Série Elementares - Escolhas (LivroUm)
6 Mudanças.
“Ponha as coisas na mala, mas, permita-me ficar com algo seu, ponha as coisas na mala. Inclusive meu coração.”
Inglaterra, 30 de Janeiro, 2011, Domingo.
O avião continua avançando, algumas nuvens escuras parecem tentar conter o gigante voador. Muitos quilômetros me separam da Califórnia agora, de tudo o que eu conheço como lar. As mudanças repentinas dos últimos dias foram um grande tapa na cara depois que eu recebi a carta de Weverston, quem via o encarte bonito e bem organizado do panfleto do Instituto jamais pensaria que se tratava de uma escola de fachada para um bando de coisas sobrenaturais, mas, não sobrenaturais como os bichos de MIB – Homens de Preto, sobrenaturais como eu. Eu nunca escrevi sobre minha... digamos, diferença. Lucy diz que isso me faz “especial”, eu não vejo deste modo, sinceramente, estive ignorando esse detalhe nada fácil de minha vida como se isso o tornasse menor, não adiantou. Agora que tenho que encarar isso é melhor que eu me acostume a falar e escrever sobre minha diferença.
Eu sou uma Bruxa. Nada como Sabrina e seu gato preto, ou como Matilde e seus poderes legais, não sei qual a receita pra se fazer uma Bruxa, mas, nasci assim e não há nada que eu possa fazer pra mudar isso. Ao contrário de Harry Potter eu não uso varinha mágica e que eu saiba nenhuma bruxa usa, a magia vem da nossa íntima conexão com a natureza, eu controlo a água, com as mãos, o que é legal quando não se tem muito que fazer ou está chovendo e não quero molhar o cabelo. Mas, não tenho controle sobre isso direito, meus poderes estão muito ligados ao meu emocional e quando me irrito acabo derramando copos de água ou estourando filtros. Quando recebi a correspondência da Inglaterra e, segundos depois, a ligação de Weverston, eu soube que Chris teria que se afastar de mim, mais tarde, com a segunda ligação tive certeza que isso tinha algo a ver com o que aconteceu um dia antes desta segunda ligação na casa de Chris.
Nós discutimos.
Brigamos porque ele queria voltar e eu não, claro que isso tinha algo a ver com o fato de termos ficado no início do ano. Mais um erro que cometi. Ficamos e ele acreditou que estávamos juntos de novo, não estávamos. Discutimos, eu me irritei, e todas as garrafas que estavam dentro da geladeira estouraram, um pouco antes ele tinha me segurado pelos ombros e gritado: — Por que não podemos ficar juntos? Respondi: — Por que sou uma Bruxa. Eu percebi que podia ser perigosa pra aqueles que eu amava.
Enfim...
Lucy – minha tia e tutora legal – desde a morte de meus pais, está dormindo ao meu lado, ela deve ter estranhado minha fingida aceitação imediata com a ligação de Weverston, mas, eu não suportaria machucá-la de nenhuma maneira, nem a Chris mais do que já fiz. Entender e ter total controle sobre o que eu sou e posso fazer é essencial.
Alyssa Bianchi Sinclair parou de escrever, deixando a caneta de lado por um momento, arriscou uma olhadela para Lucy, que ainda dormia, e percebeu mais uma vez o quanto seu rosto era harmonioso, bonito. Voltou o olhar para o panfleto, ela desdobrou e segurou-o entre os dedos, as palavras escritas em letras maiúsculas no topo da página já lhe eram familiar, já o havia relido centena de vezes, elas diziam: INTERNATO WEVERSTON, basicamente uma escola para pessoas dotadas de poderes especiais. Era pra lá que ela ia. Num dos países mais frios que existia.
O frio não incomodaria tanto, mas, aquela viagem significava ter que abrir mão de sua família, não que sua tia jovial e seu ex-namorado fossem uma família convencional pra ela. Mas, era tudo o que tinha. E era tudo o que ela precisava naquele momento, e tudo o que não podia ter.
Olhou para as feições de Lucy outra vez memorizando cada traço, sabendo que talvez não visse mais alguém que parecesse normal. As pessoas do Instituto eram tão “especiais” quanto ela mesma, Lucy se divertia com a possibilidade de encontrarem figuras como o Pé Grande e a Mulher Maravilha enquanto Lyss imaginava um bando de coisas verdes, algumas com um olho só, outras com quatro braços... Na descrição breve no panfleto não havia nenhuma palavra como pessoa ou ser humano – e ela procurara. Eles não eram humanos, chamá-los de coisas seria mais apropriado. Lyss concentrou-se em Lucy, que ainda estava adormecida, seus cachos negros caíam ao redor de seu rosto redondo, o nariz fino deixava-a com aparência elegante e aristocrata, os lábios rosados e cheios ficavam ainda mais lindos quando sorria, as sobrancelhas finas deixavam seus olhos ainda maiores, ela não precisava abrir os olhos para que Lyss se lembrasse do tom castanho meio chocolate deles.
Lucy era irmã de Brad – pai de Lyss -, tinham mães diferentes e mesmo que, fisicamente, eles nada fossem parecidos, Lyss lembrava-se do pai quando via o sorriso da tia, ou jeito que ela torcia a boca.
A garota dobrou o panfleto e guardou dentro do diário, encostando-se na poltrona, retomou a escrita permitindo-se mergulhar em seus próprios pensamentos.
Sinto muito por ter viajado sem falar com Chris, ou sem que tenhamos nos entendido, ou sem que eu tivesse a oportunidade e a coragem de explicar o negócio de ser Bruxa, mas, eu tive medo, medo de ouvi-lo me chamar de aberração. De que ele soubesse que é isso que eu sou. Chris me conhecia tão bem e me completava de uma maneira tão diferente, eu me sentia humana e normal com ele, Chris me apoiou e foi meu amigo nos momentos que eu mais precisei e menos mereci, e isso foi importante pra mim. Agora eu estava deixando tudo isso para trás, acabei de fazer 17 anos e sinto o peso da responsabilidade cair sobre meus ombros, não sei se estou pronta, despedidas machucam. Eu me sinto como se tirassem o chão sob meus pés, como se agora eu tivesse que aprender a voar, anos antes, com a morte de meus pais eu me senti assim, mas, eu mal tinha asas. Lucy foi quem me pegou nos braços pra que eu continuasse a caminhada, mas, agora, teoricamente era minha vez de caminhar, e sozinha.
Acho que, na verdade, eu não tenho medo de ser uma Bruxa, ou de me mudar pra Inglaterra, ou de encarar que eu era diferente. Eu tenho medo das despedidas constantes e da incerteza do amanhã, tenho medo do talvez, do Adeus e do Até logo. É disso que eu tenho medo: Do que não fica pra sempre.
O avião se inclinou pra frente. Estavam pousando. Lyss organizou as coisas para colocar na bagagem de mão que estava no compartimento acima das poltronas e esperou a habitual sacudida do avião ao encostar-se à pista de pouso. Do espelho embaçado ela viu as luzes acesas do aeroporto, pela escuridão nem parecia que ainda eram duas da tarde.
– Finalmente chegamos. – Lucy falou sonolenta – Minha bunda está dormente, acredita?
Lyss fez um muxoxo e tentou não sorrir, foi impossível, a aura de Lucy a tocava de uma maneira especial. A tia passou a mão pelos cachos amassados e bocejou espreguiçando-se.
– Que venham os shoppings e os casacos de pele sintética. – sorriu piscando pra Lyss
Ela riu.
– Duvido que tenhamos tempo e fôlego pra isso, agora desmanche esse sorriso e vamos descer depressa.
– Que ir ao banheiro? – Lucy quis saber só pra provocar
– Não, quanto mais cedo começarmos isso mais rápido termina.
As pessoas se organizaram numa fila pra sair do avião, algumas pareciam tão apressadas que desobedeciam a fila e passavam na frente das outras pessoas, como se a porta fosse fechar a qualquer momento. Lyss e Lucy esperaram a massa maior sair e só então levantaram e pegaram suas bagagens de mão no compartimento apropriado para só então seguir pelo corredor.
– Sabe o que eu estava pensando?
Lyss não respondeu, mesmo que dissesse: “Sim, Lucy, eu sei o que você está pensando”, ela diria o que era mesmo assim.
– Estava pensando no porquê de chamarem de bagagem de mão se não fica em nossas mãos o tempo inteiro.
– Argh. Não fala essas coisas em público, titia.
– Argh, digo eu, não me chama de tia na frente das pessoas.
Lyss riu. Era um trauma de Lucy, ela achava que chamá-la de tia a tornaria mais velha, Lyss tentava explicar que, não chamá-la daquele jeito não impediria a Terra de girar, nem o tempo de passar, trazendo assim, consequentemente, as rugas. Lucy não via desse jeito.
No saguão do aeroporto, com a bagagem em mãos elas procuraram o rapaz que as levaria para o Instituto, uma placa grande dizia: Alyssa Sinclair. O rapaz que a segurava devia ter a idade de Lyss, ela o olhou com desconfiança.
– Será que esse é nosso motorista? – perguntou baixo pra Lucy
– Sei lá. Mas, não é porque você não sabe dirigir que nenhum outro adolescente sabe também.
– É bem normal considerando que você tem a idade que tem e também não sabe. – devolveu
– Eu tenho vinte anos, Lyss. Vinte. – era mentira
Arrastando a mala de carrinhos no piso escorregadio do saguão do aeroporto movimentado, Lyss caminhou até o rapaz, menino, garoto, ou o que quer que ele fosse. Ela examinou-o ao máximo que pôde. Parecia tão comum quanto ela: seus olhos azuis, estatura mediana, cabelos pretos e longos, e sua franja grande demais pra ser usada normalmente sem encostar-se a seus cílios e pequena demais pra ser usada atrás da orelha. O menino era um tipo interessante, era asiático com certeza, ou pelo menos tinha traços de um, seus olhos eram puxados e cabelos pretos e lisos que caíam na testa, era baixo, vestia uma camisa branca, casaco preto e calça jeans, sorriu assim que viu as duas caminhar em sua direção. Estendeu a mão educadamente exibindo a fileira de dentes brancos e bem organizados na boca.
– Olá. Alyssa e a tia? – ele apontou para uma depois para outra
– Shh... – fez Lucy – Na verdade não sou tia, tia. Sou mais uma tutora, sabe? Isso, me chame de tutora. Ou de Lucy. – sussurrou olhando para os lados para certificar de que as pessoas ocupadas ao redor não tinham ouvido
Lyss revirou os olhos, o garoto ouviu tudo divertindo-se.
– Certo, tutora de Alyssa.
– Pode me chamar de Lyss. – estendeu a mão também num cumprimento firme e breve.
– Muito prazer Lyss. Sou Douglas, sou do Instituto, posso ver o panfleto?
Lyss entregou, o sorriso do rapaz tornou-se mais verdadeiro ao deparar com a prova de que elas eram elas, mesmo.
– Vamos, o carro está nos esperando lá fora. Está frio. – avisou
Dando a nécessaire a Lucy, ela murmurou um contrariado:
– Novidade.
O casaco que Lyss usava era quente, chegou a incomodar quando ainda estavam na Califórnia, mas, agora parecia tão fininho e frio, ela esfregou os braços pra esquentar-se mais, entraram na cabine do carro preto que estava próximo ao batente, na direção da porta automática do aeroporto, a bagagem foi para o porta-malas e elas sentaram nos bancos confortáveis, Douglas sentou na parte da frente, ao lado do motorista. Para alívio de Lyss era um homem mais velho que dirigia, o carro se afastou do aeroporto seguindo pelas ruas movimentadas.
– É um prazer imenso receber vocês. – Douglas dizia lá da frente – Espero que gostem do Instituto, vai ser bom ter novidades naquele lugar, como foi de viagem?
– Cansativa.
– Sabe que é meio difícil esconder um castelo desse tamanho.
– Eu estava pensando nisso. – disse Lucy – Como vocês fazem?
Douglas riu.
– Os humanos estão tão preocupados com seu próprio umbigo que pouco se importam Lucy. Nós dizemos que é uma escola de superdotados e está tudo bem, o acesso pra lá é restrito, conhecemos pessoas que conhecem pessoas importantes. Poderíamos usar feitiço de camuflagem, mas, com a localização ele se torna descartável.
– Não é tão difícil. – disse o motorista – A propósito, meu nome é Joe.
– Lyss.
– Sou Lucy.
– Há quanto tempo vocês estão no Instituto? – Lyss quis saber
– Nossa – disse Joe – faz tanto tempo que nem me lembro, meus pais me deixaram na porta de um orfanato quando eu tinha seis anos, um ano depois Winfrey foi lá me buscar antes que eles descobrissem o que eu era e o que eu fazia.
– Minha história é menos dramática, meus pais sabem o que eu faço, me apoiaram e me ajudaram. Vemos-nos nos fins de mês. E importante o apoio da família. – Douglas olhou para trás sorrindo significativamente pra Lucy – Vocês chegaram um pouco tarde.
O voo estava agendado para muitas semanas antes, na verdade, mas, Lyss fazia questão de passar o aniversário de morte dos pais e, simultâneo a isso, seu aniversário em casa, não abriria mão disso por nada. Desde que Lucy tornara-se tutora legal da menina com a morte de Brad Steven e Alice Sinclair, pais de Lyss, eles tinham hábitos diários, a maioria deles Chris participara, não só porque morava no apartamento do andar de baixo, nos aniversários de Lyss eles não comemoravam por respeito á memória de Brad e Alice, mas, dois dias depois faziam uma sessão de cinema na sala de Lucy, o último filme era sempre Titanic, Lyss não admitiria, mas, aquele era seu filme favorito, Lucy sempre dormia no meio do filme, depois Lyss e Chris subiam ao terraço, e, com lanternas em mãos, exatamente como faziam no início do ano, deitavam no chão e apontavam a luz para o céu sem nenhum motivo aparente, ás vezes eles conversavam, outras vezes eles ficavam em silêncio por muito tempo até Lyss admitir que sentia falta dos pais, ás vezes ela chorava em silêncio e enxugava depressa para Chris não ver, Chris sempre pede para ela fazer um desejo, depois insiste para que ela diga o que desejou, depois pergunta o que ela está pensando. De certa maneira aquela terapia ajudava Lyss a ficar mais forte, a encarar melhor as coisas. Como um recomeço anual.
Nada disso acontecera dessa vez, Chris estava magoado com ela e, pela primeira vez, Lyss chorou, pensou e fez desejos, sozinha.
O papo continuava animado dentro do carro, ela se distraiu um pouco pra olhar o caminho que estavam indo, a civilização foi deixada para trás, grandes árvores enfeitavam o caminho de terra que estavam trilhando. Lyss olhou o celular, nenhuma mensagem de Chris, antes de sair hoje cedo ela enviara uma mensagem de texto dizendo que estava indo viajar e não podia explicar muito, ele não respondeu. Conferiu se o celular estava na área de cobertura e funcionando corretamente, aparentemente o que justificava o silêncio de Chris não era o celular. Lyss digitou outra mensagem e salvou na memória do aparelho, enviaria mais tarde.
– Ali está ele, Instituto Weverston.
As duas olharam para a construção antiga, imponente entre as árvores, todo o terreno era rodeado por muro e grade, mas, uma pessoa facilmente pularia, porém, Lyss duvidava que algum ladrão oferecesse riscos para os estudantes e moradores, as paredes, que um dia foi cor de creme, estavam descascadas e precisavam de uma nova pintura, mas, tal detalhe só deixava o lugar com um ar de rusticidade, como nas casas antigas havia janelas por todos os lados. As poucas árvores ao redor do prédio possuíam poucas folhas. Elas desceram do carro, o portão estava entreaberto, alguns adolescentes estavam no gramado, nenhum deles parecia fora do comum.
– Sejam bem vindas. – Joe disse permanecendo no carro
– Vamos entrar, Joe pode levar as malas de vocês depois, eu sou o coordenador do Instituto – Douglas disse, depois hesitou – Na verdade não coordenador de verdade, mas, gosto de achar que sim. – riu – Winfrey está esperando vocês – as duas o seguiram pelo caminho até o casarão – ele é diretor do Weverston, é responsável pelo bom andamento desse lugar, vocês demoraram e fiquei preocupado, mas, Winfrey já havia previsto esse atraso – ele acenou para alguns dos adolescentes espalhados pelo gramado – por isso esperamos.
– Como assim ele previu?
– Winfrey vê o futuro, por isso não mandou mais ninguém pressioná-las, disse que você é um caso especial, Alyssa. Até porque nós não podemos forçar ninguém a vir. – deu de ombros
Lucy olhou pra sobrinha com um sorrisinho de canto de boca:
– Teremos que nos acostumar com isso? – sussurrou
– Não, eu terei de me acostumar.
Ela riu como se aquilo a fizesse muito bem, Lyss reprimiu um sorriso, não pôde evitar.
Enquanto caminhava a alguns passos atrás de Douglas Lyss notou os olhares dos adolescentes que se espalhavam pelo gramado, alguns estavam sentados em círculo no chão, apesar do frio, mas, a conversa parava assim que um deles apontava pra elas, na verdade o burburinho que elas escutavam desde o portão ia sumindo a medida que se aproximavam do prédio imponente, todos os olhares iam se virando para elas, Lyss, que odiava ser o centro das atenções, sentiu-se corar.
Douglas retomou as explicações e a tagarelice ajudava a distrair-se e ignorar os olhares curiosos.
– É bonito ver quando a família aceita que existe um DDP entre eles, temos, aqui, vários exemplos de adolescentes que vieram sozinhos, fugiram de casa, ou como Joe, foi encontrado por Winfrey... – enquanto ele falava seu hálito formava nuvens brancas no ar — Tenho que parabenizá-la outra vez, Lucy. Winfrey não me deixa saber muita coisa dos novos hóspedes, e é difícil ler a mente dele, — revirou os olhos outra vez – creio que vai gostar daqui Lyss, você deve ter o dom do ‘bloqueio’, eu acho fantástico, tudo o que sei sobre você até agora eu li na mente de sua tia e mesmo assim, meio embaçado, por causa da potência do se bloqueio, não consigo ouvir você, mas, para as pessoas que bloqueiam é mais difícil controlar o poder, sabe? Mas, você não é a primeira, temos outros aqui, aliás, temos de tudo, — ele riu – porém, se você voa dormindo vai ter que ficar no quarto do subsolo, não podemos arriscar ter outro buraco no teto.
– Como assim bloqueio e ler mentes? Você escuta pensamentos?
– É sim, leio mentes. Menos a sua.
Douglas falou aquilo como se dissesse: “Gosto de azul”, Lyss perguntava-se se um dia falaria de si mesma como bruxa sem se sentir meio boba.
– Por que menos a minha? – perguntou
– Você sabe o que estou pensando nesse exato momento? – perguntou uma Lucy abismada
Douglas riu
– Sei Lucy, e não sei ao certo Lyss. Como eu disse acho que você bloqueia. Não é muito comum, mas, existe, o que justifica a dificuldade em te encontrar hoje no aeroporto.
Finalmente chegaram ás escadas da varanda, eles subiram os quatro degraus e o assoalho gemeu sob os pesos, o hall imenso era mais moderno do que Lyss imaginara, o chão era de madeira, e havia flores em um canto que dava um discreto tom alegre á decoração, uma escada seguia até o segundo andar, duas garotas desciam conversando, uma delas segurava uma revista e a outra comentava sobre a mesma, pareciam tão normais, outro menino vinha atrás delas e cortava uma maçã com uma lâmina, ou melhor, com o próprio dedo, na verdade o dedo era a lâmina. Como se, ao invés do dedo tivesse uma espécie de adaga. Eles acenaram.
– Novata? – o menino perguntou
Lyss assentiu bestificada com aquela deformação na mão dele. Lucy ficou só de boca aberta.
– Seja bem vinda. – sorriu e passou – Winfrey está te esperando Douglas.
– Que novidade, ele já sabe que estamos aqui. – lamentou
– O que foi aquilo na mão dele? – Lucy murmurou espantada
– A mão dele. – Douglas deu de ombros subindo os degraus – Sabe que eu gosto de topar com pessoas que bloqueiam, na verdade você é a segunda, mas, a primeira que eu não ouço nada, nada.
– Do que você está falando? – Lyss franziu o cenho
– Seu dom, oras. – ele revirou os olhos
– Então eu faço isso também? – provavelmente não sabia porque durante o tempo que estudou na Suíça o foco era os estudos de feitiços e espécies de Criaturas — Como eu controlo?
– Também? Você tem mais de um talento? Isso sim é legal. Mas, você não sabe nada de si mesma? É isso? Nossa! Você não treina? Nem por curiosidade? Sabe que eu gosto de me topar com pessoas que bloqueiam, dá curiosidade, já que eu não te ouço. – ele cruzou os braços parando, os olhos perdidos – Vejamos você nunca encontrou outro DDP? Deu pra perceber pelo modo como olhou para a mão de Spencer.
Subiam os degraus devagar, Lyss ainda surpresa com a visão da mão do garoto e com a descoberta de que conseguia bloquear outros dons.
– O que é um DDP?
Eles não tinham isso na Suíça
Douglas bufou e riu.
– Dotado de Poder. – enfatizou cada sílaba como se explicasse á uma criança — Um de nós... – ele revirou os olhos impaciente ao perceber que a confusão ainda estava estampada no rosto da garota – O que você faz, Alyssa?
– E-eu, bem... Eu controlo a água, sabe? – moveu a mão debilmente no ar, tentando explicar, nunca fizera aquilo antes – Deixo-a mais quente, fria, transformo em Gelo, eu... sei lá, Douglas, eu faço coisas com a água, mas, há anos que não testo essa coisa estive focada nos estudos das Criaturas que nós temos que matar, é difícil controlar meu Elemento e no meu bairro todos bisbilhotam a vida de todo mundo, imagina se algum deles vissem e... – ela se interrompeu ao notar a palidez no rosto do rapaz, Lyss nem se deu conta de que continuava movendo as mãos pra demonstrar, interrompeu o gesto também, corando em seguida.
– Você é uma delas? – ele sussurrou mais para si mesmo, o rosto foi transformando-se numa expressão maravilhada – Nossa!
– Você está bem? – Lucy segurou-o pela mão e Lyss deu um passo pra trás assustada, descendo um degrau.
Ele riu balançando a cabeça negativamente
– Estou bem, estou bem. – suspirou milhares de vezes sorrindo debilmente – Eu nunca estive tão perto de um de vocês, e isso é fascinante, os outros passaram aqui tão depressa, não sabia que você era uma Bruxa, agora entendo a pressa de Winfrey em recebê-la, você é a que falta. – riu histericamente
Lyss e Lucy entreolharam-se concluindo automaticamente que aquilo de ler mentes não fazia bem pra Douglas, alguns de seus neurônios deviam se suicidar de tempos em tempos.
Então, como se não bastasse, de repente ele segurou Lyss pelo braço praticamente arrastando-a escada acima, Lucy permaneceu atônita e estática nos pés da escada.
O escritório era sóbrio, simples. Havia uma grande mesa de carvalho bem em frente á porta, sobre ela havia um livro de título peculiar: “Além das estrelas”, um cilindro com lápis amarelos bem organizados, uma pasta amarela, um copo com água e um telefone. Atrás da mesa e de frente para a grande janela de vidro que dava uma vista privilegiada para o gramado e o portão havia uma poltrona preta, de couro. Numa das paredes havia uma grande estante com um número surpreendente de livros.
– Winfrey eu viria mais rápido se soubesse... Quer dizer, vim o mais rápido quando soube. – Douglas ofegava enquanto Lyss procurava o tal Winfrey.
Talvez ele fosse invisível.
Lucy, ofegando e de ombros caídos por causa da corrida, apareceu na porta.
– O que deu em você? E como corre assim?
Foi o tempo de Lyss virar-se para Lucy e voltar os olhos para a poltrona, ela já estava virada para eles. Winfrey era um homem negro, de cabelos crespos e baixos, não era grisalho ou extremamente velho como Lyss pensara, seu corpo forte sob a camisa social branca mostrava que ele fazia exercícios físicos. Devia ter 28 anos, 30 no máximo. Exibiu os dentes brancos num sorriso bonito, seu olhar era suave, mas, os traços ao redor da boca e olhos davam a impressão de que ele sabia ser rígido quando necessário.
– Desculpe Lucy. – Douglas pediu, voltou-se para Winfrey – Não sabia que Lyss era quem faltava.
– Lyss é Alyssa Sinclair, certo?
Algo dizia á Lyss que ele não precisava daquelas respostas, como vidente ele já devia saber tudo o que aconteceria ali.
– Ela é muito boa no Bloqueio. – Douglas justificou sem responder.
Winfrey assentiu.
– Obrigado Douglas, pode ir. Por favor, Lyss e Lucy, sentem-se.
Douglas saiu no segundo antes das duas sentarem-se nas cadeiras diante da mesa.
– Como foi a viagem?
– Longa.
– Mas, agradável. – Lucy complementou
– Querem um café ou um chocolate quente? – apontou para a garrafa térmica que estava numa mesa no canto.
– Não, obrigada.
– Sr. Winfrey? – Lyss falou – Por favor, eu não quero ser indelicada, mas, poderíamos pular essa coisa e ir logo para a parte que o senhor me explica o porquê de eu estar aqui.
– Lyss! – Lucy repreendeu
– Não, tudo bem. Eu entendo sua ansiedade.
– Vim pra cá só pra aprender a controlar meus poderes? É por causa de Chris?
Lucy franziu o cenho encarando Lyss:
– O que Chris tem a ver com isso?
Lyss deu um longo suspiro. Não contara á tia sobre o desastroso último encontro que tivera com seu ex-namorado e – provavelmente – ex — melhor amigo.
– Lyss contou ao humano Chris que é uma bruxa. – Winfrey explicou para Lucy
– Foi sem querer. Ele queria que eu desse uma justificativa plausível para que não voltássemos e eu dei. Ele não vai mais me procurar, deve achar que sou uma psicopata ou lunática.
Lucy ainda tinha os olhos arregalados. Lyss voltou-se pra Winfrey:
– Já viu tudo isso aqui? – ela quis saber – Quer dizer... Sabe como essa conversa vai terminar? – ele era vidente, não?
Winfrey sorriu, compreensivo.
– Não funciona assim. É meio difícil ver coisa ao seu respeito por causa de seu bloqueio poderoso. Mas, eu vou explicar o porquê de você estar aqui e isso não influencia diretamente no humano.
Lyss sabia da existência deles, embora ignorasse, sabia que um dia entrariam em contato, embora não quisesse, o pessoal de Weverston, ou DDPs, como dissera Douglas, existiam para manter aquela parte do mundo organizada e escondida dos humanos, além disso, treinavam e ajudavam outros deles a controlar seus poderes. Era um trabalho bem diferente do Instituto da Suíça que era somente para treinar as Bruxas Elementares e outros Bruxos que seriam essenciais mais tarde.
– Você sabe o motivo do treinamento com outros Bruxos comuns?
– Não exatamente.
– Sabe do Grande Mal. Não?
Lyss sabia. Pouco, mas, sabia. Assentiu.
– Costoupolos escreveu muitas profecias, nós não sabemos do que se trata o Grande Mal exatamente, mas, sabemos que não queremos que aconteça. As outras bruxas já estão na Ilha. Os outros Bruxos são para estabelecer um contato mais tênue com a Natureza, menos forte que o de vocês, como se fosse o contrapeso, Costoupolos disse que eram nove Bruxos ao todo.
– Vocês me deram um prazo tão curto. – ela lamentou
Os DDPs deveriam reunir as bruxas Elementares quando elas completassem 17 anos, elas treinariam, estudariam e deveriam alcançar o mesmo nível de poder e controle do Elemento para evitar o cumprimento da profecia do Grande Mal fazendo um feitiço que precisava de todas elas.
– Você sabia que esse dia chegaria. – ele disse suavemente – Por causa de seu bloqueio não sabemos seu nível de poder, então temos que dar uma atenção especial á você. Claro que já sabíamos que haveria esse problema, e sabíamos que seria mais difícil te contatar do que ás outras meninas.
– Você falou algo sobre uma ilha? – Lucy quis saber
– Sim, Lyss vai para uma ilha. A ilha de Lisarb, mas, infelizmente não posso explicar muita coisa á respeito dela por causa do sigilo, as outras bruxas já estão lá. – ele mexeu na pasta diante dele – Os bruxos também. Você conhece o funcionamento disso aqui, Lyss e eu tenho que dizer que você foi um pouco imprudente quando contou ao humano Chris que você é uma Bruxa, até porque você não é uma bruxa qualquer, só existe quatro de vocês, Ar, Fogo, Terra e Água. Se os humanos descobrirem sobre nós podemos acabar mortos. Os humanos sabem como ser perversos.
– Chris é de confiança e acho que ele não acreditou muito em mim. – ela deu um suspiro impaciente
– Não importa Lyss, o que fez foi arriscado.
– É meio complicado agir normalmente quando vocês estão controlando todos os meus passos.
– Nós te deixamos em paz por anos, Lyss.
– Eu queria minha vida normal de volta. – ela falou afastando uma mecha do rosto. Ela não entendia que ir á Suíça por um feitiço de teletransporte todos os dias após as aulas e retornar por um Portal, seria uma vida normal. Mas, o quê Winfrey deveria entender disso? De repente sentiu vontade de chorar. Droga!
– Sabe que não é de seus poderes que tem medo.
Ela levantou-se, os olhos cheios de lágrimas de raiva.
– Você tem medo da verdade, Lyss. Viveu até agora numa mentira e tem medo de enfrentar isso.
– Eu estava confortável com isso. – ela disse enxugando um os olhos com raiva – Estava terminando o colegial, já perdi um ano antes e não queria que isso se repetisse, eu estava fazendo parte das animadoras de torcida e... – ela gesticulou sem parar – Mesmo que eu sentisse que não me encaixava... Mesmo assim eu estava ok. – ela fez um movimento mais brusco com a mão e em resposta o copo de vidro que estava sobre a mesa voou contra a parede se quebrando em vários pedaços.
Lucy levou um susto tão grande que empalideceu.
Olhando os cacos estilhaçados no chão ela percebeu o quanto estava errada.
– Você precisa aprender a controlar o que tem, Lyss. – a voz era suave e calma – Sente-se, por favor.
– Desculpe. – ela conseguiu balbuciar sentindo a raiva se esvair, evitou olhar para Lucy, não precisava ver o horror nos olhos da tia. Sentou-se. – Eu não...
– Tudo bem. – Winfrey sorriu pra ela – Você é forte, não sei qual é o seu nível, classificamos de 1 a 10 e que eu saiba não existe números Dez, então você deve ser um Cinco, o que já é um bocado.
Ela suspirou passando a mão pelo rosto.
– Vocês vão fazer algo com Chris?
– Não! – ele respondeu depressa se espantando com a pergunta – De forma alguma. Podemos apagar o episódio da mente dele, mas, isso que tem que decidir é você.
– Apagar?
– É. Fazer com que ele esqueça que vocês brigaram e que você disse que era uma Bruxa.
Aquilo significaria que Chris não a odiaria, que se lembraria de que tinham ficado e estava tudo bem, Lyss preferia que ele a odiasse se isso o mantivesse longe.
– Se ele achar que sou psicótica não vai me procurar.
– Então...?
– Prefiro que ele me deteste e se mantenha onde está. – afirmou convicta
– Certo.
– O que mais eu não sei sobre meu mundo? – deu um sorriso apagado – Acho importante que eu me informe. O que eu faço com esse dom de bloqueio?
– Lá em Lisarb você vai sentir seu poder aumentar, lá é um lugar especial, por isso você provavelmente vai descobrir que tem um dom além do bloqueio, os DDPs só possuem um dom, mas, as Bruxas podem ter até dois dons, acho que você sabe que quando vocês fazem dezoito anos passam a envelhecer lentamente, quase como nós DDPs, mas, nós envelhecemos mais depressa. Quanto á regeneração, você deve saber também.
Ela assentiu. A regeneração de uma Bruxa, mesmo Elementar, era lenta para suas necessidades, mas, existia. Quando se tratava de um machucado de Criaturas perigosas, era essencial o trabalho de uma Bruxa Curandeira, como Jessie.
– Quando eu vou viajar?
– Hoje mesmo.
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