Série Elementares - Escolhas (LivroUm)
14 Entrelinhas.
“Uma vez eliminado o impossível, o que sobra, por mais improvável que pareça, deve ser verdade” (Sir Arthur Conan Doyle)
Demetree não poderia dar aula, pelo menos era o que Evan dizia, era difícil pra Lyss se concentrar no que ele falava, Evan estava ignorando-a completamente e até quando ela lhe fez uma pergunta ele respondera encarando outro Bruxo qualquer. Naquela manhã os garotos de Weverston que estavam em Lisarb estavam ali. Durante a manhã eles deveria repetir o primeiro feitiço que aprenderam, deviam paralisar um ao outro outra vez, as mãos de Lyss estavam úmidas só de lembrar do que acontecera da outra vez. A sala de aula do Instituto parecia menos com tanta gente
– Você só precisa se concentrar.
Ah é! E tinha isso. A voz estava se tornando uma grande aliada no seu controle, ela podia sentir a si mesma borbulhando sob a superfície e... bem, era complicado falar, mas, a voz estava ajudando-a muito. Em algum momento alguém lhe passou uma folha de Livium Dolor, formaram duplas e Lyss se viu com Victoria outra vez.
As imagens vinhas em flashes, os olhos vazios da mãe, o desespero, as mãos frias, a escuridão do lugar, o frio... Ela ouviu Victoria murmurar: Atteticus! E tudo apagou. E dessa vez foi bom, porque não havia nada daquele lado. Era só o nada. Vazio e sem limites. Naquele espaço estreito em que estava não havia Evan, Alice, Victoria, Demetree... Mas, a voz ainda estava ali, quase era possível sentir sua presença como a de uma pessoa. Foi essa presença que a puxou de volta, quando Lyss abriu os olhos estava com o pingente da corrente agora inseparável entre os dedos.
– Isso! – a voz aprovou – Puxe o ar devagar e concentre-se nos seus batimentos cardíacos. Isso! A calma está dentro de você, apenas busque-a, deixe que a calma te domine. Está vendo? Está ficando melhor.
E estava mesmo, apesar de suas pernas ainda bambearem e seus músculos tensos ainda não obedecerem a seus comandos ela sentiu o desespero abandoná-la. Estava assumindo controle sobre si mesma.
– Você não está bem. – Vick sussurrou para não ser ouvida pelos outros
Lyss procurou Carlie com os olhos, ela era a única que conseguiria ouvir.
– Fique calma, certo? – Vick disse
Ela estendeu a mão para tocá-la, ampará-la se necessário, mas, bastou as peles entrarem em contato e os olhos de Victoria perderam o foco.
– Vick? – Lyss chamou baixinho — Victoria? – olhou ao redor para ter certeza de que ninguém observava, estava assustada com a atitude de Victoria
A mão em seu braço segurava com força agora, a expressão distante dava a entender que a alma dela havia abandonado o corpo, Victoria parecia paralisada, Lyss olhou sua própria mão só pra confirmar que a Livium Dolor estava intacta, mas, então porque Victoria parecia sob efeito do feitiço?
Felizmente todos os olhares estavam em Carlie e Marcus, ao que parecia Carlie não sabia pronunciar a palavra e isso gerava risinhos abafados da maioria, Lyss voltou a concentrar-se em Vick, soltou um suspiro de alívio quando ela finalmente piscou, agora ela estava meio zonza, disfarçadamente Lyss levou-a para uma das cadeiras e sentou-se na outra. Sua cabeça ainda doía muito e seus músculos tremiam, mas, a preocupação com Victoria naquele momento era prioridade.
– Ela teve uma visão! – a voz informou preocupada dentro de sua cabeça
“Quer sair da minha cabeça, por favor.”
– O que houve? – Lyss perguntou segurando as mãos de Victoria
– Tive uma visão. – ela confirmou ainda em transe – Eu... não... – parou para puxar ar
– Certo. Isso é normal, não e?
Victoria confirmou com a cabeça após um momento de reflexão e hesitação.
– Depende do que você considera normal.
– Minhas exigências diminuíram bastante. – Lyss garantiu
Victoria respirava lentamente reassumindo o controle do próprio corpo.
– Pergunte a ela o que...
– O que você viu? – Lyss interrompeu a voz
Victoria acenou com a cabeça
– Não é o lugar. Mas, foi de você. Podemos conversar mais tarde?
Lyss assentiu ao mesmo tempo em que a voz pedia que o fizesse.
– Depois da aula então. – Lyss marcou
Carlie finalmente conseguiu a pronuncia certa, mas, a essa hora a folha estava quase toda queimada, portanto Marcus ficou apenas alguns poucos minutos paralisado.
Na segunda rodada Evan auxiliou que trocassem os papéis, quem paralisou seria paralisado. Propositalmente Lyss deixou que a folha queimasse a metade da folha antes de mencionar o feitiço, Vick voltou depressa também. Depois que cada um foi paralisado chegou o momento de experimentar suas habilidades extras, Evan pediu que todos voltassem aos seus respectivos lugares. A primeira foi Lyss justamente por ser a habilidade mais complexa, Evan pediu que ela fechasse os olhos e procurasse de onde vinha o bloqueio, Lyss sentiu cada membro do corpo por minutos a fio até sentir um formigamento nas mãos, testa e tórax. Ela disse isso a Evan.
– Tente expandir esse formigamento. Tente expulsá-lo pra fora de você.
Lyss respirou lentamente deixando o corpo relaxado, podia sentir o formigamento ali, presente, mas, não era acessível, era espesso, imóvel.
– Não consigo. Ele parece fixado. Não consigo movê-lo – disse com um suspiro cansado. Abriu os olhos, desanimada.
– Certo, certo. Não tem problemas, o importante é que você identificou onde ele se concentra, com nossos exercícios diários isso vai mudar. – ele disse, desviando, com dificuldade, a atenção de Lyss ele – Nataly. – chamou
– Vamos! – aceitou levantando-se – Eu leio pensamentos. – informou
– É um dom importante.
– Ás vezes eu não consigo ouvir, como se tivesse interferências. – ela reclamou indo para o lado de Evan
Ele segurou-a pelos ombros colocando-a em sua frente. Lyss sentiu um pingo de ciúmes.
– Com a prática constante e intencional de sua habilidade é provável que essas falhas parem de existir. Agora quero que feche os olhos e se concentre. – ela obedeceu — Primeiro responda: Está ouvindo os pensamentos aqui presentes?
– Pouco. Quando tem muitas pessoas eu não ouço muito bem e falha bastante, até porque quando começa a doer eu bloqueio, sabe?
– Entendo. Mas, hoje quero que se desbloqueie completamente. Quero que busque cada pensamento presente aqui.
Nataly suspirou e acenou concordando.
– Posso te ouvir – ela murmurou depois de um tempo – Carlie também, agora Marcus, Cassie, Louis, – soltou um suspiro – Charles, Rick. – fez uma pausa franzindo o cenho – Estão bastante claro todos os pensamentos, mas, tem mais alguém que eu não consigo identificar.
Nataly franziu o cenho ainda mais, concentrando-se. A pessoa, um homem, era difícil de identificar, Nataly podia sentir que os pensamentos dele estavam concentrados em Lyss, estranhamente focados, de repente Lyss percebeu o que Nataly procurava e consequentemente o homem também compreendeu, como se estivessem conectados, diante disso o homem, o fio de pensamento simplesmente desapareceu. Nataly abriu os olhos para encontrar uma Lyss de olhos arregalados, surpresa.
– O que foi? – Evan perguntou percebendo
Os olhares viraram-se para Lyss e Nataly, os bruxos não entenderam o breve acontecido.
– Não – Nataly sorriu sem graça – eu só achei que tinha ouvido o pensamento de Lyss. – revirou os olhos fingindo descaso – Bobagem!
Nataly voltou a sentar-se mas, mal conseguia desviar a atenção de Lyss.
Depois de cada um dos Bruxos não elementares testar suas habilidades Evan falou com as Elementares sobre seus dons.
– Lyss já sabe de uma das habilidades dela, mas, e quanto ás outras meninas? Cassie?
– Bom! Além de minha habilidade pra moda – deu de ombros fingindo modéstia – até então minha habilidade não apareceu – ela balançou os dedos no ar para enfatizar.
– Certo! É comum isso, provavelmente quando vocês começarem a exercitar seus Elementos isso acontecerá depressa. Victoria e Louis?
– Tenho visões do futuro. – Victoria falou – Elas acontecem de vez em quando, não tenho controle sobre elas, ficaram mais frequentes quando cheguei aqui.
Evan assentiu, Louis negou saber de seu dom extra.
– Certo. Já que estamos falando de habilidades e magia vocês sabem que existem duas regras que seguimos e não deve ser quebrada. Na verdade nenhuma regra deve ser quebrada, mas, essas duas merecem ênfase. Alguém pode me dizer quais são essas duas regras?
– Não matar humanos? – Rick tentou
– Por incrível que pareça essa é a terceira mais importante, mas, já que estamos tratando daqui de Lisarb vamos pular essa parte.
– Não se relacionar com outros da nossa espécie. – Lyss disse
Ela não conseguiu tirar o pesar de sua voz. Evan ficou em silêncio agora.
– Manter segredo sobre nossos poderes. – disse Victoria
– Excelente! Vocês estão afiados. Existem rígidas punições pra quem quebra essas regras, temos alguns relatos sobre isso, não são muitos pois, a maioria preza pela própria vida – os meninos se encolheram – Vivemos aqui por anos a fio, já aconteceu de um wateaire se apaixonar por outro da mesma espécie, a recomendação é que se afastem, mas, nem todos escutam e medidas devem ser tomadas. Meninos, vocês são importantes para nosso futuro, mas, se quebrar uma dessas regras sofrerão punições. Sérias punições.
– Com outras palavras: Siga as regras ou vamos te matar. – Victoria resumiu
Evan sorriu sem humor.
– Exatamente! É por aí. Gente vou liberar vocês para o almoço e depois as Elementares vão para sua Alas e os Bruxos ficarão com Demetree. Demi teve que reunir-se com Winfrey esta manhã, mas, depois do almoço estará á disposição de vocês
Lyss desacelerou os passos esperando que Victoria se aproximasse, mas, surpreendeu-se quando alguém puxou-a pelo braço bruscamente. Lyss teve sorte por não desequilibrar-se.
– Lyss? – Nataly a manteve perto de si parando de caminhar para ter uma boa distância dos outros – Preciso falar com você!
– Ei! Calma. – ela disse puxando o braço delicadamente – O que foi?
Lyss sentiu um frio na espinha, lembrava-se da imprecação que a voz dera antes de desaparecer de sua cabeça quando notou que Nataly estava lendo sua mente, era como se aquilo fizesse parte de si e algo a dizia que tinha uma razão para o cara da voz não aparecer agora.
– Eu ouvi alguma coisa e não sei o que foi. Havia um homem conectado a você quando eu estava ouvindo os pensamentos e... Lyss eu me lembrei da ligação de um Elementar com um Mestre...
– Shh! – ela fez apontando Carlie que conversava com Marcus animadamente – Seja lá o que você tiver que me dizer não pode esperar?
Nataly soltou um suspiro impaciente e continuou parada segurando Lyss enquanto aguardava que todos os outros se distanciassem.
– Eu só achei que você devia saber. Ou já sabe?
Lyss retirou o braço
– O quê exatamente? – conteve um arrepio
– Pior que não sei, mas... não foi algo bom. Eu ouvi um pensamento extra, um pensamento que estava estranhamente conectado a você embora não fosse seu, e foi exatamente como eu ouço Cassie e Ross, Tisha e Louis, entende?
– Será que não foi o pensamento de Evan. – sorriu – Você pode ter se confundido.
– Não Lyss. – balançou a cabeça com ênfase – Eu sei o que estou falando.
– Olha Nataly...
– Vocês duas – era Cassie – vamos ou vão se perder.
Nataly não encontrou chance para falar com Lyss depois disso e a voz não se pronunciou até que ela estivesse no quarto.
– Foi por pouco. – ele suspirou dentro da cabeça de Lyss
– Se você soubesse como isso tem me estressado! Você não pode simplesmente desaparecer? – ela jogou-se na cama falando sem se preocupar com possíveis ouvintes
– Obrigado por me defender! – ele disse sincero
Lyss bufou enquanto prendia os cabelos num rabo de cavalo. Ela ficou olhando para o teto, deixando que a mente se esvaziasse, ainda tinha tantas perguntas sem respostas.
– Estou complicando sua vida, não é?
– Eu não esperava ouvir vozes, você sabe. Evan já te ouviu uma vez o que prova que eu não enlouqueci completamente.
A voz grunhiu ao ouvir o nome de Evan.
– Mesmo assim minha vida tem estado mesmo muito confusa. Quando vai me dizer o que você é? Ou quem? – suspira – Sinto falta de minha tia. – saiu assim, sem querer.
– Lucy.
– Como sabe? – ela arregalou os olhos
– Você fala dela e já sonhou com elas algumas vezes.
– É ainda tem esses sonhos. Você bem que podia me ajudar com isso.
Silêncio.
– Essas coisas tem me estressado tanto, agora eu sonho com minha mãe. Sabe quanto tempo eu não sonho com minha mãe?
Silêncio.
– E pra completar ela ainda pede pra eu não procurar meu pai como se isso me fizesse correr perigo. Aliás, como se fosse possível procurar meu pai, quer dizer... ele morreu. – a voz engasgou um pouco.
Silêncio.
– Ah. Está me ignorando? – ela disse exasperada
– Sonhos são avisos. – foi a resposta curta
Ela suspirou de novo.
E de novo.
– Terei aula sobre meu elemento hoje com Evan.
– Você sabe que eu sei.
– É.
Silêncio.
– Não gosto do que acontece entre vocês.
– Você sabe? – franziu o cenho – Ah – fez lembrando-se – Você sabe.
A voz imprecou qualquer coisa.
– Isso pode matar você.
Silêncio.
– E você nem se importa. Argh!
– Depende. Eu gosto de Evan, é como se ele me completasse.
– Tecnicamente esses sentimentos primitivos deveriam ser evitados com a ligação.
– Você deve saber.
– O quê?
– Que não fizemos a ligação.
– E você não desconfia dos motivos?
A porta abriu. Era Cassie e Louis.
– A gente está descendo para o almoço, pensei que você já estivesse pronta. – Louis jogou-se na cama ao seu lado e Cassie foi para o espelho.
– Estou cansada. Mentalmente, fisicamente.
– É o peso do cabelo. – Cassie brincou rindo
– Definitivamente você deve melhorar a lista de piadas. – Lyss mostrou a língua pra ela e sorriu
– Pare de ser tão chata e vá tomar um banho.
– É. Você precisa. – brincou Louis prendendo o nariz entre o polegar e o indicador
Sem alternativa Lyss levantou-se para tomar banho, ficou debaixo do chuveiro por bastante tempo sentindo o cabelo molhado grudar-se em seu rosto e braços, mantinha os olhos fechados como se a água tivesse a capacidade de limpar todas as preocupações que habitavam sua cabeça.
“Victoria teve uma visão comigo.” – ela disse esperando que a voz respondesse, mesmo sabendo que ele já sabia.
– Argh. Não fale comigo enquanto estiver tomando banho, posso ouvir o som do chuveiro daqui.
Ela sorriu
“Por que estou contando isso á você afinal? É só uma voz sem corpo.”
– Sou sua consciência. – riu – Só que mais inteligente e mais legal.
– Rá-rá. Suas piadas são as melhores. – disse em voz alta esquecendo-se das meninas atrás da porta
– Disse algo Lyss?
– Não Louis. – respondeu enquanto a voz ria em sua cabeça
“Você bem que poderia me dar um nome para ser chamado, referir a você como a voz está ficando chato.”
– No momento certo.
Lyss enrolou-se na toalha e saiu, estava procurando uma roupa no armário, comprara um conjunto azul bastante fresco e jogara nas malas. Onde estava?
– Sabe, meninas – Lyss colocava o sutiã – eu estava pensando: Como foi pra vocês a ligação?
– Péssima ideia. – disse a voz reprovando
“Não preciso de sua aprovação, Ó Consciência. Aquela história da Nataly me deixou intrigada.”
Louis e Cassie se olharam, Louis ajeitou os óculos no rosto e Cassie bateu o dedo indicador no queixo enquanto pensava. Esta última estava sentada com Louis agora.
– Normal. Na verdade achei que já tínhamos falado sobre isso. – Cassie disse – Aliás: Foi incrível, convenhamos. É como se você ganhasse um pai, ou um irmão mais velho, sei lá. Não foi igual pra você Louis?
– É. Interessante como a gente se habitua logo, não é? Eu sinto como se conhecesse a Tisha há anos, aliás é como se ela fosse parte de mim.
– É. – Cassie concordou – Mas, porque a pergunta?
Louis franziu o cenho, sua expressão era de desconfiança.
– É Lyss, não foi assim pra você?
– Como foi? – perguntou Cassie
– Ah. – Lyss tentava pensar em algo depressa
– Eu disse que era uma péssima ideia, mas, você me ouviu? Deixe-me dizer de novo: Péssima ideia.
– Não, é que eu só queria conferir – não era uma boa resposta – Vocês sabem ver se tinha ido igual para todas nós.
A resposta colou.
– Depois da ligação nos sentimos parte daqui, é interessante. – Louis fitou um ponto vazio
Lyss encontrou o conjunto que procurava e vestiu depressa, esfregava a toalha nos cabelos tentando secá-los.
– Você vai quebrar os fios. – alertou Cassie
Lyss fez um muxoxo olhando-se no espelho enquanto escovava os cabelos, o resultado foi satisfatório, em seguida estavam, as três, descendo as escadas rumo á cozinha. O cheiro de comida impregnava o ambiente e foi mais que suficiente para abrir o apetite de Lyss, todos já estavam lá e Lyss sentiu-se em família de novo.
Ross e Evan faziam piadas um com o outro e falavam coisas nojentas enquanto Tisha reclamava e fazia caretas, Félix ria de vez em quando, estava mudando bastante ultimamente, parecia estar se enturmando ou simplesmente aceitando que nunca seria o único ser do mundo então teria que aturar os outros. Victoria parecia estar sofrendo essa mutação simultaneamente, aliás, era incrível como as características da Elementar e seu Mentor eram parecidos, Tisha e Louis achavam graça e nojo das mesmas coisas, Cassie e Ross tinham atitudes e gestos idênticos, Victoria e Félix pareciam pai e filha, faziam expressões idênticas e ao mesmo tempo. Lyss procurou esses detalhes nela e Evan.
Era claro que eles tinham uma química, que se completavam de algum modo, mas, nada tão sincronizado quanto os outros Mentores e Elementares, Lyss sentiu falta da voz em sua cabeça dando soluções para todas as suas preocupações, mas, a voz não estava ali e não apareceria enquanto Lyss estivesse entre os Mentores e as meninas. Eles terminaram de almoçar e foram para suas Alas, assim que entrou na Ala Lyss identificou o vaso de vidro no centro da sala, ele tinha água até a metade da capacidade.
– Belo colar. – Evan disse caminhando em sua frente.
Ela segurou o pingente instintivamente. Preferiu o silêncio.
– Alguns livros sumiram daqui – ele dizia – mas, encontrei os Manuais de Controle da Água. Vou levar o sumiço dos livros para Demetree, Clovis e Winfrey. – meio que falava pra si mesmo.
Lyss só suspirou e sentou no sofá.
– Vai ficar me ignorando?
– Ah! – explodiu – Não me venha com essa agora, você me ignorou nos últimos dias. E... olha só, não é porque do dia pra noite você começa a me odiar que pode me prejudicar na questão do Controle do meu Elemento. – fez bico – Já basta que não fizemos a ligação... – não tinha mais do que reclamar por agora.
Evan virou-se, pela primeira vez no dia parecia realmente olhá-la. Depois ele simplesmente riu. O que só fez com que Lyss se irasse um pouco mais. De repente o vaso de vidro que estava sobre a mesa virou-se derramando todo seu conteúdo sobre a mesa e no chão. O barulho foi alto naquele silêncio. Evan parou de rir.
Então ele veio caminhando em sua direção, segurou-a pelo braço fazendo com que ela se levantasse.
Lyss encostou a cabeça no peito de Evan corando ouvindo o bater constante do coração dele, o corpo dele estava quente, o cheiro já familiar que emanava dele inebriava seus sentidos, o coração de Lyss descompassava com o simples contato dos corpos, Evan segurou uma das mãos de Lyss e acariciou os dedos da moça, ele depositou um beijo em sua testa.
– Os livros que sumiram se referem á Ligação. Era minha última esperança – Lyss sentiu o peito forte subir e descer com o suspiro que ele deu – porque uma parte de mim está tão assustada com todos esses sentimentos que venho tendo – Evan afastou-a um pouco para olhá-la nos olhos – Eu sinto algo tão forte.
– Você desapareceu. – ela disse
– Eu sou um covarde. – depositou um beijo em sua testa – Um completo covarde. Sabe, Lyss, durante todos esses anos ela desejei, com todas as minhas forças, acabar com a minha vida, é uma coisa difícil quando se é imortal, ela nunca havia encontrado razão pra viver, entende? Nunca... até... agora! – ele encarou-a, ambos os corações batiam desenfreados nos peitos.
Ela entendia o que ele estava dizendo, Lyss sentia da mesma forma, só não sabia colocar em palavras. Por isso eles ficaram em silêncio por um instante.
– Quero te levar em um lugar. – Evan disse de repente.
Lucy tirou os óculos escuros e observou a casa ao longe, a aparência dela destoava das casas vizinhas, o gramado estava alto, a pintura descascada, a árvore com folhas que pendiam para a casa vizinha, a casa ainda tinha uma varanda bem agradável, o chão de madeira precisava ser encerado e limpo, havia vidros quebrados e poeira em toda parte. Chris puxou o freio de mão e seguiu o olhar de Lucy.
– É essa a casa? – ele perguntou tirando as mãos do volante
– É. – ela falou comparando o que via com a foto deixada pelo homem com cheiro de cigarro.
Chris tirou o celular por hábito e fitou a tela. Havia uma ligação perdida. Era Langdon, retornou para o amigo.
– Fala, cara!
– Chris eu liguei para informar que vai ter uma festa com o pessoal do futebol já que semana que vem iniciam as aulas.
Langdon sabia que Chris havia ficado com Joyce, a menina ainda tentara novos encontros, mas, Chris estava evitando-a. Por algum motivo precisava falar com Lyss primeiro. Agora que a saudade era maior que a raiva que um dia sentira dela percebia como era difícil ficar sem a melhor amiga.
– Certo! – ele respondeu pra Langdon, hesitou um instante – Você tem o número de Joyce?
O amigo confirmou e Chris anotou o número numa folha de papel que pegou do porta-luvas e se despediu do amigo.
– Joyce, hein? Vocês não perdem tempo. – Lucy falou antes de prender os óculos na blusa vermelha que usava
Chris olhou-a de soslaio
– Não me condene, eu gostaria de falar com Lyss antes, mas, onde ela está o telefone não pega. – deu de ombros e tirou a chave da ignição
– Então isso que você tem ou está tendo com essa Joyce é sério?
– Não. – ele disse sem hesitar – Mas, eu quero tentar. Não sei se com Joyce, mas... – ele abriu a porta do carro – ela parece gostar de mim, então... – saiu sem completar.
Lucy abriu a porta do carro e saiu também, colocou as mechas do cabelo atrás da orelha, o sol estava agradável no céu. Era um lindo bairro, as casas parecidas iam até onde a vista alcançava, algumas crianças brincavam de bicicleta em frente á uma casa mais adiante, alguns poucos vizinhos regavam suas plantas, todos observaram com interesse a presença do belo homem de cabelos castanhos e a mulher de belo porte. Lucy sentiu a mão suar em contato com a chave, Chris passou na frente pisando no caminho de pedra que estava quase invisível com o gramado alto.
– Pode ter bicho aqui. – Chris alertou.
A madeira da varanda rangeu com o peso de ambos. Chris insistira em ir por causa da possibilidade de haver marginais dentro da casa, agora era ele quem destrancava a casa e empurrava a porta desencostando-a do batente. A sala gritava agourenta o silêncio e o abandono, havia apenas uma poltrona coberta por um lençol que um dia fora branco e a silhueta do que parecia uma estante que também estava coberta por um pano sujo. Anexa á sala de estar havia outra sala que tinha uma lareira, tinha um ou dois livros no chão, jogados.
– Acho que está vazia. – Chris falou como se desse conta de repente. Eles entraram.
Um aperto se instalou no coração de Lucy ao imaginar o irmão ali, o lugar cheirava a mofo, ela ficou de pé na sala olhando ao redor.
– É uma bela casa. – Chris disse relaxando e enfiando as mãos no bolso, ele encontrou um interruptor – A energia ainda funciona.
– O que é bastante estranho. – Lucy murmurou encarando a luz acesa – Vamos ver o restante da casa.
A cozinha era espaçosa, paredes em tons pastéis, o banheiro – assim como todo o resto – tinha uma camada de poeira sobre tudo, mas, era imenso.
No segundo andar haviam dois quartos, um deles decorado com motivos infantis e femininos, tinha uma parede coberta de flores, tinha até um berço.
– Esse lugar me deixa emocionada. – Lucy falou saindo depressa do quarto que devia ter sido de Lyss.
– Você quer voltar para o carro? Podemos voltar depois.
Lucy sentia a cabeça inteira doer, como se seu cérebro estivesse tentando se lembrar de algo, mas, todo o resto se recusasse a isso.
– É. Vamos embora. Podemos voltar outro dia.
Chris sentia uma imensa vontade de tomar um banho.
– Estou com sede. – falou ligando o carro.
– Desculpe por ter feito você vir aqui pra... – Lucy não conseguiu mais e as lágrimas simplesmente correram pelo seu rosto, ela soluçava – Eu não me lembro, Chris. Eu não... – outro soluço, ela debruçou-se sobre seu próprio corpo
– Do quê você está falando? – Chris murmurou
– Eu não me lembro do Brad. Não me lembro de Alice. Eu não lembro dessa casa, não lembro de Lyss quando era bebê, você entende? Estou tão confusa. – ela puxou o ar
– Você não se lembra do seu irmão? – Chris parecia confuso
– Eu não lembro do rosto dele. Nada. Nem a cor dos olhos, cabelo, sorriso, não lembro do casamento dele... Não lembro de ter ido visitar Alice no hospital quando ela teve Lyss. É como se minha vida só tivesse iniciado um pouco antes de Alice morrer. Como se alguém tivesse me contado uma história. Você entende?
Chris não entendia, mas, preferiu arrancar com o carro a responder.
Estava um pouco frio na Inglaterra agora, a imensa janela que tomava todo o lado do escritório do homem em frente á lareira estava embaçada.
– Está feito? – foi a única coisa que o homem perguntou, o cigarro estava aceso e uma fina fumaça dançava.
Fred balançou a cabeça, depois percebeu que o homem estava de costas e não veria o gesto.
– Sim. Eu enviei um homem na casa da tia da menina.
– Tia. – o homem respondeu batendo com o cigarro e levando-o a boca de novo.
– É. Lucy Stevens. Eu fiz o cara se passar por um agente, ele entregou a chave da casa. Agora é só esperar. Tem homens meus lá e... – o telefone de Fred tocou e ele sorriu – Acabei de receber uma mensagem. Ela esteve lá com o humano, o menino. Elas não entr...
– Você desenfeitiçou a entrada para o sótão? – o homem interrompeu
Fred empalideceu levemente.
– P-posso providenciar isso agora mesmo. – titubeou
– Então o faça.
Depois de uma ligação Fred voltou a sorrir.
– Pronto! Está feito.
O homem do outro lado da mesa se virou junto com a cadeira, a cadeira de rodas o afastou da lareira, o homem virou-se para Fred. Havia uma mala grande sobre a mesa que os separava.
– Seu pagamento. – apontou para a mala. Ele percebeu o homem hesitar em se aproximar, depois da hesitação ele veio e pegou a mala. Os olhos brilhavam. – Em breve você receberá ordens minhas para tirar o encantamento da humana, Lucy. Quero ela fora do jogo em breve.
– Certo. – ele respondeu agarrando a mala — Obrigado Nataniel. – Fred disse abraçado á mala
– Confira! – Nataniel ordenou e amassou o resto do cigarro.
Fred obedeceu e sorriu outra vez.
– Está certo.
– Você esperava algo diferente? – Nataniel fitou o homem
Fred sempre se assustava com aquele rosto. Nataniel era cego de um olho, o olho doente era quase totalmente fechado e era como uma bola de gude azul leitosa, não existia sobrancelha sobre esse olho, todo o resto do rosto era quase perfeito, algumas cicatrizes, mas, aquele olho era assustador. O seu outro olho era verde e ferino.
– Nunca Nataniel.
– Saia!
O homem saiu abraçado á sacola de dinheiro. Do lado de fora da mansão ele suspirou feliz com o frio.
Lucy bebeu a água fresca que Chris ofereceu quando eles chegaram a casa. Era bom estar em um lugar familiar.
– Eu vou ligar para Lyss amanhã, ainda não contei sobre a casa. Acho que ela precisa saber.
– Você tem como falar com ela.
– Isso não é uma pergunta. – ela bebeu mais um gole.
– Eu sei. – Chris sentou ao lado de Lucy no sofá.
– Não tenho vontade de falar sobre isso agora. – ela deu um sorriso apagado
– Por que você ficou assim?
– Não sei. – deu de ombros – Eu descobri que não há fotos de meu irmão nessa casa – apontou ao redor – Existem muitas coisas nas entrelinhas...
Chris também não entendeu aquela.
– Certo. – coçou a cabeça – Você vai ficar bem.
– Vou. – ela encarou-o de repente – Por favor Chris, obrigada. Desculpe pelo meu comportamento.
– Não há do que se desculpar, Lucy. Você está ficando idosa e é isso o que a idade faz com as pessoas. – ele riu e ela acompanhou-o
– Cale a boca! – Lucy acompanhou o rapaz até a porta e ouviu o trinco da porta sendo fechada.
Ela olhou o teto por um momento com as costas contra a porta. Não estava certa sobre o quê pensar.
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