Ryan

2 Eu existo!


Notas iniciais
O primeiro dia de aula e algo ainda mais assustador!

O dia está nublado, mas parece que vai chover. O dia do primeiro dia de aula chegou, sempre tive pavor desses dias.

– Ryan! — gritou Georgia — O café está pronto, já está de pé? J

á tinha acabado de me arrumar e desci para tomar o café. Não tinha nada de diferente pra mim, apenas os ovos mexidos e bacon como sempre, e para beber um achocolatado. Mas no prato de Georgia, tinha dois brioches suculentos, um pão doce com cobertura de chocolate e vitamina de frutas. Eu achei estranho e fiquei pensando o porquê dos lanches diferentes.

– Georgia, por que seu café da manhã é diferente? — fiz uma cara séria e esperei para ver qual seria a resposta dela.

Ela coçou a cabeça, me olhou nos olhos e se levantou rapidamente, retirando meu prato da mesa e o jogou no lixo. Fiquei espantado e continuei sentado, e apenas me preparei para não surtar.

– Por que fez isso? — eu disse

– Não fiz nada! disse ela — Não gosto de ser questionada de nada, o problema é meu se meu café e diferente, eu como o que eu quero, e você merece muito menos.

Olhei para ela com uma cara de quem não entendeu nada, resolvi me levantar e quando fui pegar minha bicicleta, ela veio atrás de mim.

– Ryan, me desculpa pelo que fiz, eu só queria te desejar... — ela pensou um pouco antes de continuar — ...te desejar um terrível primeiro dia de aula querido! Ela saiu rindo.

Me segurei para não voar em cima dela, mas eu sabia que tudo isso um dia teria retorno. Peguei minha bicicleta e fui à caminho da escola que ficava umas 15 quadras de casa. É tão bom sentir o vento fresco batendo em seu rosto, ter essa sensação de liberdade. Depois de pedalar um pouco, cheguei na escola, até que é bonita, três andares em um prédio largo pintado de azul e branco, um estacionamento grande, a maioria dos alunos chegando de carro com seus pais, outros a pé e outros de bicicleta como eu, o último ano escolar, não podia ser melhor.

Depois de travar minha bicicleta, fui até o mural olhar a planilha de matérias e salas, logo no primeiro dia tenho matemática com a professora Tânia na sala 308, depois Artes com o professor Ernerst na sala 204, intervalo de 40 minutos, mais tarde educação física com o treinador Robbie e por último Literatura com o professor Adam na sala 202.

Faltava poucos minutos para a aula, fui logo para a sala que só tinha duas pessoas, uma garota ruiva sentada na primeira carteira toda retraída, e um garoto de boné no meio lendo um livro. Resolvi sentar no na quarta carteira do canto direito, virado pra janela. Enquanto a professora não vinha, peguei meu iphone e comecei a ouvir música.

Alguns minutos se passaram e a professora Tânia chegou. Eu imaginava ela diferente, uns 50 anos, carrancuda, baixinha, e chata, mas não, ela devia ter uns 33 anos, com o cabelo preto quase na cintura, extrovertida e muito bonita.

Ela fez cada um se apresentar lá na frente, quando chegou minha vez, fiquei muito nervoso, mas eu tive que ir.

"Meu nome é Ryan Scartinson, tenho 17 anos, acabei de me mudar com minha madrasta Georgia para a Avenida 78, sou um pouco tímido, gosto de desenhar, ver filmes de terror, ouvir música e ler". Nem todos estavam me olhando, alguns estavam escrevendo coisas, outros olhando para fora, a professora Tânia estava sorridente.

– Seja bem vindo Ryan, espero que goste da escola — disse ela sorrindo.

Voltei para meu lugar, e notei que os alunos de trás estavam cochichando algo que envolvia o eu nome, permaneci quieto e me concentrei no exercício, de repente um estava passando bilhetinho pro outro. Alguns segundos se passaram e a inspetora veio avisar para Tânia que a diretora estava chamando.

– Aí gente, o novo aluno levou porrada, olha a cara dele — disse um fortão que estava sentado lá atrás.

– Dalton! — disse a ruiva da frente — Pára de implicar com o novato, às vezes ele mesmo que se bateu de tão retardado que é.

– Nossa! Brianna, essa foi boa — sorriu ele

Me mantive calmo, mas meu sangue esquentou mais ainda, sabia que estavam me zoando por causa do roxo do meu rosto, e porque eu sou novato. Resolvi deixar pra lá. A professora Tânia voltou e pediu para que fizéssemos grupos de cinco, nesse exato momento todos já estavam se juntando e por fim eu sobrei.

– Turma, algum grupo que ficar com o Ryan — sugeriu ela

Todos se entreolharam estranhamente como se ninguém me quizesse em seu grupo. A professora me olhou com pena e então ela resolveu me colocar no grupo do Dalton, que era formado por mais três caras fortões, Luke, Jason e Alex, e tinha uma menina só, uma loira de olhos verdes, a Aylin. Eu me sentei com eles e ficavam me olhando estranho, ninguém falava comigo. Começaram a fazer os exercícios sem nem ao menos se dirigirem a mim.

Cansado dessa situação coloquei minhas coisas na mochila, fui lá na frente e com toda a coragem desabafei. — Obrigado turma, vocês não tem obrigação de me aceitar, mas eu não vou ficar me rebaixando, não liguem pra mim, finjam que eu não exite, se querem saber, era o que eu estava fazendo desde que cheguei, fingindo que vocês não existem. Pedi licença à professora e me retirei.

Resolvi ficar em baixo das arquibancadas na minha, peguei meu iphone e comecei a ouvir minhas músicas, só elas me consolavam da solidão. Até que senti alguém cutucar meu ombro. Retirei os fones e me virei.

– Por que não está na sala de aula? — perguntou ela

– Sou novato e fingiram que não existo, preferi simplificar as coisas e ficar invisível.

– Não liga pra eles, vai ficar melhor depois. A propósito, sou Rebecca, mas prefiro que me chamem de Becca.

– Eu sou Ryan, apenas Ryan mesmo.

Becca era muito simpática, seus cabelos castanhos voavam com o vento, seus olhos estavam quase verdes por causa da luz do sol, ela realmente parecia ser legal.

– Não me diga que pegou a turma do pesadelo? Olhei curioso para ela

– Como assim, turma do pesadelo?

–A turma mais difícil de todas, onde existem os piores valentões e valentonas, aqueles que tiram sarro, implicam, debocham, até machucam quem eles acham que não é merecedor de estar na turma.

– Está falando de Dalton, Eric, Jason, Alex e Aylin? Ela afirmou com a cabeça, mas logo fez que não com a cabeça novamente.

– Menos a Aylin, ela é namorada do Dalton, só segue ele, não faz nada com ninguém.

– Eles me excluíram. Ela fez cara de preocupada e parou para pensar. — Você não deveria ter saído da sala, isso foi como um insulto pra eles, estou falando sério, eles são capazes de coisas muito sérias.

– Eu não ia ficar na sala, que seja, eles que venham. Ela pegou no meu rosto delicadamente e pediu para que voltasse à sala pro meu próprio bem. Eu fiquei na dúvida, mas não voltei.

– Já disse que não ligo.

– Tenho que ir, mas toma cuidado.

Algumas horas de passaram e nem percebi que tinha perdido as outras aulas. Voltei para o pátio principal e a professora Tânia me chamou para ir à diretoria.

– Até que enfim você apareceu — disse ela — Infelizmente tivemos que ligar para sua madrasta, você saiu de sala, não voltou para as outras aulas, e vai levar uma advertência.

Entrei na sala da diretora Miranda, e Georgia estava lá sentada, tranquila e calma.

– Ryan Scartinson, pode assinar aqui, por favor?

– Sim — eu respondi — Me desculpe diretora, não quis causar confusão. —

Apenas assine, depois sua madrasta irá assinar também. Os olhos de Georgia estavam se desviando do meu olhar, ela estava muito calma. Sem mais nem menos, ela assinou e se levantou para irmos embora. A caminho do carro, tentei puxar algum assunto, mas ela não deu ideia. Não houve diálogo algum no carro, quando chegamos em casa ela disse para eu me sentar no sofá da sala.

– Ryan, qual é o seu problema? — indagou ela

– Preferi não ficar numa sala onde ninguém quer falar comigo.

– Coitadinho dele, eles estão mais do que certos, onde já se viu, você esperava que fossem seus amigos?

– Podiam ter feito um esforço.

– Cala a boca! — ordenou ela. — Você é estranho, patético, quase nunca fala, esse seu olho azul e seu cabelinho arrumadinho não agrada nada, seu estranho! Ninguém vai querer você em nenhum grupo, um novato esquisito. Georgia ria sozinha ao falar de mim, não consegui me segurar e voei no pescoço dela.

– Escuta desgraçada, golpista de uma figa, não vou mais aturar você — eu estava apertando com muita força e ela estava ficando roxa

– Eu vou aonde eu quiser, serei desse jeito.

– Você está me sufocando, por favor pare! Tirei minhas mãos, e ela pode respirar. Ela me olhou e parecia estar com muita raiva, no momento em que ia subir para meu quarto ela e chamou.

– Ryan?

Eu me virei e ela me tentou me atingir com uma pedra de mármore que serve de enfeite para a mesa de centro. Eu consegui me abaixar e a pedra bateu na parede fazendo uma rachadura pequena. Eu subi correndo e ela veio atrás.

– Sai daqui!

– Dessa vez você não sai vivo dessa, te aturei por 10 anos e agora minha paciência esgotou. Me esquivei dela novamente, e e notei que ela tinha pegado uma faca e a qualquer momento podia fazer uma loucura. Tentei me manter longe, mas ela veio para cima, mas eu consegui pegar a faca da mão dela e lhe dei um soco. Ela caiu no chão e não parecia que ia levantar. Abaixei do lado dela, e apontei a faca para sua cara.

– Sou eu quem não tenho mais paciência. A levantei lentamente, e ela estava meio lenta, o soco foi bem forte.

– Ryan, me perdoa, eu sei que fui má esses anos todos, mas peço perdão. Olhei nos olhos dela e uma lágrima escorreu. Foi quando enfiei a faca em seu peito e ela arregalou os olhos e então a joguei escada abaixo. No momento em que ela parou no chão, seus olhos permaneceram abertos.

Eu havia a matado!