Notas iniciais
penultimo post e penultimo capitulo!

Dos meus maiores temores, dos meus piores pensamentos, eu não me preocupava comigo.

E sim com minha família.

Ali estávamos, como tínhamos escapado de estar. Num quarto escuro e desconhecido, esperando os Sturart decidirem sobre a viagem que nos levaria de volta pra onde tudo começou. Meu pai já estava lá. Eu soube que tinha razão em ter ficado preocupado.

Amelie estava num canto, respirando devagar, o vestido tão bonito sangrento e arruinado. Ela não movia mais parte alguma do corpo.

Marc, assim como Hugo, estavam sem consciência. O que eu daria pra não pensar sobre o que tinha sido obrigado a fazer antes de estar ali.

Alienor se mantinha rígida, os olhos desfocados. Seu corpo pesado demais pra esboçar alguma reação. Eu sabia que ela estava furiosa, apesar disso. Se ela se recuperasse, seria a primeira a revidar, em seu típico gênio tempestuoso.

Eu também gostaria de fazer isso, mas não sentia meus braços. E minhas pernas estavam incapacitadas por correntes pesadas de prata.

Onde diabos tinham conseguido aquele arsenal que daria inveja a um caçador de vampiros?

Ah, tinham roubado, claro. Se havia algo que os Stuart não sabiam era ganhar as coisas por esforço próprio.

Quando nos pegaram eu não soube pra onde as rodas do carro nos levariam. A única coisa que eu sabia é que minha mãe estava lá dentro também e foi como receber uma estaca.

Mas quando fui arrastado pelo chão e atirado num tapete, eu achei que seria bom se mantivesse o que restava da minha consciência em alerta.

Os olhos que vi no nível dos meus, apesar de minha fraqueza, fez minhas entranhas fervilharem.

Preciso que faça um favor a mim, Jacques.

Seu... filho... da puta! — gemi, e depois perdi a respiração por causa da dor.

Jean sorriu, como uma criança bonita e feliz. O que certamente ele era, menos a parte de ser criança. Ele era um adulto, e inescrupuloso.

Fico feliz de ver que ainda há energia em você, sempre difícil de se render, hem? — seu sorriso sumiu, e o azul de seus olhos ficou mais intenso – E sempre no meu caminho. Simplesmente irritante D'Crécy, parece mosca varejeira.

Eu rugi, me contorcendo no tapete, disposto a mordê-lo se não pudesse estrangulá-lo. Algo acertou minha cabeça e eu senti meu corpo amolecer, o cheiro do meu próprio sangue inundando o ar.

Muito bem, vamos acabar com isso. Emma, dê-me a caneta e o papel, não precisa ser grande.

Algo pequeno e branco entrou no meu campo de visão.

Peter, Mary – a voz de William soou, do meu lado esquerdo.

Fui erguido por dois pares de mãos que pareciam garras de aço. Não conseguia mover o pescoço, então uma das mãos me soltou pra me puxar pelos cabelos.

Eu estava dentro de uma sala na penumbra, simples, mas que parecia muito confortável. Eu via os sofás e a mesa de centro, à minha frente, as cortinas nas duas janelas moviam-se ao ritmo da brisa fria.

Sabe de quem é essa casa, Jacques? — perguntou, Jean, abrindo os braços amplamente – Dos Castro, e hoje um deles vai morrer, sabia?

Eu não podia fazer mais nada, a não ser transparecer minha raiva interior em tentativas de escapar das mãos que me prendiam. Minha respiração estava muito rápida e artificial. A prata em meu peito estava ficando cada vez mais ardente e dolorida.

E sabe quem vai levar a culpa, Jacques? — sussurrou Mary em minha orelha, quase arrancando meu cabelo com seus dedos – Sua família. Em especial você, não que isso seja de nosso interesse. É coisa desse aí – ela certamente estava se referindo a Jean.

Eu lamento ter de fazer tal coisa, Jacques – Jean colocou a mão no coração, mas então mudou de atitude, piscando os olhos como se relembrasse de alguma coisa – Ah, não. Eu não lamento. Você tirou de mim a mulher que eu amava, tentou tirar de mim a oportunidade de voltar a ser humano através de Elisabete, que aliás, é muito bonita e extremamente ousada – seus dentes reluziram num de seus sorrisos mais exuberantes e triunfantes – Adoro isso numa mulher.

Fique longe dela – cuspi as palavras e sangue, que escorreu pelo meu queixo.

Jean abanou as mãos, ignorando minha ordem.

Você não está em posição de exigir nada, D'Crécy. Emma, dê a caneta à ele.

Uma moça jovem de cabelos longos e castanhos assomou diante dos meus olhos, que hora estavam em foco, hora embaçados. Sem me encarar, ela colocou uma caneta comum entre meus dedos fracos.

Vamos, Jacques. Agora escreva sobre seu irmãozinho. Como vocês se vingaram pela sua morte – agora era William que estava à minha frente, em toda a sua corpulência – Dívida de sangue, se sana com sangue, não é mesmo?

Eu... — minha fala estava começando a se arrastar de novo, como um gravador defeituoso — … não escreverei.

Eu acho que ele não entendeu, Jean – suspirou William, endireitando as costas, seu rosto sem expressão – Talvez você possa melhorar a disposição dele, no fim das contas.

Jean se reaproximou, sem esboço de felicidade, apenas uma máscara dura e determinada. Seus olhos estavam reluzentes, de impaciência, que logo se transformaria em cólera.

Jacques, facilite.

Me mate – pedi, e tossi em seguida, mais sangue vertendo pelos meus lábios – Faça isso. Nunca farei o que quer – eu jurava, por tudo que eu conhecia e amava, que se saísse daquele caos, Jean Dupré iria virar cinzas, o pulverizaria com minhas mãos.

E se eu te disser que se não o fizer, sua amada Elisabete vai estar morta assim que eu sair daqui?

Minhas pálpebras dormentes se ergueram, pra que meus olhos pudessem fulminar Jean.

Você... — tosse, senti o líquido quente escorregando por meu nariz — … não o faria... — puxei o fôlego, sem tirar a vista de seu rosto — … precisa dela.

Acredite, Jacques. Eu a mataria só pra que você vivesse pra sempre com o seu inferno. Eu viveria com o meu só pelo prazer disso – ele respirou com força, os punhos fechados em cima dos joelhos, o azul de seus olhos escurecendo.

Não...se atreva a … tocar nela – eu sacudi o corpo, e tentei aproximar minha cara da dele, uma mordida iria ensiná-lo a não ameaçar quem eu amava, mas Jean recuou com precisão.

Então escreva o que foi... pedido – ele piscou pra mim, zombeteiro – A caneta está em suas mãos. E a vida de Elisabete também. Eu não pensaria muito.

Parei de me debater, ofegante. Apertei a caneta em minha mão direita, lembrando da maciez da pele da Lis, do beijo quente, e de toda a vida que transbordava dela, como um rio sem rumo...

Fale o que quer...que... eu escreva – eu sabia que não tinha outra alternativa. Jean não estava mentindo. Se estivesse eu saberia. E esse não era o caso. Eu escrevia, ou Lis era condenada a morte.

Foi o que fiz. Depois me atiraram no carro novamente, por cima de meus irmãos. Não vi como foi a morte do pai de Átila. Era ele que seria usado pra despedaçar qualquer resíduo de dúvida que ele tivesse sobre sermos monstros. A única coisa certa é que seria um assassinato com requintes de crueldade. Sem um pingo de compaixão. Lamentei, mesmo que não fosse resolver em nada.

Tive momentos de subconsciência, em que notava que a paisagem mudava cada vez mais, ficando mais fechada e mais deserta, então só havia árvores.

E a sala onde fomos despejados. A primeira coisa que notei foi o cheiro. O sangue do meu pai era o aroma predominante. Eu queria matar todos os Stuart, como deveria ter sido feito na primeira ocasião em que minha família se bateu com a deles. Mas não era nossa a decisão.

E com certeza eu não tinha mais força suficiente para me mover. Estou esgotado.

Sei que ainda há muita espera pelo que virá, tenho certeza que esta sala escura é apenas uma prévia do pior. Os Stuart são carniceiros, sua vingança não vai se limitar à uma estaca no peito, ah, não. Demorará tempo pra que algo desse gênero aconteça. Teremos um longo caminho de sofrimento e tortura, eu vi escrito nos olhos de cada um deles.

De qualquer forma, minha extinção não me preocupa. Eu já estou pronto pra ela a muitos anos. Eu fiz um acordo comigo mesmo, que todos na família desconhecem. Se caso não conseguíssemos reverter nossa situação, eu seguiria pra luz.

A luz do sol, implacável e divina, a única forma de deixar este mundo com alguma dignidade. Seria uma benção pra quem não o vê há séculos.

Aconteça o que for, é assim que morrerei. Eles vão querer a estaca ou o fogo, eu sei, a humilhação. Mas eu não permitirei. Usarei de todas as artimanhas, de toda a força que estiver me restando.

Eu deixarei de existir diante do sol.

Depois de todo esse tempo, eu não me deixarei extinguir de maneira vil.

Não pelos Stuart.