Série - Pacto

6 Verdade Incontestável


Notas iniciais
Pra quem pediu mais, está aí! Thomas e D'Crécy"

Já que insiste... nasci no dia treze de Agosto de 1173, em pleno verão, a estação mais quente do ano. Feliz?

Na verdade não, estou morrendo de frio! — retruquei ranzinza – Você é mais gelado que o vento.

Um dos inconvenientes da minha condição, não é minha culpa, lamento – Jacques resmungou irritado.

Eu também – mordi minha língua pra não falar o que eu pensava dele no momento. Não queria levar uma dentada.

O silêncio se manteve até a moto parar na frente da casa dele. Os portões se abriram sozinhos, aparentemente eles tinham adquirido um sistema eletrônico. Jacques arrancou pra dentro do pátio a toda e reduziu num tranco ao chegar na garagem, o único ponto que parecia recente e moderno na casa toda.

Saí rápido do meu lugar, sentindo meu corpo bambear pro lado. A mão fria me segurou pela cintura antes que eu caísse vergonhosamente de cara no chão.

Feche os olhos e fique quieta – Jacques ordenou num tom de voz mais frio que seu corpo. Não ousei contestar, estava fraca demais, minha cabeça parecia em chamas e eu definitivamente não estava a fim de virar janta de vampiro.

Ele me ergueu no colo, enchendo meu nariz com seu cheiro.

Você é mesmo de Provença... — murmurei exausta. Senti que mesmo com aquele temperamento infernal ele deu um sorriso.

Lavanda?

É.

Gosta?

Odeio admitir, mas sim, eu gosto – sussurrei, colocando as mãos nos olhos pra fugir das luzes dos maravilhosos candelabros acima de mim.

Talvez seja por isso que arriscou tanto me agarrando naquele beco.

Você me agarrou, só pra lembrar – comentei por alto, ouvindo uma música melancólica tocando em alguma parte – Isso é Chopin?

Sim, Hugo adora – ele respondeu rapidamente, me ajeitando melhor nos braços – Eu podia ter te matado... seu sangue estava gritando pra mim.

De repente meus olhos estavam bem abertos, encarando as íris castanhas e ameaçadoras perto do meu rosto.

Você mesmo disse que poderia ter me matado, mas não fez nada. Qual é o sentido de falar que poderia ter me matado agora? Eu estou bem viva...

Como qualquer feiticeira que se preze – foi o que ele disse com uma das sobrancelhas erguidas.

Cerrei as minhas.

Sério, que papo é esse agora? Por quê me chamou de feiticeira?

Tudo que obtive foi um olhar enigmático e um andar de passos mais acelerado.

Bufei.

Por que você não corre de uma vez?

Não pude reclamar e gritar de susto quando ele fez exatamente o que eu tinha dito.

Fui lançada numa cadeira, de forma nada gentil e mirei ao redor, tonta.

Estava num grande quarto, com chão de madeira polida como era na minha casa também. As paredes tinham papel de parede branco, com padrões de ramos e folhas verdes, um tapete peludo cor de chocolate cobria parte do chão diante da cama confortável e de dossel. Havia muitas cômodas, um raque pro computador de aparência cara e de alta tecnologia e uma linha de telefone própria. Tinha uma porta de folhas duplas no meio do lugar, estavam abertas e pareciam levar a um cômodo adjacente. Talvez uma ante-sala, como eu tinha, mas notei depois que eram três portas. A segunda estava entreaberta, me deixando um deslumbre de azulejos azul-claro. A terceira estava fechada.

Jacques tinha voltado até mim com uma caixa branca com cruz vermelha gravada na parte de cima da tampa. Um kit de primeiros-socorros, óbvio. Ele colocou em cima da mesinha polida a minha frente, que era o centro de uma convenção de cadeiras e pufes ao seu redor, só que muito mais refinados que os meus. Na verdade, olhando bem, aqueles móveis pareciam ter saído de lugares e tempos bem remotos... Encarei a cadeira na qual fora jogada. Engoli em seco. Uma Luís XV autêntica.

Vou consertar sua cabeça agora, portanto tenho que impor umas regras – Jacques anunciou, tirando um vidrinho de dentro da caixa branca.

O encarei, querendo que o sol o pegasse e o transformasse em pó. Ele claramente se divertiu ao ver esse desejo em meus olhos.

Esse olhar é bem estranho depois de ter ouvidos seus suspiros no meu ouvido... — ele torceu os lábios num sorrisinho arrogante, não pude deixar de sentir uma agulhada quente percorrer meu corpo ao lembrar que aquela boca tinha passeado em minha pele. E isso me deixou ainda mais irritada.

Vá se catar! — mandei, virando os olhos pro outro lado do quarto. Que era dele, claro. Se não o retrato na parede oposta não estaria ali.

Era a óleo e quase tomava conta do seu lugar perto da porta principal do quarto.

Tinha um jovem ali, um rapaz bonito de cabelos de ouro, a expressão serena e séria, uma cicatriz percorrendo de sua têmpora direita até o queixo, deixando uma impressão de perigo num rosto branco e limpo. As roupas eram de veludo preto, com o colete ornado de pedrinhas de rubi e esmeralda. E ele usava... gibões, também de veludo. Um guerreiro vestido de príncipe.

Século XV, boa época, muitos bons pintores – ele comentou, me fazendo virar o rosto pra ele de novo e engasgar ao ver o que ele tinha nas mãos. Uma seringa, cheia até a metade, com uma agulha grossa e pavorosa. Saltei da cadeira de imediato.

Fique longe de mim! Não ouse tentar me dopar!

Ele olhou pra cima e bufou, como se pedisse paciência.

É anestesia, achei que sendo uma garota inteligente, você seria capaz de reconhecer – ele entortou a boca contrariado – Aparentemente me enganei...

Tropecei na borda do tapete e caí, mas mesmo assim me mantive rastejando pra trás, com Jacques avançando pra mim.

Não vou deixar você enfiar essa coisa na minha veia! — exclamei mais apavorada do que podia admitir – Me deixe em paz! — me joguei pra trás e bati as costas na porta. Fim da linha. Era isso, ele ia me dopar pra me torturar de alguma maneira e depois ia degolar meu pescoço... Ah, minha nossa! O cabelo louro, o rubi!

Você mexeu na cena do crime! — disse com a voz estrangulada – Foi sua irmã que atacou aquele rapaz aqui! E o outro da escola militar!

O rosto dele se nublou agourentamente.

Ela não faz por querer, ela tem problemas, já os tinha quando era humana, os trouxe junto quando fomos amaldiçoados. A culpa não é dela.

Vocês todos são uns monstros! — chorei num grito – Demônios!

Ok. Eu sei. Dizer isso pra um vampiro não foi nada prudente. Mas aprendi minha lição no segundo seguinte.

Ouvi um som primitivo e alto soar, e pensei que estava ouvindo coisas de novo quando notei que as veias estavam explodindo no rosto de Jacques D'Crécy e seus olhos estavam escuros como um abismo. E então me liguei que o som incrível e de fazer tremer as paredes do quarto vinham ... dele. De sua garganta.

Nem vou tentar descrever como foi sentir a dor daquele punho de aço no rosto. Só sei que o soco me fez ir parar do outro lado do quarto, rolando pela porta entreaberta, o rugido terrível me seguindo de perto. Minha cabeça já estourada, bateu de encontro a algo duro e frio com força, fazendo meu estômago revirar, e antes que eu tivesse chance de tomar sequer um fôlego curto, as mãos dele apertaram minha garganta, me erguendo do chão pelo pescoço.

Ele me encostou contra a parede e apertou mais, cada vez mais...

OH, MEU DEUS! JACQUES, NÃO! — ouvi passos apressados e um grito apavorado de mulher.

No mesmo instante que ela gritou, um arrepio tomou conta do meu corpo, e depois um calor, que se fechou sobre mim num turbilhão. Estiquei as mãos pra frente, na tentativa de empurrar aquele peito que me sufocava e iria me matar a qualquer segundo. Só que em vez disso, o que aconteceu quando tomei a atitude foi Jacques ter sido lançado de volta pela porta do banheiro, direto pro quarto, urrando como um animal enlouquecido.

Não contive um grito de surpresa. Mas foi minha última ação. Porque depois minha vista se encheu de pontos e estrelhinhas e senti que caía direto num buraco negro.

Notas finais
;)