Série Pacto - Conspiração
12 Não ande com assassinos
Notas iniciais
A luz da manhã adentrou pela janela do meu quarto, iluminando meu rosto. Nem tinha tido força pra ir direto pra cama. Havia tombado no meu divã e dormido instantaneamente. Meu celular tocava uma música suave de flautas e violinos, algo que me fez lembrar de imediato de cavalos e damas medievais de cabelos compridos. Eu tinha mesmo que parar de evocar a Idade Média o tempo todo, até parece que eu não tinha vizinhos que viveram naquele tempo.
Me ergui e revistei o quarto com os olhos, à procura da minha bolsa. Estava bem aos meus pés, meio aberta. Piscando pra afastar o sono, vi uma folha dobrada que com certeza não era do meu caderno. A peguei com cuidado, o papel era macio e pesado, algo que não se encontraria na minha casa, era refinado demais.
Elisabete
Espero que esteja melhor. Eu pensei que você fosse morrer, ainda bem que temos uma verdadeira equipe médica em casa, fiquei bem triste em não ter me formando em Medicina ou Enfermagem como Jacques, Hugo, Alienor e minha mãe, assim poderia ter ajudado em vez de ficar só olhando, toda aflita. Mas tudo acabou bem, é isso que importa.
Queria que não relatasse a ninguém o conteúdo dessa carta, principalmente ao Jacques, ele não vai ficar muito feliz comigo.
Sabe que gosto do seu irmão, na verdade é mais que isso, eu o amo, e faria de tudo para o proteger, ele é um rapaz muito especial.
É o mesmo que o meu irmão faria por você, Elisa, por mais que você não creia nisso.
Não sei se posso falar por ele na questão de esclarecer quais são os sentimentos que ele nutre por você, mas tenho certeza de que são fortes, por mais que ele não lhe diga ou expresse. Só lhe dê um tempo, Jacques teve o coração partido de uma forma cruel, não é fácil pra ele se abrir, nem mesmo pra nós, que somos de sua família.
Paciência, Elisabete. Paciência, por mais tedioso que seja esperar.
Eu esperei , e valeu a pena.
Pense nisso.
Amelie
A letra dela era bonita e floreada, pequena, um tipo que combinava com sua personalidade. Apenas a cor da caneta usada, um vermelho-escuro intenso, admitia uma sensualidade e agressividade velada. Constatei que meu julgamento estava certo, ao considerar a vez em que ela tentou me comer viva, e todas as outras em que não estava tendo um ataque.
As palavras de Jacques sussurraram nos meus ouvidos, “Nós temos natureza violenta, Lis, e às vezes lamentavelmente, essa parte nos domina de modo que a racionalidade fica completamente subjugada...”, será que Amelie não teria tentado me matar mesmo não sendo doente?
Mas então, como um tapa, minha visão retrospectiva de Jacques sem poder falar, impotente, diante da mulher que amara e que o amaldiçoara, me fez vacilar. Aquele parecia um sofrimento fora dos limites humanos. Não era como nos filmes, quando você levava uma dentada no pescoço e voilá, um vampiro novo na área.
Me lembrei da pergunta que fez, quando viu o amor de sua vida partir e deixá-lo para o pesar e o sofrimento, “ O que eu fiz de errado?”, ele ainda se culpava, ainda admitia uma parcela que nunca tinha sido dele. Rememorei os breves lampejos que o iluminavam, o tirando um pouco do escuro. Ele tinha sido adorável, com certeza um daqueles estereótipos de cavaleiros medievais, valoroso, corajoso e com um coração de ouro. Percival em carne e osso.
Lágrimas borbulharam, borrando minha visão.
Droga, como as coisas podiam ser tão complicadas?! Eu o amava, sabia do seu sofrimento, mas agora ele era um vampiro, ele havia matado duas pessoas da minha família na sua cegueira pelo ódio, como eu teria garantia que um dia ele não se voltaria contra mim no menor deslize?
Dobrei a carta de Amelie e a guardei na gaveta do meu criado-mudo. Então, meu celular tocou avisando que havia uma chamada, cortando mais uma melodia a lá lembrando-a-idade-média.
Não reconheci o número, mas atendi.
Alô?
“Bom dia, raio de sol!”
Óh. Que ótimo. O quase assassino da minha melhor amiga logo de manhã. Perfeito.
Sério, você não tem noção de horário? E como conseguiu meu número?
“Uau, estamos de mau-humor hoje, non? Só estou ligando pra lhe fazer um convite, gostaria de tomar um belo café da manhã comigo?”
Não ando com assassinos – respondi, azeda.
“Melhor rever o conceito e suas companhias, então, você está cercada de assassinos desde que os D'Crécy chegaram nessa cidade”.
Ótimo. Ele ainda tinha respostas boas.
Eles não tentaram matar uma amiga minha – continuei, o argumento mais recente boiando na superfície do meu cérebro.
“Se eu soubesse quem você era de primeira, não teria usado Alexandra como meio de confirmação. E creio que já fui castigado pela minha impertinência, seu amigo caçador atira bem, meu joelho ainda está meio duro até agora. E então? Aceita tomar o café agora?”
Meus pais e irmão vão acordar em breve, é com eles que tomo meu café da manhã diário.
“Às vezes uma mudança de hábito faz bem, já parou pra pensar nisso?”, senti um tom de riso na voz dele, que me deixou tanto irritada quanto deslumbrada. Nem Amelie tinha aquela melodia enquanto falava.
Acho que minha vida já mudou o suficiente até agora, não preciso de mais nada bizarro – declarei em tom sombrio.
“Você é criativa, fui chamado de várias coisas ao longo dessa minha vida negra, desde monstro até aberração chupadora de sangue, mas nunca de bizarro!”, ele ria abertamente, o som se propagando na minha audição como um tilintar delicioso, “ O desjejum, como fica?”
Minha Virgem, ele era mesmo insistente, não me livraria dele enquanto não topasse.
Está bem, mas só depois que meus pais e meu irmão saírem pra escola.
“Te pego às oito e meia, na sua casa”.
Não! — esganicei, alarmada, aquilo não seria uma boa ideia – Nem pensar, os D'Crécy moram praticamente aqui na frente, não quero um banho de sangue bem na rua onde moro!
“Como quiser”, ele parecia entediado, “ Me diga onde buscá-la”.
Por quê você não diz onde eu devo ir te encontrar? Essa coisa de cavalheirismo medieval é um pouco enjoativa. Eu tenho pernas, posso andar sozinha.
Ouvi seu suspiro impaciente.
“ Está bem, faça como bem entender. Me encontre às oito e meia, aqui no restaurante do hotel”.
Estarei lá – desliguei, antes que ele falasse mais alguma coisa.
Corri pro banheiro, e vesti uma roupa que não estivesse amassada ou com sangue seco. Dessa vez eu não havia dado tempo à Isabelle D'Crécy de me doar mais alguma peça de grife cara.
Assim que percebi como meus ferimentos horrendos haviam sarado parcialmente, disse a Jacques que iria voltar pra casa, eu já passava tempo demais fora dela, e não queria que meus pais começassem a suspeitar de nada. Me observei no espelho do banheiro. Duas linhas profundas e escarlates estavam desenhadas no meu pescoço, exatamente onde minha jugular batia no ritmo da pulsação do meu coração.
Outras dessas linhas duplas marcavam meu pulso, e a dobra do meu braço, onde estavam perfeitamente visíveis minhas veias em cor azul. Meus lábios estavam intactos, talvez apenas um pouco inchados.
Me lembrei da sensação da força e poder da mordida com um formigamento na pele. Houve dor, eu recordava dela, segundos de uma tortura inimaginável, como se eu tivesse sido mergulhada em ácido e fosse atingida por mil adagas ao mesmo tempo.
Estremeci ao rememorar o prazer que veio em seguida. O formigamento se transformou em calor, fazendo com que meu rosto refletido no espelho se tingisse de vermelho. Eu não podia mentir pra mim mesma. Eu teria morrido só pra sentir aquela sensação maravilhosa de volta.
E de fato isso quase aconteceu, se não fosse Átila ter atendido meu pedido de socorro — Jacques havia me contado dos gritos de socorro trazidos pelo vento, que os dois ouviram, só tenho a declarar uma coisa sobre este assunto: impressionante — antes de ser mordida eu estaria definitivamente morta.
Minha visão foi invadida por um par de olhos verdes, que minha memória jogou na superfície de modo chamativo, como se me piscasse um letreiro brilhante em néon.
Olhos de morte, lindos, letais. Ele tinha perguntado se eu conhecia mais alguns deles que viviam por aqui e que não gostavam de caçadores. Minha testa enrugou, pensativa. Será que eles podiam ser alguns conhecidos dos D'Crécy?
Mas antes que eu pudesse refletir mais sobre o assunto, ouvi uma batida na minha porta. Era minha mãe, chamando pro café da manhã. A acompanhei, bocejando, muito bem coberta de roupas limpas, sem deixar nenhuma das cicatrizes aparentes. E eu ainda chamava o Jacques, de Jac, Cicatriz. A esta altura do campeonato eu devia parecer um afiador de facas.
Estava tudo como sempre na mesa da cozinha. Meu pai bebia café preto em sua xícara, e minha mãe passava manteiga em um pãozinho, reclamando de algum de seus alunos bagunceiros.
Só uma coisa parecia diferente: meu irmão. Ele não estava no seu típico mau-humor matinal.
Ele parecia estar em estado de hipnose. Encarava a mesa sem enxergá-la, e tinha olheiras arroxeadas sob os olhos, o que chegou a me assustar.
Você está bem, Jefferson?
Ele ergueu a cabeça alarmado. Meus pais foram um espelho de sua expressão.
Meu Deus, Jefferson! — grasnou mamãe, horrorizada – O que ficou fazendo pra ganhar essas olheiras de urso panda? Não me diga que passou a noite em claro remexendo naqueles livros velhos e empoeirados?!
Os olhos castanho-claro do meu irmão se arregalaram.
N-não, eu s-só não consegui dormir muito bem – apesar de ter gaguejado, sua frase final mesmo assim foi firme.
Meus pais engoliram, mas... eu não. Eu conhecia muito bem meu irmão, e sua grande capacidade de fazer as pessoas acreditarem no que ele estava dizendo.
Mas o mais esquisito de tudo foi o que ele me disse antes de seguir nossos pais pra fora da cozinha, em direção à garagem.
Escuta, procure não chegar muito tarde em casa, está bem? Você me deixou preocupado ontem – algo no seu jeito de falar me fez ficar tensa.
Jeffe... — tentei tocá-lo, mas ele se esquivou num pulo assustado. Enruguei a testa — … eu estava segura, na casa da Alexandra. Não precisava ficar tão preocupado...
Ele abanou a cabeça uma vez, os olhos pairando por toda a cozinha menos em mim.
Só tome cuidado, está bem? — foi uma pegunta em tom baixo, como se temesse falar alto demais.
Meu Deus, qual era o problema dele???
Está bem, prometo fazer isso. Mas Jeffe, você...
Tenho que ir, tenha um bom dia – ele me cortou apressado, virando as costas e saindo da cozinha a passos rápidos, quase correndo.
Fiquei parada no meio do aposento, piscando confusa pras paredes. Meu irmão parecia que tinha visto a garota do Exorcista em pessoa!
Mas logo tirei isso da minha mente, podia pensar mais tarde. Suspirando, me dirigi até o meu quarto, esperando que as primeiras roupas que caíssem nas minhas mãos fossem as mais horrendas possíveis. Não queria que Jean tivesse a impressão errada sobre eu ter aceito tomar café da manhã com ele.
Pra mim seria mais uma manhã com um vampiro.
Por Deus, quando minha vida voltaria ao normal???
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