Série - Pacto

7 NAS PALAVRAS DE JACQUES


Notas iniciais
Pronto,agora passamos à fase Jacques D'Crécy, ;)

Por todos os infernos. Eu não podia ter feito aquilo. Minha mãe me encarava com desgosto.

Qual foi a ofensa dessa vez, Jac? — ela indagou friamente.

Ela nos chamou de demônios, e já peço perdão por ter perdido o controle do meu gênio, mas você sabe que não sou tão bom nisso quanto você e meu pai...

Sim, eu sei, mas o estrago que você fez agora supera o de sua irmã em alto nível... — ela se ajoelhou perto da minha vítima de cabelos castanhos e longos e tomou seu pulso — … Ela está viva. E é amiga do caçador – ela olhou pra mim como se eu fosse um móvel de péssimo gosto pra decoração – Parabéns, aquele garoto é bem capaz de cair em cima de nós se souber disso...

O que está havendo? — meu irmão mais moço, Hugo entrou no quarto, acompanhado de Alienor. Os dois viraram estátuas brancas de robe ao ver minha mãe erguer Elisabete nos braços. Minha irmã correu na direção delas, tirando os cabelos do rosto da ferida. Se bem que a palavra era gentil demais pra descrever o estado dela. O sangue manchava o rosto, que escorria pra blusa. Minha boca encheu d'água. É inevitável na minha condição.

Por favor, não me diga que você fez isso... — murmurou Hugo chegando perto de mim, os olhos claros acusatórios.

Me sentindo o mais miserável dos seres assenti com um aceno curto de cabeça. Ele nem sequer me lançou um segundo olhar, só se dirigiu até minha cama, onde Elisabete, a bruxa quebrada jazia sem movimento algum.

Por que a trouxe aqui? Amelie nos disse o que houve, mas o que aconteceu depois? — minha mãe acenou na direção dela – E o que foi aquilo? — ela arregalou os olhos tão parecidos com os meus, acenando do banheiro pra mim, ainda estendido pateticamente no chão.

Melhor mostrar do que falar.

Tirei meu sobretudo inútil, porque jamais sinto frio e depois a camiseta de manga comprida por baixo.

Ouvi a respiração suspensa coletiva, enquanto eles observavam a queimadura em forma de cruz celta no meu peito, que brilhava em vermelho vivo. Meu corpo demoraria meses pra regenerar aquilo. Magia é assim, mesmo pra nós, vampiros – mesmo que amaldiçoados – ela deixa uma marca, pra mostrar que nada é mais poderoso que ela. E como a milênios, ela está certa. Nada pode vencer magia, a não ser a própria magia.

Os olhos verdes e estalados da minha irmã voaram pro rosto de Elisabete.

Ela é a ancestral dos Saint Germain? — seu tom deixava uma mensagem clara: essa-coisa-insignificante-não-pode-ser-bruxa!

Não há dúvidas disso... — Hugo encarava minha marca hipnotizado – Chamem o papai...

Não – cortou minha mãe com autoridade – Ela não está em condições de nada, muito menos de ver seu pai. E também porque não servirá de nada a ver desacordada, que informação ela poderia nos dar?

Quanto a isso... — me levantei sem esforço — … Tenho a impressão de que ela não sabe da própria natureza.

Não? — os três falaram e me encararam ao mesmo tempo, incrédulos.

Ergui as sobrancelhas.

É óbvio que não. Se ela soubesse, acha que me deixaria fazer isso com ela? — me aproximei da cama. Senti um mal estar enorme ao olhá-la – Merda, alguém me traga água quente, agora.

Tem certeza de que não vai espancá-la? — foi a pergunta em tom sarcástico de Alienor.

A fuzilei com os olhos.

Eu vou espancar você, se não calar a boca... — toquei o corte no supercílio dela. Elisabete gemeu – Vá ser útil.

Alienor fechou a cara pra mim e quase me acertando com um giro dos cabelos, se foi pela porta aberta.

Não entendo porque implica tanto com ela – comentou Hugo balançando a cabeça de um lado pro outro.

Ela se mete onde não devia – respondi, tirando a jaqueta de Elisabete, depois a blusa de lã e enfim a camiseta. Admirei-a por um momento. Mesmo machucada ela não deixava de ser uma humana deliciosa. Os cílios faziam sombras em seu rosto e seus lábios ainda estavam meio inchados. Mea culpa. Senti minha cabeça latejar só de lembrar do sangue dela sussurrando, chamando, seu corpo quente, meus dentes raspando a jugular...

Só porque ela diz pra você e Marc não se envolverem com humanas? — minha mãe tirou as botas dela – Acho que ela pode ter razão.

Foi um acidente isolado.

Que poderia ter sido pior – continuou ela como se eu não tivesse argumentado – Dê os pontos nela. Agora preciso pensar na desculpa que iremos dar aos pais dela.

Ela não irá pra casa.

O quê? — Hugo parecia ter escutado que a terra ia acabar em dois minutos – Ela tem que ir! O que os pais dela vão pensar se ela simplesmente não voltar pra casa?

Vão acreditar no que eu disser. Ande, acho que o celular está dentro da jaqueta.

Hugo fez uma careta e começou a mexer nos bolsos da jaqueta de Elisabete.

O que acha que vai dizer? — mamãe observava Elisa com o semblante preocupado.

O óbvio. Que ela está no banho e mandou avisar que não voltará pra casa esta noite – dei um sorriso – Eles irão entender.

Os olhos da minha mãe se fecharam tão apertados que ficaram apenas riscos com cílios.

Nem pense nisso. Me dê aqui Hugo! — ela rusgou apanhando o celular antes que eu pudesse tocar no aparelho – Nenhum dos meus filhos desonra uma donzela!

Ahmm, mãe, não acho que Elisabete ainda seja donzela... — mordi o lábio de baixo pra não rir.

Você me entendeu! — ela exclamou em resposta, parecendo zangada – Não vou deixar ninguém desta casa insultar a moral de alguém inocente.

Mãe, ela é bruxa – lembrou Hugo a tempo.

A tempo dela quase nos chutar pra fora do meu próprio aposento.

As veias em seu rosto saltaram e seu olhar escureceu de forma assustadora.

Muito bem, parece que mesmo depois de séculos nesse lado sombrio da vida meus filhos ainda não aprenderam o valor de se encontrarem pessoas honestas, o que essa moça que a julgar pelo que vi é, já que não sabe do próprio poder que tem. Então vamos tratá-la como a donzela que ela é! – eu e Hugo estávamos encolhidos em nossos lugares com a força do sermão, que pairava sobre nós como um chicote estalando com violência – Portanto nada de insinuações sobre passar a noite com você, o descontrolado que a deixou inconsciente – seu olhar queimou ainda mais que a marca em meu peito – Eu a convidei a passar a noite nessa casa, como minha convidada, e é isso!

Como quiser, mãe – concordei baixinho.

Melhor, muito melhor... — ela continuava nos encarando com agressividade – Ah, Alienor...

Minha irmã intrometida entrou no quarto, trazendo uma bacia de prata cheia de água.

Por que não dá logo um banho nela? — perguntou, colocando a bacia em cima do meu criado mudo – Ela está pavorosa.

Acho que seria uma boa ideia, Jac, ela não parece mesmo muito saudável – apoiou Hugo, a testa vincada, enquanto encostava a mão no rosto de Elisa. Algo formigou dentro de mim, explodindo uma onda de rancor pelas minhas veias. Eu poderia morder a mão de Hugo se ele não a retirasse. É, infelizmente, costumamos ser criaturas muito possessivas. Ele notou minha cara amarrada e dando um sorriso torto retirou a mão – Ela está quente. Deve ser febre.

Muito bem, vocês podem ir, cuido dela – me virei pra minha mãe – Conte a melhor história que puder aos pais dela, por favor.

Ela olhou pro teto.

Como sempre, as mães tentam remediar as besteiras dos filhos, só isso não mudou em séculos... — mas ela deu um leve sorriso pra mim e meus irmãos – Venham, não há mais nada a fazer aqui. Jacques pode cuidar muito bem dela, ele é o médico exemplar da família.

É, eu sou – confirmei, piscando pra eles. Hugo bufou e balançou a cabeça, Alienor me encarou pasma por um segundo e depois revirou os olhos. Mamãe os empurrou pra porta e antes de sair me observou de modo atento.

Em todos esses anos você nunca deixou qualquer uma passar por você sem ser drenada, o que ela fez pra não ter o mesmo destino? — ela apontou Elisabete, que eu havia puxado com cuidado pro meu colo.

Minha mãe fazia boas perguntas. Tão boas que desconcertavam.

Admirei o rosto com o sangue escorregadio e que invadia meu olfato.

Por que eu não a havia matado? Como havia feito com todas desde que me tornei o que era? Talvez porque ela demonstrara coragem no meio do medo. Eu sempre admirei a coragem. Ou talvez porque gostava de sua independência, que havia notado no dia que a conheci. Ela estava odiando aquele rapaz a impedindo de seguir seu caminho.

Eu também odiava não ter o que eu queria. Só que agora, depois de saber quem ela era... eu tinha um pouco de ressentimento e raiva dela, pelo que sua ancestral remota havia feito com minha família, e por... espantei o pensamento doloroso. Não importava.

Quando eu souber a resposta, eu lhe direi – avisei, sem encarar minha mãe.

Ela se manteve em silêncio.

Estarei por perto pra ouvir... — ela murmurou, e finalmente fechou a porta, me deixando sozinho com Elisabete, que respirava com dificuldade.

Toquei o rosto dela com cuidado e o coloquei na cama de novo.

Muito bem garota, hora de tomar banho.

Ela já estava sem a parte de cima, o que era uma visão de atiçar os sentidos.

Controlei a tentação de tocá-la na barriga e na renda do sutiã branco. Quem diria?

Ela não era o tipo de garota que eu imaginava usando peças como aquela e sim algodão. Depois de tirar o vestuário que restava, ou seja, a calça jeans e as meias, a deixei ali e fui encher a banheira. Foi nesse momento que ouvi minha porta bater de leve. Só uma pessoa era tão delicada em abrir portas daquele jeito.

Jac? — ela sussurrou perto da porta.

Entre, estou enchendo a banheira.

Amelie, minha irmã mais nova e mais problemática entrou no banheiro, os cabelos negros flutuando em volta do rosto. Linda. Amaldiçoada pela doença.

E-Ela v-vai ficar bem? Alienor me contou tudo enquanto esquentava água na cozinha. O que foi inútil pelo que vejo... — ela apontou a banheira com o dedo, dando um sorriso fraco.

Culpa minha, eu conserto – falei, ouvindo a chuva distante bater no telhado. Eu nem tinha reparado nisso.

Ela mirou por sobre os ombros e sorriu largo.

Ela é bonita. E deve ter te insultado de uma forma bem agressiva pra levar uma direita sua no rosto!

Nos chamou de demônios... — murmurei, observando água cair rapidamente da torneira, mesmo assim, senti seu sorriso morrer.

É o que devemos ter parecido a ela, Jac, não a culpe por se assustar – ela disse com sensatez. Era incrível como ela tinha um raciocínio lógico e ponderado quando não estava... sofrendo um surto.

Ninguém insulta minha família – retorqui teimoso. Péssima característica, mas ela veio comigo nessa vida também, foi impossível me livrar.

Ah, por favor, pare com essa coisa de código de honra, é cansativo – me admirei com seu tom entediado e ergui a cabeça. Ela ergueu as sobrancelhas pra mim, indagativa – Que foi? Estamos no século vinte e um! Se alguém chama alguém de sua família de demônio é só responder pro outro que seu irmão ou mãe, ou o que seja é uma vaca, ou que dá pra todo mundo. Qualquer coisa. Não precisa partir pro soco logo de cara.

Fiquei espantado demais pra falar. Ela estava falando muito parecido com Alienor. E não era boa notícia. Logo eu teria mais uma declarando que sou um idiota por andar com humanas e não comê-las – no sentido que você quiser imaginar, o século vinte e um dá liberdade de pensamento, não?

Amelie pareceu ler minha mente e ergueu as mãos em defesa.

Oh, não! Não vou ficar uma chata igual a Alienor, eu gosto dos humanos! São muito legais e engraçados, pelo menos o Jefferson é...

Jefferson?

Seus olhos brilharam, já que seu rosto não podia corar.

Você conhece ele, é irmão dela... — ela indicou meu quarto com o polegar – Mas claro que ele é mais um que vive atrás da Alienor, então... — ela deu de ombros tristemente – Deixa pra lá. E já tem água o suficiente.

Olhei pra banheira transbordante e desliguei a torneira. Voltei pro quarto, com Amelie em meus calcanhares e ergui Elisa nos braços. Ela era falsa magra, não tinha nada de leve. Senti que ela respirou mais fundo quando a encostei no meu peito.

Amelie notou e depois de franzir o cenho, sorriu.

Ela gosta do seu cheiro – começou a rir – E provavelmente de você. É um sinal óbvio.

Acho que não gosta mais, dei um soco nela, esqueceu? — coloquei seu peso imóvel dentro da água quente.

Detalhes – Amelie abanou a mão – Quer que eu ensaboe ela? Não é muito prudente sabe, você ficar com uma mulher nua na sua banheira...

Virei os olhos e a encarei.

Já fiz mais do que lavar uma mulher numa banheira.

Eu sei, mas elas não estavam desacordadas depois de levar uma porrada, ainda podiam tentar fugir. Já Elisabete... — ela encarou o corpo dentro da banheira pensativamente. Tentei não fazer o mesmo, seria tentar um urso com pote de mel. Má ideia. Ou boa, se ela estivesse acordada e no mesmo espírito daquele beijo, que ainda queimava minha boca...

Passei a mão no rosto e cedi.

Certo, dê o banho nela. Mas tome cuidado com os ferimentos e com o …

Já entendi, Jac. Não vou machucá-la – Amelie sorriu melancólica ao pegar uma esponja macia de cima da prateleira ao lado da banheira – Caia fora.

Saí fechando as portas e sentei na cadeira que ela ocupara e me concentrei em fazer outra injeção de anestesia. Separei o algodão, o fio, a agulha, esparadrapos,e o que fosse necessário pra remediar o meu caos. Quando estava tudo pronto, me recostei na cadeira refletindo sobre tudo. Se ela fosse mesmo uma bruxa, estávamos salvos, Amelie estava salva. Nunca mais teríamos que matar pra viver. Mas havia um inconveniente. Ela claramente não sabia quem era de verdade. Uma artimanha de suas avós? Bisavós? Manter as mulheres da próxima geração ignorantes pra ser ainda mais difícil de encontrá-las? Porque o poder passa somente para o lado feminino, jamais o masculino.

Mas o jogo de esconde-esconde acabara. Era hora de sermos libertados.

Depois de uns minutos Amelie veio vasculhar meu guarda roupa a procura de algo confortável e em seguida saiu de novo, indo atrás de mamãe pra pegar roupas de baixo, que veio ajudar por um segundo, e logo se foi, levando minha irmã junto, e deixando uma Elisa com aparência bem melhor em cima da minha cama.

Quando me aproximei com o kit e a seringa pronta não contive um sorriso. Ela usava uma camisa minha, na qual ela parecia extremamente frágil e pequena. O que era uma boa lorota, a garota tinha agressividade suficiente pra quando acordasse tentar me dar um soco em resposta. Talvez eu deixasse, só pra ver o quão forte ela era.

Posicionei sua cabeça na minha perna e verifiquei o corte ali. Nada grave, apenas anti-séptico e um curativo leve.

Amaldiçoei a mim mesmo ao fitar o rosto dela. Metade do olho estava inchado gravemente, e havia um hematoma já roxo na bochecha. E acima da sobrancelha a pele cortada cruelmente. Era ali que agulha ia agir. Baixei a boca em seu ouvido.

Peço perdão Elisa, não foi minha intenção te deixar dessa maneira, me descontrolei de uma forma impensável. Por isso tenho que ao menos remediar um pouco a situação. Vai doer um pouco, mas logo você estará bem – acariciei seus cabelos e ouvi de novo o som atraente e irresistível de suas pulsações, o sangue rugindo, me chamando... Engoli em seco e me afastei um pouco.

Hora de trabalhar – suspirei e apliquei a injeção.

Notas finais
;) MAIS VINDO POR AÍ...