Série Elementares - Escolhas (LivroUm)
18 Ápice.
“Querido diário. Não importa que dia é hoje, não importa aonde eu estou. No fim das contas o que importa é com quem você está e o que faz com isso. Eu estou bem. Não ‘bem’ como é quando alguém pergunta ‘como você está’, eu me sinto bem. Eu estou bem e isso é incrível. Estou tomando mais conta deste diário do que nunca já que passei a falar de ‘PH’ com frequência (usando este código, claro). E isso leva á questão: Por que estou bem. Evan é incrível e pela primeira vez na minha vida eu sei que é real isso que estou sentindo... Pela primeira vez na minha vida eu sei que é amor. É isso mesmo, que se dane se soa clichê haha – eu estou completamente apaixonada, amando-o com cada célula de meu corpo. Eu sei que é amor, é amor porque nossas mãos se completam, nossos corações batem na mesma sintonia. Eu acho que já sabia que era amor desde o segundo que eu o vi, o coração entende dessas coisas, houve o primeiro olhar... o sorriso e pronto. As músicas de amor fazem tanto sentido agora. Haverão tempestades. Mas, sabemos que e impossível contemplar o arco íris sem chuva e sob um céu cinzento há um sol em algum lugar. Tornei-me criança ao seu lado, estamos aprendemos a caminhar juntos, vamos contornar toda e qualquer dificuldade que existir como o rio que contorna as pedras. Eu sei que, se preciso, ele é capaz de deixar seu próprio mundo cair pra segurar o meu. Enfrentaremos juntos os obstáculos e faremos nosso ‘felizes para sempre’.”
Lyss fez uma careta pra tanta breguice que havia acabado de escrever, mas, depois sorriu. Sentia-se tão bem e completa, como se Evan – e Philip, claro – houvesse juntado cada um de seus pedacinhos – seu lado Bruxa, seu lado Elementar – e a deixassem inteira de novo. De novo? Não se lembrava de quando se sentira assim.
Ela deixou a caneta de lado e deixou-se cair sobre a cama, estava descansando para os estudos com Evan.
– O que está fazendo? – Philip surgiu numa leve nuvem de fumaça bloqueando parte da entrada da luz pela janela aberta.
– Você e suas entradas triunfais. – ela ergueu-se revirando os olhos – Estou dançando rumba enquanto toco um saxofone, não vê? – ela mostrou a língua para ele e sorriu
– Doce como um limão. – ele aproximou-se da cama e seu cenho franziu em direção ao diário. Lyss fechou-o depressa, ter Philip compartilhando alguns de seus pensamentos já era embaraçoso o bastante. Mas, ao fazer isso ela percebeu que ele na verdade olhava pra sua mão. – Deixe-me... – ele não completou, sentou-se na cama e segurou o braço dela perto do rosto.
– O que há? – ela sentou-se melhor
Philip traçou com o dedo as marcas translúcidas sobre a pele dela, as marcas elementares cobriam grande parte do braço de Lyss agora, durante os dias que se arrastavam ela percebia que as marcas cresciam principalmente nas madrugadas. Ás vezes doía, mas, essa parte ela não contara nem a Evan nem á Philip.
– As marcas de uma Elementar contam uma história... – ele dizia como se pra si mesmo – Essas marcas... – ele continuava olhando como se tentasse ler letras miúdas.
– O que é, Phillip? – ela estava preocupada agora.
Lyss examinava as marcas de vez em quando, era ondas e símbolos pequenos que pouco significavam pra ela, alguns símbolos gritavam como se fossem palavras escritas, outros eram como se fosse um idioma qualquer.
– Você sabe que eu roubei alguns livros da Ala Azul. Sabe que também posso entrar lá, embora ainda não tenha entendido como é que o “filho do erro” pode entrar lá também. Ninguém aqui sabe o que esse menino é de qualquer forma – completou com aversão, Lyss deu um suspiro impaciente com o modo que ele falou de Evan – Os livros que eu tenho sobre o controle da água não tem nem metade desses símbolos que vejo em sua pele.
– E o que isso quer dizer?
Philip soltou-a de repente e olhou de olhos arregalados para a janela.
– Merda! – disse antes de desaparecer em mais uma nuvem de fumaça
Aquela não era uma cena incomum para Lyss, ela só sentou-se melhor e no minuto seguinte Evan surgiu – lindo, sorridente, com mais charme do que um homem tem direito – em sua janela.
– Oi meu amor. – ela disse baixinho pra ele
– Descansou?
Lyss acenou, bastou que ele estendesse uma mão para ela, Lyss enfiou o diário na gaveta do criado-mudo e foi.
Os pés dela já estavam cheios de areia, a mão de Evan estava entrelaçada com a dela.
– Sabe o que eu não entendo? Nós passamos anos estudando e lutando criaturas, aprendemos seus pontos fracos... e aqui não tem criatura nenhuma. – ela deu um suspiro desolado
– Você gostaria que tivesse?
– Seria interessante. – ela sorriu e Evan riu com o tom de voz que ela usou.
– Vocês deveriam saber que as Criaturas estão praticamente exterminadas deste planeta. Porém todo desequilíbrio gera mais monstros e é importante que vocês conheçam como se defender.
– Ah, eu não acho tão difícil assim matar um shadie, por exemplo.
Evan parou de caminhar e virou-se para ela com expressão assustada.
– Você já matou um shadie?
– Já. – deu de ombros
– Eles são as criaturas mais perigosas que existem na face da Terra. – ele falou preocupado
– Então é importante que nós saibamos matá-los. – ela piscou pra ele antes de puxá-lo para que continuassem a caminhar – Não fique preocupado, estou inteira e... sua. – sorriu, ele sorriu também.
– Essa é a melhor parte. – puxou-a para beijá-la.
Lyss afastou-se um pouco.
– Achei que tínhamos vindo aqui para estudar.
Evan riu
– Tudo bem, mas, não reclame. – ele afastou-se e soltou sua mão
– Ei, brincadeira! – tentou segurar a mão de Evan de novo, mas, ele recusou
– Vamos estudar.
– Certo, querido professor. – disse arrependida
Para Lyss agora era fácil, bastava imaginar e as gotas de água flutuavam ao redor deles, estavam no mar, a água movendo-se naturalmente em pequenas ondas sob seus pés, Evan estava diante dela e assistia á tudo sem ajudá-la. Lyss não precisava mais de sua ajuda. Ela era uma das que melhor se desenvolvera nos últimos dias, ela podia controlar a água sem muitos esforços, quando se irritava os líquidos próximos ainda oscilavam, mas, não era nada comparado á como era antes. Lyss estava quase pronta.
Em algum lugar em Miami
Lauren abriu os braços para a plateia e sorriu, as palmas eram antecipadas ao número que já era um sucesso. Seu colega de palco aumentou o som, um fundo musical sempre deixava a plateia animada. Ela segurou o bule fumegante com a mão protegida por uma luva e derramou sobre a pira que estava na mesa diante de si, a água fervente transformava-se em cubos de gelo antes mesmo de chegar á pira, o barulho dos cubos de gelo era suprimido pelas palmas, mostrou a pira cheia de gelo para a plateia e com o movimento da mão transformou o gelo em líquido, a multidão gritou quando ela jogou a água em sua direção, no segundo seguinte ela transformou a água em flocos de neve que ficaram suspensos no ar antes de cair em quase câmera lenta na plateia. As palmas agora eram ensurdecedoras. Vinny sacou o celular, sua ligação foi atendida imediatamente.
– O que é? – Winfrey disse impaciente, fez um movimento para que Douglas se calasse. Ele estava em seu escritório, sobre a mesa havia pilhas e mais pilhas de documentos de todos os Bruxos transferidos para Lisarb, a presença do “invasor” tornara-se mais forte nos últimos dias e para a segurança dos verdadeiros Elementares ele precisava descobrir quem era.
– Toc, toc. – Vinny disse antes de sorver a fumaça do cigarro. Sorriu ao ouvir o grunhir de Winfrey do outro lado da linha.
– Não é uma boa ideia me irritar.
– Vamos lá Winfrey, sorria. Tenho boas notícias. – fez mais uma pausa estratégica – Encontrei sua bruxinha.
Douglas viu Winfrey empalidecer.
– Eu disse que a encontraria, disse que você estava errado, disse que um de seus bruxos não era um Elementar.
– Como você pode saber que a bruxa que você encontrou é uma Elementar? – Winfrey esfregou as têmporas
– Huum. – ele puxou o cigarro entre os lábios mais uma vez – Padrão de marcas no braço direito, controle sobre a água e seus estados... Acho que Bruxos comuns não controlam Elementos, mas, você deve saber que toda boa notícia vem acompanhando uma péssima, não é? – mais uma pausa para dar uma baforada – Eu sei onde está sua Elementar e mais umas duzentas pessoas sabem também. Sua Elementar dá shows de seu controle sobre a água aqui em Miami. Ah! Eu não contei que estou usufruindo de seu dinheiro... quer dizer: que estou de férias, não é? Estou de férias e curtindo o show de – olhou o panfleto que tinha a imagem da garota loira mantendo várias gotas de água suspensas no ar com o movimento das mãos – Lauren – A garota que faz nevar em Miami. – e desligou deixando um pálido e assustado Winfrey do outro lado da linha.
A respiração de Evan arrepiava a pele de Lyss, ele estava atrás dela agora, tentavam algo diferente, Lyss erguia um anel de água ao redor deles, ela procurava não se desconcentrar, não era uma tarefa fácil, mas, necessária. Estava indo bem até que... Tum-tum
Lyss arregalou os olhos perdendo qualquer concentração existente, seus braços caíram ao longo do corpo e o anel de água acompanhou o movimento fazendo um alto som quando bateu de encontro ao chão. Alto pelo menos pra ela.
– Lyss? O que foi?
Evan a segurou pelos ombros virando-a quase bruscamente pra ele, sua preocupação era evidente.
– O que foi? Sentiu dor? Olhe pra mim. Está bem? – enquanto falava, tocava o rosto de Lyss muito levemente, inspecionando se havia algo errado.
Ela tocou a curva suave de seu queixo:
– Calma Evan, eu estou bem. Eu só...
Interrompeu-se franzindo o cenho pra ter certeza do que diria a ele.
– Você só o quê? – ele perguntou em expectativa
– Eu estou ouvindo... quer dizer, consigo ouvir seu coração batendo claramente, posso ouvir o sangue correndo em seu corpo, posso ouvir o coração de algumas aves – olhou ao redor a procura delas, não estavam em seu campo de visão – posso ouvir passos também, talvez os Wateaire... Consigo ouvir a milhares de metros daqui, pode acreditar? – seus olhos brilhavam
Ele riu contagiando-se com sua felicidade. Lyss sentia-se uma criança quando ganha seu desejado presente no Natal.
– Consegue ouvi-los também?
– Também? – franzi o cenho
– É, super audição é uma das minhas anormalidades.
– Parece que é contagiante. Os outros Mestres não têm?
– Não, era só eu... até agora. Pensei que seu dom era de decidir quando os outros dons agirão sobre você.
– É, foi o que Ross disse. – ela estava sorrindo, feliz – Isso é incrível, posso escutar tudo.
– Bom, você é uma Elementar, deveria ter um dom, assim como todas outras.
– Oras, você também deveria ter um dom, como os outros Mestres.
Ele suspirou com a expressão não tão feliz.
– Eu sou, digamos, incomum, Lyss.
O modo como ele disse incomum parecia mais que dissera aberração.
– Incomum combina comigo.
Ele passou as mãos, do seu ombro para a cintura, a respiração leve acariciando seu rosto, ouviu seu coração descompassado como o seu.
– Perfeição também. – ele sussurrou antes de cobrir seus lábios.
Havia mais lentidão nesse beijo do que em qualquer outro que trocaram, podia sentir que ele hesitava em terminá-lo. Cada dia eles estavam mais perto da morte, mais perto do que qualquer outro ser vivo, ele podia sentir isso na mesma intensidade que ela. Só de imaginar-se sem Evan seu corpo estremecia. Seu único consolo era que ele não morreria, a imortalidade dele lhe garantia isso. Eram apenas suposições... Mas, morrer, se fosse por Evan, lhe parecia justo.
– Não quero perder você, tenho tanto medo. – ele sussurrou
Ela não teria ouvido se não fosse sua super audição.
– Você não vai me perder, eu pertenço a você e mesmo que a vida pare de correr por minhas veias...
– Não vou deixar você morrer, sabe disso. – ele grunhiu.
– Você sabe que é imortal, sua morte é impossível.
Eles se separaram, começaram a caminhar sem destino certo depois que Lyss calçou os pés, sem mãos dadas, mas, na mesma direção.
– Impossível é inaceitável. Tudo é possível até que se prove o contrário.
– Evan, estamos falando de você, o ser mais poderoso que já houve entre nós.
– Demetree estuda formas de me matar. Ele acha que minha imortalidade é diferente de todas as outras.
Ele estava a alguns passos diante de mim, evitou olhar para Lyss ao falar de Demetree.
– Diferente como? Mais forte? – arriscou
– Não. – ele revirou os olhos estendendo a mão para Lyss, ela aceitou-a – Digamos que... anulável.
– Isso é bobagem. Não se anula a imortalidade. – claro que ela não tinha certeza, mas, era o que parecia certo. – Que história é essa de “formas de te matar”?
Ela não tinha a intenção de soar como a mãe responsável, mas, foi assim que soou, exatamente como quando ela reclamava com Lucy. Ele revirou os olhos.
– Não vamos falar sobre isso. Não está em discussão.
– Por que eu acho que você não me conta tudo? – ela parou de caminhar – Evan eu estou com você... Pra tudo. Eu quero saber de sua história. E me surpreende que você ainda pense em morte depois... – poderia soar pretensão, mas, Lyss queria que aquele pensamento dele deixasse de existir depois de tê-la conhecido.
– Lyss. – ele colocou as mãos em concha ao redor do rosto dela – Não é isso é que... – engoliu em seco – Você quer mesmo saber? – seus olhos buscaram os dela, tinha medo de qualquer reação contrária
– Eu quero.
– Então vem.
Os pés de Lyss ainda estavam cheios de areia, por isso ela passou no quarto para tomar um banho rápido, segundo Evan a história seria longa.
Na Ala ele foi buscar um livro enquanto ela ficou sentada aguardando.
– Você sabe que eu não sou o cumprimento da profecia – ele dizia, a voz ecoando no espaço – Os wateaires vieram depois de mim e, segundos os escritos o ser que seria o cumprimento da profecia seria filho de dois wateaires. – ele tirou um pesado livro da estante e colocou na mesa diante dela. – Mas, aqui – ele abriu numa página já marcada que mostrava a silhueta de uma pessoa sentada e posição de meditação e com as mãos erguidas, sobre ela pendia quatro símbolos: Fogo, Ar, Terra e Água, impossíveis essa pessoa tinha padrões brancos contornando os braços. – aqui diz que o “cumprimento da profecia” controla os quatro elementos e que, quando ele ou ela atingir o ápice a profecia vai acontecer, aqui diz também que... ele ou ela... o “cumprimento da profecia” tem padrões incomuns no braço direito. Lyss, nenhum Mestre tem padrões do braço. – ele ergueu o braço pra ela, Lyss viu a pele limpa e sem marcas.
– Evan, você não tem...
– Preste atenção, minha menina. – ele aproximou o braço e ela focou em seu braço.
Lyss viu as marcas surgirem aos poucos, subindo... até estarem perfeitamente visíveis. Eram ondas entrelaçadas, havia uma quantidade de símbolos impossíveis ali, as marcas eram tão visíveis agora que Lyss afastou-se assustada. Ela não percebeu o olhar de dor dele ao fazê-lo.
– Mas, Evan... – ela estava tonta de medo. Se ele era o cumprimento da profecia as Elementares precisavam de preparar mais depressa para... Ela lembrou de uma coisa – Mas, você precisa controlar todos os Elementos para isso e você... – buscou o olhar dele, mas, Evan não suportou manter aquele olhar, ele levantou-se.
– Lyss eu...
– Você controla todos os Elementos? – ela soluçou surpresa – Evan...
– Lyss eu sei que devia contar para os outros... mas, você não entende... Lyss – ele estava de costas para ela, não queria olhá-la.
– O que eles fariam com você? – ela sussurrou – O que fariam se...
Ela não podia completar, estava tão atordoada que mal conseguia pensar.
– Evan você só controla a Água. – era seu último fôlego de esperança – Você não é o cumprimento... – quando ele se virou tinha a mão estendida, uma chama tremeluzia em sua mão, o fogo parecia fazer parte dele.
– O fogo é o Elemento mais difícil de controlar, você demora a não se machucar com ele.
Uma parte de Lyss queria sair correndo, outra parte queria ficar e abraçá-lo. De repente ela sentiu uma presença esgueirando-se em sua mente, sondando. Soltou um gemido. Philip sabia agora e isso era realmente perigoso, podia sentir as intenções dele fluir para ela, Lyss entrou em pânico com o que ele planejava.
– Evan... vamos encerrar por aqui. – ela pediu, pelo olhar dele soube que interpretara mal, mas, isso não importava agora, Lyss precisava encontrar Phillip e impedir que ele fizesse uma besteira.
– Lyss, eu sei que estou sendo egoísta e que...
– Evan – ela falou alto – foi um erro você me contar isso, eu só quero sair daqui agora.
Ele assentiu com olhar baixo.
Escureceu depressa demais na opinião de Lyss, ela corria entre as árvores, podia sentir Philip afastando-se dela – aproximando-se do vilarejo. Ele seria capaz disso.
Por favor, por favor Philip, não conta, não conta!
Ela tropeçou, a queda abriu um ferimento em seu braço, o sangue correu quente antes do machucado se fechar.
– Pra quê tanto drama? – em um piscar Philip estava diante dela, ele ajudou-a a se erguer – Eu não devia estar aqui, alguém pode aparecer e me pegar aqui, aí ferrou tudo. – ele deu um suspiro impaciente
– O que importa já que você estava indo até o vilarejo contar á eles? – ela se afastou dele depois de estar em pé – Philip você não pode fazer isso, essa não é uma decisão sua. – ela viu Philip ranger a mandíbula
– Alyssa eu estou assistindo você namorar esse estranho há dias, você sabe que pode morrer por causa disso e agora eu posso acabar com isso, te livrar de sua própria insanidade, fazer meu papel protegendo você. Alyssa é pra isso que eu estou aqui, pra te proteger, e é o que eu vou fazer queira você ou não.
As vontades de Philip estavam ali, dentro dela, sondando as suas próprias, ele conseguia influenciá-la em muitas coisas, mas, nisso não. Lyss sabia que ele seria capaz de fazer isso porque acreditava ser o certo e Philip era assim, ele fazia coisas idiotas para proteger o que ele acreditava.
– Você vai destruí-lo... – ela balbuciou – E a mim também.
– Você sobreviveu sem ele durante anos, não vai morrer por causa disso, além do mais eu estou aqui. E é assim que acontece, a gente é partido em pedaços, emenda os pedaços de qualquer jeito e continua caminhando. Faz parte da vida.
Ela baixou os olhos, derrotada.
– Faz o que quiser Philip, mas, arque com as consequências, porque se você fizer isso eu te deixo. Tudo bem! Eu sobrevivia sem Evan e sobreviverei se perdê-lo – não havia convicção em sua voz – Mas, sobreviver nem sempre é o suficiente. Eu vivo com ele, estou inteira e feliz, porém se você se acha no direito de tirar isso de mim – deu de ombros – Fique á vontade.
Ela o viu batalhar consigo mesmo porque sentia o que ela estava sentindo. Um minuto inteiro pareceu passar até que Philip grunhisse e se aproximasse dela, ele a segurou pelos ombros e balançou um pouco.
– Sua idiota! – a voz cheia de uma raiva que não sentia por ela – Eu não posso perder você. – emendou de qualquer jeito em um murmúrio
– Então me deixe tomar minhas próprias decisões, deixe eu viver... pelo menos por enquanto.
– E você não tem nenhum pouco de curiosidade para saber o quê ele é? Lyss ele controlou o Fogo, nenhum Elementar além de Victoria e nenhum Mentor além de Félix deve conseguir fazê-lo, o que significa que ele não é nem uma coisa nem outra. O quê ele é? – ele soltou seus ombros e se virou, seu rosto demonstrando o cansaço de uma batalha perdida – Não pode tirar isso de mim... isso não. Eu vou descobrir o quê esse menino é. Vou te deixar por um tempo e buscar informações.
Lyss sentiu como se estivesse perdendo o único barco de volta pra casa, aquela sensação de chegar ao porto e ver a embarcação sumindo entre a neblina, indo para longe...
– Você não pode me deixar! – falou um pouco alto demais, deu os passos que faltavam em sua direção – Não pode simplesmente ir embora, e o meu Elemento? E nossos estudos? E... eu? – ela completou olhando para as costas de Philip, tocou seu braço e ele se virou – Não pode me deixar. – Philip a abraçou
– Eu só tenho meus poderes, eu só controlo a Água, eu só existo hoje para te proteger. Preciso saber o que ele é e... Nós precisamos de argumentos – disse com um suspiro de derrota – Os wateaires vão descobrir sobre vocês mais cedo ou mais tarde e precisamos de provas para mostrar que vocês não estão afligindo qualquer lei, regra ou o que for.
Lyss franziu o cenho e inclinou a cabeça para o lado.
– Você vai me ajudar? Vai me ajudar a ficar com o Evan? – seus lábios era quase um sorriso.
– Se isso te deixa bem. – ele deu de ombros e suspirou
Lyss conteve um sorriso e só assentiu a cabeça.
– Agora acho melhor você voltar para seu quarto, algo me diz que precisa se explicar para alguém que deve estar em seu quarto agora. – ele segurou a mão de Lyss e se teletransportou, só durou um segundo, Lyss olhou ao redor, estava diante da porta de sua Ala – Vou ficar aqui por um tempo... – ele soltou sua mão e tocou de leve a mecha de seu cabelo que agora tinha tamanho suficiente para ficar atrás da orelha – Vou proteger você. – deu um beijo em sua testa, se afastou um pouco e sumiu.
Lyss não viu Evan no quarto pelo simples fato de ele ter saído assim que ouviu os passos dela do lado de fora, Evan estava ao lado da janela e a viu ficar de pé diante desta e suspirar olhando para a floresta, ele pensou em falar com ela, mas, não sabia se conseguiria suportar mais olhares de horror. O amor também tem poder destrutivo, mas, é tão bom na maior parte do tempo que ele havia esquecido disso. Nesta noite ele não voltou ao quarto.
A luz da manhã entrou pela janela entreaberta de Lyss, estava assim de propósito, ela esteve esperando que Evan surgisse durante a noite quando ela tivesse bolado uma desculpa convincente para seu comportamento. Ela ficou na cama por um tempo e a imagem de Chris não saiu de sua cabeça, as lembranças vindo como ondas na costa, tocando-a aos poucos até submergi-la.
Ela tinha onze anos e pela primeira vez em sua vida havia encontrado um trevo de quatro folhas no caminho de volta para casa, Chris passou toda a semana em casa, estava doente, muito doente e Lyss passara a visitá-lo com mais frequência que antes, dormia sempre que podia na casa dele, a saúde de Lyss inquebrável. Nesse dia ela passou em casa apenas para deixar sua mochila e correu para ele. Chris estava sobre a cama como na maioria das vezes que fora visitá-lo, seu corpo magrelo estava mais pálido que o normal – ele ainda não surfava, mas, ainda era o melhor jogador de futebol americano e comentarista que ela conhecia pessoalmente – a manta o cobria da barriga para baixo, a mãe de Chris deixou-a entrar e foi preparar seus biscoitos de sempre enquanto ela sentava-se na cama dele trazendo o trevo numa das mãos enquanto fazia barreira com a outra mão – ela queria que fosse surpresa.
– Adivinha o que eu achei? – ela falou sorridente
Chris estava especialmente de cara fechada hoje.
– Não quero adivinhar nada a não ser que o que você tenha seja uma bola de cristal que me responda quando diabos! — vou ficar bem.
Nessa época eles xingavam quando não havia adultos perto, era como fazer parte de uma Liga Secreta.
– Errou. – ela falou revirando os olhos. Lyss não se incomodava com o mau humor de Chris, ele era a parte mais sólida de sua vida (além de Lucy) e ela entendia que aquilo ali fazia parte da solidez, da mesma forma que ela não se importaria de ter pais discutindo de vez em quando desde que tivesse pais. Esse tipo de coisa a gente só percebe quando não tem escolhas. Ter pais que discutem é melhor do que não ter pais.
– Alyssa sai daqui. Está aqui só pra jogar em minha cara que seus anticorpos são mais fortes que o meu, apesaaaaar – ele ergueu um dedo – de você não praticar um mísero esporte, você mal caminha. – ele revirou os olhos e deitou de lado lhe dando as costas.
Ter amigos birrentos é melhor do que não ter amigos.
– Eu não pratico exercícios físicos, mas, meus anticorpos sim e o tempo todo. E o que eu tenho pode te ajudar. – ela realmente acreditava em todo tipo de magia nessa época. Com um sorriso triunfante ela tirou a mão da frente da planta e mostrou para ele.
Chris arregalou os olhos e se sentou imediatamente na cama, ele ainda estava febril Lyss podia sentir, o nariz vermelho parecia pintado no meio da cara branca.
– Onde você conseguiu? Os estudos mostram que apenas uma, em mil pessoas encontram um trevo de quatro folhas.
Os estudos não mostravam coisa alguma.
– Eu sei – ela afirmou orgulhosa – É meu presente de semana da doença.
– Isso de semana de Doença pode dar certo. – ele falou realmente empolgado.
– É seu. – ela estendeu para ele
– Não seja burra – o cheiro dos biscoitos já estava no quarto – É uma chance em um milhão de conseguir qualquer coisa no mundo.
– Eu já gastei minha sorte, eu estava contando que isso te deixasse mais feliz e consegui. Gastei minha sorte – ela deu de ombros – Agora é sua vez. Até por que, de que me vale a sorte se não puder dividir com meu melhor amigo?
Chris – ainda sorrindo de orelha a orelha – segurou a planta entre os dedos com o máximo de cuidado.
– Isso é tão incrível. – ele falou e ergueu o trevo diante dos olhos – Mas, sabe o que eu acho? Eu não preciso de sorte – dizia isso como quem recita algo profundo – E acho que sua sorte influenciou diretamente na minha e posso passar adiante.
– O que você sugere?
– Acho que você deve dar a alguém que precise meeesmo de muita sorte.
– Então você tem que dar. Por que quando eu passei a planta pra você acho que é sua vez de passar a sorte, entende?
– Mas, estou doente e minha mãe não vai me deixar sair.
– Então use sua sorte para convencê-la.
No final das contas a mãe de Chris deu quinze minutos para os dois depois de passar uns dez minutos em conselhos e fazendo Chris beber mais água do que um ser humano seria capaz de suportar. Eles desceram as escadas depressa e foram para a rua, a tarde já estava caindo. Caminharam pelo quarteirão olhando para as pessoas e julgando se mereciam ou não a sorte. Eles estavam diante de um supermercado quando Lyss estava para desistir.
– As pessoas são muito bem vestidas e apressadas para se importar com sorte, Chris. – ela suspirou – Talvez devêssemos apenas jogar na rua e esperar que alguém pegue, sabe?
– Não seja tola, ninguém faz isso.
Foi quando Lyss percebeu do outro lado da rua um homem que a fitava diretamente, tão diretamente que ela chegou a se assustar. Ele vestia uma jaqueta preta e um cachecol cinza escuro, tinha um chapéu que escondia parte de seu rosto nas sombras, ele estava encostado na parede de uma casa e jogava uma moeda para cima e pegava-a no ar. De repente Lyss queria sair dali o mais rápido possível e foi o que disse á Chris.
– Mas, a sorte... – ele reclamou apontando para o trevo de quatro folhas
– Sua mãe falou: Quinze minutos e não mais que isso. – ela segurou a mão dele e puxou-o para o caminho de volta para casa. Chris foi a contragosto.
No caminho havia um homem sentado no batente de uma casa, aquele homem lhe chamava atenção porque era o humano mais feio que Lyss já vira na vida. Ele estava de cabeça baixa, chapéu preto, cachecol cinza e ela sabia que se tratava do mesmo homem, ele tirou o chapéu e estendeu diante de si, como faziam os artistas de rua esperando recompensa, mas, ele não era artista de rua, não tinha nenhum instrumento consigo ou qualquer outra coisa semelhante. O que deteve os dois foi o rosto do homem. Ele parecia cego de um olho, e esse olho era quase totalmente fechado e era como uma bola de gude azul leitosa, não existia sobrancelha sobre esse olho, todo o resto do rosto era quase perfeito, algumas cicatrizes, mas, aquele olho era assustador. O seu outro olho era verde e ferino.
– Eca! – Chris sussurrou não baixo o suficiente. Estavam a pouco mais de um metro do homem – Acho que devemos dar a ele. – falou e apontou para o trevo.
Lyss sentiu pena do homem e assentiu.
– Pra você. – Chris gaguejou colocando o trevo dentro do chapéu, o homem ergueu o olho bom para os dois e assentiu, ele olhava fixamente para Lyss. – É pra dar sorte. – o fim da frase ficou perdida quando Lyss voltou a puxá-lo para o caminho de volta pra casa. – Com uma cara daquelas, ele certamente está precisando de muita sorte, não acha?
Uma batida na porta puxou-a para a superfície.
– Entra. – disse arrependendo-se em seguida, não sabia quem era e ainda estava de pijama e com cabelos desgrenhados.
– Já sabe da maior? – era uma Cassie pulante e bem arrumada.
– O quê? Acabei de acordar.
– Vamos á Paris. – ela deu uma pirueta e bateu palmas.
– Paris?
Na Inglaterra Winfrey descia as escadas depressa, os jovens preparavam-se para mais um dia de estudos intensivos, como estava sendo desde a reunião das Elementares. Ele tinha a pasta sobre a localização de Lauren – a suposta Elementar da Água – numa das mãos enquanto com a outra discava o número de Clovis para saber como andava os preparativos para a viagem das Elementares.
– Clovis. – ele atendeu
– Como está a viagem? Elas já foram?
– Não, acabou de amanhecer aqui, mas, Ross deu a notícia para Cassie que fará bem seu trabalho de informar ás outras.
– Clovis eu quero que deixe-as o mais á vontade possível, diga que se trata de um descanso. Deixe-as fazer compras e tudo o mais que tiver direito. O Bruxo que vou levar até você é o melhor que eu conheço, não deixe que a Alyssa Sinclair leve mais que três peças de roupa, eu quero tudo o que há de pessoal dela á minha disposição e do Bruxo quando eu chegar.
– Você também vem?
– Sim... Na verdade não. Quer dizer... – ele desviou de um DDP que estava invisível e apenas segurando uma laranja – Scott espero que não esteja sem roupas – disse ferozmente caminhando para fora onde Adam e Douglas já esperavam, Nadine já estava no carro estacionado atrás do portão – O Bruxo vai chegar sem mim, ele vai receber instruções para deixar o quarto de Lyss para investigar por último porque quero estar presente, quero que você reúna o máximo de ervas capazes de ampliar os poderes possível, ultimamente ando tão estressado que minhas visões estão confusas. – falou essa última frase baixo – Você vai distribuir os quatro Elementos no quarto de Lyss, espalhados simetricamente como você sabe fazer, deixe as coisas pessoais dela onde está, é importante que ela tenha sido a última pessoa a tocar nas coisas dela.
– Eu acho que ela tem um Diário. – Clovis falou antes de pensar um pouco.
– Perfeito! – Winfrey ergueu as mãos pra cima, comemorando – Espere o momento certo e esconda esse Diário, depois apresse-a tanto que ela não terá alternativa a não ser ir sem procurá-lo.
– Certo.
– Vou ligar para Shanny agora. – falou referindo-se ao Bruxo e desligou
Douglas pegou a pasta da mão de Winfrey e puxou Adam do caminho do chefe, o garotinho ainda bocejava.
– Adam você sabe o que fazer.
Eles treinaram a semana inteira e agora Adam já conseguia teletransportar o carro e seus passageiros a lugares realmente longe, principalmente á Miami.
Douglas entregou a pasta á Nadine enquanto Winfrey entrava no carro.
– Douglas acompanhe Adam e Shanny á Lisarb. Adam deve voltar á Inglaterra em seguida para me levar á Lisarb assim que eu voltar de Miami. – ele colocou os óculos escuros
– Como você vai voltar de Miami sem mim? – Adam quis saber
Winfrey sorriu para o menino.
– Eu vou conseguir um teletransportador. Não tão bom quanto você, mas, deve me servir. – ele disse sincero.
Adam assentiu
– Quando quiser Adam.
O menino tocou o carro, concentrou-se e no outro segundo estavam atrás de um prédio na ensolarada Miami.
Winfrey já estava no telefone.
– Alyssa Sinclair – ele repetiu para Shanny – Isso! Lyss. A suposta Elementar da Água, quero que saiba tudo o que ela esconde, fui imprudente em não procurar o bastante sobre ela, mas, tem esse bloqueio... – ele deu um suspiro
– Bloqueio? Eles são raros, Winfrey, mas, não impenetráveis.
– Por isso escolhi você. – ele sorriu sabendo que estava fazendo a coisa certa. – Clovis vai te dizer quando ir á ilha. Espere o sinal dele.
– Pode deixar. – desligou
Winfrey recostou-se por um momento e suspirou.
– Essa tensão não faz bem pra habilidade de ninguém. – Nadine falou ao seu lado
– Isso vai acabar logo. – ele garantiu – Vamos em busca da Lauren-Que-Faz-Nevar-Em-Miami. Não deve ser difícil achar alguém assim.
Quando Clovis entrou no quarto em busca do Diário de Lyss ele já estava na mala entre as outras seis malas dos Bruxos. Winfrey não ficaria satisfeito com isso.
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