Série Elementares - Escolhas (LivroUm)

4 Suíça, 03 de janeiro, 2011, Segunda.


Estava escuro ali. Escuro e frio.

O ar cheirava a tensão, medo, suor, sangue e sujeira. Era nossa primeira batalha depois dos dias de férias, mas, não parecia realmente que o tempo havia passado. Marcus estava meio agachado na minha frente em posição de combate, naquela escuridão só os fios dourados de seu cabelo eram totalmente visíveis. Eu tinha que admitir que nas nossas roupas de combate ele era quem mais se favorecia, os ombros largos, braços e mãos grandes moviam com habilidade a lâmina em punho – que brilhava com a quase insignificante luz lá em cima.

– Vamos. – ele sussurrou.

Marcus tornara-se um líder nato com o passar de tempo e convivência, era fácil segui-lo. Nossos passos faziam um leve som contra o chão molhado, eu estava incrivelmente consciente das gotas de suor que corriam meu corpo apesar do frio, a umidade fazia com que mechas de meu cabelo, preso em coque, grudassem em meu rosto.

– Será que acabou? – era Cassie em meu cangote.

– Se fosse assim as luzes estariam acesas a essa hora, não acha? – Victoria respondeu com rispidez.

– Acho que você deixou sua educação em algum lugar durante a luta com o ultimo Harnon. – Nataly interviu

– Ao menos ela deve ter me servido de algum jeito, não sou eu a que se mantém com todas as armas aqui.

– Quer parar vocês du... – eu estava falando quando a criatura surgiu diante de todos nós.

Shadies raramente atacavam sozinhos, exatamente porque nós, que os caçavam, não caçávamos sozinhos, porém este estava só. Eu prendi a respiração instintivamente ao ver a grande figura rosnar e farejar o ar em busca de sangue.

Os Shadies podiam ser muito bem a inspiração dos contos para lobisomens, mas, visto de perto eles tinham pouco em comum com os imensos lobos que andavam de duas pernas. Os shadies eram todos escuros, eu nunca vi um amarelo, ou branco, ou qualquer cor clara o suficiente para ser identificado no escuro justamente porque era onde eles caçavam, na noite. Pra mim todos eram pretos, o que me surpreendia nos shadies era a capacidade que eles aparentavam de raciocinar e planejar, eles eram únicos nessa habilidade dentre todas as criaturas.

Nós cinco: Marcus, Victoria, Cassie, Nataly e eu, nos esprememos contra a parede de madeira da casa desabrigada no meio daquela floresta, a gente mal respirou, Marcus tinha uma visão privilegiada e, ao perceber que não havíamos sido vistos, tirou uma adaga do cinto e apertou o cabo com a mão enluvada.

Eu me inclinei um pouquinho para ver o shadie. Seus olhos eram vermelhos – era essa cor ou verde em todos os casos, — duas garras saiam de cada lado de sua cabeça, era como se o osso houvesse se desenvolvido demais e rasgado a pele, ele usava-as para rasgar o corpo humano enquanto se alimentava dele, abaixo dos dois olhos – que era completamente vermelho, sem o branco do globo ocular ou o preto da pupila – havia um nariz, na verdade parecia existir apenas a cavidade nasal protegida por pelos compridos que melhorava seu faro nos dias frios, mesmo assim essa não era sua melhor cartada, ele não era tão bom no faro como algumas outras Criaturas, abaixo do nariz estava o ponto mais temido, a quantidade de dentes e o quão afiado eram ainda me surpreendia, dois grandes caninos ficavam para fora da boca apontando pra baixo.

Os Shadies – no que diz respeito á fisionomia como um todo – era a Criatura mais parecida com um ser humano, ele tinha braços e pernas longos, também coberto de pelos, mãos com dedo opositor, e pernas e pés com as mesmas características de uma pessoa.

Marcus empunhou a lâmina e ia lançar quando a Criatura se mexeu e deitou sobre seu próprio corpo. Ele abriu a boca para murmurar sob os olhos espantados de todos nós, foi quando o Shadie encolheu e em seu lugar restou um Grannon. Nosso suspiro de alívio foi em conjunto, mas, não havia muito tempo pra relaxar. Marcus lançou a faca na Criatura e foi minha vez de atacá-la com minha espada, mas o Grannon foi mais rápido e quando eu me inclinei para atacá-la ele enfiou as garras em meu braço. Gritei sentindo as garras de metal se partir dentro de minha carne, Marcus já estava do outro lado jogando outra faca, Victoria desembainhou suas duas espadas e cortou o Grannon ao meio.

Grannons tem a capacidade de se transformar em qualquer Criatura que existe por alguns segundos – que são suficientes para causar estrago. Eles são mais fáceis de matar do que os Shadies, os Grannons não enxergam e por isso são dotados de uma excelente audição que é uma merda sempre. Olhei para o corpo da criatura se desfazendo, seus três pares de olhos – que eram como gudes de cor azul leitosa – organizados na parte de cima do crânio, este, em específico, media um metro, mas, existem alguns que chegam a quase um metro e meio. Ele também não possui nariz, sua grande boca saliva ácido puro e quando suas garras se quebram dentro da pele é um grande problema. Era nisso que eu pensava enquanto segurava meu braço de modo a estancar o sangue.

– Você está bem Lyss? – Cassie segurou meu outro braço

– Vou amarrar um pano para impedir que você perca mais sangue. – Marcus tirou um pedaço de pano não sei de onde e veio amarrar em meu braço, encolhi-me instintivamente de seu toque.

Ele me deu uma olhada rápida e eu sabia que ele se sentiu insultado. Ninguém gostava de ser tocado por ele, mesmo com as luvas.

– Tome. – entregou a Cassie e se afastou, abaixando-se para pegar as armas do chão. Eu ia chamá-lo, mas, de repente as luzes se acenderam.

– Simulação encerrada, simulação encerrada! – a voz feminina robótica repetia enquanto os refletores acendiam um por um.

– Vamos! – Cassie segurou-me para irmos á saída.

Mais tarde eu estava com Cassie e Louise na sala de enfermagem, ou “sala de feitiços”, como eu chamava.

– Isso está horrível. – disse Louis com uma careta, olhando meu braço ensopado.

A dor vinha em espasmos cada vez mais fortes, eu podia ver as lâminas cinzas do Grannon enfiadas em minha carne, meu sangue já havia sujado boa parte do lençol branco que cobria a cama em que eu estava deitada.

– Jessie está vindo. – Nataly chegou da porta para falar, deu uma olhada no meu braço de onde estava e sumiu porta afora.

Jessie era a Bruxa da cura, e, portanto, a enfermeira. Todos os Bruxos fazem feitiços, mas, cada um tem sua aptidão para determinada coisa, eu, pessoalmente, achava os feitiços de Cura muito difíceis e nunca seria uma “enfermeira”, Cassie – com seu pouco tamanho – era bastante ágil e lidava bem com feitiços de paralisar, por isso era boa no ataque surpresa, Louis era A inteligente, conseguia bolar estratégias como Marcus, e encontrar soluções em situações complicadas.

– Vocês não precisam ficar aqui. – eu murmurei contendo o impulso de arrancar as garras em minha pele com minha própria mão.

– Sua sorte não ter sido um Crazan. – Cassie falou como se eu nada tivesse dito.

Crazan lançava as lâminas em seu adversário a distâncias absurdas, essas lâminas eram contaminadas com veneno que tornavam difíceis a cura dos ferimentos.

– Meninas? Vocês receberam suas cartas? – Louis disse sentando-se na cama, sua atenção estava para Cassie.

Fechei os olhos contendo um gemido de tristeza. Naquela hora Jessie, a enfermeira, entrou.

– O que temos aqui? – ela perguntou para ninguém específico – Grannon; informaram-me. Vamos começar logo antes de curá-la.

Ela usou uma pinça enfeitiçada para retirar as garras, meus olhos permaneceram fechados, a medida que ela tirava uma onda de alívio e ardor espalhava pelo meu braço, as garras estavam no meu braço direito, era o braço em que todas nós eram marcadas com as Marcas do Elemento. O meu era a Água. Já havia sido mutilada vezes o suficiente naquele braço pra saber que a deformação temporária das Marcas não tinha influencia sobre o nosso Controle. As meninas não continuaram a conversa sobre a carta de Weverston por causa de Jessie, não que ela não devesse saber que aquele dia chegaria, estávamos sendo treinadas ali justamente para esse dia.

Um cheiro de plantas e fumaça espalhou-se pela sala, abri os olhos para ver Jessie amassando folhas molhadas com unguento antes de passar pela fumaça de um incenso e colocar sobre meus ferimentos. Cassie estava de pé num canto da sala olhando-se no espelho – como sempre fazia quando tinha oportunidade, Louis virava as folhas de uma revista distraidamente, os cabelos cor de areia presos numa trança simples, os olhos verdes atrás das lentes dos óculos atentos ao que via nas folhas coloridas e repletas de fotografias.

– Ai! – disse quando Jessie enfiou a pinça mais profundamente.

– Desculpe Lyss, é que uma garra está bem profunda.

Eu não respondi e desviei minha atenção da ferida exposta e do sangue que ainda jorrava.

– Esse sangue vai fazer falta. – Cassie disse olhando-me do espelho.

– Provavelmente. – suspirei

– Já estou terminando.

A garra que ela jogou na vasilha de louça fez mais um barulho agourento, Jessie continuou a espalhar as folhas e pressionar com a ponta dos dedos. No início doeu um pouco e no segundo depois um gostoso formigamento subiu meu braço inteiro, ela iniciou uma lamentação cantada, falando baixinho as palavras de cura e eu podia sentir minha pele se regenerando por baixo das folhas úmidas.

– Pronto. – Jessie disse finalmente – Fique mais um tempo em repouso e deixe a cicatrização afetar os pontos mais profundos. Daqui a pouco vão poder sair.

– Obrigada Jessie. – falei.

Ela saiu levando a vasilha com garras e sangue e o lençol sujo de sangue. Encostei-me nos travesseiros e deixei meus olhos fechados, a janela do quarto estava aberta e o ar fresco entrava movimentando as cortinas.

– Então eu não fui a única a receber a carta de Weverston? – Cassie tocou no assunto de novo.

– Aparentemente não. – eu disse sem me mover – A gente sabia que esse dia ia chegar.

– Eu não me sinto exatamente preparada, sabe? Tudo bem eu controlo a Terra e tudo mais – dizia Louis – mas, eu pensei que sentiria que estava pronta. Quando isso acontecesse.

– É como envelhecer Louis, a gente só percebe quando já tá lá, na casa dos quarenta. – Cassie fez uma expressão de desagrado ás suas próprias palavras.

Eu só suspirei.

– O que há com você Lyss? – perguntou Cassie

– Brigou com o Chris? – interpôs Louis

Depois ambas disseram em uníssono:

– De novo!?

Fiz uma careta quando elas riram.

– Quase isso. – respondi – A gente não se viu hoje, ontem a gente só se falou por telefone, eu tinha acabado de receber a carta de Weverston e não queria vê-lo.

– Eu acho que vocês formam um casal incrível. Ele é fofo, gato, gostoso e... puta merda, ele gosta de você. – Cassie numerava

Eu sorri. Era tudo verdade. Até a parte do “puta merda”.

– Mas, ele é humano gente! – movimentei meu braço bruscamente e nem doeu muito.

Cassie e Louis se entreolharam.

– Sabemos, mas, não há nada escrito em lugar algum dizendo que humanos e bruxos não podem se pegar de vez em quando.

– Quando vocês acham que será nossa viagem? Pra Weverston, eu quero dizer. – sentei-me contra os travesseiros, a dor agora era só uma leve pontada.

– Acho que eles vão nos reunir, sabe? Como fazem quando a gente vai mudar de escola. – Louis deu de ombros.

– É. – olhei para a janela imaginando mais uma despedida para a coleção.

Eu estava com minha mochila nas costas e descia as escadas de mogno até o andar inferior quando Marcos passou e abria a porta da biblioteca, o mesmo lugar pra onde eu ia.

– Marcos! – chamei descendo os degraus que faltavam depressa.

Ele deu uma olhadela pra mim.

– Ah. Oi Lyss.

– Espera eu... – ele parou e eu continuei até estar de frente pra ele – Preciso te pedir desculpas pelo modo que eu me comportei na Sala de Simulação. Desculpe, eu...

– Não Lyss, você já deve saber que eu estou mais que acostumado á isso.

Marcus não era um Bruxo Elementar, como eu, Victoria, Louis e Cassie. Ele era um “bruxo comum”, se bem que, aparentemente ele não tinha nada de comum. Era lindo de viver. Todo bruxo comum tem um poder extra, quer dizer, a grande maioria dos bruxos. O poder de Marcus estava em suas mãos – sem duplo sentido -, ele conhecia seus pensamentos através do toque, quando sua mão tocava alguém aquela pessoa passava a dividir os pensamentos com ele por um bom tempo, além disso, ele conhecia todos os pensamentos que a pessoa já teve. Aquilo me assustava um pouco, na verdade, não só a mim, mas, a todos os que rodeavam Marcus. Acho que ninguém gostaria de ter seus pensamentos invadidos, mesmo que Marcus fosse um gato.

Ele sorriu de lado e passou a mão pelos cabelos de mechas loiras, seus olhos esverdeados ainda estavam um pouco escuro de tristeza.

– Tudo bem Lyss. Está tudo bem. Mas, eu devo te lembrar que quando eu estou com luvas – mostrou as mãos, as luvas pretas cobriam toda ela – não precisa ter medo.

Eu sorri pra ele também. As luvas de Marcus eram enfeitiçadas, bloqueavam seu poder para que ele não fluísse através do material preto.

– Vai pra casa?

– Ainda preciso organizar as coisas pra viagem. Caminhamos em direção á porta, ele afastou uma mecha de meu cabelo que escondia um de meus olhos.

– Você também recebeu a carta de Weverston. – não era uma pergunta – Mas, não está nenhum pouco feliz com isso. – também não era uma pergunta.

– Você me conhece bastante. – murmurei

– Anos de convivência.

Marcus não era o meu amigo mais próximo, mas, ele estava certo quanto aos anos de convivência.

– O que há? É o seu namorado? Não contou á ele que você é uma Bruxa, certo?

– Não, ele não sabe. – estávamos na biblioteca agora, as prateleiras de livro se estendiam por metros e metros, os livros eram separados por assuntos e então por ordem alfabética. Caminhamos automaticamente para a sessão de História.

– Então... Você mora com sua tia, não é?

– Isso.

– É por causa dela que você não quer ir?

Suspiro.

– Ela é tudo o que eu tenho. – dei de ombros enquanto parávamos em frente ao livro grande de capa verde “História da Humanidade”, Marcus puxou-o e a grande prateleira abriu uma parede com escadas descendo sob o chão até onde a vista alcançava. Descemos. Nossos passos ecoando pelas paredes.

– Mas, despedidas são necessárias para novos encontros, Lyss.

– Eu sei. – ouvimos algumas vozes lá embaixo e nos silenciamos.

A luz azulada desenhava espectros na parede de pedra da escada em que descíamos. Mais alguns degraus e eu vi Cassie abraçada a Louis, em despedida. Víamos principalmente sua silhueta, a luz do portal era muito forte. Cassie acenou para nós.

– Até mais meninos. – jogou um de seus famosos beijos e, após um momento de concentração caminhou ate o Portal.

O Portal era um grande círculo revolto azul, como se você estivesse olhando para um lago profundo, porém vertical, que estava sendo remexido com uma grande colher, mesmo com a superfície inconstante era possível ver seu próprio reflexo quase como um espelho através dele. O que mantinha o Portal era como uma grande moldura cor de bronze. Aqui em baixo não havia nada além dele, aquela parte do Instituto parecia ter sido escavada somente para ele. Eu vi Cassie atravessar o Portal e ser embaçada até sumir completamente nas nuances de azul.

– Também vou indo. – era Louis que ajeitou os óculos antes de mergulhar. Ela sumiu igualmente.

Despedidas efusivas não eram necessárias. Nada daquilo era novidade pra gente. Aquele momento se repetira milhares de vezes nos últimos seis anos de nossa constante convivência, por isso Marcus apenas acenou antes de seguir para o Portal. Eu o vi sumir também.

Era minha vez. Deixei as preocupações de lado e me concentrei em minha casa. Meu quarto de paredes rosas, alguns ursos sobre a prateleira acima da minha penteadeira antiga – pertencera á minha avó -, vi minha cama impecavelmente arrumada, com milhares de almofadas em todos os tons de vermelho possível – minha cor preferida. Havia o velho tapete branco em frente a cama e minha pantufas sobre ele. Tinha uma foto minha com Chris e Lucy no criado mudo branco ao lado da cama, o exemplar entreaberto de o Código Da Vinci de Dan Brown – um de meus livros favoritos. Então eu praticamente podia ver o meu quarto pelo Portal, minha imagem embaçada fundindo-se com ele, e meu coração se acalmou. Simples assim. Eu atravessei o Portal, meu braço já cicatrizado não doía mais e eu estava em casa. De repente tudo parecia bem.

Até a manhã seguinte.