Série - Pacto
5 Olha como um anjo...mas é demônio disfarçado.
Notas iniciais
Eu sabia que minha tática não daria certo. Fui acordada às nove e meia da manhã de domingo, com minha mãe quase arrombando minha porta, dizendo que eu tinha que dar um depoimento na delegacia.
Claro que meus pais já sabiam. Alê contou todo o ocorrido assim que atravessamos a porta da cozinha. Todo mundo começou a ficar preocupado e bolando teorias sobre a morte do rapaz.
O menino da lixeira também tinha o pescoço aberto... — comentou Jeffe, olhando o teto pensativamente – Será que é tipo um serial-killer?
É uma possibilidade – apoiou Alê.
Átila tinha nos ligado quando ainda estávamos na casa dos D' Crécy. Tinha ido embora mais cedo, mas soubera do ocorrido. E isso dava pra notar pelo pânico com que ficou perguntando se estávamos bem no viva-voz.
Filha, você está bem?
Ergui o rosto, desorientada. Todos na mesa me observavam com cautela. Até Jeffe.
Ahm... — apertei os olhos e inalei o ar com força – Só preciso dormir. A noite foi meio que... demais pra minha psique.
Ninguém protestou ante minha saída. Mamãe até se ofereceu pra fazer uma sopa, mas declinei. Tudo se resolveria com um bom sono.
Mas tudo que recebi foram pesadelos com vultos que se perdiam no escuro, sangue que manchava minhas roupas, pescoço e cabelo, mãos frias como gelo tentando me agarrar enquanto eu corria de algo que não conseguia ver e por fim algo como agulhas afiadas atingiram meu pulso, esguichando mais sangue no meu rosto. E eu estava acordada ofegante e suada embaixo da minha pilha de edredons, com o som da minha mãe me chamando.
Quando apareci na cozinha foi que recebi a notícia da polícia.
Provavelmente só querem saber o que você viu, filha, não tem com o que se preocupar... — meu pai abanou uma mão, enquanto afundava o nariz na xícara de café.
A não ser que tenha visto algo relevante... — minha mãe virou o pescoço pra mim, as mãos cheias de espuma de lavar os pires sujos, que meu irmão, que levantara as oito pra correr, tinha deixado na pia – Você por acaso viu?
Sério. Pais tem radar? Juro que os meus tem. Principalmente minha mãe.
Parei no ato de pegar um pãozinho.
Não, não vi nada além do que todo mundo viu: um garoto assassinado – não olhei diretamente pra nenhum dos dois, só foquei na comida e mais nada.
Meu Deus. Eles eram uma coisa, mas um delegado era outra!
Cara, por que eu tinha que ficar sentada naquela merda de escada? Por que não fui pra dentro como todo mundo? Sim, eu sei, porque sou uma imbecil.
Pai, posso ir com seu carro? Não tô muito a fim de ir a pé, sabe, quanto mais rápido melhor.
Claro. A chave está pendurada atrás da porta – ele se levantou da cadeira e deu um olhar carinhoso pra mamãe – Precisa de ajuda querida?
Seria ótimo se você enxugasse – ela lhe passou o pano de prato e veio me dar um beijo — Vamos ter espaguete pro almoço, não dê trabalho pra polícia.
Muito engraçado, mãe – peguei minha bolsa na cadeira ao lado – Vejo vocês depois.
Antes de ir pra porta, voltei ao quarto, pra vestir minhas botas, porque pela janela da cozinha deu pra ver que o vento estava pra morte. Aproveitei e peguei mais um gorro de lã vermelho, então, rumei de encontro ao chaveiro. Fiquei lá, olhando pra ele, então em um segundo decidi que não seria tão má ideia ir de a pé.
Senti a primeira lufada de vento e me encolhi dentro do casaco de lã, puxando a gola mais perto do pescoço.
O céu estava nublado, e além disso ainda tinha aquela garoa fina e chata da noite passada. Cheguei até o portão, abri, e pra afastar as imagens pavorosas dos meus pesadelos liguei meu Mp3. La Bamba. Ótima saída pra minha mente. Fazia eu pensar em praias e palmeiras, e gente rindo enquanto tomavam drinques exóticos. Bem diferente daquele vento quase pra glacial que sacudia as árvores da minha casa, dos vizinhos, fazendo rodopiar as folhas, ciscos e pó das calçadas. Segui pela direita e minha garganta parecia áspera só de ver a mansão dos D'Crécy, a poucos passos. Suspirei, o caminho ia ficar maior, mas eu ia pelo lado esquerdo.
Minhas mãos dentro do bolso do casaco estavam suadas. Apesar da música me distrair das lembranças da minha noite péssima, eu não poderia deixar de pensar no garoto assassinado. Meus pais estavam com a TV ligada na cozinha, mas eu ignorei completamente qualquer notícia ruim que pudesse estar passando. Só que lógico, eu mesma nunca mais ia esquecer aquele pescoço cruelmente aberto. E por tudo que é mais sagrado, eu tinha visto alguém roubar uma pista do crime nas minhas fuças! Como iria omitir uma coisa dessas pra polícia? Eu era louca, por acaso?
Bufei, chutando uma sacola no meio do caminho. Sim, talvez eu fosse uma completa maluca.
Eu tinha que falar aquilo. Assim pelo menos, a família do pobre coitado do garoto poderia ter uma chance de ver o matador de seu filho na cadeia. Não, eu não poderia esconder uma coisa dessas. Tinha que falar.
Então meu Mp3 pulou pra música seguinte. The King, da trilha sonora de Cruzada.
Sempre amei música que remete a Idade Média, era envolvente, melodias naturais pra mim.
Meus passos pareceram não ter mais som enquanto o som preenchia meus ouvidos. E também bastou pra acalmar, relaxar meus músculos de toda a tensão.
Me sentia mergulhada num isolamento confortável. E foi ele mesmo, que me trouxe diante dos olhos, a visão da noite passada. Me vi levantando do degrau, e o som dos passos leves, e meu pescoço girando pra trás, num reflexo, a sombra grande se movendo, o flash vermelho o seguindo, assim como uma tênue luz de lâmpada relampejou sobre um cabelo sedoso e loiro, até não haver mais nada a não ser escuro.
O fone caiu das minhas orelhas no instante em que tropecei no meio fio. Como que saindo de uma hipnose, olhei ao redor. Eu estava diante da faixa de pedestre da avenida Duque de Caxias. Minha nossa, eu já estava no centro!
E como um chicote, meu último pensamento voltou a superfície da minha mente. A sombra, o relampejar vermelho, o cabelo louro. Senti como se levasse um soco no rosto, minha boca abriu e minha respiração veio difícil. Havia uma coisa que só aparecera agora. Uma coisa que meus olhos não tinham se dado conta, provavelmente pelo meu estado de choque por ver um assassinato bestial a minha frente. Mas me cérebro registrou tudo. Até mesmo o cabelo louro do qual não me lembrava até momentos atrás.
Ai, por quê eu tinha que ter ficado pra trás naquele jardim?
Atravessei a faixa antes que o farol abrisse e fosse atropelada.
Quando cheguei na delegacia dei de cara com algumas das pessoas que tinham comparecido ao coquetel. Era um total pesadelo. Me apresentei no balcão, e a policial ali me disse pra esperar junto com os outros.
Me senti como se estivesse indo pra sala do diretor na escola, por ter cometido alguma infração grave, tipo, meter a porrada em alguém ou ter cabulado aula. Mas claro que aquilo era bem pior.
A porta da sala do delegado abriu-se, e só faltando um cavalo, uma espada e uma cota de malha, Jacques D'Crécy surgiu diante dos que esperavam, despertando olhares arregalados dos homens e respirações presas das mulheres. Sinto dizer que não fui imune a presença extraordinária dele, como todas as outras, mas acho que consegui recuar o maxilar despencado bem na hora que ele virou seus olhos claros e astutos pra mim.
Um sorriso discreto me cumprimentou, e ele deu os passos que restavam até estar diante de mim, parecendo uma montanha vestida de jeans, um sobretudo preto que parecia muito caro que caia até seus joelhos, e luvas de couro nas mãos, que seguravam uma chave e um capacete. Como a pele dele podia ser daquele jeito? Branca, fina, sem uma mancha sequer. Perfeita. Os cabelos cor de trigo estavam espalhados.
Por quê você está aqui? Que eu saiba já foram feito interrogatórios ontem – ele comentou, as sobrancelhas douradas se unindo.
Encolhi os ombros.
Parece que não deu tempo de fazer isso com todos – respondi, sucinta – Mas o que você está fazendo aqui?
Ver o andamento do caso a pedido do meu pai, ele está abalado demais pra vir pessoalmente – ele guardou a chave no bolso do casaco, as linhas fortes do rosto ainda mais acentuadas.
Eu imagino...
Ficamos uns instantes em silêncio, nos encarando. Ele era mesmo o tipo de rosto que te hipnotiza, não tinha beleza clássica, nem a dos modelos de capas de revista.
Tinha luz própria, atraía como um imã. Exatamente o tipo de rosto que eu imaginava que se enfureceria numa batalha e suavizaria com uma boa piada. Um estranho pensamento. Costumo não me deixar levar pelo meu fascínio pela Idade Média, mas ali estava eu, vendo no rosto do meu colega e vizinho, um possível guerreiro franco. Ainda mais com aquela cicatriz pairando na cara.
Quanto tempo acha que vai demorar seu depoimento? — Jacques indagou, quebrando meu momento guerreiro-da-idade-média-com-cicatriz.
Ah-ah – gaguejei, piscando os olhos confusa – Acho que não muito, por quê? — encarei os olhos castanhos e contive mais uma sessão de piscadeira quando os cantos se enrugaram.
Talvez aceitasse uma carona pra casa – os dentes alinhados sorriam com ar prestativo – Devo presumir que veio à pé, está meio molhada.
Nossa, ele tinha mesmo um apego ao português polido. “Presumir?”
Galante. Como o “Perdoe-me” , ou o “Enfadada”.
Me auto-analisei, mas não precisei de muito esforço pra perceber que estava parecendo um pintinho molhado. Aparentemente a garoa era mais danosa do que tinha pensado. Meus cabelos pendiam revoltosos nos meus ombros, úmidos. Pra que servia a porcaria da touca então?
Observei seus olhos de brilho gentil, me debatendo por dentro. O alarme já apitava pra mim, “Não vá, não aceite, não doerá se molhar mais um pouco!”. Epa, como não? Meu cabelo estava uma droga, e sei que isso parece muito superficial, mas tenho muita consideração pelas minhas madeixas.
Tudo bem, mas se vir que eu demorar muito, pode seguir seu caminho – respondi, não deixando a prudência totalmente de lado.
Como quiser e … — ouvimos o ranger da porta. Meu nome foi chamado – Bom interrogatório – ele deu um risinho. Revirei os olhos.
Lamento informar que nada disso está bom – arrumei os cabelos o máximo que pude e entrei.
Não vou ficar aqui me demorando em detalhes. Vou informar o básico, porque gosto de objetividade. O delegado se chamava Fernando de Camargo e apenas me fez umas perguntas inocentes a princípio, tipo se eu tinha notado algum comportamento estranho de alguém, se conhecia todos na festa, e blá-blá-blá. Só que eu sabia que a hora da morte chegaria. E veio, à galope.
Alguém comentou que foi a única a ficar lá fora depois do corpo ser retirado. Posso saber a razão? — a voz dele era persuasiva, calma, sem acusação, e me deixou menos apreensiva.
Eu acho que entrei num leve estado de choque – expliquei – Não conseguia me levantar do chão, comecei a suar e me sentia mal, nunca vi, sabe, ninguém com pescoço degolado em toda minha vida. Acho que pode ser compreensível eu ter ficado pra trás dando um tempo.
Sim, é plausível – o delegado concordou com um aceno de cabeça – Mas... quanto tempo demorou pra entrar pra dentro novamente?
Humm. Porque isso era importante?
Assim que parei de ter vontade de vomitar. Minha amiga, que me acompanhava, tinha saído procurar um outro amigo nosso, e disse pra eu ficar onde estava, foi o que fiz, mas quando me senti melhor simplesmente decidi ir procurá-la. Queria mais que tudo ir pra casa.
Qual o nome do seu amigo?
Átila. Átila de Castro.
Ele olhou o que parecia ser uma lista em cima da mesa.
Ele também está na lista de convidados.
Sim, mas ele foi embora cedo. Nos ligou logo depois de saber do ocorrido. Como deve saber, notícia ruim chega logo.
Sim, e como... — ele baixou a lista e notei que o seu olhar tinha mudado. Agora se assemelhava mais aos delegados que eu via nas novelas: prático e frio – Por acaso enquanto esteve perto do local do crime percebeu alguma coisa? Se alguém, por exemplo voltou até ali?
Calma, Elisabete, calma, respire e fundo e conte tudo.
Só que todos os meus instintos protestaram diante da decisão. Enruguei a testa, confusa.
Ãhhh, não sei, não lembro – continuei, desorientada de verdade.
Pense um pouco, viu alguém entrar no jardim depois de você ter saído, ou enquanto saía?
Sim, eu vi delegado Fernando, falei mentalmente. Mas minha boca estava selada. Como uma tumba egípcia.
Eu não podia contar nada. Absolutamente nada.
Fingi refletir por uns segundos, com a testa cheia de rugas. Então fiz minha expressão mais lamentosa e disse:
Sinto muito, delegado, não vi ninguém. Pelo menos não enquanto estive lá, e se alguém entrou lá depois que saí não posso lhe informar.
O delegado suspirou.
Muito bem, se precisarmos de mais algum esclarecimento senhorita Elisabete, nós a chamaremos novamente, obrigado por colaborar.
Por nada, estou feliz... — mentira descarada — … de poder ajudar.
Apertamos as mãos, e eu saí daquela sala, torcendo pra nunca mais ser chamada. Nunca tinha me sentido pior.
Ao pisar os pés pra fora da delegacia e tomar o vento frio no rosto me acalmei, foi aí que vi que Jacques tinha realmente levado a serio a coisa de ficar me esperando. Ele estava no estacionamento, empoleirado em cima de uma moto preta polida e obviamente de potência máxima. Não sei dizer a marca porque não sou boa com essas coisas, mas posso afirmar que aquela máquina tinha custado uma pequena fortuna.
Sem que eu notasse, meus pés já tinham me levado pra frente dele, nem me dando tempo de pensar.
Então, como foi? — ele perguntou, perscrutando meu rosto cautelosamente.
Deprimente – respondi, colocando o capuz. A garoa voltara com força total – Parece que eu era algum tipo de suspeita.
Você não poderia ser – Jacques disse, me oferecendo um capacete sobressalente – Como poderia?
Eu fiquei pra trás na cena do crime, ele pensou que eu podia ter visto algo mais, e se duvidar até que sei lá, eu possa ser algum tipo de comparsa do criminoso... — abanei a cabeça antes de colocar o capacete na cabeça — … o que é uma tremenda maluquice, não mato nem formiga, quando mais uma pessoa. E se tivesse que matar não seria daquele jeito animalesco.
Mas você viu alguma coisa? — Jacques lançou um olhar penetrante, que arrepiou os cabelos da minha nuca. Havia algo mais também, como se ele estivesse... sondando.
Enruguei a testa, sentindo meu estômago afundar desconfortavelmente.
Não, não vi nada – respondi rápido demais.
Foi a vez dele franzir, os olhos – estavam meio que pra um castanho mais escuro hoje – tão fundos nos meus que achei que seria engolfada. Minha garganta parecia obstruída.
Bom, então você não tem com o que se preocupar – ele colocou o capacete e não pude mais decifrar sua expressão – Suba – ele deu uma palmadinha no assento traseiro.
Engolindo em seco e ignorando todas as advertência que gritavam pra mim no fundo da minha mente, subi na moto e me segurei na cintura dele. Mesmo com o casaco que usava percebi que ele era tão gelado quanto a garoa.
Escuta, você por acaso sofre de pressão extra baixíssima? — indaguei quando a moto começou a zunir pra andar.
Ele virou a cabeça pra mim, o castanho de seus olhos reluzindo de diversão.
Não há nada de errado com minha pressão! — foi a resposta que tive e depois ele começou a rir gostosamente e sem dar mais explicações arrancou rua afora.
***
Quando entrei no quarto eu ainda estava tremendo. Da cabeça aos pés, devido a dois fatores.
Número 1: o frio.
Número 2: Jacques.
A moto corria feito uma bala, e o tempo já enregelante piorou com o vento que batia em mim, e como o motorista parecia tão gelado quanto, suponho que levei sorte ao não virar um grande picolé com pernas e botas. E bom, o dono do veículo tinha me perguntado se eu tinha algum interesse em dar uma saída a noite, sabe, só pra beber alguma coisa, um chocolate quente foi a sugestão maliciosa dele, ao me ver bater os dentes.
E eu — meu Deus — topei, contrariando os avisos malucos que diziam pra mim evitar aquele cara de qualquer maneira.
Pelo menos tinha me livrado daquele interrogatório idiota. Meus pais perguntaram como tinha sido, e eu respondi a verdade, que não havia demorado muito, mas que obviamente o delegado Fernando parecia um pouco desconfiado de mim por ter ficado pra trás, na cena do crime. Meu irmão escutou tudo com ávido interesse.
Cara, eu devia ter ido a essa festa! — resmungou em tom de arrependimento – Ia ver um morto pessoalmente e se tivesse sorte poderia ter me entendido com Alienor.
Mamãe olhou horrorizada pra ele.
Por favor, Jefferson, isso não é uma coisa empolgante, uma pessoa morreu! E em vez de pensar nessa menina devia se preocupar com a escola.
Aliás, como estão suas notas? — continuou meu pai, virando uma folha de seu novo exemplar do Dicionário da Idade Média, na cadeira.
Isso foi suficiente pro meu irmão sossegar o facho. E enquanto ele gaguejava alguma coisa sobre provas de Biologia escapei da cozinha e fui pro quarto, carregando comigo uma grande caneca de chá fumegante. O almoço ainda não estava pronto e Deus sabia o quanto eu estava precisando de aquecimento interno.
Deitei no meu divã, na ante sala do meu quarto. Essa era a vantagem de morar numa casa antiga, você ganha três cômodos em um. No meu caso a ante sala, cuja visão da porta dava pra ver minha cama no aposento central, e depois disso havia o grande banheiro ao lado.
Quem tinha arrumando o divã e as almofadas e pufes e cadeiras e mesinha da minha saleta tinha sido Alexandra, que quando viu o espaço vazio se recusou a deixá-lo assim. Então simplesmente apareceu com os móveis. Não tentei impedir porque era mesmo uma boa ideia.
Tudo era em tom de rosa e azul, e os tecidos, estampas e materiais pareciam ter vindo direto do século XVIII.
Dei um pulo, quase derrubando chá em mim mesma quando meu celular zuniu em meu bolso.
Hummm. Alan.
Oi – atendi, colocando a caneca no chão, no tapete peludo.
Você está bem? Ouvi sobre o que ouve naquela mansão vizinha da sua casa!
Estou bem, Alan. Só precisei ia a polícia prestar depoimento.
Sério? Por quê? — ele soava extremamente preocupado, o que me recordou como ele sabia ser legal e gentil.
Eu fiquei pra trás, na cena do crime sabe, eles acharam que eu pudesse ter visto algo importante, só que não vi nada.
Eu realmente queria me convencer disso.
Então eles não vão mais te perturbar, agora é só evitar encontrar pessoas com o pescoço decepado.
Não resisti ao riso. Ele também sabia ser engraçado. Pena que era tão machista. Se não fosse isso eu nem sequer teria terminado com ele. Mas acho que não seria mal mantê-lo como amigo não?
Vou fazer isso. Ei, como você está?
Bem, treinando pro campeonato da semana que vem. Acha que poderia ir, só pra torcer pelo seu ex? — ele perguntou e senti a insegurança na voz dele.
Sorri e abanei a cabeça.
Eu irei, pelo meu ex e pelo meu novo amigo.
Ouvi ele suspirar e depois rir.
Você é realmente boa demais. Obrigado, Lisa.
De nada, sabe que gosto de ver você nadar!
Rimos juntos. Então ele desligou porque ia sair encontrar os amigos.
Voltei pro chá, pensando na minha omissão no depoimento. Eu não devia ter guardado nada, mas algo me disse pra manter isso em segredo, mas por quê?
Fiquei matutando um tempão, até a caneca e seu conteúdo estarem gelados demais.
Enfim desisti e fui tomar um banho de banheira. Às vezes não adianta pensar sobre certas coisas, acaba te dando dor de cabeça e não se chega em solução alguma.
***
Suponho que você veio armado – disse Julian D'Crécy ao jovem a sua frente no escritório. Sabia quem era, o nome da família daquele rapaz era o carma de gente... como eles.
Eu trouxe uma calibre 38, com balas de prata por precaução – elucidou Átila em tom despreocupado – Mas acho que não vai querer que eu a use vai?
Com um suspiro cansado, Julian se demorou olhando o rosto de Átila. Ele com certeza não tinha medo, nem um pingo. Era uma coisa da família Castro, os matadores de …
Vim aqui pra fazer um trato, embora de acordo com as regras de minha família a tantos séculos eu devesse simplesmente jogá-los na luz do sol... mas como são novos tempos, há uma brecha pra manter a paz.
O que você quer? — rusgou Julian, seu rosto impecável se transformando em algo frio e medonho. Detestava ser ameaçado, muito menos por um mero garoto, por mais que pertencesse aquela família.
Átila enfrentou os olhos gelados como o Ártico com a destreza que corria em suas veias.
Sei que foi uma de suas filhas que atacou o garoto da escola militar e aquele outro, no próprio jardim de vocês, meio imprudente, hem? Achei que gostassem de ser discretos...
Os dois casos foram acidentais. Minha filha tem... um problema.
Não me interessa o problema, é melhor pará-la, caso contrário, eu posso apertar o gatilho – ele colocou a arma em cima da mesa – E os outros serão os próximos.
Não se atreva a tocar nos meus filhos, Átila de Castro – Julian não tocou a arma, mas sua postura se revelou como era de verdade, fazendo Átila recuar as costas pra cadeira novamente. Os olhos do outro era verdadeiras pedras, duras, perigosas, aço diluído em azul . E havia um som subindo de sua garganta ao falar dos filhos, como o início de um rugido.
Era melhor não testar. Prudência. Tinha sido o conselho de seu pai.
Então sugiro o trato, pra que ninguém seja ferido. Ou morto – ele tomou um tom de negociação, embora Julian estivesse no limite de explodir. Ninguém tocaria em sua família, nem que ele tivesse que matar.
Fale – ordenou, sua voz soou baixa, mas ainda conseguiu arrepiar os pelos dos braços de Átila.
Vocês não tocarão em ninguém desta cidade, e irão o mais longe possível pra comer. Então poderão ficar aqui, sem interferências.
Os dois se encararam. O tempo pareceu escorrer lentamente, no ritmo das reflexões. Julian só pensava na filha mais nova, desgraçada para sempre na condição que tivera quando era simplesmente uma mocinha normal. Eles tinham que ficar, a pista os levara até ali. Tinham que achar o descendente daqueles que o jogaram naquela treva eterna.
Muito bem, Átila. Que assim seja – ele assentiu com a cabeça, quase reverente.
Ótimo – ele assentiu rápido, mas sem a graça e polidez do outro. Com aqueles... párias, não tinha que se ter muita nobreza e sim pulso firme e coragem. Embora se pudesse estar tremendo por dentro. O que era um pouco o caso dele. Mas jamais ia admitir – Repasse isso principalmente ao seus dois mais velhos, Jacques e Marc. Se algo acontecer com minhas amigas... — deixou a sentença no ar, sabendo muito bem que o ancião da família não precisava de um segundo aviso.
Julian estreitou os olhos maldosamente.
Eles não tocarão nas moças, rapaz. Agora sugiro que saia. A não ser que queira me ver zangado, garanto-lhe que não vai gostar. Costumo perder o controle quando fico assim... — seus lábios eram uma linha fina, e sua voz tinha aquela entonação baixa e rusgada.
Átila também não precisava de dois avisos. Apanhou a arma na mesa e a guardou dentro do moletom preto.
Foi um prazer fazer negócio, monsieur D'Crécy – falou, antes de abrir a porta.
Tenha um bom dia, Átila de Castro – Julian não tirou os olhos do tapete caro que recobria o chão do aposento, mas seu tom era ácido. Átila tinha certeza de que se ele o encarasse talvez ele se desintegrasse. Fechou a porta e não olhou pra trás.
Julian tirou uma pasta de dentro de uma das gavetas de sua mesa grande e bem polida. Ali estavam eles, em vários sobrenomes diferentes, mas o sangue era o mesmo, passado de uma geração a outra pelas veias, poderoso e imaculado.
Era a chance dos D'Crécy. E ele não ia desistir.
***
Estava me aprontando pra sair quando Alê chegou como um tornado adentrando meu quarto.
Estou de saída – fui logo avisando, enquanto saltava num pé, enquanto colocava a bota no outro.
Dã, sei que vai sair e com quem – ela anunciou, se espichando preguiçosamente num dos pufes azuis, seus cabelos negros quase chegando ao chão, numa cascata de ébano.
Caí sentada no meu divã rosa-claro, encarando minha amiga com as sobrancelhas juntas.
Como assim, você sabe? Eu nem te contei! — prendi as fivelas – E ele também não, aposto.
Ele tem um irmão boca grande! — Alê riu, se ajeitando mais confortavelmente – Ele estava comigo até agora lá em casa...
Ergui as sobrancelhas pra ela enquanto seus olhos negros se enchiam de um brilho significativo.
Meu Deus, Alexandra, vocês só foram realmente conversar ontem! — exclamei, abrindo a boca chocada. Tudo bem, não devia me sentir tanto. Era a Alexandra, afinal.
Calma garota, não passamos o sinal vermelho – ela torceu o lábio chateada e revirou os olhos – Mas pode apostar que deixei o cara duro como pedra! — ela explodiu numa risada. Abanando a cabeça só ri junto – Não esquenta, logo eu abocanho o menino!
Eca! — coloquei a língua pra fora e voltei a rir – Não sei como você aguentou ficar só no agarra-agarra, foi ele que te desacelerou, é?
O beicinho mau-humorado retornou junto com um suspiro.
Sim, ele sabe se controlar. Infelizmente. Mas me prometeu um jantar amanhã, quem sabe depois? — ela sorriu esperançosa pra mim – Espero que você também faça bom proveito do seu D'Crécy.
Ele não é meu D'Crécy – virei os olhos e coloquei minhas luvas sem dedos de lã – Só me convidou pra um chocolate quente e nada mais.
Alexandra me analisou atentamente. Odiava quando ela fazia isso. Parecia que tirava raio-x da gente.
Vamos, você é melhor que isso. Algeme ele numa cama e faça-o gemer!
Alê! — joguei uma almofada nela, dando uma risada escandalizada. Ela desviou pro lado, sem sequer desarrumar o cabelo.
Qual é? Jacques é gostoso, vocês são livres e nenhum dos dois obviamente é virgem, é só montar nele!
Quer parar com isso de montar?! — arregalei os olhos pra ela – Minha nossa, espero que Marc libere pra você amanhã, se não vou ter que te mandar pra um terapeuta, você está totalmente viciada em sexo!
O que você queria? — Alê perguntou indignada, erguendo as belas mãos – Faz quatro meses que não alivio as tensões, meus hormônios estão em níveis altíssimos!
Levantei as minhas mãos em rendimento.
Legal, legal, já saquei. Então só faça acontecer com o Marc, beleza? Não deixe ele te barrar – peguei minha bolsa no chão e minha boina de lã preta – Como estou?
Pronta pra tomar um chocolate quente. Mesmo – minha amiga respondeu com desgosto – Poxa, nem sequer uma bota mais chique e um gloss?
Não.
Nem tipo, um dos sobretudos maravilhosos que te dei inverno passado?
Não.
Alê bufou e eu segurei o riso.
Se manda, vou ficar por aqui e ajudar sua mãe com a janta. Volte com coisas boas. E se puder ainda tente montar nele!
Cale a boca! — mais uma almofada voou na direção dela, que dessa vez levou em cheio no rosto e revidou. Só que já era tarde demais, eu já tinha fechado a porta, e só ouvi um puf suave de uma coisa fofa batendo contra a madeira.
Espero que ele te estupre! — ela gargalhou, enquanto eu me afastava rindo de me acabar.
Meu pai e Jeffe estavam na sala, jogando Final Fantasy no Plastation, enquanto minha mãe cantarolava na cozinha enquanto cozinhava algo apetitoso. Eu sabia pelo cheiro que tomava conta do corredor. Ela me jogou um beijo quando passei pela porta.
Se divirta! — ela disse, com um sorriso de orelha a orelha.
Mãe, é só um chocolate...
Eu sei, Lisa... — ela me cortou com expressão inocente.
Tchau, mãe – retribui o sorriso e balançando a cabeça saí pra fora.
Parei em frente ao portão, olhando pros lados. Ele tinha mais cinco minutos, e me poupe, nem havia motivo pra ele correr, o cara morava a alguns passos de mim.
Você está adiantada – uma voz riu.
Dei um pulo de dois metros e meio e tapei a boca pra não gritar.
Jacques D'Crécy estava do outro lado da rua larga, embaixo da sombra de uma árvore, quase fundido no escuro.
Meu Deus, nunca mais faça isso! — exclamei, me sentindo extremamente irritada ao ouvir o riso dele se tornar mais intenso – Não tem a mínima graça!
Enquanto eu resmungava, e fumegava, ouvi os passos dele se aproximarem, e pararem exatamente na minha frente. Me recusei a olhar pra cima. Fixei nas minhas botas. Eu sinceramente odiava quando me davam sustos. É uma prática que deveria se abolida.
Desculpe-me – sua voz pediu, mas ainda havia um tom de humor – Não pude resistir, você estava tão pensativa...
E é assim que trata pessoas pensativas? Quase matando elas de medo? Muito educado de sua parte! — eu jorrei, sentindo minhas têmporas latejando de raiva e aquela pontada idiota de aviso que sempre insistia em aparecer quando Jacques estava por perto.
Estava pra levar os dedos até a cabeça quando o inesperado aconteceu. Duas mãos enormes e geladas foram pras minhas têmporas e um hálito quente lavou meu rosto.
Sinto muito, de verdade – Jacques pediu novamente, dessa vez mais sério que nunca – Não queria deixá-la nervosa.
Olhei entre as mãos que seguravam meu rosto e foi aí que o inesperado número dois ocorreu. Lutei pra não entrar em crise, quando ao fitar a cicatriz no rosto dele, que parecia maior e mais nítida na luz difusa do poste eu ouvi aquelas coisas... e vi.
O sangue espocava na minha visão, chovia contra rostos de homens que nunca tinha visto na minha vida. Cavalos se erguiam nas patas dianteiras e relâmpagos de prata passavam de lá pra cá diante das minhas retinas. E os sons eram horríveis, gritos de agonia, relinchares, e o tinir de metal contra metal. Espadas.
Dei um passo pra trás me chocando contra o muro da minha própria casa. Jacques me encarou com a testa enrugada de genuína preocupação.
Elisa, você está bem? Está suada. Olha, podemos deixar o chocolate pra amanhã na faculdade se não está se sentindo bem. E lamento realmente pelo susto, não...
Não, vamos ir, estou bem, sério – eu disse num tom confiante que me espantou – Não se deixa pra amanhã o que pode ser feito hoje.
Jacques me observou com um olhar estranho, como se me avaliasse. Provavelmente minha capacidade mental.
Tudo bem – ele disse de modo lento como se ainda tentasse ter certeza de que eu não era uma louca, então sem mais nem menos, me enlaçou num abraço pelos ombros. Ele cheirava a … lavanda. Inalei profundamente. E de alguma maneira aquilo afastou a possibilidade de eu mesma começar a considerar estar pirando. Da onde tinha vindo aquelas cenas e sons na minha cabeça?
Quando Jacques estendeu o capacete, me deu um último olhar de dúvida e arrancou com aquela coisa maravilhosamente rápida e potente. Não sei quanto tempo fiquei admirando as luzes que pareciam borrões na intensa velocidade que íamos, mas tive que ter o capacete tirado da cabeça pelo motorista da moto pra sacar que a viagem já tinha terminado.
Bem, ou você é a pessoa mais distraída que conheço ou realmente está passando mal. Elisabete, vamos lá, me diga qual teoria está correta? — Jacques me encarava diretamente nos olhos, parecendo impaciente.
Não entendi o porque daquilo, eu já tinha descido da moto no estacionamento e queria muito entrar no Rock's tomar o chocolate quente. Pestanejei, perdida.
O que eu fiz? Já disse que estou bem, Jacques.
Então porque tive que te chamar um cem número de vezes e você parecia simplesmente não ouvir? — ele indagou cada vez mais agitado, suas mãos percorriam nervosamente os cabelos louros.
Franzi o rosto.
Sério? Eu... eu não reparei... — minha voz foi morrendo – Olha, só vamos entrar e tomar o chocolate tá? Passei por coisas demais de ontem pra hoje.
Um clarão de compreensão relampejou nos olhos quase negros no escuro da noite fria.
Ah, sim. Perdoe-me. Deve ser o motivo da sua distração.
Assenti com a cabeça, querendo desesperadamente que ele estivesse certo. Porque eu não queria crer que bom, me poupe, eu não podia ter tido a visão de uma batalha na minha cabeça, aquilo era fruto do estresse, claro.
Ele seguiu na minha frente, mantendo a porta aberta pra mim.
O Rock's é o tipo de bar das antigas, sempre tem show com alguma banda ao vivo e até aquelas máquinas dos anos 50 pra escolher música que nunca lembro o nome. Com o frio era difícil achar uma mesa vaga, mas Jacques deu um jeito de nos instalar numa bem perto das janelas embaçadas pelo calor interno do estabelecimento. O tempo estava melhor lá fora, não ventava tanto e tinha até algumas estrelas aparecendo volta e meia entre as nuvens mau-humoradas.
A garçonete que veio nos atender me fez dar um pulo de susto.
Estou tão assustadora assim? — Suzana se auto-avaliou sempre sorrindo.
Não! — exclamei rindo do jeito dela – Adorei suas botas! Mas você nem avisa pras suas amigas que está trabalhando!
Olá, Jacques – ela piscou pra ele sem malícia e voltou-se pra mim – Eu estou só a uma semana, e fiquei tão entretida com meu projeto que esqueci de contar a você e Alexandra, mas agora é só você falar pra ela – Suze sacou um bloquinho de dentro do bolso do avental preto, que não conseguia esconder o uniforme padrão da Rock's: meia arrastão, botas, saia preta pelos joelhos, camiseta com o nome do bar e muita maquiagem preta nos olhos. Suzana estava linda. Acho que é por ser loira. Dava um contraste incrível – Bem, o que vão pedir?
Dois chocolates quentes e... — Jacques me deu um olhar especulativo – Quer comer alguma coisa?
Não, obrigada, fico só com o chocolate – respondi, tirando meu casaco e minha touca.
Só os chocolates Suzana – Jacques sorriu pra ela gentilmente – A Jok Boox está funcionando?
Suze olhou pra trás na direção do aparelho.
Acho que sim, Fábio mandou concertar mês passado. Vá experimentar... — ela fez um gesto com a mão pra Joque Boox. Jacques levantou-se e foi até lá. Foi o tempo certo pra garota me lançar um astuto olhar azul – Então? O que é isso?
Chocolate quente – pisquei os olhos inocentemente e brinquei distraída com o punho do meu casaco.
Sei... — a testa dela enrugou e seu sorriso brilhou no rosto – De qualquer forma, se divirta – ela sussurrou isso e se mandou no instante que Jac voltava a sentar à minha frente na mesa. Nem pude dar uma reposta adequada pra danada.
Suzana é uma boa garota – comentou Jacques observando ela levar o pedido ao balcão.
Sim, ela é – suspirei e sorri – Embora adore tirar conclusões precipitadas.
Como o quê? — ele juntou a ponta dos dedos, formando uma casinha.
O que você acha que ela está pensando de nos ver juntos? — ergui uma sobrancelha e me encostei no assento de couro caramelo.
Ele fingiu pensar, colocando a mão no queixo teatralmente. Segurei o riso. Ele sabia ser engraçado.
Vai pensar que estamos saindo é isso? — ele deu o palpite com um sorriso de lábios.
Exato.
Ele se inclinou sobre a mesa, as mãos espalmadas contra a madeira. A pontada veio, me implorando, lutando contra minha decisão de ficar, eu tinha que ir embora, sair dali e nunca mais sequer olhar pra Jacques D'Crécy novamente. Mas era inútil.
E nós não estamos saindo? — foi a pergunta que ele fez em voz baixa. O som atingiu meus ouvidos, mandando ondas de arrepio pras minhas costas e suor pras minhas mãos.
Tecnicamente isso não é sair – resumi, tentando entender o porque do suor nas mãos – É só um chocolate quente.
Então você pode me descrever o que é um “sair” de verdade – Jacques se recostou no couro como eu e cruzou os braços displicente, esperando minha resposta.
Suspirei e virei os olhos.
Em tese um “sair” envolveria beijos e talvez um pouco mais se fosse o caso da Alê – abanei a cabeça sorrindo de leve – Então o que estamos fazendo não é “sair”.
Tudo bem, não estamos saindo então – ele sorriu, com calor, nada de sexy, apenas calidamente – Mas isso não vai impedi-la de espalhar isso pra faculdade inteira.
Entortei os lábios resignada.
Não, não vai.
Os chocolates chegaram, mas não pelas mãos da Suze e sim por outra garota de botas pretas.
Ela olhou pro meu acompanhante como se ele fosse um suculento pedaço de bife. Bem, eu tinha que concordar com ela. Não, não que ele fosse um bife, não é isso. Só que Jacques era, encaremos os fatos, gostoso demais a seu próprio modo.
Um calor de mil graus me fez querer ter o vento gelado lá de fora batendo no meu rosto quando lembrei do que Alexandra dissera. Tirando a parte não elegante de montar o cara, me peguei imaginando em como ele seria debaixo ou em cima de alguma mulher. Só de olhar pra ele eu já me sentia cansada, então a conclusão foi essa, quem dormisse com ele certamente não conseguiria andar no outro dia. Ele tinha costas largas e braços sarados, obviamente era do tipo que te deixa de coma. E as mãos dele? Eram grandes, tipo, davam umas duas das minhas, imagina o que ele faria com elas...
Por que está me encarando desse jeito engraçado?
Ergui os olhos pro rosto dele e senti minhas bochechas incendiarem.
Humm, nada demais. Só acho que você devia tomar um pouco mais de sol, é tão pálido...
Íris castanhas me espiaram desconfiadas por cima da borda da xícara fumegante de chocolate.
Você não estava olhando pro meu rosto.
Estava sim – teimei, me amaldiçoando por ficar bancando a tarada da vez.
Os olhos se fecharam em fendas apertadas, e só pude notar um reflexo malicioso por entre as frestas.
Tudo bem – era muito claro que ele não acreditava nem por um segundo na minha resposta – Como está a Guerra das Duas Rosas?
Bem – franzi em suspeita, ele tinha mudado muito rápido de assunto – Acho que vou acabar com um ótimo projeto. Não me importo em não ganhar nota máxima, eu já fico feliz de terminar e ver que tudo está escrito como devia.
Isso significa que não se importa com a avaliação do nosso professor? — vi surpresa acender seus olhos castanhos.
Dei de ombros.
Sei lá, não posso lutar contra a força da caneta vermelha de um professor, mas posso analisar meu próprio projeto a minha maneira e ver se ficou bom ou não. O que vai importar é eu saber que dei o máximo.
Interessante ponto de vista – ele comentou baixando a xícara na mesa – Mas você quer ser professora por causa dos seus pais ou porque gosta de verdade?
Dei um sorriso indeciso.
Olha, na verdade não sei se realmente vou exercer a profissão, amo História, mas ser professora, parece estar fora dos meus limites psicológicos...
Jacques riu. Foi exatamente como eu tinha imaginado. Um som agradável e claro, que me fez rir também.
Acabamos tomando mais umas duas xícaras de chocolate e acabei não resistindo a fome e acabei comendo um hambúrguer com tudo dentro. Ele também botou um misto quente pra dentro, o que foi bom sabe, pelo menos não ia engordar sozinha.
Lá fora o tempo voltou a ficar uma completa merda. O vento estava em força total e eu estava praticamente virando um sorvete de touca preta quando saímos pra fora.
Que tal uma volta a pé pra aquecer?- Jacques sugeriu, olhando o céu nebuloso, enquanto a garoa salpicava seu rosto e cabelos.
Assenti com a cabeça e dei o primeiro passo em direção a calçada. Segundos depois ele já estava do meu lado, com o braço em volta dos meus ombros. Enruguei a testa surpresa.
Ele não estava gelado, estava quente, como qualquer pessoa normal. E estava cheirando a lavanda. Deixei o braço ali, porque sinceramente eu gostava dele estar próximo e da sensação de formigação que aquilo estava causando no meu corpo inteiro. Virei os olhos pra mim mesma. Talvez eu também estivesse com meus hormônios em estado de transbordar, exatamente como Alê, só que os dela já tinham feito isso faz tempo.
Se sente melhor agora? — ele perguntou, tirando uma mexa de cabelos do meu rosto, que estava todo arrepiado por causa da garoa.
Sim, meus pés estão quentes.
E o restante? — ele provocou, rindo.
Estreitei os olhos pra ele, contendo meu próprio riso.
Logo, logo, fico toda aquecida – respondi com uma sobrancelha erguida em desafio.
Daí senti o tranco quando ele parou e eu me vi presa entre os dois braços dele.
Acha que posso dar uma ajuda? — questionou, a respiração pesada em meu rosto. Eu me senti como geléia, ou massa de modelar, e meus joelhos estavam quase cedendo quando foquei nos olhos dele. Estavam tão diferentes, como se refletissem todas as cores e reflexos por ali, como espelhos. O castanho-claro estava substituído por um escuro profundo, como um abismo, prestes a me engolir, mas havia também um brilho meio amarelado, da mesma cor da luz do poste a alguns passos de nós. Engoli em seco, aqueles olhos me intimidavam, e mais forte que nunca o aviso de “Corra!” e “Vá embora!” gritou pra mim. Mas eu já estava perdida. Minha mente só captou o hálito quente dele soprando meu rosto, sua boca tão próxima que fazia minha cabeça rodar e meu oxigênio ir embora de uma só vez. Senti o abraço se estreitar e me forcei a respirar fundo.
Eu... não... sei... — sussurrei quase sem voz quando as mãos dele de repente se infiltraram por dentro da minha blusa de lã, que eu usava por baixo do casaco. Mãos mornas, caindo pra geladas, que fizeram minha pele se arrepiar de frio e... desejo.
Posso tomar a decisão por nós dois? — os lábios dele estavam roçando minha orelha esquerda.
Aham... — o que mais eu ia responder? Que não?
Eu não sou nenhuma freira.
Ele me encarou em cheio e levei o maior choque. A pele dele, sempre tão imaculada de manchas e delicadamente pálida estava riscada de veias azuis, saltavam do rosto inteiro,e seus olhos negros me fitavam com tamanha intensidade que quase me afastei de susto. Então o rosto dele se aproximou do meu e num movimento rápido e ávido veio o beijo. Ou diria ataque. O modo que ele enrolou a língua na minha parecia mais uma luta do que qualquer outra coisa. Me apertei nele, sentindo por trás das roupas todos os músculos tensos e frios. Sim, ele estava completamente iceberg de novo. Quem estava ligando? Não eu. Na verdade eu estava tão quente que achei que ia derreter. Quando ele mordeu meu lábio inferior dei um gemido que nunca esperei sair da minha garganta. Ele saiu da minha boca e foi pro meu pescoço. O enlacei com os braços e quando notei estava vergando minha coluna pra trás quando senti os lábios dele percorrendo minha garganta. Ele parou um momento pra respirar e então senti algo raspar minha pele.
Os dentes dele. Não apreciava muito ficar marcada, detestava quando Alan fazia isso, mas Jacques...
Meu Deus... — ouvi ele cochichar. Nem sei como minha audição estava captando isso, achei que só podia ouvir o barulho do meu coração acelerado – Você é tãoquente...
A partir desse ponto, tudo em que eu acreditava mudou. Assim como minha vida.
Não sei bem o que houve. Mas num momento eu estava quase entrando em combustão com as mãos e a boca dele por toda minha pele sensível e daí... não estava mais.
Jacques estava na minha frente, em uma posição claramente de proteção.
Não entendi nada e pisquei os olhos confusa, até que ouvi aquele sibilar e depois a voz gutural falar.
Me deixa Jac... eu preciso... está sussurrando pra mim, eu quero!
Não Amelie, você não pode. Ela não é comida – retorquiu ele com firmeza – Volte pra casa e vou cuidar de você ,prometo, vou dar o que você quer.
Não! — urrou aquela voz medonha.
Eu ainda estava atrás de Jacques, escondida de alguém perigoso. Mas o meu alarme agora estava em potência máxima, como sirenes de polícia em perseguição a um criminoso. Me inclinei pra direita e vi.
Uma garota estava a dois metros, vestida de jeans e camiseta, seus olhos brilhavam como obsidiana líquida e sua pele era tão branca como a do Jacques, os cabelos negros flutuavam no vento e sua boca era vermelha como uma amora madura, e tinha o mesmo formato da do meu escudo de cicatriz no rosto. Ele a tinha chamado de Amelie.
Num estalo minha memória fez seu bom trabalho: Amelie, a irmã com problemas. Problemas dos quais eu não fazia ideia.
Mas como aquele anjo de cabelos negros podia ter algum problema? Talvez frio, afinal mangas curtas não ajudam quando a temperatura é de quase zero graus, mas o que mais haveria?
Jacques... — chamei preocupada.
Não se mova – foi a ordem que recebi.
Mas...
Fique quieta!
Dei um pulo ao ouvi-lo. Sua voz emitiu o mesmo sibilado da irmã, e foi completamente arrepiante.
Me afastei dois passos, finalmente cedendo ao medo. Foi aí que olhei o rosto de Amelie com mais clareza. Estava riscado de veias, como a do Jacques também tinha estado, só que as dela estavam piores, estavam verdes, pulsando em suas bochechas, tão tensas que pensei que a qualquer momento iriam explodir. Ela sorriu pra mim. O sorriso mais errado do qual tive conhecimento. Porque em sorrisos certos você não vê presas saltando da boca da pessoa como navalhas afiadas e brilhantes.
Meu grito foi o gatilho. A mão de Jacques foi parar no meu peito e me atirou longe, enquanto eu ouvia os gritos e guinchos de Amelie ao ser impedida pelos braços do irmão de chegar até mim.
O anjo era agora um demônio de olhos negros como um poço fundo, frios e selvagens, e caninos que desceram sobre o braço do irmão, a libertando.
Em desespero me movi pra trás, escorregando os pés no chão molhado onde estava estatelada, tentando inutilmente me livrar da morte daquelas presas.
Um vulto passou pelos meus olhos, quase imperceptível, e Amelie foi jogada pro lado de onde surgira, caindo num ruído pesado em cima da calçada. O vulto preto fez o vento se agitar com mais força perto de mim e depois voou em direção a garota.
Não, Jacques! — ela gritou naquele tom gutural de dar arrepios – Me deixa! O sangue! Eu QUERO o sangue!
Você não pode! — rugiu ele de volta – Fique calma! Olhe pra mim, Amelie! Olhe pra mim!
Ela se debateu embaixo dele, urrando por “Sangue!” por mais uns cinco minutos, enquanto a voz dele naquele horrível sibilar dizia pra ela se acalmar, que tudo ficaria bem.
Bem??? Pra quem??? Senti raiva misturada ao medo e a confusão, o que me deu forças pra levantar.
Fui ao chão de volta, minha cabeça girando loucamente e meu estômago reclamando e dando cambalhotas.
Não conseguia ver muita coisa, minha visão estava borrada, o que não era boa notícia na atual situação.
Desculpe! — um choro invadiu meus ouvidos, normal, numa límpida voz de garota – Desculpe, Jacques!
Tudo bem, volte pra casa, vou dar um jeito nisso.
Agora o choro se transformara em soluços cortantes.
D-Diga pra ela... q-q-q sinto t-t-t-tanto! N-N-Não queria m-machucá-la mas o s-s...
Sim, vou dizer a ela, agora volte pra casa meu anjo.
Ao ouvir isso ergui a cabeça. Lá estava de novo. Não havia veia pavorosa à vista no rosto branco dela, nem dentes sinistros e muito menos olhos negros de matar do coração. Só havia uma garota magra e bonita, de olhos castanhos, exatamente iguais aos de Jacques, apenas talvez um tom mais escuro. Quando eles se viraram pra mim me encolhi automaticamente, temendo um novo ataque.
Sinto muito... — seus lábios se moveram, e nunca vi uma expressão mais arrasada. Ela virou-se e foi embora.
Eu continuei onde estava, abraçada aos joelhos e tremendo.
As botas de Jacques faziam um barulho suave ao tocarem o solo, acompanhei-as com os olhos até os pés dele estarem na minha frente. Não ergui a vista, estava com medo do que poderia enxergar.
Lisa... — ele murmurou se agachando e contra minha vontade entrando no meu campo de visão.
Vá embora... — sussurrei fracamente. Eu queria sumir, nunca mais vê-lo, embora houvesse uma parte de mim que entrasse em pânico só de pensar na hipótese.
A mão branca e enorme dele desceu no meu ombro, me afastei num repelão e senti uma fisgada aguda atrás da cabeça.
Lisa, você tem que vir comigo, está machucada, posso sentir o cheiro do seu sangue de longe.
Numa fúria silenciosa ergui a cabeça, o que a fez latejar ainda mais.
Que porra você é, afinal? — apoiei as mãos no chão, eu ia embora, não ia ficar mais um segundo ali – Também pode me perfurar com os dentes??
O suspiro dele foi impaciente, como se estivesse enfrentando um ataque temperamental de uma criança de cinco anos.
Se eu realmente quisesse ter feito isso, já teria feito Elisabete, não acha? Venha, vamos pra minha casa, você precisa de um curativo e um analgésico.
Posso ir ao hospital sozinha... — me levantei, ignorando as batidas aceleradas do meu coração. Não sabia se de medo ou alívio. O rosto dele estava normal, e não vi dentes de navalha à vista. Mas eu sabia que estavam ali, escondidos.
Sim, eu sei que pode, mas como vai ser a explicação pra esse ferimento, hem? — ele argumentou erguendo as sobrancelhas – Venha, vou cuidar de você – Jacques estendeu uma mão. Olhei pra ela e chacoalhei a cabeça em negativa, resoluta.
Ele deu uma espécie de urro exasperado e resmungou o que obviamente eram palavrões em francês, enfiando as mãos nos cabelos que agora pingavam água pra todo lado. Se eu não estivesse com raiva e com uma dor aguda no topo da cabeça até teria rido. Mas não estava no clima de sorrisos.
Dei as costas pra ele, tentando manter o passo firme apesar de sentir as canelas doloridas e frias, o que era totalmente desconfortável. Eu tinha que pelo menos tentar me livrar dele, mesmo sabendo que em um segundo me alcançaria numa sombra preta e rápida.
Foi exatamente o que aconteceu. Eu estava perto de virar a esquina pra voltar ao caminho do Rock's quando fui erguida do chão.
Me solta! – rusguei, o peito subindo e descendo numa respiração louca – Eu vou gritar se você não me soltar agora...
Não seja tola, você não vai querer chamar atenção pra si mesma. Não depois de ontem.
Pare de falar daquele maldito assassinato! — berrei histericamente, a ponto das lágrimas — ME SOLTE, AGORA!
Como tudo na minha vida tem uma boa dose de surpresas inesperadas, ele obedeceu, depois de dizer um “Ai!” muito sonoro e eu despenquei no chão, não muito levemente. Levantei cuspindo os cabelos do rosto e completamente insana.
Seu IDIOTA! Qual é o seu PROBLEMA??? — sentia as lágrimas descerem pelo meu rosto, misturadas a chuva enregelante que começara a cair – O QUÊ diabos você é afinal de contas??? Alguma espécie de maníaco como sua irmã? Maldita hora que não fui ouvir os alertas que soavam na minha cabeça dizendo que você era perigoso!!! — eu estava no auge do desespero. Não entendia o que tinha acontecido, a história do sangue e das presas, e das veias... E Jacques me deixou ainda mais possessa com sua imobilidade no meio da rua, me observando meditativamente, ignorando meu surto completamente.
Qual é seu sobrenome, Elisabete? — ele indagou, os olhos perplexos percorrendo meu rosto como se me visse pela primeira vez.
Com essa parei de respirar e sentir aquela raiva tão poderosa, pisquei os olhos, me perguntando se tinha ouvido direito.
C-Como? — gaguejei, me mantendo o mais longe que podia dele.
Seu sobrenome, qual é?
Thomas. Meu sobrenome é Thomas. Por quê? Pretende me sequestrar? — perguntei com sarcasmo.
Ele ignorou a descortesia murmurando consigo mesmo.
Só elas faziam coisas desse tipo... mudavam os sobrenomes pra se proteger... — ele ergueu de novo a cabeça, me fitando com um olhar de compreensão explícita – Você é a ancestral, meu Deus...
Do que está falando? Que negócio é esse de ancestral e...
Mãos que pareciam pedras de gelo selaram meus lábios e fui erguida, me debatendo freneticamente. Tentei enxergar ao redor, mas tudo que via eram borrões indistintos de luz, como era na moto em alta velocidade. Olhei pra cima e parei de me remexer ao ver os cabelos louros de Jacques voando pra trás com força, assim como o meu fazia. Ele estava correndo.
Num movimento rápido e leve, o vento parou, e eu estava na frente da moto, e dos capacetes que tinham ficado ali no chão, ao lado dela. Jacques me empurrou pro banco do carona. Resisti, mas ele apertou meus ombros e chegou bem perto do meu rosto, me fazendo sentir aquele cheiro de lavanda. Seus olhos eram pedras, duras como diamante e com expressão fanaticamente concentrada, como um general obcecado por ganhar suas batalhas.
Você vai subir na moto, Elisa, e não vai tentar fugir – o tom dele me açoitou com força, meu corpo encolhendo imediatamente – Não pretendo machucá-la, só levá-la até minha casa e tratar do seu ferimento.
E o que você entende de curativos? — desafiei corajosamente, embora minha voz tremesse tanto quanto meu corpo.
Jacques deu um riso sem emoção e entortou o canto dos lábios.
Acredite-me, sou melhor que qualquer médico que possa conhecer – ele passou um dedo pela longa cicatriz em seu rosto – Quem você acha que cuidou disso aqui? — seus cabelos abanaram graciosamente pros lados quando ele virou a cabeça de um lado pro outro – Coloque o capacete.
Obedeci, tentando não demonstrar o quanto me sentia apavorada por aqueles olhos duros e distantes e a expressão tão limpa e fria como sua pele.
Fiquei em silêncio, observando ele ajeitar os cabelos antes de colocar o próprio capacete. A cicatriz sumiu da minha vista, mas não deixei de pensar em como ela parecia ter sido feita de forma violenta, como se algo pesado e afiado tivesse descido sobre aquele rosto de traço tão poderoso... como uma espada. Um arrepio perpassou minha coluna, me fazendo lembrar do que tinha visto quando ele me tocara ainda mais cedo. Os cavalos, o bater de lâminas e o sangue espirrando por todos os lados...
A moto partiu numa arrancada, exatamente no mesmo segundo que meus batimentos cardíacos. Será que era possível somar dois mais dois e obter esse resultado? Mesmo que me desse uma dor de cabeça ainda pior só de imaginar como era lógico?
Não era eu que sempre tinha visto Jacques como uma visão saída de uma batalha da Idade Média? O tipo que corta cabeças e que monta muito bem num cavalo? E quantas vezes tinha achado algumas coisas da linguaguem dele desproporcional aos tempos de hoje?
E o pior veio em seguida. Sua pele era gelada como um vento de inverno e alva como folha de papel e ainda tinha a irmã doente que tentara me matar... sugar meu sangue... os dentes, a morte vindo em minha direção em forma de veias saltadas e olhos demoníacos...
Jacques... — chamei, tentando não demonstrar o quanto eu estava morrendo de medo. Pensei que ele não iria ouvir por causa do barulho do vento, já que a moto nem ao menos era barulhenta, era daquelas que simplesmente deslizavam.
Oui? — ele ouvira.
Pode me dizer a data de seu nascimento por gentileza?
Humm... Quer mesmo saber? Importa tanto?
Só pra ter uma base sabe, pra ver de que época um vampiro como você viveu.
Sim, senhoras e senhores. Jacques D'Crécy era um vampiro. Minha soma tinha dito que o resultado estava certo, e havia o detalhe mais importante e crucial, meu instinto tinha confirmado.
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