Série - Pacto
10 NAS PALAVRAS DE JACQUES...
Meu pai estava feliz com tudo. Acháramos uma Saint Germain. Certamente uma das últimas. Mas também estava cauteloso.
A avó dela saberá de nós. É a primeira pessoa com quem ela entrará em contato pra saber de toda a sua história.
O que ela poderá fazer? A única alternativa é nos libertar – respondi, bebericando um gole do vinho da minha taça.
Meu pai virou a cabeça de um lado pro outro.
Depois do que houve em 1620? Duvido que vá ajudar qualquer um de nós. Somos rancorosos filho, mas bruxas o são ainda mais. Há sangue demais de ambos os lados. Terá barganha nesse negócio, o problema é que ainda não sei com o que vou negociar... — a testa aristocrática dele se vincou. Amelie parecia tanto com ele, os dois tão lindos e tão tristes a sua maneira. Nenhum deles tinha sido feito pra encarar séculos naquela condição. Minha irmã por ter sido doente ainda humana, e meu pai... por ser uma pessoa tão justa e boa. Às vezes ele tentava se esquivar da sede, resistir, mas era impossível. Éramos vampiros, o sangue sempre seria nosso elixir.
Eu certamente não gostava de matar pessoas, mas se viver no lado mais obscuro da vida nos ensinava algo era a que o costume era a melhor política. Tentava não sentir o desespero de minhas vítimas ao mordê-las e sim no sangue que jorrava quente e vivo pra dentro de mim, o prazer atingindo cada músculo como uma chuva de choques elétricos deliciosa.
Muitas vezes me pegava pensando como seria o gosto do sangue dela.... Se fosse como ela, provavelmente seria como uma explosão, ou um fogo que nunca se extinguia...
Por que temos que barganhar por algo que nos foi tirado de modo tão injusto? Não temos que negociar nada, pai! — dei um soco na mesa de mogno brilhante do meu pai, minha vista toldada de vermelho.
Ele me olhou pacientemente e depois deu um sorriso lento, quase melancólico.
Ah, meu querido filho, como você mudou pouco em todo esse tempo... — ele deu uma palmadinha na minha mão fechada — … o mesmo turrão e briguento de sempre. Será que nunca vou ver você agir com um pouco de diplomacia?
Não quando a injustiça é cometida contra nós. Não temos culpa – teimei, estreitando os olhos.
Temos. Fomos amaldiçoados, mas contamos com dois assassinatos contra elas em nosso curriculum, Jacques D'Crécy. Seja razoável ou seu compromisso das cinco será cancelado e irei em seu lugar – meu pai disse com clareza e duramente. Já era de bom tom nos acalmarmos quando ele nos chamava pelo nome inteiro. Não era algo bonito ver meu pai zangado – Já nos causou problema com aquele caçador, é melhor achar um jeito de acalmar seus nervos.
Ele sabe que foi acidente – murmurei, a culpa me inundando como um toldo.
Meu pai entortou os lábios.
O que mostra que apesar de tudo o garoto tem mais sensatez que você. Juro que eu mesmo teria lhe jogado ao sol do meio dia se aquela garota morresse.
Lis soube se defender muito bem, creio que não preciso de raios solares ou balas de prata em minha cabeça – resmunguei, balançando a taça na mão, o líquido rodando lentamente lá dentro.
As sobrancelhas do meu pai se arquearam.
Lis? — um sorriso brincou no canto de seus lábios rosa-claro, como os de minha irmã insuportável, Alienor. Aliás, onde será que estavam enfiadas? Marc eu sabia que devia estar se divertindo por cima da linda amiga de Elisabete – ele me contara que a garota era de esgotar as energias — e Hugo estava tocando piano lá embaixo, já que as notas de Schubert eram audíveis por toda a casa. Minha mãe estava renovando os closets de todo mundo – como se não tivéssemos roupa que chegue. Mas e Amelie e Alienor? Será que estavam com o irmão deslumbrado e ingênuo da Lis? Com Amelie não havia problema. Ela estava claramente apaixonada por ele, mas Alienor... preferia o sangue do que paixão.
É só um apelido, pai. Nada demais – enfiei o nariz dentro da taça de cristal enquanto recebia um olhar de descrença de Julian – O que é? Você também tem um monte de apelidos pra mamãe.
Ele sorriu como uma gato esperto que acaba de encurralar um rato.
Sim, ela é minha esposa, filho – foi a explicação sorridente dele, os olhos sondando os meus.
Enruguei a testa e esvaziei a taça, a deixando de lado em cima da mesa. Eu sabia bem o que ele queria saber com aquele olhar e o que tinha tentado me dizer com sua resposta astuta.
Você é meu filho mais velho, meu primogênito, o seu sangue é o meu Jacques. Não pense que pode me enganar, e principalmente a si mesmo – ele me disse, num tom suave e calmo.
Não é como daquela vez, pai. Nunca mais vai ser como daquela vez.
Ouvi quando a cadeira foi empurrada e ele veio caminhando devagar até mim, as mãos descendo sobre meus ombros.
Lis é diferente, sei que é. Vejo nos seus olhos, são tão expressivos quanto os de sua mãe. Não sei exatamente o que você sente, mas lembre-se de que a conheceu antes de saber de seu passado. Não misture mágoas antigas com o presente.
Não há nada pra misturar, pai – me soltei e levantei da minha cadeira – Vou indo, não gosto de chegar atrasado em meus compromissos.
Boa sorte, e não revele nada ainda, deixe ela dar as notícias primeiro. Sei que as terá. E depois veremos... — os olhos azuis dele se acenderam e ele caminhou de volta pra sua cadeira de camurça, acenando com a mão num gesto de dispensa – Até mais tarde.
Até mais tarde, pai – achei melhor não olhar pra trás, às vezes ele era como mamãe, fazia a gente ficar pensando demais.
Encontrei uma de minhas irmãs quando desci pela escada. Amelie estava parada na sala – uma das várias na casa – olhando distraidamente pelas janelas. Mas se eu a conhecia bem, ela estava mais do que fora do ar. Ela estava triste.
Amelie? — coloquei a mão no ombro dela, o que a fez pular no lugar e se virar na minha direção com uma expressão quase de caçada.
Ah, droga, Jacques, agora entendo Elisabete, você é mesmo assustador quando quer.
Você está bem?
Os olhos se desviaram pro fim de tarde, embora não desse pra ver o por do sol porque o céu continuara teimosamente nublado desde as semanas que se passaram.
Estou, por que não estaria? — o murmurio foi fraquinho, quase como o pipilar de um passarinho infeliz com o tempo.
Virei os olhos e a puxei pra perto de mim, num abraço.
Ande, pode falar pra mim. O que aconteceu?
Ela demorou uns segundos, até que numa voz trêmula começou a falar:
Eles se beijaram – ela sussurrou, o corpo estremecendo – Ela sabe que gosto dele, Jacques.
Suspirei. Alienor era mesmo um demônio. Talvez ela merecesse ser o que era. Sempre tinha sido egoísta e fria.
Não importa Amelie. Você sabe que não passa de um passatempo pra ela. Logo ela cansa e terá sua chance. Não creio em algum rapaz que possa não gostar de você, meu anjo – beijei os cabelos dela. Estavam cheirando a xampu de morango.
Ele gosta dela – de repente ela parecia irritada – Como posso competir com isso?
Afaguei os ombros dela e a virei pra mim com gentileza. Lágrimas vermelhas se formavam na borda de seus olhos.
Ele, como todo tolo que é o ser humano, ama a beleza física, Amelie. Não desista, se ele realmente importa pra você.
Ela piscou e as lágrimas vermelhas escorreram pelas bochechas brancas, em silêncio.
Quando penso nele, me sinto melhor, é como se o Jefferson fosse uma corda, que me mantém sóbria, me mantém... — ela engoliu o choro — ….sã. Percebeu que minhas crises diminuíram?
Assenti com a cabeça. Eu sabia disso, mas ainda não descobrira o motivo. Ela andava bem mais tranquila.
Então lute, Amelie. Faça ele te enxergar. Se Alienor é egoísta o suficiente pra tirar ele de você mesmo sabendo de seus sentimentos, não tem por que ficar sentada olhando o prêmio ir embora, tem? — ergui uma sobrancelhas sugestivamente pra ela, que esboçou um sorriso. O de gato sabido, como do nosso pai.
É, acho que há tempo pra travar uma guerra. Não é justo Alienor ter todos aos seus pés. Muito menos o cara que deveria ser meu. A primeira pessoa por quem sinto isso em décadas... — ela alargou mais o sorriso e limpou o rosto na manga do casaco de veludo rosa desbotado – Você vai sair? Está arrumado...
Sim, vou ver a irmã mais velha do Jefferson – olhei no relógio, dez minutos – Tenho que ir, e se houver necessidade, anjo, jogue sujo! — dei uma piscadela e Amelie riu alegremente.
Vou me lembrar desse conselho nada ético! — ele ficou na ponta dos pés e me beijou no rosto – Eu amo você, Jacques.
Também amo você, doçura. Fique bem.
Dei as costas e estava pra sair pelo grande corredor central quando a voz dela me parou.
Jacques...
Sim? — virei a cabeça, preocupado que ela pudesse estar chorando de novo. Mas não estava. Sua expressão era meramente avaliativa.
Eu posso te dar um conselho?
Claro que pode, você é a pessoa mais sensata que conheço – o sorriso doce dela iluminou seu rosto.
Lute também – foi só o que ela disse os olhos sérios e inteligentes me analisando novamente.
Pelo quê exatamente? — eu ri, tentando entender o raciocínio dela.
Pelo que sente.
Franzi a testa, confuso.
Certo, você me pegou nessa. Seja clara – cruzei os braços sobre o peito, esperando.
Ela encolheu os ombros, inocente.
Eu sei que gosta dela, Jacques. Da Elisa.
Virei os olhos e ergui as mãos num gesto defensivo. Aquilo estava começando a irritar.
Bièn. Chega agora. Você está parecendo um eco dos nosso pais. Estou indo.
Não seja bobo, eu escutei você chamar o nome dela um monte de vezes enquanto dorme – ela revirou os olhos – Pare de mentir pra si mesmo – então abanou a mão – Vai de uma vez, ela é bem mais interessante pessoalmente do que em sonhos.
Ergui as sobrancelhas e a ignorei, seguindo pelo corredor. Tive de correr. Só tinham me sobrado uns cinco minutos.
Coloquei os óculos e o capuz do moletom. Mesmo que o sol se escondesse atrás das nuvens ele incomodava. A pele ficava formigando. Não era tão mal, mas certamente desconfortável.
O motor zumbiu e me inclinei pra frente, saindo pelos portões em alta velocidade.
Pensei no conselho de Amelie e no que meu pai tinha dito sobre deixar as mágoas pra trás. Mas não era fácil assim. Nunca seria. Anne tinha levado um pedaço do meu coração com ela, e também da minha confiança.
Lis era uma delas, como seria garantido que não faria o mesmo que sua antepassada? Não havia segurança. Nunca haveria.
Melhor não pensar nisso.
Mesmo que fosse vergonhoso eu a ter chamado em meus sonhos.
Ninguém quer que a irmã mais nova lhe jogue isso na cara.
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