Notas iniciais
Pra brunete, minha fã vip! Tá quase no fim flor...Snif.

Não foi fácil ficar em casa, vendo o sol nascer no jardim dos fundos, deixando tudo tão cintilante e fresco, com seus tons de ouro-claro e branco ofuscante.

Eu tinha acompanhado Marc até a casa de Alexandra, que permaneceu dormindo em todo o trajeto, como se não tivesse sido atacada por um vampiro doido varrido durante àquela madrugada.

Eu disse pra ele atender o telefone dela caso os pais ligassem. Eles não iriam estranhar um cara estar fazendo isso. Sabiam que a filha não era uma inocente virgem.

Marc me deu um sorriso pálido quando fiz o pedido:

- Não vai ser problema, eles já me conhecem.

- Já? — me espantei. Então todo o drama de amar o vampiro era real. Alexandra o tinha apresentado aos pais.

- Sim.

Apenas abanei a cabeça, ausente. Pedi que ele me trouxesse pra casa, e foi o que ele fez, pra depois voltar pra Alê.

Não soube o que fazer comigo mesma durante um tempo. Primeiro entrei no meu quarto silencioso, e tirei a roupa de festa, colocando um conjunto de moletom, aquilo parecia muito mais eu do que as roupas de hiper produção da minha melhor amiga. Fiquei andando pelo quarto, tonteando, pra lá e pra cá.

Até que meu estômago reclamou e fui até a cozinha fazer um chá de camomila. E ao ver que o dia estava clareando pela janela acima da pia, segui pro jardim.

Admirei as árvores que me rodeavam, e a grama sob meus pés, depois as flores nos canteiros ou espalhadas aleatoriamente. Me deixei ouvir o canto dos pássaros que volta e meia assoviavam alegremente, a plenos pulmões.

Agora o orvalho escorria das folhas das árvores e deixava o chão úmido. E eu fazia o possível e impossível pra ignorar as pontadas no peito, como pedaços afiados de gelo, martelando e martelando.

Me sentia uma perdedora por amar. Amar alguém que além de não me querer, ainda não tinha esquecido o primeiro amor morto. Definitivamente, era só comigo mesmo. Só eu podia perder a cabeça por um vampiro, e além dessa parte – não agradável – um vampiro babaca que não tirava a cabeça do passado.

Limpei uma lágrima frustrada, que tinha pingado na minha bochecha. Era a situação mais ridícula possível.

Liguei meu mp3 e o primeiro som que ouvi foi o violino maravilhoso de Inverno, de Vivaldi. Estava na primeira parte, a mais agressiva. Onde as cordas que tremiam eram verdadeiras lufadas de vento frio, arrepios de pele e pressa por calor, embora houvesse um toque do sol.

Eu não iria partir pra segunda parte, era doce e quente, como um abraço, e … melancólica.

Não queria ficar pior do que já estava.

Por precisos minutos observei o sol se levantar por inteiro, resplandecente, o ouro-claro tornando-se uma onda de ouro-amarelo em cada lugar que alcançasse, fazendo o dia nascer oficialmente.

O dia em que eu iria enfrentar um vampiro que não conhecia bem e que apesar disso, já não tinha um bom precedente.

Suspirei, exausta e depois me levantei, pra dar por meu pai na janela da cozinha, me acenando com a xícara de café que segurava nas mãos.

Dei um sorriso feliz. Era bom tê-lo ali cedinho, pra poder me lembrar que pelo menos uma parte de mim não tinha uma vida tão infeliz. Essa parte tinha que se preocupar com as notas da faculdade, trabalhos e seu projeto histórico. E também podia ver filmes e abraçar os pais e irmão e sentir orgulho deles.

Como se eu tivesse chamado o nome dele, Jeffe apareceu ao lado do nosso pai na janela, com o mau-humor matinal de sempre expresso em seus cabelos emaranhados e no lábio de baixo projetado pra baixo.

Enrolei o cobertor rosa-chok que tinha trazido pro jardim pra não morrer de hipotermia, ao meu redor e entrei pra dentro, trazendo a caneca de chá vazia.

- Bom dia, baladeira! — cumprimentou meu pai, no momento em que minha mãe atravessou a soleira da porta – Chegou agora?

- Não, faz mais ou menos uma hora, só não tive vontade de ir pra cama.

- Cara, isso é novidade, você não dormindo até tarde? — provocou meu irmão, dando uma risadinha sacana.

- Cale a boca – mandei, sentando na minha cadeira à mesa – Pai, você poderia me dar o anel da vovó antes de ir pro trabalho?

- Claro, querida – ele respondeu, com a cabeça dentro da geladeira – Quem vai querer doce de leite?

Minha mãe arrancou o pote das mãos dele imediatamente, o que fez todos nós rirmos.

Brincamos, e falamos de coisas cotidianas ao comermos, rolou até uma guerrinha de pedacinhos de pão entre eu e Jefferson, que mamãe parou com desgosto, partindo para o discurso de que havia muita gente passando fome no mundo e eu e meu irmão ficávamos desperdiçando comida.

Papai me trouxe o anel no quarto antes de ir pra aula, levando minha mãe apressada e meu irmão sonolento.

Depois dos beijos de despedida e dos votos de bom dia, me vi sozinha de novo.

Coloquei o anel no polegar, porque era largo demais pro restante dos dedos. Me senti menos triste ao observar a pedra negra sobre a prata pesada. Foi como se eu tomasse mil xícaras de chá, que me aqueceram do frio interno, tornado a dor no peito mais branda.

Pena que a sensação não durou até o horário em que tinha que sair.

Claro que eu fingi ir pra faculdade, pra evitar perguntas sobre faltar aulas dos meus pais. E chamei Átila, seria bom ter alguém armado com estaca e bala de prata do meu lado.

Quando cheguei na frente suntuosa do Scharztam Hotel, ele estava parado ali, vestido discretamente, com um jeans escuro, jaqueta de náilon preta e grossa com capuz, e tênis. O armamento estava por baixo dos tecidos, claro.

- Tem certeza que vai fazer isso? — ele me indagou, parecendo genuinamente preocupado.

- Eu vou fazer, Átila, se não fosse, não teria vindo. Vamos – acenei com a mão, não hesitando nas portas de vidro grosso e escuro, adentrando um saguão de mármore, com uma luz que deixava tudo com mais cara de caro e elegante ainda.

Não perdi tempo e me dirigi à recepcionista, que me avaliou de cima a baixo quando falei o nome de Jean-Philip Dupré.

- O senhor Dupré autorizou sua subida – ela falou isso num tom levemente incrédulo. Certamente, tinha ficado boba com a aparência de tirar o fôlego dele. Coitada. Se ela soubesse...

Quando o elevador chegou ao décimo andar, Átila já tinha checado mais de mil vezes o tubo com as balas prateadas.

- Fique com esse, oferece uma escapada rápida – ele colocou um frasco de vidro com água na minha mão.

Ergui as sobrancelhas em sua direção. Ele pareceu não entender.

- O quê?

- É água, Átila – eu balancei o vidro diante dele.

- Água benta, Elisa, água benta – ele balançava a cabeça, um sorriso pintando seu rosto de traço meigo.

- E funciona?

- Se não funcionasse não estaria te dando, Elisabete.

- Ah.

É, sou um gênio.

Jean estava na suíte número 210, e antes que eu sequer batesse na porta ela se abriu, mostrando a visão mais deslumbrante que uma mulher poderia ter em uma vida inteira.

Jean vestia jeans justos e uma camiseta que meio colava no peito definido, uma jaqueta de sarja bege por cima, os cabelos estavam penteados pra trás, mostrando um rosto simplesmente perfeito em traços e linhas, os lábios rosa-escuro cheios, os olhos tão azuis quanto o mar ou o céu, guardados por cílios longos e grossos e sobrancelhas perfeitamente arqueadas de um jeito masculino e sensual.

- Hummm – os dentes cintilaram quando ele sorriu, os olhos percorrendo Átila e depois a mim – Eu desconfiei que não viria sozinha – Jean tinha uma covinha do lado direito do rosto cinzelado.

- Ela não é idiota – comentou Átila, com voz morta.

Eu? Não conseguia parar de olhar o rosto do vampiro parado na porta, como se ele fosse um imã poderoso.

Sim, ele era um sugador de sangue, e tinha quase matado alguém que eu amava, mas não significava que eu fosse imune a tanto brilho e beleza.

Uma sobrancelha negra se ergueu, e o sorriso ficou torto, irônico.

- Anne trocou tudo isso que está vendo por um pouco mais de conforto na vida e bem, por alguém digamos, de beleza mais rude e taciturna.

- A questão que me trouxe aqui não é essa. Eu quero saber sobre você, Jacques e Anne. E se possível... sobre a maldição que ela e Claire lançaram nos D'Crécy.

- Você quer saber sobre o pacto, então? — ele balançava a cabeça graciosamente, os olhos estreitos de um jeito reflexivo.

- Pacto?

Jean começou a rir.

- Claro, eles não te contaram ainda! Que prazer vou ter em revelar os segredinhos dos D'Crécy Venha, Elisabete, entre, a conversa vai ser longa,e não vou impedir a entrada do rapaz, quanto mais platéia melhor! — ele deu um passo pro lado, deixando a porta livre.

Respirei fundo, sabendo que estava entrando na toca de um leão perigoso e talvez numa teia de esclarecimentos. O outro lado da moeda, a versão dos D'Crécy pelos olhos azuis e incríveis de Jean-Philip Dupré.

Estiquei meu pé pra frente, arqueei as costas orgulhosamente e entrei na suíte, ouvindo os passos de Átila atrás de mim e por fim o estalo seco do fechar da porta.

Notas finais
Está chegando o fim desse livro, apenas mais um cap, e teremos Conspiração, se a Bruna quiser, claro!;)