Série - Pacto
15 Decisão
Notas iniciais
Eu não me lembro como fui parar na cama king size do Jacques. De novo.
Acho que foi entre algum ponto em que eu apaguei no banco do carona e zumbidos estranhos no ouvido.
Eu estava sozinha no escuro, apenas iluminado por alguns clarões de luar que refletiam no chão através da janela entreaberta. Respirei e arfei em seguida.
Parecia que tinha uma broca tentando furar minha cabeça. Mas que porra de batida e vinho.
E acho que ainda tinha o agravante de eu ter mexido com magia, pelo menos era o que parecia ter sido, aquela moleza e barulhos no ouvido eram um indício.
Tentei me erguer, mas caí no travesseiro de volta, gemendo de dor.
Prometi a mim mesma nunca mais beber. Nunca mais, a não ser numa quantidade ínfima.
Mesmo em minha dor me lembrei da Alê. Será que ela estava bem? Pra onde será que a tinham levado?
Em resposta às minhas perguntas a porta do quarto se abriu devagar, quase como se temesse fazer barulho.
Não precisei abrir os olhos pra saber quem era. Eu reconhecia até o som dos passos dele. O que era bem irritante.
Trouxe um analgésico? Como está Alexandra? Se ela não estiver viva eu juro que mando um tornado chutar sua bunda – falei em voz baixa, com medo de despertar uma dor maior de cabeça.
O som de seu riso foi suave.
Eu já te dei remédio antes de dormir. Alexandra está sedada, e muito viva recuperamos o sangue perdido com uma simples transfusão. Os pais dela não se incomodam dela chegar super tarde em casa, não é?
Não. Eles mal param em casa por causa do trabalho, dão toda a liberdade que ela quer.
E você?
Meus pais sabem que estou com Alexandra. Eles não ligam quando estou acompanhada, só quando teimo em sair sozinha, o que é bem raro — levei a mão à testa e abri um olho – Tem certeza de que você me deu remédio?
Absoluta – ele assentiu com a cabeça, se deitando do meu lado – Átila disse pra você ligar quando acordasse, ou mandasse uma mensagem, só pra saber se você ficou bem. Pelo que ouvi dele você nunca esteve de porre – ele estava sorrindo pra mim, zombeteiro.
Vou direcionar meu tornado pra esse bárbaro agora. Linguarudo – resmunguei, me aconcheguei na coberta de pêlo branca e pesada – Da onde vocês se conhecem, você e Jean? E nem tente desconversar.
Não vou tentar – ele suspirou pesadamente – Ele também amava Anne.
Ergui as sobrancelhas pro teto.
Caramba, ela devia ser uma mulher e tanto...
Na verdade, Lisa, ela tinha apenas quinze anos quando a conheci. Mas era encantadora, não havia como não se apaixonar por ela...
Sério. Mesmo que eu não quisesse, ouvir isso doeu. Doeu mais do que poderia imaginar.
Meu corpo encolheu inconscientemente, como se alguém tivesse ameaçado me bater.
Você está bem? — senti os olhos dele colados no meu perfil.
Estou.
Seu gemido foi bem dolorido – ele voltou a sua posição anterior – O problema do Jean foi ter sido, bem... insistente demais, em excesso. Anne começou a ficar assustada, e a situação piorou quando ele, bem, tentou forçar a barra, entendeu?
Perfeitamente.
Então Claire lançou a maldição nele, como vingança. E assim como nós, ele passou a conhecer o lado obscuro. Nós fomos amaldiçoados três dias depois.
Eu fiquei em silêncio, assimilando a explicação.
Então vocês, tecnicamente, não são, exatamente vampiros?
Somos sim, essa foi a maldição lançada pra nós.
Mas tipo, ninguém precisou morder ninguém, é isso que quero dizer.
Ah, sim. Isso. Os vampiros originais podem fazer isso.
Arregalei os olhos pro teto, refreando o queixo antes que ele caísse.
Originais?
Jacques riu com humor.
São quase extintos, mas o pouco que resta está por aí, não gostam de chamar atenção, mesmo que num tempo como esse ninguém jamais te atiraria numa fogueira.
Inquisição?
Sim, eles foram dizimados. Eles podem transformar outros em vampiros, nós não. Porque não somos originais. Fomos apenas vítimas de magia. É a pessoa que a lança que escolhe o castigo.
Não é muito legal pensar que uma parente minha fez isso com vocês. Me deixa desconfortável. Afinal, porque ela fez isso?
Tudo a seu tempo, Lis.
Mas...
Silêncio. Profundo silêncio.
Fiz carranca.
Tá bom, eu não pergunto. Mas me diga, o que Amelie tem a ver com tudo? Jean só foi embora quando ela disse que lhe devia uma.
Ah. Minha irmã salvou a pele dele uma vez. Na terceira vez que o encontramos durante esta vida. Não é só a família de Castro que tem caça-vampiros.
Acho que entendi. Ela ajudou ele a fugir?
Sim, minha irmã às vezes desperdiça sua generosidade com quem não merece.
Nãofalamos mais depois dessa afirmação, apenas ficamos contemplando pensativamente o teto.
Você já pensou naquele “mais tarde”? — ele falou, quebrando a quietude, numa voz inacreditável de tão gentil.
Coloquei o braço sobre a testa pra esconder meu rosto dele, não queria que visse minha expressão mortificada. Eu não seria uma substituta de Anne. Nunca.
Já. E acho que minha resposta é não.
O peguei de guarda baixa. Jacques deu um pulo e rolou de lado, apoiando o queixo na mão.
Posso saber o motivo?
Nem tudo na vida tem explicação – retruquei, mais seca do que pretendia. Eu sentia um frio sepulcral no estômago, como se tivesse um saco de gelo lá dentro. E minha boca estava seca.
Não tente me passar pra trás garota – ele bateu de leve no meu ombro com os dedos tão gelados quanto minha barriga – Você não está sendo sincera.
Como você pode saber??? — exclamei, minha voz subindo numa nota mais alta. Me sentei, colocando as pernas pra fora da cama e ficando de costas para aquele vampiro imbecil.
Eu queria ir pra casa. Voltar pra minha cama e chorar.
Não é difícil de adivinhar... — ele murmurou, parecendo chocado com minha atitude. Senti ele se chegar perto das minhas costas – Por acaso eu te ofendi de alguma maneira, Elisabete?
Não. Só quero ir pra casa, Jacques – me levantei num átimo. O que foi um péssimo passo.
Minha cabeça girou tanto que achei que fosse vomitar, e antes que eu me esborrachasse no chão de madeira polida, a mão fria dele me agarrou pelo cotovelo.
Fui colocada de volta no lugar onde estava, só que agora eu tinha um rosto confuso pairando acima do meu, me encarando.
Por quê está agindo dessa maneira, Lis? — a boca vermelho-escuro perguntou, os vincos na testa surgindo – Foi algo que eu disse?
Ai, eu queria morrer.
Você não pode me convidar pra sair, Jacques. Não quando ainda tem outra pessoa no seu coração – falei, sentindo que meus malditos olhos tinham enchido de água. As mãos que seguravam meus pulsos relaxaram.
Jacques se sentou do meu lado, sem me olhar, enquanto eu tentava limpar discretamente as lágrimas furtivas que tinham escorrido.
É muito difícil esquecer certas coisas, Lisa. Mas eu procuro tentar, de todas as maneiras.
Mas não consegue, não é? — funguei, de um jeito patético. Eu estava me sentindo patética. Uma patética colossal.
Anne foi a primeira mulher que amei, Elisa, mesmo que ela tenha partido meu coração em pedaços as lembranças ficaram, dói, mas está gravado a fogo em mim. Como posso arrancar algo que faz parte de mim?
De repente meu corpo se tencionou, e por mais estranho que a descrição vá parecer, foi como se eu tivesse adquirido uma força extraordinária em todos os membros, me tornando rígida e resistente a qualquer tempestade, como as árvores ou a própria terra.
Eu queria chorar de novo, mas não por Jacques, mas sim pela magia. Ela viera me ajudar, no momento em que eu mais queria.
Eu me ergui devagar, experimentando. Minha dor de cabeça tinha sido extinta.
Não é problema meu, minha voz ecoou dentro da minha cabeça, orgulhosa.
Eu era Elisabete Thomas. Bruxa, uma Saint Germain.
Posso entender a dor Jacques, mas não aceito que possamos ir mais longe do que amizade, se é que dá pra chamar disso – reagi, dessa vez não evitando olhá-lo.
Ele deu uma risada pasma.
A gente já passou um pouco desse limite, Elisa, mais de uma vez.
Sim, eu sei – assenti em concordância – Mas não significou grande coisa, significou? — a acidez permeou minha língua e minhas palavras.
Eu o atingi, porque seu rosto ficou mais branco, e seus olhos piscaram com uma ponta de mágoa misturada à raiva.
Eu gosto de você Elisabete, você sabe disso – ele falou entredentes, o queixo teimoso.
A ferroada em meus olhos foi cruel.
Por mais que possa parecer bom dessa maneira, eu ainda não tenho o poder de competir com um fantasma – minha voz estava firme, mas eu sabia que a tempestade estava vindo, eu só tinha que sair dali antes que ela arrasasse comigo.
Elisa... — ele tentou me segurar quando me levantei. Fiquei firme, exatamente como um carvalho.
Jacques, eu vou ajudar você e sua família, e em troca te peço pra manter o limite da amizade entre nós dois, eu estou viva e sou real demais pra encarar a humilhação de competir com lembranças. Estamos entendidos?
Ele não respondeu imediatamente, apenas piscava pra mim, os olhos indecifráveis.
Antes de dar a resposta, uma pergunta.
Posso ceder com isso.
Elisa, o que você sente exatamente por mim?
Foi como receber um chute na cabeça, no estômago, em cada parte da minha anatomia, todos os golpes ao mesmo tempo.
Engoli em seco e aprumei os ombros. Implorando aos meus lábios que não tremessem.
Talvez você deva descobrir sozinho – respirei fundo – Estamos entendidos?
Oui – ele respondeu, sem mudar de expressão. Só que agora ela parecia mais fria e sombria, como se o escuro dentro dele tivesse se tornado mais amplo.
Dei as costas e procurei meu celular com os olhos. Estava em cima do criado mudo. No tempo que fiz isso, Jacques não moveu um músculo em cima da cama, e quando saí do quarto ele não me seguiu com a vista.
Corri pelo corredor, querendo chegar o mais rápido possível na porta de saída.
Eu precisava estar bem pra quando Alexandra acordasse, o que aconteceria em breve pela luz tênue e pálida que ia acendendo lentamente no céu.
Me sentei nos degraus da porta depois de batê-la.
Meus dedos tremeram enquanto eu tentava discar o número da minha avó, sem checar as mensagens da minha mãe cujo visor mostrava.
Antes que eu terminasse ele tocou. Era o número dela.
Vó? — chorei, as lágrimas pingando no chão, enquanto o frio me tomava, a partir do estômago e subia por meu corpo, enregelando todas as minhas articulações.
Como é bom confiar em nossa magia. O que aconteceu, querida?
Se lembra quando disse pra não me envolver demais, com o Jacques D'Crécy? — solucei, me dobrando ao meio, tentando afastar aquele frio que me fazia tremer dos pés a cabeça.
Sim, eu lembro, minha filha – sua voz era preocupada.
É tarde demais, vó! — exclamei, a dor me cortando o peito, me sufocando com as lágrimas e arquejos – O problema é que eu não posso competir com ela, vó! Ele não a esqueceu!
Meu anjo, sinto muito – ela parecia triste, muito triste – Mas coloque pra fora, é melhor do que guardar, não é saudável. Eu estarei aí na próxima semana, não vou poder ficar mais tempo longe enquanto você sofre assim.
Obrigada, vó, venha rápido! — eu limpei o nariz que escorria nas costas da mão, nojento, eu sei.
E Elisabete...
Sim?
Às vezes o amor gosta de nos pregar peças.
Funguei dolorosamente, meu rosto ainda pingando e pingando. Se tivesse formado uma pocinha no chão eu não ia me surpreender.
E também tem duas caras e é um sádico maldito.
Infelizmente. Mas você é forte, eu sei disso porque senti.
Aquilo me distraiu um pouco da sensação de facas cortando meu peito.
Sentiu?
Por que acha que telefonei? Começou a ventar forte que era o diabodentro do meu quarto! E depois ouvi uma voz me chamar.
Dei um sorriso fraco.
Fui eu, tivemos uns problemas por aqui hoje.
Me diga quando não há problemas na vida de uma bruxa – ela suspirou – Em especial com vampiros metidos no meio, lobisomens são mais fáceis de lidar.
COMO É? — sons de engasgo. Os meus, claro.
Opa, desculpe, meu bem, informação demais numa situação ruim. A gente vai ter tempo de conversar sobre tudo isso. Agora, fique bem e não frite seu cérebro e seu coração por causa de Jacques, está nas mãos dele ver que lembranças não podem te dar um abraço num momento triste.
Vó, obrigada. Muito obrigada mesmo – meu rosto continuava úmido, mas eu não mais chorava. Na real, tudo que eu queria era ir dormir, e de preferência na minha cama. E nenhum corpo frio do meu lado. Eu aceitaria o Harry Potter e o Aragorn de bom grado como companhias. Ou o Leão Aslam das Crônicas de Nárnia.
Conte comigo, garota. Tenho que desligar. Se cuide.
Você também.
Até logo.
E a linha ficou muda.
- Os D'Crécy podem ser bem intragáveis, não?
Uma voz bonita e límpida ecoou. O pulo que dei e o grito que tampei a tempo com a mão, não foram suficientes pra demonstrar meu pânico. Me atirei pra trás num rompante, tentando alcançar a maçaneta da porta.
Jean ergueu uma sobrancelha negra e muito bem delineada.
- Por Deus, eu não vou te fazer nada, Saint Germain, afinal, eu vou precisar da sua ajuda.
- Ajuda? — dei um riso, ficando em pé, a mão ainda na maçaneta – Eu não ajudo pessoas que quase matam amigos meus, caia fora antes que te lance um raio na cabeça.
- Não duvido que possa fazer isso, Elisabete, mas eu te aconselho a me ouvir antes de o fazer.
Estreitei os olhos pra figura alta e espetacular dele. Ele estava apenas a alguns passos de distância, mas não tentou se adiantar.
- Certo, eu vou entrar, se quiser arriscar o pescoço com todos os D'Crécy machos em casa o problema é seu – girei a maçaneta e empurrei a porta.
- Ele te contou, não foi? Te contou sobre mim e Anne? — uma risada sem humor acompanhou ambas as perguntas.
Ainda de costas, assenti com a cabeça.
- Eu sabia que ele te contaria, deve ter me pintando como um verdadeiro vilão de ópera... — a entonação era preenchida de óbvio desprezo. Isso me fez voltar a cabeça, contra a vontade na direção de um par de olhos azuis irônicos.
- Talvez porque tentar forçar a barra com uma mulher te faça parecer mesmo um.
Ele abanou a cabeça de um lado pro outro, me dando um olhar de pena
- Eu nunca fiz isso com Anne, Elisabete. Eu amava aquela desgraçada, meu único pecado foi esse, e por causa disso perdi minha humanidade – chispas de ódio crepitaram, o tom de azul daqueles olhos se escurecendo – Mas ficar com Jacques era mais vantajoso, Julian D'Crécy era vilão do senhor feudal, isso tornava Jacques o próximo por hereditariedade. Foi aí que perdi a vez. Por que ela ficaria com um mero vassalo?
- Você está mentindo – afirmei, tentando controlar minha respiração, que acelerava a cada palavra dita por Jean-Philip.
- Acho que não, posso ser um pouco cruel, mas eu não costumo mentir, muito menos sobre esse assunto. Pense bem, Elisabete – ele olhou o relógio que parecia caro no pulso – Se quiser saber mais sobre a adorável história de amor de Jacques e Anne me procure no Hichsten Hotel, você deve saber onde fica, é o mais caro da cidade – ele piscou um olho de cílio grosso e longo, deu um estalo com a língua e me deu as costas.
Demorou mais ou menos dois segundos pra ouvir minha voz rígida sair pela garganta.
- Te procuro essa noite.
Ele não se voltou, nem diminuiu o ritmo dos passos.
- Será uma honra recebê-la Elisabete Thomas – ele respondeu em tom formal e elegante.
Então de repente sumiu na semi-escuridão num borrão de cor.
Suspirei, cansada.
Hora de mandar Alê pra casa, e depois eu iria pra minha.
Eu tinha que descançar, porque pelo visto minha noite ia ser longa, muito longa.
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