia, antes de abrir os olhos, é que todas as velas estavam acesas, pela claridade dourada que bateu nas minhas pálpebras e o arquejo chocado de Amelie:
Mon Dieu...
Eu abri os olhos lentamente, um pouco apreensivo, apesar do meu óbvio sucesso.
As velas brilhavam suaves, iluminando meu quarto de maneira que parecia um lugar antigo, como um aposento de castelo.
“Meu Deus”, é realmente a expressão correta – comentei em tom baixo – Por acaso eu disse alguma coisa, sabe, no meio do...? — eu me recusava a dizer ritual, era tão esquisito.
Sim, você disse “ Fogo, me escute”, e foi, de longe a coisa mais impressionante que já vi na vida, elas acenderam todas ao mesmo tempo, num jorro! Fez até barulho! — ela estava de pé, admirando as velas, a expressão de seus olhos pasma – E agora? Você é, comprovadamente uma pessoa fora do comum, o que vai fazer?
Me juntei a ela, que apanhara uma velas nas mãos e brincava com a chama vermelho-laranja.
Falar com meu pai, preciso saber dessa história de bruxas na família.
Mas você não falou que era determinadamente, as mulheres? — ela deu um risinho de diversão – Você não parece uma!
Eu ri junto, gostando do som de nossas vozes juntas.
Toda regra tem uma exceção, vai que eu sou uma? — era bizarro só imaginar que eu pudesse ser um bruxo, ainda mais um caso raro dentro de algo que parecia ser um padrão – Não que isso me deixe muito calmo, se é que me entende.
Eu entendo – Amelie me deu um tapinha solidário no ombro, ao sentarmos nos pés da minha cama – Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades – ela continuou solene, mas com um toque de zombaria.
Virei os olhos, tentando segurar o riso. Era mesmo muito bom que alguém pudesse transformar um assunto sério como aquele em comédia.
Pare de assistir tanto Homem Aranha.
Desculpe, não consigo, Tobey Maguire não deixa – ela reclamou, em voz falsamente chateada.
Empurrei o ombro dela com o meu e sorri. Ela devolveu com tanta intensidade que me fez arrepiar.
Sabe, por quê não pára de se preocupar tanto? Faz mal pra saúde, vai que você fica com stress?
Tarde demais, eu tenho isso desde que adquiri a capacidade de falar e andar! — resmunguei, pensando em quantas aulas fui matriculado desde os sete anos de idade, pra ver se tinha algum talento oculto.
Amelie riu, mas brevemente.
Veja pelo lado bom, agora você pode colocar fogo nos cadernos – ela piscou e bateu de leve na minha mão.
Não contive uma risada.
Não é má ideia, mas eu provavelmente ficaria de castigo pro resto da eternidade! — cobri a mão fria dela com a minha, pra ver se a aquecia. Ela e Alienor eram as pessoas mais geladas que eu conheci em toda a vida.
Os dedos delas eram finos e delicados, com textura macia.
Às vezes a eternidade pode não ser tão ruim... — ela disse, recostando a cabeça em meu ombro, o tom casual e cheio de sabedoria. Como se ela soubesse exatamente o significado da eternidade.
Você fala com o poder da experiência própria? — passei o braço sobre seus ombros pequenos.
Ela não respondeu, só afundou dentro do meu meio abraço e colocou o cabelo preto e cheirando a morango atrás das orelhas.
Se tivesse um segredo, que não pudesse contar ainda, o que você faria?
Respirei o cheiro do seu cabelo, pensando que outro segredo além da doença ela poderia esconder. Ela era uma alienígena vinda de Marte? Tinha assassinado alguém? Se transformava em lobo na lua cheia? A comparação de realidade com supostos mitos não me parecia mais tão inconcebível.
Eu acho que só se conta um segredo quando se está preparado pra tal coisa – respondi, escorregando os dedos por um dos ombros brancos e redondos. Ela me lembrava muito aquelas bonecas de porcelana luxuosas e caras. Lindas e frágeis.
Obrigada, Jeffe, sabia que podia entender – ela suspirou, virando o rosto pra mim, os lábios cor de rubi esticados num sorriso suave de gratidão que me fez derreter por dentro. Amelie era esse tipo de garota que te desconcerta, te deixa com medo de ser mau educado ou grosso demais, de falar algo errado e fazê-la ficar triste, então você automaticamente dava o melhor de si. Ao contrário de Alienor, ela era de comer com os olhos, irresistível, aquela pessoa que você morre pra dar um beijo, e enlouquece quando consegue, e fica sedento por mais. Era quase como comparar uma pantera com uma borboleta. Saúde e Doença.
Sabe que nosso pacto não se aplica só a mim. Posso guardar qualquer coisa que quiser me contar. Não me importo de esperar o seu tempo, Amelie.
Eu fico agradecida por isso – ela tocou meu rosto com a mão que retirou da minha – Você é tão incrível por fora, quanto é por dentro, Jefferson. É difícil encontrar alguém assim.
Meu rosto esquentou em menos de um segundo.
Obrigado, Amelie – agradeci, num fio de voz.
Meus olhos ficaram nos dela, como metal atraído por imãs.
Eu gostava da cor dos olhos dela, eram escuros, com a suavidade de um céu sem estrelas, e o calor de um raio de sol.
A boca dela estava tão próxima que eu sentia seu hálito nos meus lábios, fazendo cócegas.
Como se fossem donas de si mesmas, minhas mãos seguraram o rosto dela e a trouxeram pra ainda mais perto de mim. Apesar dela estar gelada, eu sentia como se uma labareda efervescente crescesse em capa ponto de mim. Aquela boca vermelha como sangue estava tão próxima...
Olá! — gritou a voz da minha mãe na sala, fazendo eu e Amelie pularmos e nos afastarmos um do outro como gatos escaldados – Tem alguém em casa?
Acho que tem sim! — exclamou meu pai – As chuteiras que estão jogadas aqui no corredor devem ter um dono!
Nossa, como é maravilhoso ter pais com timings perfeitos. Realmente uma coisa pra se comemorar.
As velas! — lembrou, Amelie, começando a assoprar as mais próximas dela.
Droga! — resmunguei, e fiz o mesmo.
Não sei como conseguimos apagar tudo aquilo em questão de minutos. O problema era o cheiro de vela queimada.
Abra as janelas! — pedi a Amelie, que as escancarou de imediato – Venha, é melhor sairmos do que eles entrarem!
Não vai ter problemas por, bom, eu estar saindo do seu quarto?
Vamos descobrir agora!
Isso não soa muito promissor! — ela riu, apesar da situação constrangedora.
A puxei pela mão, em direção à porta.
Eu sei, mas não temos opção, temos? — indaguei sorrindo. Acontecesse o acontecesse, provavelmente seria no mínimo engraçado. Meu pais garantiriam isso, tinha certeza.
Parece que não – ela jogou os cabelos pra trás e tentou desamassar a camiseta pólo cor-de-rosa – Bem, seja o que Deus quiser!
Ou o Diabo! — brinquei, fazendo coro aos risos dela.
Claro, que depois de passarmos por meus pais, eu teria que chamar meu pai de canto. Mais do que nunca, eu precisava saber sobre minha avó – que chegaria em breve – e as mulheres antes dela.
Porque ao que parecia, meu talento com o fogo estava acorrentado firmemente às minhas ancestrais.
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