Série Elementares - Escolhas (LivroUm)
20 Coágulo.
A quinta-feira começou quase ao meio-dia para as Elementares, Tisha saiu com as meninas para tomar um sorvete enquanto Evan e Ross iam comprar passagens de volta e Félix passeava com os outros Bruxos pela cidade. Lyss manteve-se distante de Evan quando finalmente desceram ao saguão para esperar o carro que os levariam até o aeroporto, mas, os sorrisos e olhares que trocavam a todo tempo deixava claro que nada mudara desde o dia anterior. No aeroporto tudo ocorrera com muita rapidez, Evan pediu para embarcar por último, Lyss saberia depois que ele fizera compras para a família de Lauren naquele meio tempo, eles só chegaram a Lisarb no entardecer e praticamente todos eles dormiram até o outro dia.
Lyss estava deitada na cama acariciando a foto dos pais, sua mente estava distante enquanto via as faces risonhas do retrato, Brad era um homem muito belo, seus dentes brancos e bem alinhados formavam um sorriso tão verdadeiro, Alice, sua mãe, também parecia muito feliz. Os olhos de Lyss foram atraídos pra mão extra, a mão pálida e possessivamente localizada na cintura de Alice ainda a incomodava tremendamente.
– Ainda acordada?
– É. Estava desejando boa noite aos meus pais. – ela colocou a foto de volta ao diário e ajeitou a coberta, estava um pouco frio aquela noite
– Com sono? – ele aproximou-se
Mais uma vez Lyss percebeu o quanto Evan era bonito, era estranho como se sentia perto dele, como se pertencesse á algum lugar, como se estivesse diante de sua outra metade, a melhor parte de si mesma. Os olhos esverdeados brilhavam quando ele sorria daquele jeito.
– Você é lindo. – murmurou extasiada
Lyss podia apostar que ele corou
– E você é muito boba.
Lyss passou a mão pela franja tentando colocá-la atrás da orelha
– Boba, mas, sincera.
– E linda, incrivelmente linda.– sentou-se na cama e acariciou seu rosto
Lyss tocou a camisa dele de leve como se temesse que Evan simplesmente desaparecesse, aos poucos encostou a mão no peito rijo, ele tinha um corpo bem desenhado ao toque, parecia musculoso, mas, não do tipo fisiculturista, os braços eram grandes demais para a camisa, ou talvez a camisa fosse pequena demais para os braços, as pernas também eram grossas e bem torneadas, mesmo com aquela calça era possível perceber os contornos. Os cabelos estavam penteados com descaso e caía-lhe perfeitamente, as mechas douradas pareciam brilhar na parca luz da lâmpada do quarto.
O coração de Lyss parecia zumbir de tão rápido que pulsava, tinha vontade de puxá-lo para si e não permitir que ele se afastasse, o corpo dele chamava por ela e o contrário também era verdade.
– Está tudo bem entre nós? – ela murmurou temerosa
Ele não respondeu de imediato, com um braço em cada lado da cabeça de Lyss ele inclinou-se sobre ela, Lyss fez uma rápida análise mental e lembrou-se que trancara a porta antes de entrar, sem dar chance para um possível protesto Evan mordiscou-lhe o lábio inferior como quem suga uma fruta suculenta. Ela fechou os olhos quase imediatamente e soltou um fraco gemido, Evan soltou seu lábio e beijou os dois cantos de sua boca para depois beijá-la na ponta do nariz, Lyss estendeu a mão, impaciente, para trazê-lo de volta á boca, mas, Evan foi mais rápido e prendeu seus dois braços.
– Acha que isso responde á sua pergunta? – beijou-lhe o lóbulo da orelha e umedeceu-o com a ponta da língua
Evan mantinha-se no extremo de seu próprio autocontrole, sabia o quanto era perigoso se expor á aquele teste, todo o seu corpo parecia assustadoramente ciente da presença e respostas do corpo de Lyss. Havia algum tempo que não se aproximava de uma mulher e, embora, acreditasse que os sentimentos que o faziam ignorar as regras e correr riscos eram maiores que qualquer necessidade física, mesmo assim não podia arriscar demais. Ele se afastou um pouco, um vento frio invadia o quarto pela janela entreaberta, Lyss protestou quando ele saiu de sobre ela.
– Fica. – ela pediu baixinho
Foi o suficiente para Evan deitar-se ao seu lado, tomando o cuidado de evitar grandes contatos físicos usando o cobertor como barreira entre os corpos, abraçou-a por trás sentindo o perfume doce que emanava de seus cabelos.
– Há quanto tempo ajuda a família de Lauren? – ela perguntou tentando aliviar a tensão sexual
– Algum tempo. Sinto-me como eles, sabe? A diferença é que fui poupado por ser conveniente aos Wateaires.
– Do jeito que você fala parece que os Wateaires são o lado ruim dessa história toda.
Ele deu de ombros apertando os braços ao redor dela.
– Todo povo tem seu lado ruim, os Wateaire acham justo punir pessoas pelo simples fato de elas não controlarem seus próprios sentimentos. A regra em si não parece tão assustadora, mas, quando você vê o outro lado – ele suspirou – Essas pessoas não podem viver normalmente, acabam se tornando marginais, se circularem entre os humanos eles simplesmente são mortos, mal podem ter uma casa, uma educação de qualidade, são considerados descartáveis.
– Os Wateaire mandam matá-los?
– A família de Lauren já viajou por centenas de cidades e países até conseguir se instalar, sem ter como arrumar um emprego, sem qualquer proteção da Natureza e sob a mira dos Wateaires e DDPs acabam suicidando-se ou sendo mortos por um de nós. Isso tudo deveria ter acontecido comigo, por isso, inúmeros Wateaires me odeiam, porque eu fui a exceção, a própria natureza não me excluiu, como se eu tivesse que ter nascido, entende?
– Entendo. – mas, ela não gostava quando ele referia a si mesmo daquele jeito.
Depois de um momento de silêncio ele murmurou beijando-lhe a fronte:
– Tenho medo que isso aconteça com a gente. Eu já me sinto conectado á você, como se pertencêssemos um ao outro, não sei se posso me afastar agora e fingir que nada aconteceu.
– Você não vai fazer isso. – ela protestou virando-se pra ele – Eu quero estar com você, Evan. Sinto como se minha busca finalmente tivesse sido concluída, como se a Natureza ou sei lá quem tivesse me trazido aqui para encontrar você.
Ele acariciou o rosto dela com a ponta dos dedos como costumava fazer, contornou seus lábios e sorriu.
– Como é que você consegue me deixar assim? Eu mal consigo cogitar te deixar.
Ela sorriu
– Ainda bem. Sorte a minha então.
Ele riu abraçando-a.
– É bom correr riscos por algo que a gente acredita. – ele voltou a beijá-la
Lyss retribuiu o beijo e abraçou-o com força, ele estava quente, o oposto do ambiente ao seu redor, enquanto Evan acariciava sua cabeça meio que ninando-a ela percebia como era bom pertencer a algo, como era bom lutar por algo que a gente acredita.
O sol derramava-se para dentro do quarto ignorando o fato de as janelas estarem fechadas, Lyss acordou sorrindo mesmo depois de perceber que Evan não estava no quarto, uma flor minúscula em seu criado-mudo era prova mais que suficiente que ele estivera ali, ela pegou a flor e cheirou-a aspirando seu aroma delicado, afastou as cobertas e foi até a janela, a luz do sol ofuscou-a por um instante, quando os olhos se acostumaram a claridade ela viu Ross, Tisha, Félix e Evan brincando de Tri-ball com Marcus, Rick e os outros jovens Wateaires: Rian, Josh e Jane. O jogo ia bem até que Jane paralisou Félix tocando-o e arremessando a bola com força demais, ela bateu em um dos troncos e voou com força para o mar, o acontecido gerou risadas entre os jogadores enquanto Félix estava lá, no meio, em posição engraçada e expressão retorcida, paralisado devido á habilidade de Jane. Os risos se dobraram quando todos perceberam o fato. Lyss ria também e ao que parecia Evan escutou, virou-se para a sacada da janela e soltou um beijo discreto. Lyss corou e sorriu pra ele só pra lembrar no outro momento que ainda estava com a camisola anti-romantismo e com a cara de quem acaba de acordar, se retirou de diante da janela e correu para o banheiro. Ela penteava os cabelos compridos quando Cassie entrou.
– Você sabe que cabelos deste comprimento estão fora de moda, não é? Bom dia! – sorriu
– Bom dia. – mostrou a língua para ela – O que você sugere? – continuou escovando os cabelos
– Tesoura. Eu volto num minuto.
Cassie estava muito bonita, a maquiagem leve e cabelos brilhantes deixariam qualquer mulher com uma pontada de inveja, o mais incrível era sua capacidade de transformar acessórios simples num espetáculo lindo de se ver. Ela voltou em seguida trazendo Carlie, Nataly e Louis.
– Vamos ter que manter a franja até que ela cresça e volte ao seu tamanho original, já está bem maior do que a última vez que a notei – Cassie falava com as outras garotas como se Lyss fosse uma mera cobaia ali – Pensei em só diminuir o comprimento.
– Eu concordo. – falou Louis
– Sem muitas mudanças drásticas. E a propósito esse seu modelito precisa de acessórios. – era Carlie
Seu momento de ódio gratuito por Lyss sumira, pelo menos aparentemente, ela ainda podia raspar metade de sua cabeça se Cassie e Nataly não ficassem atentas. Ou quem sabe grudar um chiclete.
– Está mascando chiclete? – Lyss perguntou pra ela só por precaução
Carlie franziu o cenho
– Não.
Lyss respirou aliviada.
Louis e Carlie procurava um acessório para levantar o look de Lyss: camiseta branca e uma calça jeans. Encontraram uma jaqueta estilo rasgada e um cinto trançado dourado, no cabelo Cassie colocou-a de frente ao espelho, pediu que Lyss não se movesse e iniciou a divisão e redivisão para só então começar a cortar. Ela fazia comentários como: “As pontas estão uma droga”, “Acho que vou ter que cortar mais um pouco”, “Está horrível isso aqui” e amenizava com “Acho que vai dar uma melhorada” “Vamos ver se consigo revolver este problema”, “Espero que fique melhor com o tempo”.
– Seria legal se pudéssemos pintar o cabelo dela. – Nataly disse murmurando
– Eu nunca pintei meu cabelo. – Lyss anunciou
– Ah você está aí? – brincou Nataly tentando ver o rosto de Lyss através da massa de cabelo
– Nataly não atrapalhe, estou finalizando.
Aquela história de: “Estou finalizando” já se repetira algumas vezes nos últimos vinte minutos, portanto, Lyss não se animou daquela vez, tentava pensar em outra coisa, esquecer-se do barulho da tesoura e dos comentários nada animadores de Cassie. Dias pareciam ter se passado, até que as meninas se satisfizessem com o resultado, Carlie colocara o cinto dourado em sua cintura ao mesmo tempo em que Nataly a instruía para colocar a jaqueta. Cassie tirou o cobertor que servia de avental para que ela não se sujasse com os cabelos e soltou um som de admiração.
– Você está incrível!
Os cabelos estavam agora um pouco abaixo do ombro, a franja havia sido poupada e os acessórios fizeram uma incrível diferença no resultado final. Lyss sentia-se mais jovem, confiante, bonita e sexy. Sorriu pra si mesma no espelho e balançou os cabelos sem acreditar.
– Lucy adoraria vocês. – ela disse rindo
A diferença no visual foi logo notada por todos os outros ocupantes da ilha que se esbarrou em Lyss, Marcus foi o mais exagerado nos elogios, mas, Lyss estava concentrada àespera da expressão que Evan faria ao vê-la. Ele olhou-a da cabeça aos pés com indisfarçável admiração e soltou um suspiro, Lyss sorriu de volta e fez uma mesura disfarçada. Era gostoso aquele namoro escondido!
Lyss notou a expressão de aborrecimento de Evan quando Marcus acariciou seus cabelos, fugiu do afago disfarçadamente. Quando chegaram ao local onde costumavam ter aulas com Demetree tudo já estava preparado, Tisha providenciara os bancos de terra colocados estrategicamente de modo que ninguém ficasse na frente de ninguém, Demetree também já estava esperando sentado sobre o que parecia uma poltrona também de terra, tinha o rosto mais tenso que o normal.
– Bom dia, meninos. Essa manhã a aula é de vocês, não vou me estender, Winfrey está aqui e quer ver o desenvolvimento de vocês.
Winfrey surgiu sorridente de entre os Mentores que se organizaram atrás de Demetree.
– Olá garotos. – ele disse, a maioria dos rostos sorriu para ele.
– Isso é realmente necessário? – Lyss ouviu Demetree dizer entredentes enquanto Winfrey parava ao seu lado, ela não teria ouvido se não fosse sua recém adquirida super audição.
– Devo dizer que adiantei minha vinda – Winfrey continuou ignorando Demetree, chegou a dar-lhe as costas – Mas, não me contive quando Clovis me disse que vocês estavam progredindo tão rapidamente. Estou aqui como mero espectador, a minha única dúvida é... – ele fez uma pausa deslizando a atenção entre os presentes até parar em Lyss – deixo você, Lyss, como primeira ou última? – Lyss ia protestar quando ele fez um movimento com a mão – Estou interessado em você especialmente, porque você é extremamente difícil de ler, posso sentir daqui que você evoluiu a níveis absurdos e seu bloqueio está mais impenetrável do que nunca.
Lyss mexeu-se desconfortável, uma parte de seu corpo a deixou alerta, podia sentir o ácido contido naquelas palavras. Buscou Philip em sua cabeça, mas, já sabia que não ia encontrar nada. Ele estava na busca para saber o que Evan era, Lyss não tinha certeza se queria saber isso.
– Você quer que a gente se apresente pra você. – Lyss disse levantando-se – Como num circo. – os Bruxos ao seu redor riram, ela percebeu uma veia saltando na testa de Winfrey, mas, ele sorriu.
Winfrey não se deu o trabalho de responder, Evan mexeu-se desconfortável, mas, nenhum olhar mostrava mais pânico que o de Demetree – Lyss gostaria de saber o porquê. Ela foi para o centro, Tisha ergueu uma pedra do chão, ela tinha o formato de pira, resultou em um recipiente na altura da cintura de Lyss, alguém atrás dela despejou água no recipiente de pedra e ela fechou os olhos.
Estava tudo ampliado, tudo. Ela podia sentir os corpos cheios de água ao seu redor, podia ouvir os animais que se rastejavam e andavam na floresta, os corações bombeando sangue, esforçando-se para manter vivos os corpos, ela ergueu a mão sobre a água em sua frente, as partículas sendo atraídas como ímãs para a sua mão, ela abriu os olhos, petrificou as gotículas, transformando-as em gelo e deixando-as suspensas no ar, depois líquida de novo, usando a posição de combate – que Philip havia ensinado – ela fez a água passear em volta dela e ergueu acima de sua cabeça, de brincadeira fez com que a água voasse na direção dos Bruxos á sua frente, os meninos gritaram, mas, com um movimento ela conteve as gotas, elas ficaram lá, flutuando ao redor deles, imóveis, como uma chuva em pause. Alguns curiosos tocaram as gotas e molharam a ponta do dedo. Os aplausos ecoaram e Lyss realmente se sentiu num circo. Ela estava de costas para Winfrey e não o viu ranger a mandíbula e murmurar um: “Isso é impossível”. Winfrey viu o que Lauren era capaz de fazer, Nadine tocou-a e confirmou que ela era uma Bruxa Elementar também. Mas, este “também” estava todo errado. Só podia existir uma Elementar da Água.
– Então, que diabos é você? – ele pensou olhando as costas de Lyss.
Na Califórnia Lucy estava sentada no porão da casa do irmão, a casa que ele deixara para Lyss, a poeira estava bem menos do que a última vez que fora ali com os meninos, enviara uma mensagem para Lyss naquela manhã, tentou ligar para ela, mas, aparentemente as Bruxas estavam em Paris e de repente Lucy gostaria de ser uma Bruxa só por um momento. Ela tossiu ao revirar a caixa de papelão que tinha escrito: “Coisas”. Havia um retrato na pilha de papéis, a foto mostrava Brad com Lyss nos braços, o vidro estava quebrado, ela não se lembrava daquela cena, Lucy estava sozinha na casa hoje, as aulas de Chris estavam á toda, e ainda tinha os treinos de futebol e basquete... Lucy deslizou o dedo sobre o vidro quebrado, Brad sorria. Enquanto ela focava no rosto do irmão o lado de sua cabeça doeu, ultimamente era assim, sempre que buscava memórias aquele lado da cabeça latejava, ela suspirou e continuou a revirar a caixa. Um envelope amarelado lhe chamou atenção, estava meio amassado, como se alguém tivesse enfiado ás pressas na caixa, ela puxou o envelope, seu coração perdeu uma batida ao reconhecer seu nome na letra bem desenhada do irmão. Era uma carta.
Lucy abriu o envelope e puxou a folha também amassada e dobrada já gasta. As letras não estavam tão bem desenhadas assim, pareciam ter sido escritas á pressa, ela sentou-se mais confortavelmente e começou a ler.
“Mana, se você estiver lendo isso é provável que eu já tenha morrido, eu sei que é um termo feio, né? Seria melhor se eu escrevesse que eu “não estou entre vocês” ou algo mais bonito, mas, não tenho tempo pra isso. O fato é que devo estar morto e essa carta deve estar perdida entre minhas bugigangas ou será entregue pra você pelos policiais ou peritos. Quero dizer que te amo demais e espero que você tenha superado minha partida, diga á Lissy que eu a amo demais e que ela sempre será a minha garotinha. Como já escrevi não tenho tempo, mas, por favor, por favor, preste muita atenção em cada letra e cada detalhe desta carta, nada aqui é por acaso, maninha. Não posso te dizer tudo com extrema clareza, mas, há um grande segredo, Lucy. Há um grande segredo que, talvez, esteja na hora de Lyss saber. Só tome cuidado, as coisas podem ser mais obscuras do que parece. Eu te amo. Brad.”
Havia alguns números e palavras escritas aleatoriamente no rodapé da folha, Lucy não prestou atenção aquilo, a informação era clara, ou talvez não tão clara assim, ela lutava contra a emoção de estar diante de uma carta escrita pelo irmão ao mesmo tempo em que se assustava diante das palavras. Sentada, no chão do sótão, ela simplesmente não sabia o que fazer.
Depois de todas as apresentações dos Bruxos Elementares Winfrey pediu que os Bruxos montassem um feitiço, eles canalizaram a energia de Rick, multiplicando-a e fazendo com que todos eles saíssem do chão, não era um voo, mas, eles flutuaram. Winfrey foi chamado para o almoço e Lyss logo descobriu que ele não veio sozinho.
– Ei Lyss. – Nadine segurou sua mão enquanto todos iam para o salão de festas onde o almoço seria servido hoje.
– Oi Nadine. – ela tentou esticar a mão disfarçadamente, sentiu uma energia fluir para si e voltar para Nadine em proporções pequenas, Nadine segurou firme sua mão.
– Como tem sido aqui? Tão ruim quanto você achou?
Lyss deu de ombros.
– Bem normal, diga-se de passagem. – disfarçou a ironia
Elas já haviam passado pelo escritório de Clovis quando este seguiu as duas com passos apressados.
– Lyss. – ele chamou – Parece que sua tia tem qualquer coisa urgente pra falar com você. – ele apontou para o escritório — No telefone.
Lyss puxou a mão que Nadine ainda segurava e seguiu Clovis para o escritório, ele abriu a porta para ela e saiu em seguida deixando a porta meio aberta. Ao segurar o telefone Lyss se lembrou da visão de Victoria sobre sua morte. Ela queria ter tempo para se despedir da tia.
– Lucy. – ela suspirou feliz, ansiosa por ouvir a voz da tia.
– Lyss, eu te liguei, mas, você estava ocupada demais em compras na França. – ela falou esforçando-se para colocar humor nas palavras, mas, aquilo não enganou Lyss.
– O que houve? – perguntou de vez – Você está bem? Aconteceu alguma coisa com você? – fez uma pausa – Ah meu Deus! É o Chris? Como ele está?
– Ele está bem e eu também, Chris tem reclamado que não consegue se comunicar com você.
– Aqui telefones não pegam. Mas, você tem algo importante pra me dizer.
– Lembra-se da casa que eu disse que seu pai deixou pra você?
– Anrram. – Lyss não queria ter parte com aquilo porque simplesmente não suportava mais sentir dor ao lembrar-se dos pais. As pessoas diziam que a dor fica menor com o tempo, mas, é uma grande mentira. Você só se acostuma com a dor lá, alojada entre outros sentimentos.
– Eu sei que você não quer ter parte com isso e tudo o mais, só que eu encontrei uma carta de seu pai e muitos documentos confusos, e fotos estranhas, então eu acho que é importante você ver.
– Uma carta de meu pai? – ela sentou de costas para a porta e não viu Nadine espremer-se atrás dela para ouvir – Que tipo de carta? Endereçada á quem?
– Á mim, mas, eu não entendi muito e... ele fala de você.
– Eu posso tentar ir até essa casa, posso conversar com Winfrey, ele está aqui, posso falar com Clovis... – suspira.
– Eu sei que você não quer... mas, eu acho que você devia. – ela estava hesitante
– Eu quero. – ela disse levando a mão no pingente, presente de Demetree e sentindo mais falta de Philip do que nunca. – Eu só preciso falar com Clovis. – disse balançando a cabeça.
Nadine franziu o cenho e se afastou lentamente da porta percebendo que a conversa de Lyss estava no fim. Nataly também franziu o cenho ao ver a garota ali, parada, tentando ouvir o que quer que fosse que estivesse acontecendo no escritório, Nataly só precisou se esforçar um pouco para conseguir ler sua mente, ela ficou imóvel até a garota sumir no corredor, Nataly arregalou os olhos diante dos pensamentos que absorveu da garota. Desceu os degraus que faltavam no mesmo instante que Lyss abriu a porta devagar, o pensamento de Nadine fez mais sentido ainda.
– Lyss. – ela sussurrou e esticou-a pelo braço de volta ao escritório
– O qu... – Nataly cobriu a boca da menina com a mão e colocou o indicador diante da própria boca.
– Shh. – fez – Você precisa me explicar uma coisa.
Lyss deu de ombros e Nataly tirou a mão de sua boca.
– Nadine estava escutando atrás da porta sua conversa com alguém, ela e Winfrey estão aqui para descobrir o que você é. Eles estão cogitando matar você e eu não entendi nada. Você é a Elementar da Água e eles não acham isso porque existe outra Elementar da Água. – Nataly ergueu o braço de Lyss, o direito, o que tinha as marcas do Elemento – O que você é?
Lyss piscou
– Espera aê. Nadine estava ouvindo minha conversa? Mas, eu sou uma Elementar, eu controlo a Água. – deu de ombros – Isso é tudo o que eu sei sobre mim mesma nesse sentido.
– Então eles vão fazer alguma merda. – Nataly suspirou soltando-a
O almoço correu tranquilo, ao contrario do que Lyss e Nataly pensara, Nataly ficou de absorver o máximo de informações mentais possíveis e Winfrey bloqueou-a totalmente. Depois do almoço os Mentores foram se reunir com Winfrey e Demetree levou os Bruxos para a sala de aula do Instituto. Ele ensinou outros feitiços de canalizar, o que durou horas, os meninos foram jogar Tri-Ball quando a tarde estava prestes a cair. Lyss, Nataly e Louis ficaram sentadas assistindo o jogo.
– Alguma notícia? – Lyss perguntou tocando o ombro de Nataly.
– Não. – ela falou.
Louis olhou para as duas, mas, deu de ombros e voltou a atenção para o jogo.
– Minha tia quer me ver, vocês acham que Clovis me liberaria? – Lyss perguntou depois de alguns minutos
– Não sei, talvez. Ela é uma DDP?
– Humana. – Lyss respondeu
– E quem é o DDP de sua família?
– Ninguém. – ela sorriu
Louis e Nataly se entreolharam
– Você precisa ser parente de um DDP, seus pais precisam ser DDPs ou alguém muuuuito próximo.
– Na verdade seus pais. – Louis completou
Era noite. O céu repleto de estrelas que Lyss não se deu o trabalho de apreciar, estava caminhando de um lado a outro em seu quarto quando ele apareceu diante da cama.
– Deus! – ela exclamou parando assustada
– Sempre me disseram que somos parecidos. – ele sorriu para ela
– Que bom que você está aqui. – Lyss abraçou Philip com força – Estou meio desesperada aqui.
– Vamos por partes: A porta está trancada?
Ela foi até a porta e certificou-se disso, foi á janela e fechou-a também só para o caso de Evan aparecer.
– Certo. Agora vamos entender o que está acontecendo, eu sumo por poucos dias e você já faz uma bagunça. – ele revirou os olhos
– Winfrey teve aqui e ele acha que eu não sou uma Elementar, Nadine estava ouvindo minha conversa atrás da porta e acho que estou sendo alvo de espionagem geral. Minha tia Lucy me ligou e disse ter achado uma carta, quer que eu vá até a casa misteriosa que meu pai deixou para mim e veja alguns papéis e cartas que ele escreveu para ela antes de morrer – ela parou para puxar o ar – Segundo as meninas – essa era a parte mais dolorosa – eu preciso ter pais DDPs para ser uma Bruxa e talvez isso explique, porque meus pais eram humanos e minha tia é humana. Então talvez eu não seja mesmo uma Elementar, mas, eu tenho as marcas – apontou para o braço – e talvez isso seja uma grande bosta. – ela jogou-se na cama olhando para o teto.
– Primeiro: Winfrey não pode ter concluído da noite para o dia que você não é uma Elementar. Não é tão simples.
– Segundo Nataly, ele achou outra Elementar. Talvez mais talentosa que eu. – ela deu de ombros
– Não fale asneiras. Winfrey é um cara inteligente, mas, tão cauteloso que deve estar sondando.
– Nataly disse que eles vão me matar e Victoria viu isso. – ela sentou-se – Philip, ela viu minha morte. Como um julgamento.
A expressão de Philip era ferina.
– E quando você pretendia me contar essa droga? – a voz saiu ríspida
– Você tinha sumido, ok? Porque aparentemente descobrir o que Evan é é mais importante do que ficar e... Mas, que se dane! – ela levantou-se e voltou a andar de um lado a outro – Você estando aqui ou não qual seria a diferença? EU VOU MORRER. Acostume-se.
– Que inferno! – ele disse irado – Tudo isso por causa de sua teimosia. Sua insistência em ficar com esse merdinha. – a veia de sua testa saltava – Eu vou matar esse cara!
– Ele é imortal, só pra constar.
– O que significa que ele não tem nada a perder, não percebe? Ele está com você, mas, só eu tenho a perder.
– Você? – ela parou de andar
– Por que você resolveu embarcar numa missão suicida e não se importa, mas, você é a única coisa que me mantém preso no chão e... droga! Eu não posso perder você. – ele falou
Lyss abraçou-o outra vez
– A parte boa é que... quando tudo está dando errado a única opção é dar certo logo depois. – ela disse e suspirou querendo acreditar na mentira – Eu vou com Evan para a Califórnia. – ela disse cautelosamente
– Você ainda quer... – afastou-se dela
– O quê? Você quer que eu diga ao Clovis que decidi ir com um banido para a Califórnia porque ele é meu verdadeiro mentor? Forca na hora!
Ele revirou os olhos
– Eu prometo te deixar informado, mas... descobre o que eu posso ser?
Philip assentiu.
– Eu conheço Bruxos que tem uma quantidade impressionante de nomes de Criaturas e Seres possíveis de existir. Eu encontrei algo sobre Evan, mas, nada concreto.
– O quê?
Ele deu de ombros
– Não é importante agora.
Fale com o autor