Série Pacto - Conspiração
23 Cilada (Alienor D'Crécy)
Notas iniciais
Fazia algum tempo que Fabrício, seu escolhido da noite, fora buscar mais bebidas. Soprou mais uma lufada da fumaça de cigarro. Ela dissolveu no ar, fazendo com que notasse as estrelas piscantes no céu. Deu uma olhada no relógio. Apenas onze e vinte. A noite estava apenas começando, e esperou que de início ao fim houvesse diversão pra todos, e nenhuma confusão. Vira Jean dançando com três garotas, e fizera um sinal com o dedo indicador e polegar, simulando um tiro. Havia três caçadores ali, Átila, e seus dois primos – muito gostosos pra caçadores, diga-se de passagem. Mas Jean piscou e a ignorou, o que só podia significar que a dona da festa sabia e dera permissão pra ele estar ali.
O cigarro se acabara. Jogou-o no chão e o amassou com a ponta do peep-toe. Ajeitou a barra do vestido que subia sem parar, e penteou o cabelo com os dedos, desfazendo alguns nós.
Seus movimentos atraíram os olhos de todos os rapazes por perto, o que a fez sorrir gloriosamente. Era bom ser olhada, desejada. E escolher ou descartar entre tantos pretendentes.
Suspirou feliz, voltando os olhos cor de jade pra escadaria de entrada.
Porra, onde estava Fabrício? Se ele demorasse muito mais arrumaria outro pra lhe fazer favores, afinal não faltavam opções. Nesse instante sua irmã desceu as escadas, encantadora no vestido azul apertado. Vários de seus olhares convergiram pra ela, e Alienor fez uma careta descontente. Sabia que era linda, mas Amelie tinha alguma coisa que a fazia parecer frágil, uma donzela em perigo, que muitos homens gostariam de salvar. Ela não tinha isso. Mas deixou a inveja de lado, arrependida. Sua irmã era doente, desgraçada desde seus oito anos de idade, não era justo que tivesse pensamentos absurdos como esse em relação à ela. Amava a irmã.
Ond está seu gatinho? — perguntou, andando sinuosamente até ela, que lhe sorriu tranquila. Era o sorriso da mãe delas, tímido mas deslumbrante.
Está vindo, está assaltando o bufê. Vamos dar uma volta pela noite! — ela piscou um olho, de maneira conspiratória.
Humm, se cuidem direitinho, está levando preservativos? — ela cutucou a irmã com o cotovelo.
Alienor! — ela deu um gritinho de ultraje, mas o sorriso ainda estava lá – Eu não vou...sabe, me deitar com ele! Vamos só dar uma volta por aí, ficarmos sozinhos e ver as estrelas...
Alienor pôs a língua pra fora.
Ai, eca, vocês são mesmo muito água com açúcar. Só espero que não mtenha que esperar tanto pela comida, faz uns dez minutos que aguardo pelo meu uísque – torceu o nariz e Amelie riu, dando-lhe um tapinha solidário no braço.
Acredite, está complicado sair carregando alguma coisa dali – ela apontou o polegar na direção da entrada – Eu derrubei litros de refrigerante em meus próprios pés – ela ergueu a barra do vestido farfalhante, mostrando um sapato obviamente manchado.
Alienor arregalou os olhos, horrorizada.
Por São Luís, você manchou um dos seus mais lindos Jimmy Choos!
Amelie abanou a mão.
É só um sapato, não é como se mamãe não fosse repor – ela encarou os pés – Embora eu deva admitir que é um ótimo par perdido... — ela ergueu a vista e encolheu os ombros.
Ficaram em silêncio por algum tempo, apenas contemplando o céu. Não que Alienor estivesse se importando com a porcaria do firmamento, estava contando o tempo para o uísque chegar.
Ei, garotas! — o chamado a despertou, enquanto Amelie parecia enfeitiçada pelas estrelas. Alienor revirou os olhos diante disso e depois procurou a voz.
Era de um cara de máscara de Pierrô, que carregava um rapaz e uma garota em cada ombro, a um carro de distância. Estavam paradas na calçada, cujo meio-fio servia muito bem pra estacionar.
Algum problema? — indagou, achando graça da força que o cara fazia para amparar os outros dois.
Podem me dar uma ajuda, o carro está longe, e não aguento dar mais um passo sequer!
Se minha irmã concordar, será um prazer! — ela se virou para Amelie, que fez que sim com a cabeça – Tá legal, mas nós vamos cobrar por isso!
O garoto observou as duas com um olhar avaliativo.
Será um prazer pagar! — ele declarou, sorrindo em apreciação.
Aquilo ia ser divertido, pensou Alienor, carregar bêbados sempre dava em boas risadas. E quem sabe o garoto era mais rápido em apanhar coisas que Fabrício?
Espero não piorar a situação – comentou sua irmã, colocando a garota de cabelos louros nos ombros – Não estou vestida pra ser rápida!
Ah, não, você consegue, eu cheguei até aqui com os dois! Aliás, meu nome é Felipe.
Prazer, Felipe! — disse, pegando um braço do rapaz alto de cabelos escuros que ele carregava – Sou Alienor, esta é minha irmã, Amelie.
Ela ergueu um polegar em sinal positivo, à guisa de cumprimento.
O prazer é todo meu, juro que vou recompensar as duas por esse ato heróico! — Felipe prometeu, ofegando, enquanto seguiam reto pela calçada.
De preferência com muito uísque – pediu – Isso vai me dar muita sede!
O caminho foi trôpego, mas como ela tinha imaginado, quando acontecia as topadas e resbalões, era só riso, e ela adorava rir, por qualquer motivo, desde que a fizesse sentir bem.
O carro estava mesmo longe, um Honda prata elegante. Felipe abriu a porta de trás, onde jogaram os corpos quase inconscientes do rapaz e da garota.
Alienor bateu a porta e depois recostou-se nela, tomando ar. Até mesmo pra vampiros aquilo era um exercício e tanto. Amelie e Felipe estavam cada um de seu lado, ofegando.
É uma droga ser o irmão mais velho – comentou Felipe, fazendo com que ela e Amelie o encarassem.
São seus irmãos? — indagou, segurando o riso – Cara, é uma droga mesmo ser irmão mais velho.
Totalmente – riu Amelie. Então os três estavam rindo de se acabar.
E é uma droga ser quem vocês são no momento.
Alienor parou de rir, tão rápido quanto tinha começado. O cheiro e a voz a avisou antes que precisasse ver.
O aperto de Amelie em seu braço foi como granito.
Felipe estava ao lado de James, que lhes sorria.
Muito bom trabalho garoto, agora vá pro volante, vamos dirigir bem rápido.
Para sua total perplexidade Felipe obedeceu, como um cachorrinho.
Persuasão, lembrou. Uma das coisas que amaldiçoados não tinham. Não eram originais, direto da fonte. E graças aos céus por isso.
Olhou pro lado de Amelie e a puxou pra perto. Ali estava Mary.
O que vocês querem? — indagou, tentando não gritar por socorro. Sabia que era inútil, estavam bem distantes do clube.
Mary fingiu pesar sua indagação.
Hummm... vingança, meu bem, vingança. Afinal, não foram vocês que nos expulsaram de um lugar que nos pertencia?
Então era isso. Ela se lembrava da ameaça, mas jamais imaginou que eles voltariam, que tentariam concretizar seu plano de revanche. Sim, por que eles teriam que tentar pegá-la e a Amelie.
Bem, vocês virão conosco ou teremos de usar a força? — James indicou a porta onde estava encostada.
Pro inferno que nós vamos, Amelie, corra!!!
Como a irmã, Alienor tentou correr pra frente, pro outro lado da rua, já que estavam bloqueadas dos lados, mas antes que chegasse ao segundo passo sentiu uma pancada na cabeça que a fez cair de joelhos e depois pra frente, estendida no chão frio.
Vocês D'Crécy nunca aprendem, não é? Sim, vocês são rápidos, mas nós o somos ainda mais – a mão de James agora estava em sua nuca, pressionando seu rosto contra o chão.
Ouviu um disparo e o grito agudo de Amelie.
Não.
Eles podiam fazer o que quisessem com ela, mas não permitiria que machucassem sua irmã. Sua querida e louca irmã mais nova. A única companheira que tinha e confiaria sua vida dentro de uma família feita só de irmãos homens.
SOLTE MINHA IRMÃ!! SUA PUTA INGLESA, SOLTE MINHA IRMÃ!!! — conseguiu gritar para Mary. Sabia que era ela, mesmo que não pudesse ver.
A mão sobre sua nuca se enrolou em seus cabelos, os puxando com violência, a colocando de joelhos, dando uma visão ampla de Mary apontando uma arma para Amelie, que chorava e se contorcia no chão, segurando o peito, onde o vestido claro se manchava na cor escura do sangue.
O que você disse, Alienor, pode repetir? — Mary pediu, engatilhando a arma de novo.
Disse... — cuspiu o sangue da boca — … pra soltar minha irmã, sua vadia!!!
O gatilho da arma foi apertado de volta, e Amelie uivou de dor, o rosto explodindo numa nuvem escarlate, caindo pela pele branca e pelo decote do vestido. Alienor se debateu e rugiu, mas sentiu o puxão agudo e dolorido nos cabelos, como se fossem rédeas contendo um cavalo selvagem.
NÃO!!! — Alienor gritou, enquanto sentia os lábios de James em seu ouvido.
Está vendo Alienor? Cada vez que você insultar um de nós, sua irmãzinha sofrerá, é isso que queres?
Não. Ela não queria. Nunca iria querer.
Abanou a cabeça, pela primeira vez em dois séculos, sentindo as lágrimas lhe escaparem.
Não...não quero.
Ouviu ele rir.
Se vier conosco, de bom grado, garanto-lhe, que sua irmã não sofrerá mais nenhum dano.
E por quê eu confiaria em você? Tenho certeza de que está mentindo – respondeu, sabendo que estava andando numa corda bamba.
Bem, creio que não tem uma escolha melhor, tens?
Conseguiu virar a cabeça e ver o rosto dele. Ainda era bonito, a cor ainda mais pálida que a sua. Os mesmos cabelos escuros e lisos, e os mesmos olhos azuis. Um dia chegara a gostar dele, um amigo, um amante, companheiro das tristezas e alegrias do século XIV. Então viera a disputa, e tudo se fora.
Isso não significa que tenha que concordar – rusgou, uma vontade doentia de cuspir naquele rosto ou beijá-lo, verificar se ainda teria o mesmo gosto.
Ele sorriu, como se lhe adivinhasse os pensamentos.
Sempre teimosa, não mypassion? — quando ele a chamou pelo pronome carinhoso ouviu um silvo como de uma serpente reverberar em seus ouvidos. James riu – Calminha, Mary, isto aqui é só negócios. E então, passion, tem certeza de que esse é um bom momento para deixar que seu mau gênio entre na briga?
Flores. Brancos. Eram sempre brancos. Lírios brancos eram sempre os presentes que ele lhe dava. Amelie as odiava, faziam-na espirrar. Ela amava rosas. Rosas vermelhas. Como sangue.
Eu irei de bom grado. Desde que não toque em Amelie, sabe que de todos nós ela é a mais inocente e menos culpada por qualquer coisa.
Sim, Alienor, eu nunca esqueci disso. Mas sabe como é William – ele deu nos ombros, a erguendo do chão, soltando seus cabelos, apenas pra restringi-la com uma chave de braço no pescoço, não muito apertada, mas sem possibilidade de fuga.
Alienor sentiu a ponta das presas pinicando sua língua. Até parecia que ela iria sem lutar.
Seu pescoço estava num aperto mortal, mas o braço de James também estava numa linha mortal, pras suas presas. Inclinou-se um pouco pra frente e mordeu.
Ahhhhhhhhhh! — James a soltou e Alienor correu na direção da irmã. Sua ação os pegara de surpresa, então estava protegendo Amelie com o corpo antes que Mary atirasse nela mais uma vez.
Vamos, Amelie, corra, agora!!! — berrou pra ela, enquanto a irmã tentava se por em pé com sua ajuda.
Ah, não, sua vagabunda, você não irá a lugar nenhum! — Alienor ouviu o clique e girou pra frente. A arma de Mary agora apontava em sua direção.
Não, Mary! Eu lido com isso, você já fez a sua parte! — o vento se moveu e James estava ali, em pé de novo, ao lado de Mary, segurando a arma em suas mãos. Ela lançou-lhe um olhar que era puro veneno.
Qual é seu problema??? Por quê está tentando protegê-la??? — gritou em tom acusatório.
Alienor sentiu as mãos da irmã em seus ombros. Por São Luís, ela conseguira ficar em pé.
Amelie, se manda daqui! — sussurrou sem virar a cabeça pra trás.
Eu não posso deixar... você aqui! — ela ofegou, a voz falha de dor.
Suspirou. Uma discussão só lhes tiraria tempo.
Anda logo, estou te implorando, avise nossos irmãos que os Stuart...
Seu próprio grito ecoou o da irmã, quando a bala atingiu seu estômago. Viu o sangue escorrer lentamente, quente e espesso, diante de seus olhos. Sentiu seus joelhos cederem, enquanto suas mãos se enrolavam ao redor do corpo.
Pronto, assim está ótimo. Satisfeita, Mary? — a voz de James era entediada, ao devolver a arma a companheira.
Por mim a jogaria ao sol.
William tem outros planos. Não saia da rota sua idiota – ele rusgou, seu rosto se contorcendo. Seu olhar voltou-se pra ela – Alienor, lamento, mas eu não gostei de ter me mordido.
Sua irmã chorava baixinho ao seu lado, segurando seu braço.
Vá pro inferno! — xingou, juntando todo o fôlego que ainda lhe sobrava. Suas pernas não se mexiam, os músculos travados. Suas mãos estavam ensopadas pelo sangue que não parava de escoar, a ferida queimando como ferro em brasa.
Alienor, Alienor...tsc, tsc, tsc – James abanou a cabeça, simulando desapontamento – Sempre falando palavrões. Sabia que não fica elegante em alguém tão bonito?
O sangue latejou em suas têmporas, e seu queixo trincou.
Vá tomar...
Cale a boca! — sibilou Amelie em seu ouvido, a voz sussurrante de fraqueza. Em meio ao seu tormento percebeu que ela estava de joelhos ao seu lado também, apoiada em seu ombro, uma careta permanente no rosto, enquanto suas mãos seguravam o peito e a ferida na testa. Ela não iria suportar muito tempo – Nós vamos com vocês.
Mary virou os olhos e girou na direção do carro.
Garotas estúpidas – Alienor ouvi-a murmurar.
Você é que é estúpida – grunhiu entre dentes.
Sabia que ela a ouviria, mas Mary decidiu ignorar.
Muito bem Amelie – parabenizou James, se aproximando, com a segurança de quem sabia ter deixado os oponentes indefesos – Sempre admirei seu bom senso.
A irmã manteve a expressão de dor e não o fitou no rosto.
O vampiro chegou perto dela, e baixou em seu nível.
Me permite? — ele balançava uma algema diante de seus olhos. Brilhavam na luz fraca dos postes.
Também são de prata – constatou Alienor, pensando que não havia mais saída.
James ergueu os sobrolhos e deu um risinho.
Muito bem, Alienor, achei que só tinha um lindo cabelo, não um cérebro.
Antes que pudesse se conter, sua mão saíra do estômago e voara em direção ao rosto à sua frente. Sabia que seria a sua última reação, sua cabeça pesava, e sua respiração estava muito difícil.
Mas foi ótimo ouvir o estalo de seus dedos contra a pele do rosto de James, cuja cabeça se projetou de lado com violência.
Uhh. Uma onda de felicidade perversa a invadiu. A fazendo dar um sorriso, apesar da fogo em seu estômago a consumir.
James retornou a posição, rusgando pra ela, arreganhando os dentes.
Me esqueci de como você bate bem, my passion. Mas acho que você também esqueceu que eu sou bom com a mão aberta.
Alienor não viu o golpe vindo. Só sentiu o impacto no rosto, ardendo e machucando sua mandíbula tensa, sua cabeça crepitou de lado. Pensou ter ouvido um estalo suspeito.
Um gritinho afogado veio do seu lado direito, de Amelie.
Algo frio bateu em seu pulso, e depois queimou, queimou como fogo em labaredas. Não conseguiu mais erguer o rosto e trincou os dentes, pra não deixar o grito de agonia escapar.
O ofegar de Amelie a avisou que as duas agora estavam presas pela algema.
Não viu como chegou no carro, seus olhos estavam embaçados e seu corpo entorpecido.
A única coisa que teve ciência foi de estar olhando pro pescoço da garota loura, e sentindo o cheiro do sangue humano, persistente, provocante.
Ah, merda. Eles não estavam bêbados, eram lanche dos Stuart!
Virou o rosto pro lado. Preferia a morte do que beber de alguém que Mary tinha colocado os dentes. Deparou-se com a irmã, que estava por cima do garoto. Desacordada.
Sentiu as lágrimas quentes de novo, descendo lentamente. Pela primeira vez desde que fora amaldiçoada, ela fechou os olhos e rezou, implorou a Deus que sua família fosse poupada da morte.
O carro se moveu vertiginosamente.
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