Série - Pacto
14 Laços Passados, Segredos Passados
Notas iniciais
Como é que eu ia saber, porra??? Eu tenho quatro olhos por acaso, Jacques??? — gritei, no banco de trás do Range Rover dele.
Não, Elisa, não tem, mas se não tivesse bebido, talvez ela não tivesse sumido com um vampiro que obviamente não vai deixá-la viva por muito tempo! — reclamou Átila, arrumando a arma na coldre presa ao redor de seu tronco vestido com uma camiseta de manga comprida que meio que se colava em seu peito. Agora sim ele era a imagem do caça-vampiros.
Eu tentei afastar ela dele, mas ela está de porre! E de qualquer maneira, acha mesmo que eu ia conseguir arrastar Alê pra longe de um cara bonito? Acorda! — exclamei, irritada. Qual era a desses dois??? Eu não tinha o poder de controlar Alexandra, ninguém tinha!
Tudo bem, chega Elisabete, a única coisa que temos que fazer é achá-la – as rodas do carro guincharam ao fazer uma curva – Preciso do meu irmão pra isso.
O quê? Não precisamos de ninguém, vampiro, ou fazemos isso agora ou vamos perder Alexandra! E nenhum vampiro mata nesse lugar enquanto eu estiver aqui! — protestou meu amigo, arrumando um velcro na perna que segurava uma estaca medonha de madeira. A ponta furaria a pele com o menor toque.
Observei as ruas silenciosas por onde o carro passava a mil por hora. Onde eles teriam ido? Até tínhamos encontrado Suze, mas ela não tinha visto os dois saírem. Ela nem entendia a minha preocupação. Não podia culpá-la, Suzana não sabia que a amiga fora embora com um monstro sanguinário.
Marc é mais familiar ao cheiro dela, pode senti-lo melhor que qualquer um de nós – explicou Jacques num tom impaciente e seco – Você por acaso pode fazer algo desse tipo, caçador? — o risinho dele foi de escárnio.
Não me provoque aberração, posso muito bem quebrar a merda desse trato a próxima vez que me insultar – murmurou Átila, seus olhos reluzindo perigosamente por trás das pálpebras estreitas na direção de Jacques, que ziguezagueou com o carro, fazendo todos balançarem de um lado pro outro.
Acho que é melhor não quebrar um acordo de Castro, sua família tem tendência a se dar mal quando isso ocorre – a voz de Jacques estava trincada, o maxilar duro como pedra.
A conversa tinha tomado um rumo que fazia com que minha coceirinha quente começasse a fustigar meu corpo de imediato.
CALEM A BOCA! — mandei, recebendo um jato de calor no rosto – Isso não é sobre vocês, é sobre a vida de uma inocente! E se ela morrer juro por todos os elementos que regem este planeta que despedaço vocês! — eu nem reconheci minha voz. Era autoritária e gutural, cada sílaba das palavras explodiam como uma ventania violenta e repentina.
Eu soube naquele instante que era descendente de Claire Saint Germain. Foi minha magia que falou através de mim, eu sentia as ondas do poder palpável em cada pulsação e batida de coração.
Silêncio se instaurou dentro do automóvel, enquanto eu tentava controlar meu fôlego acelerado. Era como se mil raios tivessem atingido meu sistema, me transformando numa corrente elétrica humana, eu tremia dos pés a cabeça, a raiva tão intensa que meus olhos ardiam.
Jacques me relanceou pelo vidro retrovisor com um ar de choque e até um pouco de apreensão.
Átila estava com a boca entreaberta, o rosto branco como papel.
Nos perdoe, madame, não era intensão nossa deixá-la nervosa – pediu Jacques, com a cadência polida e nobre que não perdera da época em que nascera.
É, foi mal – completou Átila, parecendo um garotinho pego fazendo arte.
Virei os olhos. Eu não queria desculpas, queria ação! Queria Alexandra viva!
Ah, só andem mais rápido!
Depois de mais cinco minutos rolando pra lá e pra cá no banco de trás foi que vi as ruas conhecidas do meu bairro, e finalmente a minha casa e depois a dos D'Crécy.
Diante dos portões, se encontravam Marc, que nem esperou Jacques estacionar direito e já abria a porta à minha direita, jogando-se no banco, transtornado.
Logo em seguida Amelie subiu, delicadamente, mais como uma lady subiria uma carruagem.
Jacques franziu pra irmã. Eu também não entendia porque ela estava ali.
Eu vou ser útil, acredite, Jacques – ela respondeu a pergunta muda com voz séria e grave, como se soubesse exatamente quem procurávamos.
Ergui uma sobrancelha pros olhos que via pelo retrovisor. As íris castanhas ignoraram o questionamento.
Volte pro clube, preciso sentir a partir de lá – disse Marc, o rosto arrasado como eu nunca pensei que um dia veria – Depressa! — ele nem parecia notar a presença do resto de nós, enfiou a cabeça pra fora da janela e inalou o vento, os cabelos girando pra trás.
Nós iremos encontrar Alexandra, Elisabete, não se preocupe – disse Amelie suavemente, se torcendo por baixo do corpo enorme do irmão mais velho e vindo parar no meio do banco.
Eu espero que sim, Amelie – levei o celular ao ouvido, tentando pela milésima vez contatar Alê. Caixa postal, pela milésima vez também.
Quando chegamos a dez quadras do Celestial Marc gritou.
Não volte pra lá, vire aqui à esquerda, Jacques!
O Range Rover sensível obedeceu ao giro do volante de seu motorista e partiu pra avenida Duque de Caxias, tão rápido como uma seta.
Direita! — berrou Marc, novamente.
Viramos pra Fernão Dias, que era mão única, e não a nossa!
Vão bater em nós! — avisei, alarmada, me levantando um pouco do assento.
Sente-se, Elisabete. Nada vai nos impedir de chegar até sua amiga.
As ruas de fato estavam vazias, a não ser por um carro ou moto ocasional.
Esquerda!
Eu sentia meu coração batendo nas costelas. Ela não podia morrer, tinha que estar viva, tinha que estar viva...
Então pro meu horror eu ouvi o grito dela nos meus ouvidos, como se estivesse do meu lado, e a imagem dela despencando no chão escuro e molhado, o sangue em suas roupas caras e bonitas, o rosto desfigurado de pavor, se arrastando pra trás, enquanto uma sombra caía sobre ela.
Não me mate, por favor, não me mate... – sussurrou, os lindos olhos escuros transbordando de água, como o rio que brilhava com a luminosidade da lua a pouca distância dela.
O rio! O rio! Ela está no rio! — gritei, sentindo que lágrimas escorriam pelo meu rosto – Vá pro rio Jacques!
Você viu em que parte? — indagou Marc virando a cabeça pra mim.
Não! Mas temos de ir pra lá!
Não sem saber em que área, Elisa – Átila balançou a cabeça de uma maneira tanto desesperada quanto racional.
Eu não sei, eu só vi o rio, estava à direita dela! Ele já a mordeu! Vai matá-la, vai matá-la! — braços me prenderam, me fazendo sentar novamente no banco. Nem tinha percebido que levantara.
Calma, Elisabete, vamos conseguir – era Amelie quem me segurava, gentil. Um lenço foi conjurado diante de mim.
O mirante! — berrou Marc na hora que o carro deu um salto por cima de uma lombada, lançando o topo da minha cabeça pro teto do automóvel.
Au! — passei a mão no meu corte recente no cocuruto, que mal tinha fechado. Esperava não ter reaberto a ferida.
Passamos por um posto de gasolina e o carro disparou por cima de uma ladeira, encaramos a descida do outro lado e o carro virou pra direita, o cheiro de borracha queimada invadindo nossos narizes. Depois de virar a direita em mais uma ladeira, os pneus pararam cantando na frente do mirante.
As portas se abriram juntas, todos correndo por uma escada precária ao lado do tablado de observação, que dava direto pra um trecho a beira rio.
Marc chegou primeiro, Jacques em segundo, Amelie em terceiro e eu e Átila fomos os últimos.
É melhor deixá-la em paz, ou eu mesmo vou arrebentar você! — rugiu Marc, na hora que parei e olhei a cena.
Jean tinha Alê nos braços, inconsciente, e pálida, pálida de morte.
Alexandra! — gritei, me atirando na direção dela. Três mãos me deteram. Duas de Jacques e a livre de Átila, que apontava sua 48 com precisão pro vampiro lindo e cruel de cabelos pretos com a outra.
Fique onde está, Lisa, não vai ajudar em nada agora – ele sussurrou, sem tirar os olhos do sanguessuga.
Ora, ora – soou a voz de tenor calorosa de Jean – Eu bem que desconfiei que já conhecia seu rosto minha jovem – seus olhos azuis me perfuravam – Você é uma Saint Germain, uma das últimas – ele desviou a vista pros D'Crécy, todos um ao lado do outro – Obrigado por me poupar o trabalho de procurar. Agora é só ela desfazer o trabalhinho sórdido da ordinária da Anne.
CALE A BOCA!!!
Saltei pra trás, num golpe de susto tão grande que podia ouvir o ribombar do coração nos ouvidos.
Jacques tinha dado um passo a frente e só a mão de Amelie tinha conseguido segurá-lo e mantê-lo no lugar.
Por favor, é a inocente que viemos salvar... — ela sussurrou.
Meu sangue ferveu e voltei ao meu lugar, atrás de Átila e Jacques.
Exatamente, largue minha amiga seu assassino – sibilei, sentindo que o vento se mover ao meu redor, ululando, quando proferi as palavras.
Marc e Jean voltaram os olhos pra mim.
Meu Deus, olha só! — gargalhou Jean – Ela é legítima! Estão sentindo a vibração, não estão?
Vá embora, Jean – continuei, ignorando os olhares que convergiram pra mim – Ou juro por tudo, que vou acabar com você – eu não sabia de onde vinha minha firmeza e coragem, e muito menos aquele ondular poderoso do vento, que chicoteava o lugar, fazendo meus cabelos voarem ao redor do meu rosto, e fazia roupas se erguerem – Deixe Alexandra e suma.
Não sei... ela tem um gosto muito bom! — ele apertou minha amiga nos braços lascivamente, sugando um dos lóbulos da orelha delicada dela.
O som que saiu da minha garganta, de Marc e Átila poderia ser qualificado como sons do próprio inferno.
Tudo aconteceu tão rápido que depois parecia que tinha sido imaginação.
Amelie gritou quando Marc sem querer a empurrou ao se jogar pra frente. O riso de Jean ecoou no ar quando ele se desviou dele e depois de Jacques, vindo claramente na minha direção, até que o som de tiro espocou e o vento rodopiou ao redor do corpo de Alexandra no colo de Jean, enquanto o vampiro gritava com as mãos no joelho esquerdo.
Eu mal sabia o que fazia, tudo que entendi foi minha amiga flutuando levemente no ar, e depois caindo no chão atrás de mim sem fazer ruído.
Não! — gritou Marc, quando Átila preparou o segundo tiro – Você não vai querer entrar nisso!
Lamento, mas parece que já estou dentro! — meu amigo deu um riso entre nervoso e resignado – Quer mais uma, companheiro? — o cano apontou pra cabeça negra azulada, que voava e brilhava à luz da lua.
Largue isso, imbecil, você não vai querer ser meu inimigo – ofegou Jean, o rosto transtornado de dor – Aliás, Elisabete, bom truque o seu.
Certo, você está irritando – Átila preparou o gatilho.
Pare, Átila. Abaixe a arma – soou a voz de Jacques – Esta batalha não é sua.
Ah, não, definitivamente – falou Marc atrás de mim – Você pagará caro por essa afronta, maldito, nunca mais toque em Alexandra – senti um lufar suave de vento nos cabelos e presumi que ele tinha saído dali com minha amiga. Pelo menos ela estava segura, mesmo que fosse com o ex dela.
Casos extremos, soluções extremas.
Os olhos maravilhosamente azuis de Jean rolaram, mesmo que ele estivesse segurando o joelho que sangrava em profusão, tingindo a terra úmida e o pouco de grama.
Como é que eu ia saber? Só a peguei quando você apareceu, linda – ele abriu um sorriso torto pra mim – Sabia que viria atrás dela, e se fosse quem eu estava pensando, iria trazer a corja.
Por que não se olha no espelho, seu brutamontes?? — guinchou Amelie, seus olhos tinindo de raiva, o rostinho de boneca transfigurando pra algo mais parecido com o que eu lembrava ter me atacado no beco.
Ah, olá, doçura, como vai? Senti sua falta durante todos esses séculos e você, sentiu a minha?
Isso só acontecerá no dia em que cair um meteoro bem em minha cabeça. Você tem uma dívida comigo, seu filho de uma cadela, desapareça daqui antes que eu chame Marc de volta, ou decida que Átila e Jacques podem cuidar de você – o brilho escuro das íris ficou febril ao se voltarem pra mim – Ou deixo Elisa o fazer.
Seria uma honra – eu e Átila respondemos juntos, como bons amigos de anos.
Eu sentia vibrar por mim uma onda tão poderosa, que sabia que podia transformar Jean em cinzas.
Prefiro uma dentada do Jacques a ser morto por essa escória – Jean cuspiu, sem o menor temor no tom de voz – Mas infelizmente eu preciso da bruxa, a família dela me deve, não é amigo? — ele piscou pra Jacques, cujo corpo tencionou de imediato.
Vá embora, Jean, é a última vez que estou pedindo, se tiver que fazer mais...
Eu vou, Amelie, somente porque te devo , mas não pensem que eu irei ficar em silêncio por muito tempo... — ele se ergueu devagar, fazendo uma careta pra perna ensanguentada – Até logo, Elisabete, voltaremos a nos ver em breve – ele deu um sorriso lento e sumiu numa rajada de vento que passou a poucos centímetros de Átila que pulou pro lado.
Que droga, só gastei uma bala – resmungou, checando o tubo.
A energia me abandonou aos poucos, o vergar das árvores já não existia. Soube que a magia tinha ido embora quando meus joelhos cederam e só não bateram no chão porque meu amigo me segurou.
Amelie correu pro meu lado, embora Jacques tenha sido mais rápido.
Cuidem dela, preciso ver como está Alexandra... — murmurou Átila trêmulo. Ouvi o som das botas dele batendo enquanto corria de volta pra escada.
Vá Amelie, eu cuido dela – ele sussurrou, me erguendo nos braços.
Eu sabia, Jacques... — mesmo com a cabeça girando eu senti que ela estava sorrindo.
Não é hora pra isso, vá cuidar de Alexandra – a entonação de resposta deixava claro que Jacques estava falando entredentes.
Tá bom, tá bom – mesmo com esse fato, ouvi Amelie soltar uma risadinha antes de tudo ficar em silêncio.
Jacques, minha cabeça... — reclamei, minha voz soando arrastada aos meus ouvidos.
Não se preocupe, você vai ficar bem.
Anne fazia alguma coisa do tipo pra você ter tanta certeza? — indaguei ainda num tom mole e lento, enquanto ele dava impulso e corria. Senti o vento frio apenas por três segundos antes de ser colocada dentro do calor do Range Rover.
Eu ouvia as vozes de Marc, Átila e Amelie, em tom baixo e urgente.
Não, mas eu sou médico, sei do que falo – Jacques respondeu em algum ponto dos bancos de trás. Não tinha certeza, já que agora tinha uns zumbidos estranhos dentro do meu ouvido, incomodando.
Ah, é, tinha esquecido... — sussurrei, colocando a cabeça entre as pernas pra ver se havia alguma melhora.
Marc, dirija, é mais rápido que eu. Temos que tratar de Alexandra rápido, ela está perdendo sangue demais...
Quer dizer que... — Marc tinha um tom embargado e instável, como se estivesse prestes a chorar. Não conseguia imaginar ele fazendo isso. Era até cômico!
Não, mas vai, se você não meter o pé no acelerador, agora! — exclamou Jacques impaciente – Desculpe, Lis, terá que esperar um pouco pra um tratamento particular – a entonação ficou mais suave ao se dirigir a mim.
Abanei a mão.
Não se importem comigo agora, é só Alê que interessa.
A porta do motorista bateu e dando um solavanco inaudível, o motor funcionou e Marc do meu lado enfiou o pé no acelerador.
Alexandra estava segura, à salvo nas mãos de Jacques.
Mas eu tinha boa intuição, e todas elas rugiam dentro de mim, elas me avisavam, que agora, eu não estava mais segura.
Nem mesmo com Jacques por perto.
Eu precisava da pessoa cujo sangue era o mesmo que o meu. Eu precisava da outra Saint Germain. Minha avó.
Chamei baixinho o nome dela, com sorte o vento, que ao que parecia era facilmente agitado por mim, levaria minha voz até ela, fazendo com que se apresasse.
Porque a partir daquele episódio, eu sabia que as coisas iriam tomar um rumo cuja palavra “perigo” não seria suficiente pra nomear.
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