Série Pacto - Conspiração
2 Lua alta no céu (Elisabete Thomas)
Notas iniciais
Quando coloquei os pés dentro da luxuosa suíte de Jean Dupré, tive a impressão de estar mergulhando numa grande enrascada. Mas percebi que tinha me enganado quando ele nos mandou sentar usando um floreio elegante das mãos, e colocou diante de mim e Átila duas flutes altas de champanhe.
Tô começando a achar que é só isso que eles sabem beber na França.
Bom, por onde quer que eu comece, Elisabete? — ele perguntou, esticado preguiçosamente no sofá comprido de camurça branca à nossa frente.
Você, Jacques e Anne – respondi, com a taça na mão, mas sem tomar um gole.
Átila tinha rejeitado por completo a dele, se limitando a ficar sentado de um modo tenso do meu lado. Ele bem que podia relaxar, desse jeito ele me deixava ainda mais aflita.
Um sorriso cintilante rompeu o rosto pálido de Jean.
Seu desejo é uma ordem – acatou num tom de voz acariciante – Eu, Jacques e Anne. Bom, já deixo claro que a conheci primeiro, logo que chegou na nossa vila, somente ela, a mãe, e os outros três irmãos. Minha casa ficava ao lado da dela, claro que os D'Crécy souberam da chegada dos Saint German, e tenho que admitir que trataram a família muito bem, a despeito do que todos os outros habitantes, inclusive meus tios, diziam.
E o que seriam esses comentários? — indaguei, tendo que ceder ao champanhe, por causa da boca seca.
Má pétit, em 1182, se houvesse rumores de que você fazia magia as pessoas acreditavam, e não pense que elas ficavam felizes com isso. O medo pode fazer o ser humano se transformar num monstro. Eles só não foram enxotados porque Claire logo foi servir pessoalmente no castelo do nosso senhor feudal, e porque os D'Crécy... – ele citou o sobrenome num tom de nojo — … apoiaram a família. Mas voltando ao assunto principal... eu vi Anne assim que ela chegou com a mãe e os irmãos, linda, com os cabelos claros, os olhos azuis, parecendo...
Pausa para vômito. Eu não precisava de mais um vampiro se babando por uma mulher morta, mesmo que ela fosse minha parente remota.
Eu acho que sei como ela era, poupe a parte da descrição melo-romântica. Não tenho paciência pra isso – cortei, sentindo o ar vibrar ao meu redor.
Acho que os dois homens em minha companhia repararam nesse detalhe.
Melhor obedecer, carrapato – comentou Átila, dando uma risadinha.
Devo concordar com você, porta-estaca – riu Jean, sem parecer nada ofendido – Bem, eu e Anne sempre nos víamos, era inevitável. Era ela que preenchia minha vidinha medíocre, com tios que me odiavam, e que ficariam felizes em se livrar de mim, se não sentissem que eram pelo menos um pouco obrigados, em memória dos meus pais.
O que houve com eles? — me peguei perguntando, baixando a flute em cima da mesa central de tampo de vidro.
Morreram num incêndio – Jean respondeu, encarando as borbulhas da bebida que já estava no fim em suas mãos – São as únicas pessoas das quais vale a pena eu sentir saudade. Eles me amavam de verdade – na borda dos olhos magníficos trasbordava água vermelha, mas ela não foi liberada – Então me restava Anne, ela era divertida, e depois que eu terminava os meus afazeres dentro de casa, ia pra dela, pra esquecer que eu vivia num lar onde não era bem-vindo – suspiro cansado – A primeira vez que a beijei eu tinha quatorze anos, e ela doze. Me lembro exatamente do que ela disse. Estávamos deitados embaixo de uma árvore, em plena primavera, e o cheiro de lavanda era enjoativo de tão doce, ela me olhou por baixo dos cílios louros e perguntou: “Você já beijou?”, fiquei surpreso, eu sabia o que era um beijo, claro, até na minha época ninguém era tão bobo assim, mas minha resposta à pergunta foi comum também, “Não, não beijei, a não ser que esteja contando beijo no rosto ou nas mãos, como dou nas de sua mãe!”, ela riu, “Não, não beijo assim, eu quero dizer...”, seu rosto ficou vermelho como uma rosa, ergui as sobrancelhas, de um jeito esperto, “ Na boca, está querendo dizer?”, “É, é sim”, ela respondeu, o rosto ainda corado, dei risada, “Não, Anne, eu não beijei ninguém nesse lugar!”, eu estava achando engraçado. Óbvio que eu nunca tinha beijado menina nenhuma, a única com quem falava era ela! — Jean deu um sorriso largo de incredulidade no presente – Mas o que ela disse em seguida fez meu coração acelerar, “Por que não me beija, pra podermos saber como é?”, eu estava mascando uma maçã, devo quase ter entalado, e tudo o que pude fazer foi dar uma resposta boa, a uma proposta que me parecia tão boa quanto, “Tudo bem, podemos tentar”. Foi nesse dia que descobri que não poderia beijar mais nenhuma garota a não ser Anne – a expressão dele ficou dura – Eu já devia saber que uma garota que pede beijo aos doze anos, na época em que eu vivia, não seria confiável, mas o amor costuma colocar véu nos olhos de suas vítimas, não? — ele me encarou avidamente, como se eu sofresse do mesmo mal.
Ele tinha razão, mas se dependesse de mim ele nunca ia saber.
Dei um pigarro.
O que aconteceu depois?
Ficamos brincando de beijo até meus quinze anos, foi nesse ponto que Jacques apareceu – ele torceu o nariz perfeito – Anne fez amizade com ele na festa que a igreja deu pra comemorar o dia de um dos mil santos que possuía. Nunca me importei em saber, embora fingisse muito bem ser um excelente cristão, todo dia ia rezar na porcaria da igreja com minha tia. Quando ganhei minha maldição e minha liberdade total com ela, apesar dos danos, fiquei feliz em saber que não precisaria mais pisar mais em nenhuma. Estes lugares me causavam arrepios em vez de paz espiritual. Enfim, eu a perdi no momento em que ela o conheceu.
Posso saber por quê? — ergui a taça quando fiz a pergunta, e Jean se ergueu, me servindo mais da garrafa cujo gelo já virara água.
Ele era filho do vilão, e eu era um mero vassalo, quem você escolheria em 1185?
Alguém que me desse o mínimo de valor? — arrisquei com um encolher de ombros.
Jean me deu um olhar de pasmo.
Não, chérrie, você casaria com quem tivesse chance de te dar uma vida melhor. Eu não era nada, vivia com meus tios que me detestavam e Jacques seria o futuro vilão quando o pai morresse, levava uma vida bem mais razoável e segura, se tratando de tempos de feudalismo. Foi isso que Anne tentou fazer, mas não antes de brincar comigo mais um pouco... — ele virou mais champanhe garganta abaixo — … ela dormiu comigo quando mal completou quatorze anos, mas eu sabia que pro bastardo do Jacques ela ainda declarava ser uma virgem tão pura como neve – um sorriso de desprezo entortou o lábio rosa-escuro pra baixo – Mas eu ainda mantinha esperanças de que ela ficasse comigo...
Eu não posso entender por que teria... — comentou Átila, falando pela primeira vez, e bebendo da sua taça, que já devia estar morna. Me surpreendi com seu modo de falar, não era hostil, somente curioso, e um pouco perplexo.
Jean inclinou a bonita cabeça pra um lado e abriu um sorriso perverso.
Eu rolei pelos estábulos com duas das filhas mais velhas do meu senhor feudal, garoto. Por quê acha que fiz isso?
Átila, surpreendentemente riu.
Por que era bom com cavalos? — indagou zombeteiro.
Foi com esforço que não cuspi o líquido que tinha na boca.
Na verdade era por isso que o pai delas gostava de mim, sempre me dei bem com cavalos e os tratava de maneira impecável. Isso permitia à suas filhas admirarem minha beleza quando eu estava andando pelo pátio de seu castelo. E foi por causa delas que rolei no feno.
Ergui uma sobrancelha em sua direção.
Você não amava, Anne?
Claro que amava! — ele protestou, em um tom levemente ofendido – Mas ela não estava sendo muito justa comigo, e que mal faria um pouco de diversão? Por acaso acha que eu não merecia? — seu olhar azul me atingiu como uma flechada aguda e precisa, perfurando meu peito.
Eu acho que ele merecia, e olha que eu devia estar atirando nele depois do que fez pra Alexandra – disse Átila com veemência.
Cale a boca e engula esse maldito champanhe – resmunguei. Homens. Às vezes eu penso que todos eles deviam morrer. Mas tive que dar o braço a torcer no caso do Jean – Mas admito, você bem que merecia um prêmio de consolação.
Eu ganhei, de fato. Tanto com Jacquelline e Marie, como quanto com as Cruzadas. Acompanhei a terceira, em termos oficiais.
A cruzada dos reis?
Oui. Precisava me afastar da França. Da dor que Anne me causava.
O que ela achou disso?
Por incrível que possa parecer ela ficou mesmo triste por eu estar partindo. Chorou durante todos os dias em que me preparei pra ir, me implorando pra ficar, dizendo que eu encontraria a morte em Jerusalém, e que ela não queria me ver morto... — ele pareceu afundar no passado, como se o enxergasse diante dos olhos — “Por favor, fique! Eu não quero que você morra!”, ela falou, os cabelos desalinhados, as lágrimas despencando por seu rosto, “ Por que eu ficaria? Você não me ama mais, Anne!”, eu respondi, pondo enfim em palavras o que eu sentia, ela pareceu ter levado um bote letal dos dentes de uma cobra, suas faces se mancharam de vermelho, “Como ousa dizer isso? Eu me deito com você toda noite desde que tinha quatorze anos, é claro que amo você! Nunca mais se atreva a dizer o contrário!”. Anne estava furiosa, mas eu também estava, “ E Jacques D'Crécy, você o ama?”, cuspi, meu sangue latejando na cabeça, vi que ela empalideceu, seu ânimo murchando, “Eu gosto do Jacques, ele é um bom rapaz, de verdade, com um coração de ouro...”, os olhos azuis e baixos se ergueram pro meu rosto, “... sabe que tenho que garantir um bom casamento, Jean, minha família precisa de proteção, sempre irá precisar, e você sabe disso”, “Sim, eu sei, e poderia fazer isso”, respondi, me abrandando em vista da fragilidade e preocupação dela, mas Anne se afastou quando fui tocá-la, “Eu o amo, sempre irei amar, mas sei que destino é o melhor para mim, Jean”. O veneno da cobra agora percorria minhas veias, inflamando meu sangue e minha raiva e mágoa, “ E eu sei qual é o melhor para mim, Anne, e é Jerusalém, espero que seja feliz com Jacques, adeus” — ele suspirou, voltando à tona – Eu segui pra Terra Santa, prometendo a mim mesmo que voltaria rico, e que Anne se arrependeria por ter me descartado. Ela que se casasse com o D'Crécy, o homem de coração de ouro, eu não me importava. Mas claro que isso não ocorreu – um sorriso que mais parecia um esgar se fez no rosto dele.
Por quê? — eu coloquei a taça na mesa, me sentindo relaxada o suficiente, não queria extrapolar, tinha me dado bem mal horas atrás por causa de bebida.
Porque entre o grupo de rapazes que seguiu o rei Felipe II, além de mim e os próprios irmãos de Anne, estava Jacques D'Crécy – Jean respondeu, também largando sua flute perto da minha – Voltei um ano depois, mas ele não, nem os irmãos dela, e não tenho ideia do porquê.
Mas não estavam juntos?
Até chegarmos lá sim, mas quando as coisas se complicaram pros malditos de coroa na cabeça, eu voltei acompanhando o rei Felipe, Jacques não, sei lá o que ficou fazendo lá enquanto Ricardo Coração de Leão perdia as calças pros muçulmanos. Só vi a cabeça de palha dele de volta em 1200. Guillaume e Maurice eu não faço ideia. Mas devem ter sobrevivido, se não talvez você não existisse. Eu voltei com dinheiro, apesar do curto tempo no Oriente, e depois ficaria ainda mais.
Você viu Anne? — essa era o meu principal interesse, embora fosse historicamente suculento saber como Jean tinha ficado rico de doer. Talvez eu perguntasse mais tarde.
Sim, a pedi em casamento novamente, pena que tenha pedido num péssimo momento de orgulho e prepotência.
Não estou te entendendo – franzi a testa, observando como o rosto lindo e perfeitamente alinhado dele ficou grave. Como era possível que alguém fosse tão deslumbrante? Não existia uma fração certa de beleza pra cada pessoa?
Cara, se eu tivesse vivido na Idade Média e encontrasse um homem que tinha todos os dentes e alinhados no lugar, aqueles olhos que te atravessavam como dois diamantes e aquele corpo todo, sem dúvida alguma, de acordo com os dogmas da igreja eu iria arder nas chamas do inferno, mas eu iria feliz da vida se pudesse dar uma rolada no feno com ele!
Eu queria que Jacques visse que perdera, então decidi fazer o pedido assim que ele voltou, mas Anne foi mais esperta do que pensei. Típico, eu nunca deveria ter afrontado uma feiticeira.
O que ela fez? — eu escolhi um chocolate fino, dentro da caixa dourada em cima da mesinha de vidro.
Ela disse que tentei violentá-la! — Jean caiu numa risada sem emoção e fria, cujo som fez minhas costas se arrepiarem – A vadia disse isso pro D'Crécy e ele caiu como um patinho na história! Só não tentou me matar porque aquela piranha deu um jeito antes que ele tentasse. Era noite de lua cheia, me lembro perfeitamente, ela me chamou pra uma conversa antes de eu partir pra minha nova cidade.
Não estava mais em (arranjar um nome!)?
Não, assim que voltei me instalei numa cidade próxima, em outro feudo, queria mais que tudo ir pra Paris, mas tinha que ver Jacques voltar e perder, coisa que nunca ocorreu, pelo menos não pelas minhas mãos – ele pigarreou – Então fui até ela, e na minha inocência imaginei que no mínimo me pediria desculpas, mas o que encontrei no campo de lavanda foi uma Anne histérica, que ao me ver voou no colarinho da minha camisa de linho, “ Me ajude, Jean, me ajude!”, eu fiquei assustado, nunca a tinha visto descontrolada daquela maneira, e assim como o vento te obedece Elisa, obedecia à ela também, e aquele dia, ele rodopiava pelo campo furioso, “ Te ajudar com o quê, Anne? Você tem força suficiente pra se ajudar sozinha!”, falei, afastando folhas secas que giravam em volta de mim, se enroscando em meus cabelos, “Eu não conseguirei dessa vez, não posso me envolver, ou eu e minha família seremos perseguidos e queimados! O maldito senhor feudal nos ameaçou com isso, nos obrigou a fazer um pacto com ele, onde seremos massacrados, se eu e mamãe não amaldiçoarmos os D'Crécy! Não posso amaldiçoar o homem com quem vou me casar!”, ela gritou, os dedos arrancando fios de cabelos louros. Me mantive sensato, se há uma coisa que a guerra te ensina é não perder a cabeça, “ E por quê monsieur Henri faria algo do tipo? Os D'Crécy são muito bem quistos por ele, não são?”, “Eram, Jean, eram! Mas eu não posso te contar o motivo, já há vergonha o suficiente!”, respirei fundo diante do desespero dela, mas eu não me permitiria ser adoçado com o açúcar da bruxa, ela já tinha tido o suficiente de mim e do meu coração, eu iria embora, e começaria de novo em Paris, sem ela, e sem meus tios horrendos, “Não importa o motivo, Anne, não ajudarei à você, nem aos D'Crécy, afinal, o que vocês me deram além de sofrimento? Cuide de seus próprios problemas”, e dei as costas ao passado, para sempre, mas eu pude ouvi-la gritar, “Você irá pagar, Dupré, irá pagar por não ajudar-me!” — Jean mordiscou um bombom que tinha pegado – E paguei. Pela manhã eu acordei sentindo como se todo meu corpo estivesse congelado, eu não conseguia mover um músculo, e minha boca estava seca como o deserto árabe. Como não pude levantar permaneci assim até a manhã seguinte. O primeiro som que ouvi foi das artérias da mulher do dono da estalagem, ela batia na minha porta, perguntando se eu estava bem, pois não saíra do quarto. Quando mandei que ela entrasse não foi pra despreocupá-la, mas porque o som estava me deixando louco, e ao sentir o cheiro do sangue quando ela entrou a sede me cravou dolorida o estômago.
Ela foi minha primeira vítima, de muitas que viriam. Em dias percebi que a vingança que Anne prometera tinha caído sobre mim. Ela tinha me amaldiçoado, a punição suprema que uma feiticeira irritada pode usar contra uma pessoa, algo que ela mesma me dissera tanto tempo atrás... — Jean me observou por sob os cílios grossos e negros — … e é isso, mais alguma coisa, mademoiselle? — ele jogou o resto do bombom na língua.
Eu não falei nada. Porque eu não sabia o que dizer. Jacques era mesmo um imbecil. Aquela garota o tinha magoado e enganado, e ele ainda a amava? Anne amaldiçoara Jean, e Jacques e sua família, como ele conseguia passar por cima disso? Admito que ela o fez pra salvar a família, mas poderia ter encontrado um outro jeito de resolver a maluquice, sempre havia uma janela aberta pra uma porta fechada.
Mas acho que esse ditado nem existia em 1200.
E Jacques era um idiota ingênuo. E essa constatação me fez estreitar os olhos de raiva.
Jacques D'Crécy é um completo...
Trouxa? — opinou Átila, com evidente gosto em mal dizer Jacques.
Tolo rematado? — sugeriu Jean inocentemente, sorrindo a ponto dos olhos se transformarem apenas em fendas encimadas por cílios compridos.
Tudo isso e mais um pouco! — exclamei, a indignação fervendo minha pele como línguas de fogo.
Uma brisa um pouco forte demais ergueu as cortinas das janelas abertas, que levavam à varanda da suíte. O vento derrubou várias garrafas de bebida no mini-bar próximo.
Uau, espero que você não o encontre agora, ou ele está morto.
Ou mais do que já está – concluiu Átila, a voz voltando ao tom desinteressado que tinha quando chegamos no apartamento.
Então me lembrei do comentário que Jean fez assim que pedi à ele que contasse sobre os D'Crécy.
Você disse quando cheguei que ficaria feliz em revelar os segredinhos dos D'Crécy, existe mais do que você já revelou?
Ah, você lembrou desse comentário – Jean balançava a cabeça – Se lembra quando Amelie disse que eu devia uma à ela, hoje de madrugada?
Lembro muito bem.
Pois eu devo mesmo. Nunca pensei que eles seriam amaldiçoados, mas percebi que não escaparam das Saint Germain assim que os reconheci num salão de baile de Florença em 1700 e alguma coisa, não consigo me recordar da data exata – os dedos dele enrolaram em seus cabelos escuros – Só sei que cometi o erro de sugar a dama errada, e as primas dela me pegaram no ato, e de Castro, não é só sua família que tem tradição em matar vampiros! Tive a infelicidade de conhecer as irmãs Wronski, umas russas bem violentas, elas conseguiram me pegar, e quase me mataram se não fosse a intervenção de Amelie.
Como isso foi acontecer? Você não parece do tipo que precisa de ajuda – dei um sorriso e ergui as sobrancelhas. Jean suspirou incomodado.
Elas me atiraram praticamente um balde de água benta, assim que me acharam no quarto com a prima delas, a que matei. Lógico que o sangue escorrendo pelo meu queixo me denunciou – ele elevou uma sobrancelha negra e entortou o lábio inferior num ricto de tédio — Não sabe o quanto essa coisa dói e queima. Então elas me arrastaram pra algum lugar bem escuro, não me recordo onde porque meus olhos estavam em chamas e não conseguia nem sequer ver um palmo diante do nariz. Foi quando o som de rodas de carruagem interrompeu a discussão delas sobre como iriam me matar, “Estaca ou fogueira, irmã?”, uma delas estava perguntando, “Acho que nenhuma das opções, temos que sair daqui”, respondeu a outra, “Por quê?”, “Porque uma carruagem acaba de parar ao largo da estrada, irmã, o que acha que irão pensar de nós aqui paradas no meio do mato?”, “Não podem nos ver!”, protestou a que tinha falado primeiro, mas então eu a ouvi, a única voz da família D'Crécy que eu respeitava, a garota era doente afinal das contas, Anne tinha me contado que a família escondia isso por medo de represália, e eu nunca fiz questão de desgraçar a menina, ela era inofensiva na maior parte do tempo, e todas as vezes que a vi Amelie sempre estava cantarolando ou rindo naquela voz de arcanjo com que foi abençoada, “Eu tenho certeza, Marcello, ela escapou quando paramos aqui, não poderia haver uma rota de fuga mais segura, deve ter conseguido sair do baú de algum jeito e fugiu, e ainda por cima levou a minha gata!”, nunca pensei que ficaria tão feliz de ouvir a voz dela, “Oh, Deus, e agora, como vamos sair daqui?”, resmungou a irmã Wronski mais próxima de mim, “ Venha, vamos por aqui, há uma trilha mais adiante...”, respondeu a outra, “Como você pode saber?”, “Não é a primeira vez que essas árvores me vêem querida irmã!”, a próxima respondeu com um tom malicioso, “Por Deus, não deve ter sido muito confortável!”, riu a outra Wronski, “Mas e este maldito diabo? Vamos deixá-lo aí, vivo?”, “Não se preocupe irmã, ele pagará, nessa geração ou em outra, escutou vampiro? Iremos pegá-lo, não será hoje, mas seu castigo virá pelas mãos de um Wronski!”, elas se foram enquanto passos faziam as folhas caídas das árvores chiarem alto, “Vamos, Marcello, ande depressa!”, Amelie reclamou, sua voz com certeza a uns três metros de distância, “Perdão, madame, mas a senhorita pode enxergar no escuro!”, um homem protestou, em tom educado, “Ah, sempre me esqueço deste detalhe, caro mio, ezcuse moi”, as folhas farfalharam perto de mim, então Amelie soou o alarme, “Marcello, direcione o lampião pra cá, acho que temos companhia!”, um clarão laranja-amarelado conseguiu perpassar pelas minhas pálpebras coladas de queimaduras, e meus ouvidos captaram o arfar de susto e surpresa de Amelie ao me reconhecer, “Pelos Céus, o que houve com você, Jean Dupré?”, sua mão tocou meu pescoço e eu me encolhi de dor, “Parece que tentaram te liquidar, não?”, acenei com a cabeça lentamente, meu rosto dilacerado raspando nas folhas secas de outono fazendo com que minha cabeça girasse numa vertigem aguda de dor, “Marcello, volte pra carruagem e pegue minha garrafa de vinho, acho que nosso amigo irá precisar”, ela ordenou, me erguendo o tronco e apoiando meus ombros com um dos braços, “ Madame, ele também...”, “Sim, mas não tema, não irá lhe acontecer nada”, ela dispensou em tom de fim de conversa, ouvi o rapaz se afastar e Amelie voltou a falar, “Vamos lá, Dupré, está sentindo um cheiro diferente por aqui? Sou péssima em sentir cheiro de sangue quando ele está misturado demais a outros elementos, se esforce um pouco e juro que não direi ao Jacques que te encontrei, ele ainda quer te degolar mesmo depois de cinco séculos, embora em minha modesta opinião os dois tenham sido feito de palhaços por uma grande vagabunda, nunca gostei daquela puta!”, ouvir Amelie xingá-la foi surpreendentemente, ela nunca pareceu o tipo que tinha boca de um estivador, era refinada demais, e isso me fez sorrir, “Você tem razão, ela era mesmo uma meretriz, mas independente disso não estou no ânimo de me bater com seu irmãozinho de ego ferido, e quanto à sua pergunta estou sentindo cheiro de sangue fresco, o que é deveras estranho, visto que as mulheres que me arrastaram até aqui não tiveram os pescoços mordidos, seu serviçal parece estar com a pele no lugar e ambos nós dois somos vampiros malditos do inferno”, ela soltou um palavrão que não irei repetir, porque não quero macular a reputação da jovem, mas que me fez rir ainda mais, “A bastardinha deve estar por perto, está ferida demais pra se mover rápido”, “De quem está falando, desculpe minha intromissão, mademoiselle?”, eu podia enxergar um pouco do rosto dela, com o mínimo de visão que minhas pálpebras feridas permitiam e a luz do lampião no chão, que iluminava o escuro, a garota estava sensacional em um vestido de seda vermelha, os cabelos soltos enfeitados com uma única tiara de prata e pérolas, o colo desnudo, “Ela desfará a maldição de suas ancestrais sobre nós, Jean”, ela sorriu suavemente, “E isso é possível? Nunca pensei que pudesse ser revertido...”, eu fiquei tenso de imediato, “Sim, Anne contou ao Jacques que toda magia pode ser desfeita, desde que isso ocorra através das mãos de alguém da mesma linhagem que o fez, ela nunca lhe disse isso?”, Amelie encarou meu rosto incrédula, e eu abri um sorriso duro e sem humor, “Aparentemente ela não confiava em mim, como é percebível”, “Maldita, lamento Jean”, ela me deu um olhar de verdadeira tristeza, “Talvez você possa usá-las depois de nós, eu lhe direi como encontrá-las, todos fomos vítimas daquela família...”ela suspirou longamente, o espartilho apertado expandindo-se perigosamente, “... isso se eu achar a maldita cobrinha mais jovem!”, Marcello voltou a tempo de pegar o fim da exclamação, “Dê-me aqui, Marcello”, ela apanhou uma garrafa de vidro das mãos dele e encostou o gargalo na minha boca seca e queimada, “Beba, e vamos procurar a infeliz, é justo que também volte a ser alguém normal, a não ser que não queira...”, eu engolia o sangue aos borbotões, sentindo o fogo que fustigava minha pele se abrandar, e até mesmo minha visão se tornou mais nítida, “É claro que quero voltar a normalidade, Amelie, sinto falta de me satisfazer apenas com comida!”, grunhi, devolvendo a garrafa vazia, experimentei o olfato, o cheiro de sangue vinha de leste, apontei com o dedo, “O cheiro vem daquela direção”, Amelie levantou-se com graça e avançou até o ponto direcionado, “Sim, agora estou sentindo com mais nitidez. Marcello, volte pra carruagem e espere até voltarmos, leve o lampião, sabe que não precisaremos dele”, “Sim, madame”, ele deu no pé, levando a garrafa e me lançando um olhar de puro medo.
Bem, não culpe o cara, você devia estar um horror – comentei, me arrepiando só de imaginar, eu sabia como vampiros ficavam quando estavam irritados e prestes a atacar, mutilados eles deviam ser mil vezes mais horripilantes.
Jean torceu o rosto cinzelado numa careta.
Não gosto nem de lembrar, fiquei desfigurado por quase três semanas inteiras,e só pude frequentar bailes de máscara, um tédio sem tamanho!
Dá pra voltarem a questão central, por favor? — pediu Átila, impaciente do meu lado, verificando o horário no relógio em seu pulso.
Que seja – Jean abanou a mão – Não há muita surpresa, pelo menos não pra mim. Achamos a garota, estava de fato machucada, de acordo com Amelie ela lutou bastante na hora que Marc a capturou, então ele se cansou e usou da força pra fazê-la obedecer. Seu nome era Teresa Bottulli, e estava na casa de uma tia em visita, longe da mãe, que já havia sido apanhada. Você se parece com ela, Elisabete, exceto pela cor dos olhos, acho que ela até tinha a mesma idade que a sua, mas enfim, a achamos dentro do oco de uma árvore, ela estava com uma gatinha branca nos braços e ao nos ver não tentou correr ou resistir, apenas abraçou a gata e chorou, Amelie se aproximou dela com cuidado, e eu tinha ciência de que ela nunca iria ser agressiva com a garota, o caráter dela sempre foi gentil e amistoso, “Deus, Teresa, eu pedi pra não fugir, é impossível se esconder de nós!”, ela a tirou da árvore com delicadeza, fazendo o possível pra que o vestido rosa da garota não se estragasse ainda mais, “Desculpe por roubar sua gata, mas não queria ficar sozinha”, ela sussurrou rouca, “Tudo bem, sei que cuidou bem de Atia, e ela obviamente gosta de você, caso contrário já estaria cheia de arranhões”, nós escoltamos Teresa de volta até a carruagem, onde ela acabou dormindo, exausta, foi quando me voltei pra Amelie, “Ela irá reverter a maldição?”, “Terá que fazê-lo, caso contrário mataremos a mãe dela”, ela riu do choque que reluziu em minha face, “É apenas uma armadilha bem preparada, Jean, dissemos que a mataríamos à mãe dela, Catarina, se não retirasse o feitiço maligno, assim conseguimos uma concordância mútua”, “Aposto que o plano veio da cabeça de seu pai”, comentei já sabendo que Amelie confirmaria, “Sim, ele não quer sangue, já houve o suficiente em nossas vidas por cinco séculos”, ela respondeu em tom baixo e distante – Jean girou a vista pra mim, os olhos azuis intensos – Só que o plano deu errado, muito errado. Eu vi, porque estava na clareira que os D'Crécy as tinham levado na noite seguinte. Amelie me avisou, e pediu que eu me mantivesse escondido, e declarou que quando tudo estivesse acabado eu poderia capturar as Bottulli pra que revertessem meu feitiço também, desde que não as maltratasse em nenhuma hipótese, “O imbecil do meu irmão já judiou de Teresa o suficiente”, foi o que ela me falou, claramente descontente com o fato.
Eu faria assim, se eu tivesse podido, mas não pude. A lua cheia estava no alto, e mãe e filha estavam dentro de um perfeito...
Por que o fato da lua ser cheia é tão importante? — interrompi a descrição impecável de Jean.
A lua cheia é o ciclo mais poderoso, garante eficácia imediata de qualquer feitiço que se lance, o torna infalível – ele respondeu com ar professoral e paciente.
Como você sabe disso?
Anne não foi a única feiticeira que encontrei ao longo dos anos, Elisabete. Existem muitas de vocês rodando por aí, de várias famílias diferentes, a sua é apenas uma de várias.
Pelo menos não preciso me sentir uma estranha no ninho agora. Desculpe, continue.
Então lá ia a lua, as duas feiticeiras em seus devidos lugares, cada uma na ponta certa de seu elemento no pentagrama, e os D'Crecy, todos no meio, ajoelhados e à espera da retirada de seu mal eterno... Lembra que te disse que Anne controlava os ventos, como você mesma o faz?
Assenti positivamente.
Pois sim, a mãe de Anne, Claire também tinha um elemento sob domínio, e ele era o fogo, que é considerado uma dádiva entre feiticeiras, por ser tão difícil de subjugar. Naquela noite eu e os D'Crécy vimos o vento levantar a poeira a um nível de sufocar, dobrar árvores a ponto de arrancá-las de suas raízes, e vimos água cair do céu em baldes, batendo em nossas peles com força dolorida, nos encharcando, enquanto Teresa e Catarina, depois de oferecer seu sangue como oferenda a terra, rodopiavam em volta dos amaldiçoados, pedindo em vozes uníssonas que a água lavasse a tortura infringida e que o vento levasse pra longe a mácula que recaíra sobre aquela família, e que a lua ouvisse e desse a benção final – Jean parou de falar e colocou a mão no queixo, com aquele mesmo ar acadêmico que ostentara um minuto atrás na cara – Teria funcionado, sim. E você nunca teria os conhecido Elisabete, porque eles estariam mortos há quatro longos séculos atrás, humanos normais. Mas o feitiço maldito não se desfez, porque havia um elemento errado dentro do ritual. Acho que sabe qual é.
Enruguei a testa, e encarei-o confusa.
Eu sei?
Sim, sabe, é só pensar um pouco – ele inclinou a cabeça pra mim, num gesto cortês de espera.
Obriguei meu cérebro a se concentrar e identificar o detalhe perdido. Anne e Teresa tinham o ar, vento, ou o que fosse trabalhando pra elas, até aí tudo bem, Claire e Catarina tinham o f... Não. Catarina não tinha o fogo, ela tinha a água!
Ergui a cabeça da sua posição de encarar o tapete pra pensar, pra cima.
Catarina não dominava o fogo, mas como isso pôde interferir tanto?
O que Anne disse ao Jacques estava correto. Maldição colocada, só pode ser retirada por mãos da mesma família, e exatamente pelos mesmos artifícios usados. Ou seja, por mais que o ritual das Bottulli tenha sido poderoso, ele não teve força suficiente pra reverter a condição dos D'Crécy – ele riu curto e sardônico – O que claro, não os deixou felizes, na realidade os deixou furiosos.
Me retesei no sofá, meus olhos cravando nos de Jean como flashes de lazer.
O que quer dizer? — ouvi a pergunta sair tensa, e Átila se aproximou mais de mim, como se pressentisse que eu poderia precisar de apoio.
Ele estava certo.
Jean se demorou, antes de se dignar a responder comeu mais um chocolate, e depois de engolir falou em tom morto:
Quero dizer que as duas feiticeiras foram assassinadas.
Meu estômago parecia um elevador em queda vertiginosa, e meu coração falhou na batida.
Elas argumentaram que não sabiam o que houvera de errado, tinham feito o que era necessário.
Mas...
Sim, toda feiticeira sabe do que acabei de explicar sobre os elementos iguais num feitiço de reversão, mas os D'Crécy não sabiam deste fato antes de sequestrá-las, e mesmo que as Bottulli tivessem desconfiança de que o erro estava nesse ponto não poderiam ter feito nada. Eu vi Julian tentando controlar os filhos cheios de raiva e frustração, e tenho que admitir que sua intenção jamais foi a de tirar a vida daquelas mulheres, ele as teria deixado partir pacificamente, mas a loura, Alienor, a garota que sempre foi um insulto de tão linda começou a gritar que elas não retiraram a maldição de propósito e Marc seguiu na mesma linha. Amelie mesmo decepcionada, e com as lágrimas vermelhas manchando seu rostinho de porcelana, tentou acalmar a irmã descontrolada, conseguindo segurá-la antes que ela avançasse no pescoço de Teresa, que estava mais próxima, Julian e Isabelle tinham Marc presos pelos braços, e mandaram Catarina e a filha correrem, mas...
Minha garganta se apertou na pausa da história, e meus olhos já estavam cheios de lágrimas que imploravam pra não ser verdade o que eu iria ouvir, porque dentro de mim, em algum canto da minha alma, eu já sabia o final da trama. E ele racharia meu coração em mais pedaços, cujas pontas me machucariam ainda mais.
… Hugo e Jacques estavam cegos pela fúria e desapontamento, eu também ficaria, e até faria o mesmo que eles num momento tão irracional e desesperado como aquele. Hugo, alcançou Catarina na corrida, a agarrou pelos cabelos, fazendo seu pescoço vergar pra trás, e o sangue das veias dela jorraram pela força da mordida, e ela gritou até que nada restasse a não ser olhos vidrados e morte.
Ele fez mais uma pausa, e finalizou sustentando meu olhar com a calma fria que eu gostaria de estar sentindo, mas tudo que meu corpo fazia era tremer, e por isso o braço de Átila me envolveu os ombros.
Jacques deteve Teresa antes que conseguisse dar um passo atrás da mãe. Ele girou o pescoço dela numa volta de trezentos e sessenta graus tão rápida que fiquei até tonto de observar. Ele não se alimentou dela, apesar de ter podido, em vez disso arrancou a cabeça do corpo e a atirou pra longe. Não sei o que aconteceu depois, porque achei melhor ir embora, pela primeira vez em toda minha existência eu tive medo de todos os irmãos D'Crécy, claro, menos de Amelie. Hugo sempre foi um rapaz educado, até meigo pra melhorar a descrição, Alienor era linda, uma deusa na terra, intocável, e Jacques... era exatamente como Anne relatara, coração de ouro, uma boa pessoa. Até pra vampiros, até pra mim, aquilo tinha sido um ato bárbaro demais. Me mantive sempre afastado deles enquanto os seguia, tinha certeza de que nunca iriam desistir de voltar a serem humanos. E então eles acharam os recentes Saint Germain, os Thomas. E estamos todos aqui, Elisabete, a seus pés.
Eu não conseguia respirar, e eu precisava respirar porque não queria deixar Átila sozinho com um vampiro mesmo sabendo que ele tinha uma arma carregada de balas de prata.
Todos os meus músculos e ossos estavam flácidos, sem força pra se tencionarem e pararem de fazer com que eu tremesse dos pés a cabeça.
Elisa, vamos, você já ouviu o que queria – Átila estava em pé, diante de mim, com uma mão estendida.
Olhei dela pra Jean, que mantinha uma expressão neutra. Não podia imaginar o que ele pensava.
Claro que eu sabia que Jacques tinha que matar pra sobreviver, nunca esqueci do fato, só procurava não pensar sobre isso.
Matar para sobreviver é a maldição dele, não há o que ser feito, eu entendia, eu compreendia.
Mas não compreendia e nem entendia o assassinato à sangue frio. Era monstruoso.
E meu coração estava se despedaçando novamente, sangrando e chorando por Jacques D'Crécy. Esta era agora a minha maldição.
Aceitei a mão oferecida, eu precisava distrair minha cabeça, e não ia conseguir ficando ali na suíte luxuosa de Jean Dupré.
Obrigada pelos esclarecimentos, Jean – murmurei sem conseguir encará-lo, por isso olhei pro tapete macio no qual pisava.
Por nada, mademoiselle, se precisar de mais alguma coisa... — eu podia sentir um leve tom de vitória na entonação dele.
E de certa forma ele tinha vencido. Ele conseguira me mostrar o lado mais escuro de Jacques, antes apenas pequenos vislumbres pra mim.
Jean não fez movimento de nos seguir até a porta, só ficou instalado no sofá, comendo chocolate e bebendo o champanhe.
Não me dei conta que estava fora do hotel até Átila puxar minha manga.
O que foi? — indaguei de forma lenta, entorpecida.
Parece que você tem visita – ele apontou em frente com a cabeça.
Mirei naquela direção. E meu estômago não despencou como um elevador descontrolado, ele simplesmente congelou. E meu coração deu um solavanco, bateu lento, depois mais rápido e depois, seguindo o ritmo das batidas o frio o alcançou, e a mão gelada apertou-o, até a dor atingir cada um dos meus ossos, músculos e articulações.
Jacques estava ali, ao lado da moto, com um sobretudo de lã bege, o rosto forte iluminado pela lua alta e cheia no céu, e seus olhos estavam cravados como navalhas em meus próprios olhos.
E eu queria chorar.
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