Série Elementares - Escolhas (LivroUm)
12 Segredos.
"Todo mundo tem segredos. Alguns segredos são maiores que outros. Alguns são capazes de destruir. Outros já destruíram, mas, não sabemos disso. Ainda."
Longe dali os problemas estavam diante de Winfrey para serem resolvidos. Ele estava em Londres num café, já reconhecera três DDPs entre os humanos, pelo que se lembrava nenhum deles conseguia ouvir a distância. Seu convidado chegou, sentou-se sem cerimônia e cruzou os braços.
Onde chegara? Negociando com alguém de tão baixa estirpe.
Winfrey baixou a cabeça que estava protegida por um chapéu, pra evitar que alguém o reconhecesse, a neve que caíra momentos atrás derretia nos cantos das ruas, ele esfregou as mãos enluvadas tentando minimizar o frio.
– Sejamos breve – ele murmurou – Você tem uma informação que eu não sinto que seja verídica. – disse de uma vez aguardando seu convidado falar
Vinny soltou um riso descrente. A mente estranhamente vazia para Winfrey.
– O que você é mesmo? Um vidente. Se eu falar uma mentira ou uma verdade você não saberá. Estou com um bloqueador aqui no bolso. – ele enfiou a mão e mostrou um frasco com uma folha azul dentro dele – Sabe que com isso não tem como você prever se o que eu vou falar com você vai acontecer mais tarde.
O silêncio de sua mente estava explicado.
– E você sabe que essa planta só protege por duas horas. – Winfrey disse disfarçando a surpresa por ele ter pensado nisso.
Murmurou uma imprecação por pensamento, felizmente tinha pedido que Nadine o acompanhasse, ela estava vindo, atrasara devido á neve que viera sem avisar, Adam ficara responsável por cuidar do Weverston, aquela planta específica de nome Coulër era usada como amuleto pela maioria dos DDPs que tinham algo a esconder, ela funcionava numa pessoa por duas horas, então deveria ser passada pra outra pessoa que era protegida por mais duas horas e assim por diante, se essa sequência se quebrasse ela simplesmente murchava e perdia a capacidade. Coulërs eram difíceis de ser encontradas, porém aceitar aquela planta de alguém envolvido com corrupção era dito como má sorte, pois essa pessoa só estava passando adiante para manter a planta viva, consequentemente ele ou ela ia querer o amuleto de volta depois de duas horas. Outro detalhe importante do funcionamento da planta era que ela só funcionava com habilidades mentais, se a habilidade precisasse de contato físico a utilidade da Coulër era nula.
– Então você sabe que não pretendo ficar aqui por mais de duas horas. – ele sorriu debochando – Sabe também que os negócios comigo são rápidos – ele enfiou o amuleto de volta ao bolso – falando nisso estamos perdendo tempo.
– Não tenho pressa – Winfrey fez sinal para o garçom – quer beber algo?
– Winfrey você acha mesmo que sou estúpido? – inclinou-se sobre a mesa numa atitude ameaçadora — Deve ter ouvido falar na minha má fama, saiba que eu não a consegui de um dia para o outro, nem através de boatos. Vamos aos finalmente.
– Você também já deve ter ouvido falar de mim – Winfrey identificou o carro preto que estacionava na rua ali perto, Nadine chegara – sabe que eu não trabalho sem uma base segura, você quer dinheiro e está tentando me convencer de que eu quero uma informação, bem, eu tenho o dinheiro, mas, não estou nem um pouco convencido da veracidade de seu blá blá blá. – ele sorriu para o garçom e pediu chocolate com marshmallows, esperou o garçom sair para voltar a falar com Vinny – Bom, essa é Nadine.
Nadine sentou no único lugar vago da mesa e acenou em silêncio para o terceiro ocupante. Ela assustou-se um pouco com a cicatriz que tomava a metade do rosto do homem, ele já fora belo um dia, era loiro de um tom quase branco, os olhos azuis claro também, porém seu lado esquerdo dos lábios quase não existia e seu olho era fechado, parecia uma queimadura, a pele estava derretida e enrugada. Ela disfarçou concentrando-se em apenas um lado de seu rosto.
– Prefiro não apresentar vocês, esse rapaz não merece apresentações.
– Você vai ouvir falar sobre mim. – ele sorriu, mas, parecia uma careta. Piscou o olho bom pra Nadine que continuou impassível.
– O que eu quero é que você estenda a mão sobre a mesa e ela vai dizer se é verdade ou não a informação que você quer me vender.
Vinny riu
– Acha que vou compactuar com isso? – ele levantou-se – Hasta luego!
Como resposta Winfrey abriu a mochila que trouxe consigo sobre a mesa da maneira mais discreta que conseguiu. Vinny voltou a sentar hipnotizado com as notas de dólares que quase transbordavam da mochila abarrotada, com um grunhido insatisfeito ele estendeu a mão para Nadine.
Ela segurou a mão dele contendo sua aversão, não pôde deixar de notar que um dos dedos de sua mão direita era deformado.
– Existe um invasor em Lisarb. – ele afirmou
Winfrey esperou Nadine confirmar
– É verdade. – ela disse depois de um tempo.
– Certo. – Winfrey entrelaçou os dedos – Próxima afirmação.
– Seu quadro de Elementares não está completo e eu tenho o endereço e informações da garota que falta.
Winfrey prestou bastante atenção ao que ele dizia, tentando encontrar qualquer sinal que demonstrasse que ele estava mentindo, aquilo era uma loucura, havia quatro Elementares, se ele descobrira mais uma por que Costoupolos não previra mais um elemento? Onde eles erraram? Costoupolos era claro na afirmação de Quatro Bruxos capazes de controlar o Ar, Terra, Fogo e Água cada um. Se, faltava uma garota... O que estava incorreto? Nadine, pessoalmente ficara incumbida de analisar cada um dos Bruxos antes de sua partida para Lisarb e ela dera Ok para todos os nove.
A resposta de Nadine demorou dessa vez, ela queria ter certeza. Pediu que ele afirmasse mais uma vez, na terceira vez ela pediu que ele tirasse o amuleto para ter certeza. Vinny já estava impaciente. Repetiu pela terceira vez e Nadine analisou com os olhos fechados. Aquela hora Winfrey não se importava com o chocolate fumegante diante de si, nem se os humanos nas outras mesas estavam olhando pra eles, Winfrey só encarava Vinny e Nadine, estava tenso. Nadine finalmente abriu os olhos e Winfrey sabia que ela nem precisava falar coisa alguma.
Lyss acordou cedo o outro dia, estava tão escuro que parecia madrugada, estava dando o habitual beijo nos pais quando Cassie entrou.
– Bom dia Lyss. – falou arrumada como sempre
– Bom dia. – afastou os lençóis
– O que é isso? – sentou ao lado dela na cama – São seus pais? – sorriu instantaneamente
– É.
– Ai que fofo! – sorria fazendo uma voz infantil – Quem estava aqui do lado? Algum tio chato que você odeia então você cortou a foto na metade.
Lyss franziu o cenho sem entender.
– Como assim? – pegou a foto, Cassie foi para o lado dela e apontou para uma mão extra na foto. Lyss não havia notado aquilo. A mão branca, provavelmente masculina envolvia a cintura de sua mãe possessivamente. A imagem tinha uma nova perspectiva agora. Ela afastou e tentou se lembrar daquela foto de outro jeito, não mais incompleta. Foi a primeira vez que ela notou que os pais estavam meio afastados um do outro, não pareciam estar um com o outro, mas, os dois com Lyss, sem envolvimento.
– Eles parecem íntimos. – Cassie sussurrou, demonstrando receio.
– Não pode dizer isso só por uma mão. – mas, eles pareciam íntimos, Alice a mão, quer dizer.
Ela deu de ombros
– Eu não cortei essa foto, nem tinha notado essa mão aqui.
– Sua mãe tem irmãos?
– Não que eu saiba. Éramos só nós três. – ela olhava para aquela mão sem entender – Até Lucy mantinha-se distante nessa época, ela não gostava de minha mãe.
– Estranho. – ela fez uma pausa olhando a foto por um momento — Então? Vai comigo?
– Pra onde?
Lyss olhou a foto por mais um tempo e decidiu que não se preocuparia com aquele detalhe bobo, guardou-a de volta ao diário fazendo uma anotação mental pra perguntar á Lucy sobre aquilo em outro momento.
– Marquei com Louis de estudar hoje depois da aula.
– Ah. Vamos sim.
– Como foi com seu Mentor? Você teve a ligação? É incrível, não? O que é aquilo? – ela apontou para o criado mudo onde um bilhete estava escrito com as letras que Lyss já conhecia tão bem.
– Não é nada. – ela não notara aquele bilhete ali naquela manhã, pegou, tentando aparentar calma e colocou entre as páginas do diário também. Leria depois, quando estivesse só. Foram tantas perguntas que ela não se lembrou de todas.
Cassie não perguntou mais.
– Vamos estudar sim, acho que fará bem pra gente.
– E vamos pegar um livro de feitiços simples, para tentar alguma coisa. – ela esfregou as mãos uma na outra – Vai ser divertido. Estamos te esperando.
Dizendo isso ela saiu. Lyss pegou o bilhete assim que a porta encostou-se ao batente.
“Espero que esteja disposta pra aventuras. Mathias está criativo hoje. E obrigado pelo dia ontem, acho que você veio pra dar cor e forma á minha vida. Evan.”
O sorriso não saiu nunca mais do rosto dela.
Na sala de aula sentou atrás de Cassie e na frente de Victoria, Demetree olhava pra ela o tempo inteiro, lançando olhares furtivos, fazendo expressões estranhas.
– Bom dia gente. – falou Mathias – Já viram como o céu está nublado hoje? Isso é perfeito para nossa aula de campo. Conversando com seus Mentores e com Demetree decidimos testá-las, vamos simular uma emboscada, alguns wateaires vão ajudar.
O treino era mais complicado do que Lyss imaginara, cada uma das meninas foi levada com seu Mentor pra um canto da ilha, as folhas de Alena Descansarium pareciam pesar na mão de Lyss, a atmosfera era tensa, estava escuro devido ás nuvens escuras no firmamento, o mar estava revolto, o vento frio soprava do horizonte, o sangue de Lyss pulsava em seus ouvidos, apesar da presença de Evan deixá-la mais confortável, mesmo sendo um perigo fictício, ainda era muito incômodo. As árvores erguidas imponentes pareciam tocar o céu escuro. Evan lhe dera folhas de Descansarium para ser usada, ela devia paralisar o máximo de Wateaires possível. Ainda estava tentando entender como faria isso quando um vulto veio em sua direção.
Winfrey encostou-se à poltrona do avião, preferiu viajar como humano e levar Nadine consigo enquanto todos os outros foram com Adam para a Inglaterra. Sua mente estava cheia, por isso não queria Douglas por perto, queria poder pensar. Vinny disse a verdade o que queria dizer que tinha falhado e precisava consertar o que tinha feito, a pasta em sua mão pesava mais que o normal, estava hesitando em abri-la. Havia cometido um erro, mas... em qual delas?
Quem das meninas não era uma Elementar? Nenhuma delas era humana, disso sabia. Havia perguntas demais para poucas respostas.
– Eu tenho certeza do que vi. – Nadine afirmou num murmúrio
– Eu sei. O que está em tese aqui não é sua competência.
Nadine ficara incumbida de averiguar cada um dos Bruxos antes de serem mandados á Lisarb, era uma DDP de qualidade, por isso estava entre os poucos do círculo de confiança de Winfrey.
– Mas, sinto que falhei. – soltou
– Não falhou. – Winfrey afirmou porque sabia que era verdade. Nadine sabia também.
– O que vamos fazer agora? Chamar todos eles de volta pra interrogar? Procurar o Bruxo que falta? Falar com Clovis?
– Você se lembra de algum dos bruxos que você teve alguma dificuldade em ler? – interrompeu
Winfrey lembrou-se de uma coisa. Na verdade de duas.
– Claro que lembro, comentei com você.
– O bruxo das luvas. – Winfrey comentou devagar – Tivemos que usar Douglas com ele, certo? E eu sabia o quanto ele era bom com brincadeiras mentais.
– É. E teve a garota do fogo. Victoria. Ela parecia erguer barreiras impenetráveis.
– É, a mãe dela morreu queimada e o irmão com traumatismo craniano, ela é uma das suspeitas. Muito boa em esconder segredos também. Claro que ocultamos isso da justiça temporariamente, se ela é uma de nós deve ser protegida.
– A última foi Lyss, mas, por causa do bloqueio.
– Certo. – ele estava mergulhado em suas próprias conclusões.
– Eles são prováveis suspeitos?
Winfrey não respondeu, abriu a pasta e separou três fichas, aqueles garotos receberiam atenção especial. O próximo passo foi agendar uma ligação para Clovis apressar as coisas por lá. Precisava testar os poderes das Elementares e saber se elas eram o que diziam ser.
Uma leve camada de suor cobria a pele de Lyss, mal podia crer o quão rápido eles eram, os wateaires surgiam de todos os lados e da forma mais silenciosa possível, o que Mathias não disse foi que eles teriam em mão uma arma de bolas de tinta, a munição em si era inofensiva, mas, melecava bastante. No final das contas Lyss virou um arco íris, mas, paralisou uns seis. Considerava o número muito bom. Agora estava de ouvidos apurados pra mais um golpe. Evan estava tranquilamente num galho de árvore lá em cima, Lyss percebeu tarde demais que os Mentores não deviam ajudar apenas observar e anotar. A parte de caçoar Evan fazia porque queria mesmo.
– Faltam vinte minutos. – ele disse
Que horas eram? Estava com tanta fome.
– Estou indo bem? – olhou-o de relance, ele estava de pernas cruzadas e com uma ficha nas mãos, parecia mesmo concentrado em seu dificultoso trabalho e anotar quantas vezes Lyss apanhava. Mas, alguém precisava mesmo anotar, ela não saberia dizer quanto tinha apanhado.
– Muito bem. – seu tom de voz dizia o contrário.
– Não importa, estou aprendendo.
E era verdade, nas horas que seguiam ela percebeu o quanto seu corpo havia se habituado a mudanças bruscas de velocidade e como o menor ruído podia ser percebido ali, seus reflexos também eram muito bons, considerando que seu único esporte era ser líder de torcida. Os músculos da perna estavam reclamando um pouco e a cabeça doía devido á constante pulsação em sua testa. Os dedos da mão também doíam muito, as folhas estavam úmidas devido a umidade de sua mão.
Ouviu um baque surdo, mais um aproximava-se.
Agachou um pouco instintivamente, puxou uma folha para a ponta do dedo, dobrou o braço diante de si formando um ângulo com o antebraço, a outra figura – em alguma parte de seu cérebro percebeu que se tratava de uma mulher -, veio numa impressionante velocidade em sua direção, ela precisou dar três ou quatro passos pra trás, um jato colorido passou por ela, deu tempo de Lyss segurar o braço da wateaire.
– Atteticus. – falou.
A mulher ficou imóvel. No silêncio que seguiu foram as palmas de Evan que interromperam.
Winfrey apertou as têmporas e suspirou. Virou as fichas mais uma vez, encarava duas fotos de Victoria – a agora “suposta” Elementar do Fogo -, na primeira foto ela era uma criança, quatro ou cinco anos, os cabelos escuros caíam sem ondas ao redor do rosto, seu olhar era sério e entediado para a câmera. Na outra foto ela estava com quinze, a expressão ainda séria, os olhos focados na câmera, os cabelos pretos agora com mechas vermelhas, os olhos circundados com uma maquiagem pesada preta. Winfrey bateu com a caneta no papel amarelo que estava rabiscando com algumas suposições que vinham em sua mente. O telefone tocou, ele atendeu no segundo toque.
– Winfrey falando.
– Informaram-me que você queria falar comigo, o que foi proveitoso já que eu também quero falar com você.
– Clovis. – Winfrey reconheceu – Fale primeiro.
– Bom Winfrey... – ele hesitou – Parece que fomos invadido.
– Lisarb? – Winfrey se sobressaltou. Aquela era a ilha mais invisível que existia com relação á possíveis invasões.
– Isso. Mas, os wateaire registraram uma pequena invasão, duas pessoas no máximo, ela ou elas estão circundando as barreiras, já penetrou algumas vezes e de repente desaparece.
Winfrey suspirou e encarou a foto de Victoria outra vez, puxou as outras duas fichas e se deparou com os rostos de Marcus e Alyssa.
– Existe alguma possibilidade de ser um engano?
– No início havia essa possibilidade porque eram invasões rápidas, mas, agora a presença está mais constante.
As mãos do homem foram até as têmporas outra vez enquanto afastava as fichas para ver mais algumas informações dos três suspeitos.
– Vamos tomar algumas providências, chame a defesa, Demetree, Evan Ayllan, Troy... os Wateaires que têm experiência com invasões desse tipo.
– É. Você sabe que Evan agora deve estar focado nos deveres de Mentor.
– Sim, sei. Mas, ele não vai se negar a ajudar. – a porta do escritório de Winfrey abriu depois de uma batida, era Nadine.
– Certo. Vou tomar as devidas providências. E o seu assunto? Qual é?
Winfrey hesitou. Nadine colocou um copo de café quente diante dele, ele acenou. Ela estendeu um papel rabiscado com letras de forma, era um endereço e um nome. Agora que sua mente estava intensamente focada em tantas coisas não vinha nenhuma visão, precisaria se concentrar naquelas palavras que agora Nadine lhe estendia para ver algo sobre aquela pessoa.
– Acho melhor se sentar Clovis. – fez uma pausa – Recebemos uma informação de está faltando um Elementar.
Silêncio.
– Informação segura?
– Sim.
Silêncio de novo.
– Clovis eu separei algumas possibilidades. Marcus, Victoria e Alyssa.
– Sim, mas, Marcus não é um Elementar, como ele pode estar na lista de suspeitos?
– Eu separei os Bruxos que tivemos mais dificuldades de conhecer por dentro se é que me entende. Marcus, com seus joguinhos de mente impressionantes chamou minha atenção, deve ser estudado. Lyss tem um bloqueio impressionante, e a menina Victoria tem um passado bem complicado.
Mais um instante de silêncio.
– Certo. Vai precisar de meu auxílio?
– Quero que dê uma atenção especiais á eles. Inicie a parte específica, fale com Evan para começar com os controles de Água na Ala e diga o mesmo á Félix.
– Certo. – Clovis assentiu brevemente.
– Me mantenha informado quanto às invasões.
Desligaram. Winfrey voltou os olhos para o papel rabiscado que Nadine colocara em sua frente, esta última estava sentada em silêncio do outro lado da mesa.
– Mais problemas?
Winfrey não respondeu.
– Já procurou as características da suposta Elementar?
– Não. Deixei pra você fazer isso. Achei que preferiria.
Nadine fitou o homem que tanto respeitava, bastou um olhar para ela entender que ele queria ficar sozinho. Ela o fez.
O interfone soou e Lucy levantou-se para abrir, estava olhando os classificados em busca de boas oportunidades de emprego. Agora que estava sozinha precisava se ocupar. O que o irmão deixara dava para se manter tranquilamente, mas, passar o dia em casa estava deixando-a deprimida.
– Já vai, já vai. – ajeitou os cachos que escapavam do rabo de cavalo. Era um representante da justiça, Lucy franziu o cenho. O rapaz bem vestido apresentou seus documentos ao subir, Lucy deu passagem ao homem com cheiro de hortelã e cigarro que usava um terno cinza.
– Lucy Stevens? Única parente viva de – ele consultou um dos muitos papéis que tinha em mãos – Brad Steven, certo?
– Isso. – há muito alguém não vinha procurá-la por referência ao irmão já falecido.
– É sobre uma propriedade dele.
– Por favor sente-se. – eles se acomodaram no sofá, estava intrigada – O que tem essa propriedade? Todos os bens de meu irmão foram vendidos.
– Não. – o rapaz meneou a cabeça – Esse não. – tirou uma foto da pasta preta que trazia – Essa casa bem aqui. Temos conhecimento de uma imobiliária que tem interesse no imóvel e veio buscar o registro judicialmente.
A casa estava visivelmente mal conservada, mas, ainda conservava seu charme. O gramado crescia desordenadamente, a cerca que rodeava o imóvel ainda estava conservada e era branca, como o corrimão de madeira da escada de três degraus que usavam para chegar á pequena varanda da casa. As paredes estavam descascadas mostrando que a casa um dia fora azul clara, as árvores que ficavam do lado de dentro da cerca tinha galhos sem folhas que pendiam no tronco, a porta da frente da casa tinha dois dos seus vidros quebrados e parecia não existir maçaneta.
– Acha que alguém pode ter invadido?
O homem negou com a cabeça e tirou mais alguns papéis.
– Negativo senhora. – confirmou – Mas, existe um casal interessado na casa, eles deixaram o contato bem aqui. – estendeu uma folha com alguns dados básicos de um homem e uma mulher. – Como eu disse é preciso que você se mobilize de alguma forma ou a justiça pode muito bem demolir a casa por estar representando um risco aos moradores ao redor, essa casa pode estar servindo de abrigo para animais e até marginais, embora, passando por lá não encontrei elementos perigosos.
– Mas, eu não entendo. Quando meu irmão faleceu – dor no peito – pedi ao advogado para pegar todos os bens dele e de sua esposa e...
– A casa não está no nome do casal. Está no nome da criança. – vasculhou mais papéis e estendeu um com o endereço da casa e mais uma foto, só que impressa no papel – Alicia, certo?
– Alyssa. – corrigiu – Sim, é a filha deles. – Lucy olhava a papelada enquanto absorvia muito lentamente tudo ali.
– Então. Pelo que me consta a menina não é maior de idade, então você mesmo pode tomar as devidas providências sobre o imóvel. – ele silenciou como se esperasse uma resposta.
– Eu vou ficar com o contato do casal que se interessou pela casa. Vou ficar com o endereço também.
– Certo. – ele se arrumou pra sair
Lucy suspirou depois de fechar a porta após a saída do rapaz e seu cheiro de menta e cigarro.
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