Série Elementares - Escolhas (LivroUm)

5 Califórnia, 04 de janeiro, 2011, Terça


Eu apertei o panfleto contra o meu peito e suspirei de novo. Com a outra mão olhei a tela do celular, Chris havia acabado de responder ao meu pedido: “Preciso te ver”, com uma resposta breve: “Vem”.

Eu não o via há dois dias e no dia anterior não atendi suas ligações.

Depositei o panfleto de Weverston sobre a cama e saí, passei pela cozinha, peguei uma maçã e parei em pé na sala de estar. Lucy estava fora, mas, chegaria logo, ela foi ao banco preparar nossa vida financeira para minha viagem. Minha ficha ainda não havia caído, mas era hora de crescer, e pra começar eu tinha que proteger Chris de mim mesma. Com o pensamento as marcas translúcidas em meu braço formigaram, elas cresceram mais nas últimas horas que seguiram a entrega do panfleto, como se meu corpo já soubesse o que estava por vir.

Poucos degraus me separavam do apartamento de Chris e no minuto seguinte eu estava batendo na porta, a mãe de Chris – que sempre foi uma fofa comigo – atendeu e mandou que eu fosse ao quarto, Chris estava lá. Ela tinha seu cabelo longo e castanho – como os de Chris – preso num rabo de cavalo, parecia mais jovem com o cabelo assim, mas, as marcas sob os olhos e as linhas ao redor da boca denunciavam o que ela estava passando nos últimos meses. Um relacionamento que não está dando certo parece sempre afetar mais a mulher. Ela tinha os olhos também castanhos, seus ossos dos ombros estavam expostos também, ela estava mais magra. Eu a cumprimentei brevemente e não perguntei pelo pai de Chris, no atual estado do casamento deles isso não seria uma boa ideia.

– Vou levar um suco e biscoitos lá daqui a pouco. – ela gritou enquanto eu sumia no corredor, a casa inteira cheirava a biscoitos. A casa inteira, menos o quarto de Chris, eu conhecia aquele cheiro que vinha da porta entreaberta.

Era o cheiro dele. Eu já decorei.

Dei uma batida e entrei, ele estava deitado na cama com a bola de basquete nas mãos, ele era tão familiar para mim, as mãos grandes, a cicatriz no dedo indicador, os braços fortes, a leveza como ele se movimentava, leveza que não existia até ele ter dezesseis, as pernas grossas que se desenvolveu aos quinze, pois ele já jogava futebol e basquete a algum tempo, os ombros que eram largos e com músculos sobressalentes.

Eu sorri porque ele sorriu, era sempre assim. Um o reflexo do outro.

– Entra Lyss. – fez sinal com a mão.

Tudo ali era familiar, o espelho quebrado na porta do guarda roupa refletiu a mim mesma porque a porta estava meio aberta, meus cabelos escuros estavam caindo do coque que eu fiz mais cedo, meus olhos azuis parecia assustados, minha expressão era de apreensão. Meu rosto agora tão diferente de como estava nas fotos presas nesse mesmo espelho, a maioria daquelas fotos nós havíamos tirado no aniversário de Lucy do ano anterior com uma câmera Polaroid instantânea. Eu estava feliz ali, eu podia me lembrar com facilidade, lembro-me dos risos, vozes, o barulho do parque lá atrás, dos nossos gritos na montanha russa e na roda gigante, em uma das fotos Chris me olhava distraidamente enquanto eu comia pipoca, ele olhava pra mim como estava olhando agora, como se pudesse ver além do que eu mesma via no espelho. Ele olhava pra mim como se eu parecesse exatamente quem eu gostaria de ser. Ele era a melhor parte de mim como humana.

Eu sentei ao seu lado na cama, já havíamos dormido ali milhões de vezes, quando éramos criança e eu morava no prédio vizinho e ele nesse mesmo apartamento costumávamos brincar de acampamento onde contávamos histórias de monstros e coisas assustadoras. As coisas ali eram tão familiares pra mim como seria em meu próprio quarto, nós dois havíamos pintado aquele quarto no início do ano, a cesta de basquete num canto do quarto foi presente meu, da porta entreaberta do guarda roupa eu via o ursinho de pelúcia rosa que eu dei para ele no Dia dos Namorados, aquilo havia sido uma provocação, uma piada interna só nossa.

Havia um quadro sobre o criado mudo com mais uma foto nossa e no computador o papel de parede era a mesma fotografia que estava nos nossos perfis nas redes sociais.

– Argh! Aqui tem muito “eu”. – eu falei apontando para as fotos

– Minha mãe disse que isso aqui parece um quarto de meninas. Pior é quando ela diz que é um verdadeiro altar de adoração á você.

Eu sorri olhando ao redor. Meu sorriso não alcançava os olhos.

– Você sempre foi minha melhor amiga. – ele disse baixinho

– Você sempre foi meu único amigo Chris. – eu tinha as líderes de torcida e as meninas que faziam dança comigo, e os Bruxos e Bruxas que sempre treinei desde os dez anos, mas, ninguém era como Chris. A mão dele se entrelaçou com a minha, minhas mãos pareciam minúsculas ali, mas, a gente se encaixava mesmo assim.

Os olhos verdes estavam cheios de receio, não era pra ser assim com a gente... Não era pra haver um vidro invisível entre nós dois, eu que sempre achei que havia uma barreira entre mim e o resto do mundo não me sentia só porque Chris estava comigo no lado certo, mas, se ele estava distante agora significava que eu estava sozinha.

A gente deitou e ficou olhando para o teto, a bola repousava no peito de Chris.

– O que é isso entre a gente? – ele sussurrou

Ele lia meus pensamentos.

– Não era pra ser assim. Não com a gente.

A mão dele apertou a minha. Seu rosto se inclinou para o meu, eu não me mexi, só fechei os olhos ao sentir seus lábios em minha bochecha, a respiração aqueceu meu rosto, a cama rangeu quando ele mudou de lado pra colocar o braço ao meu lado, seus lábios vieram devagar para os meus e eu me virei para beijá-lo. Certo, eu queria terminar com ele, mas, antes que ele me odiasse eu permiti a mim mesma uma despedida. Meu coração não disparou dessa vez, eu amava tanto Chris, mas, não desse jeito, claro que meu corpo respondia a alguns estímulos, mas, não era assim que eu o queria.

Ele sentiu meu corpo enrijecer e parou de me beijar.

– O que foi? – perguntou buscando meus olhos

Balancei a cabeça e dei de ombros.

– Eu te conheço Lyss.

– Esse é o problema, você me conhece bem demais Chris e... – ainda assim não sabe de tudo. – Existem coisas sobre mim que, se você soubesse... Você entenderia.

As marcas em meu braço formigaram, era um padrão de ondas, elas eram como linhas transparentes e visíveis sobre minha pele. Nenhum humano enxergava aquelas marcas, nem a própria Lucy que sabia o que eu era.

– Então me conta. – ele ainda me olhava nos olhos, como se pudesse ler meus pensamentos.

Empurrei-o de leve e saí da cama ficando de costas para ele.

– Não posso.

– Alyssa! – ele chamou com tom de impaciência. Ele só me chamava pelo nome quando estava no limite.

– Chris eu não acho que a gente possa continuar.

– Como “a gente” você quer dizer “nós”, e com “continuar” você quer dizer...

– Nosso namoro. – coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha.

– Lyss eu...

Chris nunca havia dito que me amava, nem eu a ele. Não quando aquelas palavras aderiram um significado mais complicado.

– Chris eu só quero preservar nossa amizade. – falei olhando-o de lado

– Mas, no dia primeiro... – seus olhos espelhavam a confusão que ele sentia, uma mecha marrom de seu cabelo tocava sua testa, contive-me pra não afastá-la.

– Foi um erro estúpido Chris. – eu disse virando-me completamente pra ele, meus braços estendidos em exasperação.

Arrependi-me assim que pronunciei as palavras, eu vi meu Chris, aquele que eu conhecia como a palma de minha mão, desaparecer naqueles olhos, uma parede rígida se formou entre nós depois destas palavras. Os lábios entreabertos se fecharam e ele travou os dentes, uma veia em sua mandíbula saltou.

– Ok. – ele levantou e eu achei que viria pra mim, ele simplesmente saiu pela porta me deixando sozinha.

Sentei na cama e peguei o porta-retratos do criado mudo, nós dois estávamos sorrindo para a câmera, meu rosto estava corado e cabelos ao vento, ele estava com o brilho nos olhos que me faria reconhecê-lo em qualquer situação. Suspirei.

Havia um peso imenso em meus ombros, um aperto em meu coração, eu podia não ser exatamente humana, mas, meus sentimentos oprimiam tanto quanto se eu fosse.

Ouvi a voz da mãe de Chris e a dele na cozinha. Depois ele pôs uma cabeça na fresta da porta do quarto.

– Minha mãe lhe preparou um lanche. Aparentemente ela terá que sair para comprar qualquer coisa desnecessária só pra deixar a gente a sós. Se quiser vir pra cozinha. – ele meio que deu de ombros e retirou a cabeça.

Ouvi seus passos pelo corredor. Olhei novamente a foto antes de tirá-la do porta-retratos. Dentre tantos crimes que eu cometi e cometeria roubar uma foto deveria ser o menor deles. Enfiei a foto no bolso e saí. A mãe de Chris não estava mais na cozinha, ele estava atrás do balcão que separava a cozinha da sala.

– Vai querer comer.

Acenei. Só porque não queria sair agora. Não queria sair e deixar esse Chris que eu não conhecia. Tinha medo do meu Chris simplesmente não voltar.

Ele se movimentava rapidamente, o rosto ainda sem expressão, mas, todo o resto era igual. Chris colocou um prato com biscoitos ainda fumegantes em minha frente e um copo de suco.

– Não vai comer? – perguntei

Ele fez que não com a cabeça e foi sentar em frente á imensa TV.

– Onde está seu pai?

– Não sei. Não dormiu em casa. – praticamente se jogou no sofá

– Sinto muito. – disse indo tentar sentar ao seu lado.

– Não faz mal. Até as coisas mais bonitas estão fadas a acabar em algum momento. – me olhou significativamente e eu não suportei o olhar.

Ele ligou a TV e me cedeu um espaço mínimo. Ficamos assim por algum tempo. Eu mastigando os bicoitos quentes, olhando sem ver para a televisão, e ele mudando os canais de vez em quando. Em outro momento eu estava só bebendo o suco quando senti algo quente e salgado no canto de minha boca e percebi que eu estava chorando. Em silêncio. Levantei depressa porque não queria que ele visse meu choro. Fui á cozinha, estava lavando meu copo quando o senti ás minhas costas. Ele me envolveu, assim, de costas mesmo. O coração batendo contra mim, a respiração balançando uns fios de meu cabelo. Eu solucei.

– Você quer mesmo terminar? – a voz saiu rouca

– Sim. – sussurrei

– Então está tudo bem. Tudo bem de verdade. De verdade mesmo.

Eu quase sorri com o jeito que ele falou. Quase.

– Não fica com raiva de mim. – meu cabelo se desprendeu e eu afastaria de meu rosto se não tivesse com os dois braços presos pelo abraço dele. Ele me virou devagar e mais devagar ainda enxugou meus olhos, depois deu um demorado beijo em minha testa.

– Estou te molhando. Arruinando sua roupa. – murmurei

Ele também ia sorrir.

– Vai por mim que minha verdadeira ruína é por dentro. – eu ia protestar quando ele completou – Mas, eu vou ficar bem, Lyss. Está me escutando? Não chora – enxugou meus olhos de novo – as coisas estão fadadas a ser destruídas, mas, podem ser reconstruídas com paciência. Eu vou ficar bem. – dando uma pausa ele completou – Até porque eu sou bonito demais pra ficar magoado e tristeza não combina com qualquer roupa. – deu de ombros. O sorriso dele se parecia com o verdadeiro.

Concordei com a cabeça e retribuí desengonçadamente o seu abraço.

– Você é o melhor amigo que alguém poderia ter. – sussurrei.

Eu não sorri mais porque ele não sorriu. Eu lhe dei um abraço demorado porque era uma despedida, ele retribuiu o abraço porque era o que nós dois queríamos.

Antes de viajar eu lhe contaria que era uma Bruxa, gritaríamos um com o outro e nenhum de nós dois escutaríamos coisa alguma. Depois não nos veríamos mais. Eu queria ter sabido disso agora.

Notas finais
A partir daqui o livro será escrito em Terceira Pessoa.