Série Pacto - Conspiração
7 O elo perdido (Elisabete Thomas)
Notas iniciais
A noite tinha ficado repentinamente agradável e quente, e depois de sair do Rock's me despedindo do Alan com um abraço muito grande e um pedido de sairmos de novo qualquer dia desses, eu me sentia muito mais eu mesma do que há muito tempo. E fiquei feliz de poder andar sozinha e despreocupada, pelo menos por um período de tempo em que não precisasse me ocupar com magia e vampiros.
Eram onze horas, mas as ruas ainda estavam movimentadas, portanto me sentei despreocupadamente no ponto do ônibus que me levaria pra casa. Não que não pudesse andar a pé, mas ia chegar em casa pela meia noite, e daí as ruas já não seriam mais tão seguras. Nem pra uma feiticeira. Ri um pouco ao sentir o quanto isso estava cada vez mais fácil de aceitar. Afinal de contas, não dá pra se negar nossa natureza, mesmo que ela nos assustasse.
Uma brisa mansa tocou meu rosto, como se me acariciasse, numa resposta aos meus pensamentos.
Pelo menos não estou sozinha, já é uma evolução – sorri, com um abano de cabeça e tirei da bolsa meu exemplar muito surrado de O Morro dos Ventos Uivantes. Estava entretida na história quando ao virar uma das páginas, meus olhos bateram casualmente num rapaz encostado no muro do prédio, do outro lado da rua. Ele não estava muito perto, mas pela claridade da lâmpada do poste deu pra notar muita coisa: sua pele era branca como osso, ele era alto e longilíneo, e os traços de seu rosto eram angulosos e bonitos.
Meu coração deu um salto vertiginoso no mesmo instante em que ele focou seus olhos cor de violeta em mim. Como se alarmes de incêndio estivessem embutidos em minha cabeça, minhas mãos guardaram o livro apressadamente na bolsa e minhas pernas criaram vida própria, eu tinha que ir embora dali, antes que o olhar sedento do vampiro se transformasse em presas e íris negras.
Eu saí apressada, dobrando na esquina em frente e voltando ao movimento mais constante da rua, mas ao erguer os olhos meu horizonte foi invadido pelo vampiro que pensei ter deixado pra trás.
Ele estava sorrindo, como se minha tentativa de fugir o divertisse. Mas eu estava com medo demais pra me sentir ultrajada. Ele não era Jacques, ele iria me matar, beberia meu sangue até me deixar vazia.
Andei devagar, de costas, mantendo contato visual com ele, que continuava me observando com expressão de diversão.
Num repelão, me virei e corri. Ou essa foi minha intenção, porque fui barrada por um corpo grande e duro que mais parecia uma parede.
Era outro vampiro, cujos olhos verdes chamuscavam com pontos dourados. Fiquei hipnotizada por aquelas duas belezas de tirar o fôlego, até meu lado racional me arrancar deste estado ao observar o sorriso ameaçador que estendia os lábios dele, as veias que começavam a pulsar.
Tentei me lançar novamente pra trás, mesmo sabendo que havia outro me esperando, mas fui detida por braços de ferro.
Pssiu, calma, minha beleza, não vai doer nada, eu prometo que vai ser rápido – sua voz era linda e tinha um sotaque muito sutil, assim como acontecia a todos os D'Crécy. Me debati e ele riu, na direção do outro vampiro atrás de mim – Elas sempre tentam escapar, não é?
Realmente, elas tentam – concordou o outro, num tom de voz baixo e neutro.
Os carros passavam velozes. Como ninguém reparava??? Comecei a tremer, um pedido de misericórdia se ensaiando em minha mente.
Por favor, não me... — sussurrei, mas assim que comecei eu me dei conta do que estava fazendo. Foi como receber água fria na cabeça, me despertando pra minha situação.
Eu era uma feiticeira. Eu controlava o ar. Ninguém iria me matar. Não se eu não permitisse.
Estava dizendo alguma coisa? — indagou meu algoz, o rosto muito próximo do meu.
Na verdade, eu iria pedir pra me soltar e me deixar ir embora em paz – respondi, com educação.
Suas mãos desceram sobre meu pescoço, arrepiando minha pele de maneira que meu corpo tremeu involuntariamente.
I think this not possible, my sweet lady – ele falou, e meu inglês básico serviu muito bem pra entender o que ele disse.
Eu... — engoli seco, mesmo que sentisse raiva de mim mesma por sentir medo — … aconselho você a me soltar, caso não queira ser queimado, garanto que posso fazer isso.
Uma respiração curta e rápida tocou minha nuca, transformando meu corpo em pedra.
Look that Will! She now that we are! – sussurrou no meu ouvido, o vampiro de olhos violeta, embora eu não pudesse vê-lo, imprensada como estava entre os dois – Como pode ser?
Será que ela conhece mais de nós? Estou certa minha lady, você conhece?- questionou o vampiro Will, que tinha as mãos em cima de mim, com seus olhos verdes ardentes percorrendo meu rosto.
Respirando tremulamente, ouvindo o sangue bater nas orelhas, cerrei os punhos, nervosa.
Não é da sua conta, sanguessuga! — exclamei, me arrependendo no mesmo instante quando o vampiro às minhas costas rosnou com raiva.
Como se atreve, sua … — senti o puxão em meus cabelos, mas o sibilar horrendo que saiu pelos lábios do Will calou o protesto passional e perigoso do outro.
Shut up! — Will silvou, os dentes se arreganhando, me causando a sensação medonha de que a qualquer instante, quando ele quisesse, ele poderiquebrar meu pescoço com um toque de mãos. Eu tinha prova suficiente de que vampiros eram fortes pra isso e muito mais.
O outro se calou na hora, o que me fez pensar que talvez Will fosse o líder da família, do bando, ou que diabos fosse!
Diga-me, conheces mais de nós por estas bandas? — ele perguntou com extrema calma e polidez. Típico de ingleses, não? Agora eu identificara de onde o inglês dele era — como é bom assistir The Tudors (amoo Jonathan Rhys Meyers). E também percebi o modo de falar. De que século? Eu não tinha ideia. Mas me fazia lembrar exatamente da época dos Tudors do meu seriado favorito.
Sim, mas qual é o objetivo do interrogatório? Você não pretendia me matar? — não sei porque mas achei boa ideia não mostrar meu poder sobre o vento, não sem antes saber como se encaminharia a versão vampiresca de inquisição.
Ah, eu irei, geralmente dou muito prazer às minhas presas antes delas morrerem – um assoviar agourento se ouviu nas minhas costas – Não se preocupe, James, eu vou deixar um pouco pra você. E então? — ele tinha as sobrancelhas vários tons mais escuro que seu cabelo claro, que brilhava em mechas douradas na luz dos faróis dos carros que passavam apressados. Será que não parecia estranho a nenhum motorista, uma mulher no meio de dois homens num horário tão tardio? Acho que não, porque nenhum parou e tentou me tirar dali. Bom, de qualquer maneira, o que eles podiam fazer? Iam ser drenados antes que dissessem “polícia”.
Eu conheci um que tentou me atacar – minha intuição e meu ressentimento não permitiu que eu citasse Jacques D'Crécy, embora eu estivesse misturando o episódio de Amelie com o de Átila acertando Jean — Mas fui salva por um amigo muito bom em atirar com balas de prata.
Como se eu tivesse acendido um fósforo no meio de palha seca, o rugido que subiu tanto da garganta de Will e James faria inveja a um terremoto. Virei o rosto pra trás e vi a mesma máscara pintando o rosto à minha frente, olhos dilatados e pretos como carvão, veias prestes a romper os rostos lindos. Eu me encolhi, e dessa vez pedi ao vento, que por favor, se não pudesse me defender explicitamente, que me trouxesse ajuda, porque eu tinha certeza que em questão de segundos eu iria virar lanche noturno de vampiros.
Eu não gosto de caça-vampiros, James, tu gostas?
Não, Will, não gosto – sussurrou este em resposta.
Que tal darmos um motivo para o atrevido vir nos caçar? Será divertido depois de tanto tempo sem encontrar nenhum desses seres medíocres – sugeriu Will, os pontos dourados dos olhos em contraste com o preto dando a ele uma aparência simplesmente medonha, era como ver uma fogueira dentro de pupilas, e saber que seria queimado por elas.
Seria ótimo quebrar o tédio, Will – concordou James, com entusiasmo óbvio.
Lamento my lady, que morra desse modo tão apressado, mas nós não gostamos de caçadores – Will tocou minha nuca gentilmente, inclinando-a um pouco pra trás – E nem dos seus amigos – ele sorriu, os dentes afiados e brancos brilhando.
Por favor, pela magia que corre nas minhas veias, ar que dá vida ao meu corpo, ajude-me, ajude-me!
Esse foi meu último pensamento antes de receber a pior dor que um ser humano poderia sentir atingir meu pulso e meu pescoço. Era como ser perfurada por um serra elétrica ou ter um membro esquartejado.
Meu grito foi agudo e o terror contido nele era explícito, de arrepiar os cabelos. Eu estava morrendo, a magia não me ajudara, eu sentia meus ombros molhados com o sangue que jorrava, e pra impedir que meu grito continuasse, uma mordida agoniante selou meus lábios num beijo de morte. Era uma boca quente, sedenta, assim como o mesmo calor que eu sentia na dobra do meu braço.
Eu sabia que a inconsciência estava vindo, porque meus olhos viam pontos coloridos diante deles, e no momento em que eles fossem só escuridão, eu teria deixado a vida pra trás.
Meus joelhos cederam, mas braços me mantiveram em pé.
Então a dor começou a se abrandar, o que era bom, eu não sofreria por muito tempo.
Não pude deixar de ouvir o som do meu coração, que pulsava cada vez mais lentamente nos meus ouvidos, cada vez mais fraco... Foi nesse ponto em que notei que em vez de estar fria como o cadáver que em breve seria, minha pele parecia chamas em cada ponto que revestia meu corpo, então , como se estivesse desesperado pra fugir da morte, meu coração acelerou num solavanco, e bateu mais rápido do que jamais batera em vida, e bombeou o sangue em ondas desenfreadas por mim, que explodiram em cada ponto sensível do meu corpo.
O jorro de prazer foi tão grande que gemi alto e minha respiração se tornou um ofegar rápido. Minha boca antes passiva, se moveu nos lábios que ainda, violentos, mordiam e sugavam os meus. Eu queria mais, precisava de mais, minha mão encontrou a pele do rosto que estava abaixada sobre meu pescoço e a apertou contra a jugular. Em algum lugar da minha mente uma voz berrava pra que eu parasse, se não eu iria morrer, mas meu lado primitivo e preocupado em obter mais daquele prazer sufocante não escutou.
Mas minha audição ainda estava ligada. E foi ela que captou os três disparos, que pareciam estar muito perto. Depois um grito animal, como de um tigre sendo abatido, então mais dois disparos e um rugido conjurado dos piores pesadelos, e se foi.
MEU DEUS! — gritou uma voz que eu sabia conhecer, mas não conseguia me lembrar de onde.
Meu sistema estava falhando, o êxtase se fora com o primeiro barulho de tiro. E foi aí que percebi o quanto eu estava na linha limite. Caí como uma árvore cortada no chão, ouvindo todos os sons cada vez mais distantes, meu coração novamente lento.
O escuro veio à galope. E em cima dele, estava afável, a morte.
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