"Tenho medo do que não fica para sempre."

A tinta demorou a sair de seu corpo, do banheiro podia ouvir o suave assobio de Evan que a aguardava no quarto, era uma cena tão íntima: ela no banheiro e ele a aguardando no quarto. Segundo Evan ainda precisavam voltar á Ala para mais alguns conceitos básicos que precediam os ensinos de Controle da Água. Lyss se enxugou procurando mais vestígios de tinta, aproveitou o tempo frio e usou uma de suas inúmeras roupas quentes que trouxera, se vestiu no banheiro mesmo, saiu enxugando os cabelos e encontrou Evan analisando algumas presilhas que estavam sobre o criado mudo, o cabelo claro caía sobre a testa, Lyss pensou como seria acariciar os fios, puxá-lo pra si, o rosto de Evan virou devagar em sua direção e o assobio parou, ele ainda tinha um biquinho que se desfez em câmera lenta, havia um brilho de aprovação em seus lindos olhos, hoje esses olhos estavam mais dourados que o habitual. Lyss suspirou sem querer. Como ele podia ser tão bonito? Evan sorriu.

– Vejo que se recuperou do massacre.

Ela sorriu também.

– Não há nada que um bom banho não cure. – foi para a penteadeira, implorando para que seu corpo não respondesse assim á ele. Evan era seu Mentor – repetiu a si mesma para que não restasse dúvidas. Evan ficou em silêncio, deixou qualquer coisa que analisava sobre o criado-mudo e se virou para fitá-la pelo espelho. Lyss corou – Como e quando vai ser essa coisa de ligação com a gente?

– Hum – ele pensou – Eu não sei, pelos meus cálculos já era pra ter acontecido. A gente vai na Ala pra... testar algumas coisas. – deu de ombros parecendo estar muito á vontade.

Lyss continuou esfregando os cabelos tentando secá-los. Um minuto inteiro se passou, Evan já estava sentado na beirada da cama.

– Sério que você vai ficar aí me observando? – Lyss perguntou.

– Coisas belas devem ser observadas. – ele disse, mas, se levantou – Vou tomar um banho e... esperar você lá embaixo.

Lyss esperou que ele saísse pra continuar a se arrumar. Mais tarde depois de se olhar trezentas vezes e não encontrar nenhum resquício de tinta, desceu. Hoje seu cabelo estava se comportando bem, estavam bem organizados e sem rebeldia.

A porta da Ala Azul abriu assim que ela tocou a mão. Evan já estava lá, cabelo úmido, rosto perfeito e olho hipnotizante. Como sempre. Mas, dessa vez ele não sorriu ao vê-la.

– Está com fome? – perguntou

– Não. – ela sentou ao seu lado e fitou o livro que estava aberto sobre a mesa. – O que é isso?

– Estou vendo o que há nos livros sobre A Ligação. – parecia estranhamente compenetrado.

– Ah. – Lyss fez.

Na imagem haviam um desenho de um garoto e um homem com barbas e bigodes grandes, como Demetree, o homem tinha sua mão aberta e estendida na mesma posição da mão do menino, como se eles fossem se tocar.

– Quero que se concentre. – Evan pediu.

Lyss o fez.

– E agora?

Ele colocou a mão de leve no braço dela, Evan sentiu o coração dar um pulo quando seus olhos se encontraram, aquilo não era a ligação. Desceu a mão lentamente até que suas mãos se encontrassem, eles entrelaçaram os dedos, Evan fitou os olhos azuis ansiosos de Lyss. Ela era tão bonita, os cabelos caíam em seus ombros, seus lábios estavam entreabertos. A respiração saía suave entre os lábios. Evan se aproximou devagar porque seu corpo queria isso, as batidas frenéticas do coração zumbindo em seus ouvidos.

– Eu nunca senti isso por ninguém. – se ouviu dizer e até a revelação foi um choque pra si mesmo. Mas, o que era isso?

– Evan eu...

– Não Lyss. – soltou-a e levantou, passou a mão pelo rosto.

– Evan...

– Lyss você sabe o que está acontecendo aqui? – apontou para os dois, ela não respondeu só se levantou e ficou diante dele – Eu to me apaixonando por você. – ele murmurou como se isso doesse fisicamente. Lyss corou sem saber o que falar, só mordeu os lábios de leve – Lyss eu não... Não pretendia que isso acontecesse, mas... cada vez que eu toco em você, todo meu sistema se acelera e eu mal consigo raciocinar. E isso é perigoso demais.

– Mas, Evan... Eu sinto a mesma coisa. Isso é normal, quer dizer... As pessoas sentem atração umas pelas outras.

– Não! Minha missão é protegê-la, esses sentimentos humanos deixam fracos. – Evan registrou o que ela disse, que sentia o mesmo, algo dentre dele exultou de felicidade. Havia tempo que não sentia algo assim, a sensação era estranha. – Eu senti que te conhecia – ela agora estava diante dele – depois que você encontrou os outros Wateaires que treinavam na floresta eu soube que você não era um deles, então só restava você ser uma Elementar ou um Bruxo Essencial. Lyss eu desejei tanto que você fosse uma simples Bruxa. – ele gemeu apertando as têmporas com as mãos – Eu sempre soube que representava um perigo pra você e... agora eu entendo.

– Evan, olha isso não é tão ruim. – ela mal sabia o que falar, aproximou-se dele e segurou seus braços delicadamente, a pele dele estava quente porque todo o mais estava frio, ela se lembrava da história, a pele de Evan reagia contrária á temperatura ambiente – Nós não fizemos nada.

– Mas, eu quero... – ele gemeu procurando seus olhos – E isso é tão errado. Olhar pra você como eu te olho, querer você e precisar. – suspirou – Eu preciso me afastar de você. Você não faz ideia do que eles fazem com os banidos. E no nosso caso... – suspira – Você é essencial para a profecia.

– O que é um banido?

Evan pegou-a pela mão e eles sentaram outra vez, ele puxou mais um livro da pilha sobre a mesa e abriu numa página já marcada.

– Aqui na ilha nós devemos cuidar um dos outros e não cometer certos erros. Eu lhe contei minha história, se o erro de meus pais não fosse tão grave eles seriam expulsos da ilha e com o tempo perderiam as habilidades seja elas quais fossem. Quando um Wateaire erra a própria Natureza se encarrega de punir transformando-os em humanos ou simplesmente amaldiçoando-os. No nosso caso eu seria banido, acho, já que sou imortal, você provavelmente seria morta após o feitiço para evitar o Grande Mal.

Lyss só acenou.

– Quando os Colds e Warms me deixaram viver nem todos concordaram com isso. Demetree, você já o conheceu, certo? – Lyss assentiu – Ele era o braço direito do Chefe dos Colds e acabou substituindo-o quando ele morreu, Demetree sempre me protegeu – Evan sorriu pensando no velho – Quando o Chefe dos Colds morreu um homem da tribo tentou me matar, na época nós não sabíamos que eu era imortal, eu envelhecia normalmente, claro! um pouco rápido ás vezes, mas, envelhecia. Phillip sempre foi um pesadelo pra mim, ele tentou me matar tantas vezes, mas, quando ele me enterrou vivo foi a gota d’água.

Lyss estremeceu.

– Ele queria que eu apodrecesse lentamente sob o chão – Evan franziu o cenho com a lembrança – Eu escapei, Demetree me ajudou e Phillip foi banido para sempre. – ele tinha os olhos vazios.

– Você é o meu Mentor, Evan e eu posso me contentar com isso. – ela se ouviu murmurar tocando o rosto tenso dele.

Ele moveu os lábios, uma sombra de um sorriso.

– Olha pra mim. – Lyss pediu com as mãos em cada lado do rosto bem desenhado – Vamos ficar bem. Ok? Tudo sempre dá certo de algum jeito.

Evan assentiu de leve.

Horas mais tarde Lyss apoiava-se nos cotovelos e olhava a foto dos pais que estava colocada de lado sobre a cama agora a mão que enlaçava a cintura de sua mãe parecia tão gritante e seus pais tão separados um do outro.

– Oi. – era Evan passando pela janela.

Lyss pôs a foto e o diário de lado.

– Oi. – falou duvidosa – Pensei que você...

– Ia tentar ficar longe de você? – ele se aproximou da cama, passos lentos e calculados de um gato – A quem eu quero enganar? Você é minha responsabilidade, e sabendo que você é o tipo propensa a sair pela floresta bêbada – suprimiu um sorriso – achei melhor passar aqui para certificar sua segurança.

Lyss pegou uma almofada e jogou nele, Evan segurou a almofada no ar.

– Cale a boca. – ela disse recostando-se melhor

Evan parou ao lado da cama, hesitou e sentou no espaço vago que ela oferecia. Aquilo também era íntimo – Lyss pensava, quase tão comum como os humanos faziam. Aquilo bem que poderia virar rotina.

– Acho que eu não te perguntei o que você está achando de Lisarb. – Evan depositou a almofada ao lado de Lyss.

Ela suspirou pensativa.

– Acho que minha má impressão passou – deu de ombros – Apesar no estranho comportamento de Demetree no primeiro dia de aula que tive com ele...

– Demetree? O que houve?

Ela se sentou mais ereta na cama.

– Ah, ele pirou um pouco. Ficou olhando pra mim como se eu fosse um monstro ou... sei lá.

A expressão de Evan mudou de repente.

– Como se... – ele franziu o cenho como é quando alguém tenta ler letras miúdas – te conhecesse... – não parecia que ele estava ali realmente – como se te conhecesse e não esperasse te ver ali. – concluiu

– Não. – ela replicou e Evan foi voltando ao seu normal, primeiro a expressão confusa e depois de atenção – Isso que você falou não faz sentido. Horror, desespero, nojo... Posso te listar palavras que descrevem a expressão dele, mas, nunca uma explicação como essa. De onde ele me conheceria? E por que ficaria tão assustado? Certo, quando uma pessoa aparece de repente ficamos surpresos, mas, até a palavra “Surpresa” parece pobre para aquela reação, Evan.

– É. – disse somente, um traço de confusão ainda estava presente em seus olhos.

– Enfim, além disso – sorriu – tudo está perfeito. – ela mordeu os lábios – A não ser...

– O quê?

Lyss colocou o cabelo atrás da orelha por hábito já que eles voltaram a cair em seu rosto.

– Eu tive alguns sonhos – Evan era seu Mentor, certo? Tinha que saber dessas coisas, ela esperou alguma reação, mas, ele ficou impassível – E eu queria saber... queria saber se ela realmente permite contato com pessoas que já morreram ou se trata apenas de uma ilusão. – por um instante Lyss cogitou falar sobre A voz, mas, mesmo agora podia senti-la entre as paredes de sua consciência e sentia que não podia falar sobre ela. Talvez essa não fosse uma vontade sua, não contar, mas, parecia ser o certo.

– Não sabemos, os estudos sobre essa planta são tratados com extrema atenção e cuidado. Provavelmente se trata de uma ilusão. Se você pensar com clareza não é tão difícil entender a razão de a família Alena ter sido destruída, imagine a possibilidade de ver e falar com alguém que não está aqui entre nós, alguém a quem você ame de coração, então você deseja se comunicar com essa pessoa todos os dias, com o tempo é como se aquela pessoa não tivesse morrido é nesse momento que sua mente se conturba, Lyss. É como um vício, mesmo que milhares de pessoas te digam que é insano continuar a usar uma planta pra ter uma falsa sensação de vazio preenchido... mesmo assim, mesmo assim você não consegue parar, então... – ele parou aparentando um leve transtorno, falava como se fosse uma experiência própria – Então a Ilusão, a pessoa que você ama começa a te dizer coisas, fazer com que você acredite que todos estão contra você...

– Você já usou a Ilusorium? – Lyss murmurou

Evan passou a mão pelo rosto

– Uma vez, e foi suficiente pra eu entender que não se trata de algo bom.

– Entendo. – segurou a mão dele entre as suas – Confesso que, quando ele contava o que a Ilusorium fazia eu me perguntei se não valeria a pena enfrentar os riscos se isso me permitisse falar com meus pais outra vez, vê-los.

– Não vale a pena. Vai por mim! – ele sorriu

– Fala mais de você? É sempre tão reservado. – pediu baixinho

– O que você quer saber, pequena?

– Tudo. – ela sorriu encantada com o modo que ele falou “pequena”.

Ele riu

– Acho melhor deitar.

– Vamos lá, pode começar.

– Já te disse que conheci Costoupolos?

– Não. Conta tudo.

– Anos antes ele era chamado de louco, quando previu e evitou enormes catástrofes começou a ser respeitado por nós, eu passei a maior parte do tempo com Herbie, ele era jovem, não tinha grandes ambições, não pretendia viver entre os humanos, aqui era o lar dele. Herbie me protegia, eu ainda era uma aberração, os anos se passavam e eu não envelhecia como os outros, aconteceram alguns atentados contra mim – ele deu de ombros – Porém, as coisas mudaram quando Costoupolos previu o Grande Mal e disse que eu seria uma chave importante se ocorresse essa guerra, até por que ele deve ter visto que eu seria seu Mentor. – tocou o queixo dela – Eu vivi aqui por muito tempo, quando tinha aparência de dezoito anos me alistei ao exército, tive que falsificar documentos, mas, não foi difícil, temos DDPs que fazem isso nas esquinas.

– Então você tem algo de ruim? – ela tentou brincar

– Lembra quando você me perguntou se eu era o cara mau? Acho que você não lembra, estava bêbada.

– Eu não estava bêbada. – mostrou a língua pra ele, que riu.

– Bom, o fato é que eu servi ao exército, acabei vendo mais mortes do que estava preparado. Havia corpos por todos os lados e de alguma maneira aquilo era bom pra nós, porque aqueles rostos mutilados não eram familiares, não fazia parte do nosso grupo. Então cada morte do adversário era comemorada, mas, eles eram humanos, sabe? Eram da mesma espécie, mas, estavam lá se matando e destruindo e comemorando. A pior parte é que se você não toma cuidado, você se acostuma com o cheiro de sangue, com o som das balas, com o cheiro da pólvora...

– Por que não foi embora? Você é imortal, podia simplesmente sair de lá e ponto final. – bocejou

– É que quando eu estava lá, estava cercado de pessoas que não sabiam de minha história, era uma chance de recomeçar, as pessoas gostavam de mim, eu fiz amigos. Amigos que confiavam em mim, amigos que queriam estar comigo, infelizmente perdi muitos, tive a chance de salvar alguns e... pra manter meus segredos desperdicei essas chances, por outro lado eu ajudei pessoas, pessoas que se tivessem conhecido toda a verdade sobre mim ficariam assustadas comigo, tive a oportunidade de fazer com que essas mesmas pessoas se sentissem protegidas comigo, gostassem de estar na minha companhia.

– O que acontece quando você se machuca?

– Cicatriza imediatamente.

– E ninguém nunca percebeu isso?

– Digamos que o ambulatório se preocupava mais com quem estava lá na enfermagem do que com quem não ia. Era muita gente, só os próximos percebiam alguma coisa, ás vezes eu simulava alguma dor, ou desenhava um ferimento qualquer, mas, na maior parte do tempo a gente não tinha tempo pra isso, se você estava com dor no corpo, mas, conseguia ficar em pé e empunhar uma arma era suficiente pra ser levado para os combates.

– Foi lá que você conheceu seu tal amigo?

– Sim, um grande amigo. – ele sorriu

– Ele também se curava depressa?

– Provavelmente. Devia ser um DDP, não sei.

– Nunca teve curiosidade, Evan? Ele convivia com você, chamava-o de amigo e nem sabia de que espécie ele era?

– Nós nem sabíamos o nome verdadeiro um do outro, pequena.

Lyss gostava de quando ele chamava-a assim, sorriu abobalhada.

– Encontrei com ele cerca de três vezes durante as décadas e a cada vez ele me deu nome, nacionalidade e idade diferente, a gente não ligava pra essas formalidades, Lyss. O importante era que a personalidade nunca foi modificada, a gente não mentia quanto a isso. Só tinha um problema: eu não tinha raízes, não pertencia a lugar nenhum, não tinha nada. Meus companheiros tinham esposa, filhos, mãe e outros parentes, eu não tinha ninguém.

Ele ficou em silêncio, os olhos longes até fitarem Lyss profundamente, ficaram assim por um tempo. Evan ergueu a mão pra tocar o rosto dela, passou a ponta dos dedos sobre a ponta do nariz da moça, até as bochechas, desceu aos lábios e enfim ao queixo.

– Você é linda. – murmurou como se declarasse um fato

Lyss corou

– Está tarde, acho melhor você dormir.

– Não estou com sono. – era mentira

Ele revirou os olhos, levantou-se e foi aos pés da cama, puxou-a pelas pernas fazendo com que ela deitasse. Lyss riu.

– A questão não é estar com sono, eu estou mandando você dormir.

Uma chuva fraca caía naquele instante, Evan fechou a janela e ficou lá olhando para a escuridão lá fora.

– Acho que já vou, talvez Herbie precise de mim, pelo jeito vai chover o resto da noite.

– Não vai agora. – Lyss disse cobrindo-se, os olhos já estavam pesados.

– Eu vou acabar me acostumando a passar a noite aqui.

– Você nunca passou a noite aqui. – mais um bocejo

Ele tomou seu lugar ao lado dela

– Existem mais coisas sobre mim do que você imagina.

Ele estava sentado com a mão sob a cabeça, Lyss aproximou-se dele olhando-o de baixo.

– Mistérios são empolgantes. – a voz arrastada

Ele riu acariciando a cabeça dela.

– Vamos dormir, minha pequena.

– Gosto quando você me chama assim. – ela estava de olhos fechados, estava quase dormindo.

– Gosto de te chamar assim.

Ela não respondeu, estava num estado de transição, entre o sono e o despertar.

A mão dele acariciava seu rosto de leve, Lyss se mexeu ainda na semi-inconsciência, estava estranhamente consciente da presença máscula ao seu lado.

– Gosto de você, Lyss, e isso me assusta. – ele sussurrava – Nunca me senti assim, como se tivesse um lugar a qual pertencer. – suspirou fechando os olhos, sentindo a maciez do rosto e cabelos dela sob sua mão – Queria estar com você. Queria que você fosse meu “pra sempre”. – sorriu triste

A essa altura Lyss respirava profundamente, ele levantou-se e levou poucos segundos pra sair pela janela, quando pousou no gramado próximo á floresta não tinha nenhuma gota de chuva em seu corpo, ele repelia-as mentalmente. Quando começou a caminhar permitiu que as gotículas caíssem sobre si, a sensação de frio era distante enquanto seu corpo aquecia em oposto á temperatura ambiente. Esfregou as mãos, os cabelos caídos na testa devido á umidade, era bom se sentir daquele jeito.

De repente houve um vulto e o som de passos, os reflexos de Evan identificaram o homem a seis passos a sua esquerda. Seu cérebro automaticamente montou uma estratégia de defesa e ataque enquanto, pelos olhos tentava reconhecer a silhueta e ao mesmo tempo continuava a caminhar aparentando tranquilidade. Relaxou mais quando reconhecer Demetree.

– Eu sei que você já me viu e me reconheceu. – ele disse

A chuva caía com mais força agora, mas, as árvores amenizavam a intensidade sobre eles, parando e virando-se pra Demetree Evan pôs as mãos nos bolsos, algo o dizia que a postura de Demetree estava mais agressiva que o comum, por isso manteve a guarda alta, eles sempre foram amigos, se respeitavam muito, porém, nunca se sabe quem vai se virar contra você.

– Olá amigo. – sorriu pra Demetree que estendeu a mão num aceno breve e sem sorriso

Ele usava uma capa de chuva preta. A barba escapulindo das sombras que era seu rosto.

– Que faz aqui uma hora dessas? – a pergunta saiu meio agressiva

– Sabe do meu problema de insônia. – Evan brincou – E você? Passeio?

– Não posso dizer que vim tomar um sol. Estava com a Elementar?

– Sim estava. – disse sem titubear – E, por falar nisso o que foi houve na aula com minha Elementar? Você deixou-a assustada.

– Já pode chamá-la de sua? – ele franziu o cenho lançando-lhe um olhar inquisidor

– É impressão ou estamos com as armas em punho? – ele estendeu as mãos como se pedisse paz

Estavam frente a frente, Evan evaporou a água da capa de chuva de Demetree e impediu que as gotas caíssem sobre ele.

– Não precisava. – Demetree disse – E não estamos com as armas em punho, só quero te acompanhar de volta ao vilarejo.

Ele assentiu aceitando a companhia.

– Sabe de todas as nossas regras de cor, não? – Demi começou fingindo despreocupação – Regras que, se burladas, podem te levar á morte.

– Podia apostar que ouvi uma arma sendo engatilhada. Poupe-me de sua falta de tato e chegue aos finalmente Demetree.

– Eu senti – explodiu parando de caminhar – senti seus sentimentos, Evan. – estava com a musculatura do rosto tensa, explodia por palavras – Não quero que prejudique Alyssa – falou mais baixo – por tudo que é mais sagrado se você machucá-la eu...

Ele tinha um dedo apontado, acusador. Evan segurou essa mão inclinando-se pra ele.

– Por que esse interesse Demetree? Eu conheço, o que há por trás de todo esse desespero? Dessa preocupação? Dessas reações estranhas? O que você viu sobre Lyss que eu não sei?

Demetree empalidecera um pouco.

– Não entendo sobre o quê você está falando. Mas, pense comigo. Você gosta dessa moça, se não conter seus sentimentos todos vão perceber se não tomar cuidado vai dar razão á todos que disseram que você é um erro. Vai mostrar que eles estão certos e de brinde vai fazer com que matem a menina. Sim, porque você é imortal, mesmo se arrancássemos todos os seus membros, mesmo assim não adiantaria, você vai continuar existindo, mas, e ela?

– Eu não tenho controle sobre meus sentimentos, Demi. Claro que eu não planejei me apaixonar por ela.

Ele olhou fundo nos olhos de Evan, como se buscasse algo que estava por detrás da aparente tranquilidade e Evan sabia que Demetree era o único que conseguia vê-lo além. Porque era assim depois da ligação. Evan também sentia, sentia os desejos de Demetree apalpando seus próprios desejos, tentando mudá-los. Era sempre fácil. Porque um Mentor sabe o que é melhor para seu pupilo, e a energia que fluía entre os Bruxos permitia isso.

– Você está mesmo apaixonado por ela? – ele esticou a mão que Evan segurava, mostrando aversão – Vai provocar a morte dessa menina, uma criança ainda e por quê? Por capricho?

– Não disse que pretendia ficar com ela, eu posso conter meus impulsos, Demetree.

– Você deveria protegê-la. Eu sinto o quanto você gosta dela e isso é perigoso. Acha que Félix não vai perceber? A Elementar dele vê o futuro. A menina Nataly lê pensamentos. Evan você pode ser o mais forte de nós, mas, não é intocável.

Ele suspirou impaciente e saiu andando rápido a passos pesados. A medida que se afastava de Evan a chuva voltava a cair sobre ele.

– Afaste-se dela, evite problemas. Se você realmente a ama ou gosta dela. Cuide, sem prejudicá-la.

Evan fechou os olhos sentindo a chuva cair sobre ele, detestava admitir que Demetree estivesse certo.

Era terça-feira, a aula com Demetree iniciou pontualmente ás oito horas, ele não cumpriu a promessa de fazer feitiços com as demais plantas que mostrou, portanto passou a manhã reexplicando as funções das ervas da Família Alena, parecia cansado e estressado todo tempo, na hora do almoço preparou uma surpresa para os garotos: O almoço foi servido na praia, um piquenique gigante, todos estavam presentes menos Evan. Ele não aparecera em nenhum momento daquele dia, Lyss disfarçou sua decepção, Demetree esforçava-se para tratá-la com naturalidade, embora fosse flagrado diversas vezes observando-a com um estranho olhar.

Lyss distraiu-se com toda a festa que acontecia, Demetree liberou o banho de praia, ficaram lá até o sol cair no horizonte. Durante a noite Evan não foi ao quarto de Lyss, ou apareceu em algum canto do castelo. Lyss também pegou no sono depressa devido ao dia cheio. A quarta-feira começou nublada, o ar frio soprava devagar balançando os fios soltos do coque de Lyss. Estavam todos diante do castelo, Demetree estava mais feliz nesse dia, ele falava, sorridente, sobre as atividades do dia. A mente de Lyss estava um pouco distante e para ela o dia passou como um borrão. Não viu Evan nesse dia também e quando, ao cair da tarde, todas as Elementares foram treinar com seu respectivo Mentor, ela foi chamada por Demetree na sala de aula.

– Eu preciso te pedir desculpas. – foi falando antes que Lyss fechasse a porta – Sei que tive uma reação rude no seu primeiro dia, mas... – ele coçou a garganta – é que você me lembra alguém. Só isso. Ninguém importante. – disse depressa – Eu queria me desculpar a altura então... – ele se virou para Lyss e estendeu um embrulho azul, era um saquinho feito de veludo, estava amarrado com um cordão dourado.

Lyss olhou o saquinho por segundos antes de resolver aceitar.

– Não acho necessário Senhor... – percebeu que não sabia seu sobrenome – Demetree – escolheu.

O embrulho já estava em sua mão, Demetree abriu-o e depositou a pequena joia na mão da garota. Ele observou a reação da garota. Por um instante teve medo de algum sinal de reconhecimento, mas, seria impossível que ela identificasse a joia. Lyss estendeu diante de si o cordão dourado e observou o pingente que pendia nele. Era... incrível. A peça era muito pequena e tão repleta de detalhes perfeitos que parecia impossível.

– Segundo a tradição grega o nome Alyssa é de alguém racional e inteligente, significa: Aquela que protege. Mas, também é o nome de uma flor Alyssum.

O pingente era uma pequena flor de lis, mas, esta era comporta de minúsculas flores na cor violeta, era pouco maior do que dois polegares, e as flores estavam tão bem incrustadas e era tão perfeitamente esculpidas que pareciam ter brotadas no material, a flor de lis em si era feita de um material um pouco transparente e brilhante.

– Essas pequenas flores são chamadas de Alyssum. Acho que é de onde vem seu nome. – ele deu de ombros.

Ela abriu e fechou a boca tentando protestar. Demetree segurou sua mão por um instante.

– Não precisa usar. Só peço que não recuse, é só uma joia, não significa algo pra mim, é só um pedido de desculpas.

Depois de um segundo inteiro ela assentiu.

Só não queria que o velho homem estivesse com qualquer interesse ao seu respeito.

Nessa noite Lyss não viu quando Evan observou-a em dado momento da noite, foi uma noite sem sonhos, sem vozes. Havia apenas o vazio.

A quinta feira para Lyss começou nublada e silenciosa, ela usou o colar e percebeu o olhar satisfeito de Demetree, estavam na floresta, ele explicava sobre os efeitos adversos possíveis de um feitiço com determinadas plantas.

Foi só depois que ele informou que teriam convidados especiais. Os Mentores – todos dessa vez – chegaram e se juntaram á Demetree.

– Conversei com meu amigo Evan e ele pediu que fizéssemos a demonstração de um feitiço com o uso de mais uma das folhas hoje, — era Demetree falando

Ele estava lá. E estava lindo. Evan vestia uma camisa preta, seus músculos pareciam querer saltar sob o pano, a calça escura delineava as coxas rijas, ele usava um sapato informal, os cabelos estavam mais arrepiados na frente do que o normal. Evan parecia um bad boy comportado. Ele evitou olhar para Lyss, parecia o profissional em ação, não o Evan que um dia vestira calças boca de sino e fazia Lyss rir e corar ao mesmo tempo com imensa facilidade.

Eles se juntaram em um canto apenas e preparavam-se pra sentar no gramado quando Tisha interrompeu.

– Nada de chão dessa vez, meninos.

Foi só um movimento e o chão tremeu levemente, um barulho estranho veio acompanhando, Tisha tinha as mãos estendidas no chão, aos poucos a terra foi moldando-se aos seus comandos, ela fez aquilo lentamente de propósito para que eles vissem os detalhes, o assento ia surgindo, emergindo do solo, os meninos haviam se afastado pra assistir a demonstração, pra finalizar ela dobrou os dedos na direção da estrutura perfeita e ela moveu-se, como se firmasse no chão.

– Á vontade! – disse ela sorrindo

Ninguém sentou imediatamente, a maioria tocou o banco antes, sentindo, testando pra ver o quanto era real. Todos acomodados Evan pediu um voluntário. Marcus foi.

Com um movimento ainda mais simples Tisha ergueu outro banco, na verdade parecia uma cama, ou um lugar para sacrifícios, ela repetiu o movimento de dobrar os dedos quando a projeto estava pronto, depois ergueu quatro piras organizadas estrategicamente nas quatro pontas do retângulo, as piras... ou tochas, estavam mais baixos que o comum, foi a vez de Félix movimentar os dedos para que elas acendessem, ele não foi tão cerimonioso quanto Tisha, mas, a reação provocada foi a mesma.

Marcus deitou na tal cama, enquanto Demetree colocava uma folha em duas tochas cada uma, os Mentores se afastaram para não ser atingidos pelo feitiço, todos perceberam que era Demetree quem faria o feitiço, ele foi o único que ficou ali.

– Vou fazer uma coisa simples e com efeito rápido, Ross vai dominar o Ar para que a fumaça concentre-se apenas aqui, a folha que coloquei nas duas tochas são Alenas Descansarium. Marcus vai pegar no sono instantaneamente e só vai acordar depois de poucos minutos – ele explicava – Se surgir a necessidade de usar esse feitiço num corpo totalmente humano tomem cuidado, o humano pode ter algum problema cardíaco e essa planta faz com que o coração bata mais devagar.

Olhando por outro ângulo aquilo parecia um daqueles shows de mágica que alguns homens de cartola fazem nas praças e esquinas.

– Ross construirá a barreira de ar.

Primeiro eles sentiram o ar movimentar-se estranhamente, ficou quente e incômodo antes de uma brisa mais fria soprar, os cabelos de Lyss vinham pra frente como se o vento viesse de trás, porém as árvores lá em cima balançavam todas pro mesmo lugar: Pra direita. Ross estava concentrado, estava um pouco distante, os Bruxos e Elementares viram uma fina camada de algo transparente rodear Demetree e Marcus, movimentava-se com uma rapidez impressionante, as chamas tremelicavam nas tochas, a fumaça já saía delas, Demetree estava de olhos fechados e parecia ter controle sobre a fumaça, esta última parecia ir direto para as narinas de Marcus, Demetree murmurou algumas coisas no ouvido de Marcus, Félix estendeu a mão na direção deles e as chamas pararam de se mexer. Então Demetree fez sinal para Ross e a camada de ar que circulava ele e Marcus desapareceu.

Demetree sorriu para os Mestres, num agradecimento silencioso, eles acenaram ou sorriram de volta. Ele rodeou a mesa onde estava Marcus e ficou diante dos meninos.

– Trabalho em grupo, as diferenças se completam pra um objetivo em comum – ele apontou para Marcus sobre a cama, entre as tochas ainda acesas – O trabalho final foi satisfatório.

Alguns bateram palmas, outros levantaram pra ver se Marcus dormia mesmo, estes outros foram acompanhados de muitos outros, Lyss pensou em ir falar com Evan, mas, ele conversava com Tisha, parecia não notá-la. Daquele jeito ele parecia mais velho, ela pensou, sentindo-se uma adolescente boba apaixonada pelo professor.

Apaixonada? Que bobagem.

Marcus estava apagado. “Será que ele morreu?”, “Acho que ele não está respirando”, “O coração tá batendo, devagar mas, está.”, eram algumas das frases que se ouvia no círculo, de repente Marcus deu um grande suspiro e abriu os olhos, franziu o cenho ao perceber tantos olhos sobre ele e depois sorriu lembrando-se. Daí em diante as frases se atropelaram, alguns meninos explicavam a Marcus o que acontecera, exagerando em algumas partes, outros queriam que ele relatasse o que sentira, vira...

Na verdade com toda aquela algazarra ninguém entendeu muita coisa.

Enquanto todos se alvoroçavam com as notícias Lyss deu um jeito de aproximar-se de Evan, ele estava estranho, distante, mal a encarava. Aproximou-se tentando fazer cara de Elementar que vai falar com seu Mentor.

– Está estranho. – sorriu pra ele, tomando o cuidado de falar baixo

– Oi Lyss. – ele disse seco – Acho melhor você se reunir com o grupo.

Ele parecia desconfortável e ansioso pra sair dali.

– Você está bem? – ela franziu o cenho

– Por que tantas perguntas, Lyss? Não faz sentido você aqui falando comigo. Quer dizer que só porque não estou atrás de você eu não estou bem? – ele deu de ombros e sorriu – Não precisa se preocupar. – e saiu

– Aproveito a oportunidade para informar que nas próximas semanas o foco total das Elementares deve ser Controlar seu Elemento, vamos interromper os feitiços por enquanto, os Bruxos ficarão sob minha guarda, vamos passar os dias em estudo intensivo.

Lyss não participou da conversa, tentava entender a atitude. Segurou o pingente do colar entre os dedos enquanto pensava em Demetree, além disso, pensava na voz. Afastando a mente da realidade tentou contatá-la, falar com a voz. Não houve resposta. Lyss suspirou frustrada.

– O que há?

Ela tomou um susto ao perceber Marcus ao seu lado.

– O quê? – perguntou de cenho franzido soltando o pingente

– Lindo colar. – ele disse – Mas, você não está normal, o que você tem?

Ela deu de ombros

– Nada.

– Eu nunca toquei você – indicou a mão – mas, depois de tanto observar e conhecer pessoas aprendi a lê-las. Você está estranha. Parece preocupada e tensa, — ele falava baixo – parece carregar sozinha mais do que suporta. Quer dividir comigo?

Ela fez careta.

– Isso é papel do meu Mentor.

– E ele não está aqui. – Marcus piscou

Ele era mesmo bonito, não tanto quanto Evan, nem tão charmoso, mas, ele era lindo. Mesmo assim Lyss revirou os olhos.

– Aliás ele está estranho com você. – levantou as mãos fingindo inocência – Só disse. Mas, isso não é importante, eu só quero que você fale um pouco.

– Não há o que falar.

De alguma maneira eles estavam a muitos passos atrás do grupo maior, Carlie foi a única que demonstrou perceber, ela deu uma olhadela tristonha na direção deles.

– Não há o que falar por causa do público? – ele perguntou direto indicando Carlie

– Ela gosta de você. – ela murmurou mesmo sabendo que ela ouviria

– Acho que é, mas, sabemos das regras, então não vale a pena alimentar algo que nos machuque depois. – disse ainda mais direto

– Então não deveria flertar tão descaradamente.

Marcus ficou sério cruzando os braços

– Eu brinco, Lyss. – deu de ombros – Nada muito sério.

– Com esse dom você deve ter muitas histórias pra contar.

Ele sorriu e tirou uma das luvas pra enxugar a mão úmida, Lyss afastou-se discreta e instintivamente. Marcus notou, sorriu.

– Algumas. – confessou – Nem todas são boas o suficiente.

– Namoradas?

– Algumas, confesso. Como eu disse no jogo de Verdade ou Desafio, nunca tive uma pessoa realmente ao meu lado, era tudo muito superficial.

– Como você vivia com essas luvas no meio das pessoas?

– Minha família tem condições o quer dizer que isso pode ser chamado de excentricidade.

– Você é um cara bonito, mas, toda vez que eu falo sobre namoro você parece triste. – ela notou

Ele deu de ombros

– Alguns relacionamentos foram meio frustrantes, eu dirigia uma Lambhorgini, milhares de garotas só queriam me namorar por causa do carro, nunca me achei interessante o suficiente pra conquistar garota que seja sem meus acessórios extras.

–Já usou seu dom pra isso?

– Já. Três vezes no máximo e me arrependi amargamente.

Lyss fitou sua mão sem luva, curiosa.

– Como funciona? Exatamente.

Ele sorriu, estendeu a mão mantendo uma distância segura.

– Quer saber como funciona minha habilidade ou a luva?

Deu de ombros

– As duas.

– Quando eu entro em contato com sua pele, muitas informações sobre tudo o que já aconteceu com você, tudo o que já aconteceu em sua vida flui pra mim.

– Não precisa tocar na mão, necessariamente?

– Não. Mas, meu dom entende da seguinte forma: Se alguém estende a mão espontaneamente pra mim significa que tem interesse que eu saiba mesmo de tudo de sua vida, por isso quando eu pego a mão tenho acesso á informações mais claras e profundas, ás vezes conheço coisas que a pessoa nem sequer lembra ou entende, coisas que ela viu quando bebê que são importantes mas, devido ao tempo ela não lembra mais.

Ela assentiu maravilhada.

– Essa luva – ele segurou-a apontando pra ela antes de colocar a luva de volta – foi uma invenção de minha avó, ela usou feitiço e fibras metálicas fortes e flexíveis, alguns experimentos não deram certo – ele sorriu – mas, pelo menos aprendi a guardar segredo.

– E a Claire? – ela sussurrou pra não ser ouvida, Claire escutava bem á distância.

– Se houvesse alguém que eu namoraria daqui, doce Lyss, esse alguém seria você. – ele tocou o rosto dela de leve e adiantou os passos.

– Eu e mais quantas? – perguntou com descaso

– Quem mais tivesse interesse, seu sorriso e esse olhar. – Marcus riu

Lyss riu também, alguns Wateaire estavam diante do castelo. Ela caminhou distraidamente pra lá, Evan estava lá longe no portão do castelo, conversava com Clovis, tinha a expressão tensa. Os olhares se cruzaram por um segundo apenas, no outro segundo ela viu o olhar feroz de Félix em si e enrubesceu instantaneamente, Victoria também virou-se e olhou-a de lado. Oras, o que estava acontecendo agora? Lyss sentiu como se estivesse com uma placa gigantesca em sua cabeça escrito: “Estou afim de meu Mentor”. Quase na mesma hora ela sentiu, sentiu uma presença sorrateira em sua cabeça.

– Lyss.

Ela teve um leve sobressalto.

“- O que diabos é você?” – perguntou de volta para A voz.

– Bela recepção. – ela podia jurar que havia ironia ali

“- Ah você invade minha cabeça e eu tenho que ser delicada. Sério?”

Houve algo semelhante a um riso.

– Você precisa dar muitos passos pra trás.

“- Como assim?”

– Estou falando do filho do erro. – a raiva ali presente quase a tocou. Quase a influenciou também.

“- Não fala dele assim.” – a voz que usou era quase um grito mental. Ou devia ser já que Nataly virou-se imediatamente para ela. Por um momento Lyss havia esquecido de onde estava. Nataly veio disfarçadamente para o seu lado, a presença da voz afastou-se, mas, continuou lá.

– Está tudo bem, Lyss? – Lyss acenou.- E entre você e seu Mentor?

– Como assim? – Lyss gelou como se houvesse feito algo errado, recordou-se que não tinha o que esconder.

Não exatamente! Certo ela estava apaixonada por Evan, pensava nele o tempo inteiro, quando o via seu coração disparava, não conseguia parar de pensar nele, mas, isso acontecia dentro de sua cabeça. O que acontecia ali te pertencia, certo?

– Errado. – Nataly pareceu responder, Lyss sobressaltou-se

– Ah não – gemeu – Você lê pensamentos.

Gemeu de novo levanto a mão ao rosto e suspirando desolada.

– Não Nataly, pelo amor de Deus não me diz que você sabe de tudo. – deu outro suspiro e mais gemidos

Nataly ria.

– Calma Lyss. Eu não consigo escutar seus pensamentos... – ela interrompeu-se sem ar de tanto rir. Félix deu outro olhar nas duas dessa vez.

Primeiro Lyss empalideceu, depois corou, por último caiu no riso também, um riso nervoso, disfarçado. Minutos depois as duas subiam as escadas enquanto os outros conversavam do lado de fora.

– Ah é, tem o tal do bloqueio. – lembrou aliviada e feliz por aquele detalhe.

Agradeceu por ser uma Bruxa Elementar, pela primeira vez em sua vida.

– Agora me conte – ela parou de rir por um instante – o que há de tão precioso que eu não possa saber? Por que esse pânico em eu ler sua mente?

Lyss parou de rir, mas, continuou sorrindo.

– Na verdade nada de mais. – pensou um pouco, estava diante da porta de seu quarto agora, elas entraram – Posso dizer que ainda estou me aceitando como Bruxa e penso em algumas bobagens de vez em quando.

– Pense no lado bom: Quando estivermos num só nível, perfeitamente alinhadas tudo vai ficar bem. – ela piscou pelo espelho – Mesmo assim eu sinto que você precisa de uma amiga. – deu de ombros e saiu.

Lyss sentou-se na cama e pegou o Diário.

Notas finais
É isso.