– Não é possível. – ela sussurrou pra si mesma

De certa maneira sabia que esse dia chegaria, não que estivesse agendado ou algo assim, mas, aquele momento chegaria, ela sabia, deveria estar preparada. Mas, não estava. A mão continuava estendida pra ela, Lyss ainda não conseguia pensar em algo racional para dizer ou fazer naquele instante, olhava a mão calejada e áspera, a palma virada para cima. O que havia de ameaçador ali?

Tirando o fato de estar diante de um quase desconhecido, de cara assustadora, roupa preta, no meio da madrugada e entre as árvores.

É. Talvez houvesse coisas suficientes para serem chamadas de ameaçadoras.

Mas, aquela voz... a voz.

– Vai continuar aí no chão? Posso te garantir que daqui de cima as coisas são mais confortáveis.

Ela preferiu não tocá-lo, levantou-se com dificuldade.

– Quem é você?

O homem de mandíbula quadrada era um pouco assustador, ele tinha uma cicatriz na sobrancelha, os olhos profundos e escuros fitavam-na com afeição, a boca era média, nem tão grande nem tão pequena, mas, os dentes brancos e afiados davam á aparência dele um ar de selvageria, os cabelos estavam penteados para trás, ele vestia uma jaqueta preta sobre uma camisa preta combinando com uma calça preta. O nariz dele era grande e reto, parecia um aristocrata do mal.

– Você é assustador! – ela murmurou

– Obrigada. É um prazer te conhecer.

Estava diante do dono da voz que a atormentara durante semanas, ele não era nada parecido com o que imaginara, mesmo assim devia estar com medo. Não estava. Não mais. As pernas até pararam de bambear.

– Quem é você?

– A voz.

Ela bufou revirando os olhos

– Você é mais que uma voz, é braços, pernas, cabeça... Só preciso de um nome.

Ele sorria para ela, estranhamente feliz.

– Phillip.

Ela deu um passo pra trás, assustada.

– Você foi banido. – lembrou-se – Você foi um dos três e...

– Já vi que minha fama chegou antes de mim como sempre. É sou eu.

Ela deu mais passos pra trás.

– Por isso estava escondido – concluiu – Mas, por que logo eu? Por que me procurou? Posso contar para os Wateaire que você está aqui e...

– Você não vai contar. – afirmou – Eu sei que não vai, Lyss.

Não havia ameaça em sua voz, ele falava suavemente, com uma certeza estranha.

– O que você deve saber? Que eu tentei matar um Wateaire? Não é toda verdade, Lyss.

Não um Wateaire qualquer.

– Vou embora daqui, não me siga!

Ela saiu caminhando com uma segurança que não lhe pertencia.

– Está indo para o lado errado. – Philip disse segurando o riso

Ela grunhiu mudando de direção

– Por ali. – ele indicou apontando o outro lado

Ela grunhiu de novo seguindo o caminho que ele indicava.

– Não vou segui-la, mas, acho que você deve saber que está vivendo uma mentira. E que, principalmente, eu sei de sua relação com Evan e não vou usar isso contra você.

Ela parou.

– Vou te dar quinze minutos. – continuou de costas para ele

Ouvia os passos que ele dava em sua direção, continuou imóvel.

– Estou feliz por te conhecer, feliz por ver você segura – ele posicionou-se diante dela – Eles não sabem de toda história de minha vida, nem tudo o que dizem é verdade. – havia uma necessidade quase desesperada que ela acreditasse nele – Está com medo?

– Não. – era verdade – Por que eu?

– Eu não te escolhi, Lyss. A natureza designou que eu cuidasse de você.

– Isso não é verdade, eu sei que os Mestres são designados pela Natureza para cuidar das Elementares, eles são como um só.

– Como então você acha que eu tive acesso á sua mente? Conversamos. Eu falei com você. – ele ergueu as sobrancelhas enfatizando – O que acha que aconteceu então? Acha que seu Mentor não saberia... Lyss você mentiu pra ele!

– Não precisa jogar isso na minha cara – ela afastou uma mecha teimosa do rosto – Eu não sei o que houve com essa coisa de falar por pensamentos, mas, não vem me dizer que é algo natural que não é. Eu nunca te vi na vida, não me venha dizer o que é natural. O natural é que o meu Mentor, Evan cuide de mim, me proteja.

– Alyssa eu sou seu Mentor.

Ela calou.

Depois gargalhou.

– Ah tá.

– É sério! Claro que não tenho certeza absoluta, mas...

– Baseado em quê você me diz isso?

Lyss estava nervosa, gesticulava sem parar.

– Não faz sentido Lyss? Conheço você, você me conhece, podemos nos comunicar e...

Ela não ouviu mais, passou por ele decidida a voltar ao castelo.

Foi quando Philip segurou seu braço e esticou-lhe a mão, bastou aquele simples toque e um vento forte agitou seus cabelos e pijama, os galhos das árvores dobravam-se com a força do vento, os olhos de Lyss simplesmente perderam o foco, foi como se entrasse em coma, ou algo assim. Uma porta abriu-se atrás de seus olhos como se uma luz estivesse sendo lançada neles, essa porta estava intimamente conectada com o toque das mãos de Phillip. Ela sentia tudo sobre ele.

Como se ela se desgrudasse do chão e só não voasse para a órbita por causa de Philip, como se ele fosse uma das poucas peças que a mantinham no chão, não havia nada mais ali, nada que importasse naquele segundo, sua mente abriu-se para que Philip tivesse acesso ás informações trancadas ali, esse acesso tinha suas restrições, eles sabiam o suficiente um do outro agora. A enxurrada de informações cessou, Phillip deu um passo pra trás, zonzo. Lyss prendia a respiração até agora, o vento cessou, ela entreabriu os lábios para respirar melhor.

– Você... – começaram em uníssono, ofegantes

Eles se deram conta de que tinham a mesma postura física, apontavam o dedo um para o outro.

– Isso... – tentaram de novo ao mesmo tempo

Encaravam-se até, simplesmente, começarem a gargalhar.

– Isso foi incrível! – Lyss admitiu rindo

As mãos ainda estavam juntas.

– Foi mesmo. – ele ria também

Lyss esperou até recuperar o fôlego, era como se estivesse diante de seu melhor amigo, ou irmão, aquilo não a assustava mais, sentia-se completa, Apontou pra ele.

– Não acredito que gosta de sushi.

– Oh! E você de comida italiana.

– Sushi é peixe cru – fez uma careta

– Você nunca experimentou, então não pode falar nada.

Ela fez uma expressão de nojo fingindo estar com ânsia de vômito enquanto o imaginava comer.

– Não seja chata – ele a prendeu sob o braço dando-lhe uma chave de pescoço e bagunçou o cabelo da garota, como os irmãos mais velhos fazem, os cabelos de Lyss soltaram do coque.

– Olha só o que fez — tombou o corpo contra ele, Philip quase não se mexeu

Eles riram juntos. Pareciam cúmplices de longa data, com a ligação a parte Bruxa de Lyss estava mais forte, ela só saberia disso com o tempo, o que ela sabia era que Phillip era o único que poderia ajudá-la com aquilo.

– Vou te levar para o castelo, ainda dá tempo de você descansar.

– Só a caminhada pra lá já vai me despertar o suficiente.

– E quem disse que vamos caminhar?

Philip deu-lhe outra chave de braço e se teletransportou, durou só um segundo, as coisas apagaram e surgiram diante de Lyss como se apenas tivesse mudado a fotografia, Philip atirou-a na cama acertadamente assim que Lyss se distraiu, ela quase gritou de susto.

– Seu insuportável.

– Agora vá dormir! Amanhã nos veremos.

Ela cobriu-se e ficou espionando ele inspecionar o quarto.

– Você é meu Mentor. – ela se deu conta de repente – Num segundo você é quase um estranho e no outro você é meu Mentor. – sorriu

– O que achou disso? – agora ele estava preocupado, sentou na beirada da cama, olhava-a com ansiedade

Ela deu de ombros

– Acho bom... Não sei! Parece algo tão certo e tão bom que é insano não perceber isso, parece que estou mais forte e mais segura. Mais feliz.

Lyss percebeu a veracidade daquelas palavras e sorriu.

– Formamos uma bela dupla sushi. – socou o ombro dele de leve

Ele fez uma careta.

– Durma um pouco.

– Sabe que não estou com sono.

– Lyss? – olhou-a nos olhos – Escute-me: Você vai fechar os olhos e dormir, uma noite sem sonhos, simples assim. Amanhã vai acordar bem. Vai estar disposta e aprenderá tudo na aula. Promete?

Ela deu um muxoxo.

– Como posso prometer... – as pálpebras pesaram Lyss queria simplesmente fechar os olhos e dormir – Como faz isso? – a voz saía com dificuldade

– Roubei um livro da Ala Azul, mas, isso é segredo.

Ela sorriu aconchegando-se mais no colchão.

– Ladrãozinho de meia tigela.

– Vai dormir. – sorriu

Tudo apagou ao redor de Lyss. Quando ela abriu os olhos de novo estava de manhã.

O carro foi estacionado na sombra de uma árvore do outro lado da casa, Lucy desceu e bateu a porta, Chris fez o mesmo em seguida depois Langdon e Joyce desceram do banco de trás. Os amigos de Chris eram o “reforço” que Lucy pedira na limpeza da casa, na verdade o reforço mesmo era Langdon, Joyce era só mais uma para Lucy. Naquela mesma semana ela havia ligado para uma equipe de jardinagem, eles fizeram um bom trabalho e a grama estava bem aparada agora, mesmo assim a casa ainda tinha a aparência de abandono. Lucy também resgatara todos os documentos daquela casa e, estranhamente não havia nenhuma conta em atraso, buscou na polícia alguma referência negativa, mas, parecia tudo muito em ordem. No porta malas havia tinta branca para a cerca e pregos para fixar a escada, depois desses detalhes ela teria que ligar para uma vidraçaria e arrumar todos os vidros quebrados da casa, além de arrumar mais tinta para o resto da casa, mas, isso ela faria quando tivesse com mais gente. Pegou o telefone para ligar para Lyss o telefone no Adams tocou e tocou até simplesmente cair a ligação, ela tentou de novo vendo os meninos pegarem as latas de tinta e seguirem rindo para a casa.

– A equipe de jardinagem fez um bom trabalho, isso aqui estava horrível da primeira vez que viemos aqui. – Chris falava com os amigos enquanto seguia com eles.

Dessa vez a ligação foi atendida ao terceiro toque, era Clovis que informou com pesar que Lyss estava com seu Mentor em sua Ala e era impossível alguém que não fosse Controlador da Água entrar na Ala. Lucy desligou frustrada e seguiu atrás dos garotos.

Na parte de dentro estava tudo igual, ela pediu á Joyce que pegasse o espanador no carro e ela procuraria uma vassoura na casa. Lucy passava para a cozinha quando notou uma porta que para ela não existia da última vez que estivera ali, ela encarou a porta, era a porta mais conservada de todas da casa, era branca sem uma mancha sequer, até sua maçaneta não tinha nenhum traço de poeira, os braços da mulher se arrepiaram, embora não houvesse motivos para isso, Lucy tocou a maçaneta e a porta simplesmente abriu, como se alguém a puxasse do outro lado, mas, não havia ninguém ali. Demorou até que os olhos de Lucy acostumassem á escuridão que dominava atrás da porta, mas, ela logo identificou a escada adiante. Parecia um sótão. Um frio incomum subia como neblina pela escada, havia um sussurro leve ali, e ela só conseguiu esperar impassível a sensação de hipnose, a perna direita de Lucy simplesmente a levou para frente, para o primeiro degrau...

– Lucy? – Chris aproximou-se de cenho franzido

Ela piscou assustada, percebendo que nem respirara por aqueles segundos que seguiram.

– O quê? — balbuciou confusa olhando sem ver para Chris

– Você está bem? – ele buscou seus olhos sem foco

Lucy só sorriu como se isso fosse automático e assentiu.

– Eu encontrei essa porta. – ela apontou para a escada

– Você encontrou uma porta? – Chris riu olhando lá pra baixo – Parece um sótão. Está escuro. Você trouxe alguma lanterna?

Lucy ainda parecia confusa e só meneou a cabeça negativamente.

– Espera. – ele vasculhou os bolsos e mostrou-lhe o celular – Vamos lá.

Engolindo em seco ela desceu o primeiro degrau.

Fred continuou a observar a casa á distância, podia sentir que a porta fora aberta, Aiida suspirou ao seu lado.

– Ela vai encontrar tudo não é?

– Você não disse que Alice só usou feitiços para impedir que seres malignos vissem o que havia naquelas caixas?

Ele suspirou impaciente.

– Eu disse que eu não via as drogas das coisas lá dentro. – olhou-a furioso – Mas, você viu, bruxinha! – deu-lhe um sorriso macabro – E espero que tenha desenfeitiçado bem aquelas merdas ou eu posso desfazer o favor que fiz.

Aiida estremeceu sabendo que ele podia.

– Não tenho mais dívidas com você Fred. Ela vai encontrar as coisas do irmão e ponto. O resto não me interessa, quero que você e Nataniel me deixe em paz.

– Não vejo no que Nataniel pode ter interesse em você. Aiida você deve saber que temos bruxos poderosos trabalhando pra gente. – ele sorriu presunçoso.

– Então porque diabos você me chamou aqui? – a mulher de pele escura jogou os cabelos compridos para trás dos ombros. Queria sair dali.

– Bruxinha insignificante – suspira — eu tenho mesmo que te explicar que todo feitiço deixa um traço do bruxo que o fez?

Aiida assustou-se, mas não queria pensar nisso agora.

– Posso ir embora? – murmurou – Não quero me envolver nisso.

– Vai – ele fez um movimento de descaso com a mão – Não preciso de você – pegou o celular e discou para o número já conhecido. Nataniel atendeu ao segundo toque – Está feito, chefe.

Aiida já se distanciava a passos largos.

– Ok. – Nataniel respondeu antes de desligar.

Se Fred esperava qualquer gratificação ficou decepcionado.

O cheiro de poeira fez com que Lucy espirrasse algumas vezes, Langdon iluminava o chão enquanto Chris procurava um interruptor nas paredes sujas e cobertas de bugigangas inomináveis, haviam caixas e mais caixas amontoadas no chão, algumas tinham etiquetas que já se tornara ininteligíveis com o tempo, a maioria estava lacrada.

– Isso aqui está realmente sujo. – Langdon dizia fazendo cara feia.

– O que você acha que tem nessas caixas? – Chris ainda tateava em busca do interruptor.

– Não sei. – Lucy só sussurrou enquanto um bolo se formava em sua garganta, ela agachou-se diante de uma caixa, Langdon de pé ao seu lado lançava o feixe de luz nas mãos trêmulas de Lucy que abriam a caixa devagar.

Lucy abriu uma aba e depois a outra, um braço pequeno de porcelana pendia para fora agora, ela sentiu duas lágrimas quentes correrem em seu rosto, a boneca estava deitada e seus braços pareciam abertos para ela, a mão esquerda já perdera dois dedos, os cabelos castanhos estavam amarrotados como o vestido florido que ela usava. Então ela não estava mais ali, sua mente voou numa lembrança que deveria estar enterrada. Ela caminhava enquanto bebia café quente do Mark’s, estava frio, mas, seu casaco cinza – o preferido – era o suficiente para aquecê-la, ela caminhava sem pressa, talvez não estivesse indo para nenhum lugar específico, uma calça na vitrine á sua direita chamou-lhe a atenção, parou e apreciou, fazia aquilo de vez em quando. Seu reflexo fundia-se com a calça pelo vidro da vitrine, foi quando uma mulher parou ao seu lado.

– Linda calça, não? – ela apontou

– ela pensou impaciente. Meneou a cabeça e ia saindo quando olhou a mulher. Ela não era uma vendedora – soube de imediato ao olhá-la. Era uma linda mulher. Daquelas que você vê em comerciais, ela tinha olhos azuis muito brilhantes, os cabelos caíam perfeitos sobre os ombros de um jeito que Lucy nunca vira nenhum cabelo fazer, principalmente os seus mesmos. Ela sorriu para Lucy e olhou de volta á vitrine.

– Linda calça. – falou outra vez.

– É-é. – Lucy respondeu sorrindo de volta sem perceber. Estavam em Nova York e ninguém para ao seu lado e tenta puxar conversa assim... do nada.

– Eu não sou daqui. – a mulher disse estendendo a mão de repente – Meu nome é Alice.

Chris deu um pulo e seu celular foi ao chão quando o grito estridente de Lucy cortou o silêncio naquela escuridão.

– Lucy? – ele foi até ela, mas, Langdon já estava amparando-a, talvez fosse uma aranha ou outro inseto qualquer que a havia surpreendido.

– Você está bem? – Langdon iluminou os olhos sem foco da moça, sua pele estava totalmente branca e marcas de lágrimas brilhavam sob seus olhos.

– Acho melhor subirmos. – Chris falou sentindo-se desconfortável de repente.

Joyce estava no topo da escada e perguntou algo que ninguém respondeu, eles estavam ocupados amparando Lucy escada acima.

Notas finais
Eu parei de postar as frases prometidas no início dos capítulos porque... Ah! por que sim. :P