Rupturas

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Aproveitem a One e não se esqueçam de comentar o que acharam depois! ;)

Helena olhava para seu reflexo, analisando sua roupa e sua aparência para o encontro que teria com Davi naquela noite. Colocara seu melhor vestido, um azul royal que destacava seus dotes físicos e arrumara-se da melhor maneira que pôde. Seu telefone tocou. Ela atendeu no terceiro toque. Era seu namorado, já esperando na frente de seu condomínio. “Você já está pronta?”, ele perguntou. “Errh, precisarei de mais uns minutinhos”, ela mentiu.

Hoje era para ser a noite perfeita e, para isso, ela deveria se atrasar um pouco para que o nervosismo e as expectativas de Davi ficassem no nível certo. Eles já namoravam há muito tempo e essa era a primeira vez que Davi combinara um jantar num dos restaurantes mais luxuosos da cidade. Helena sentia que era esse o tão esperado momento em que ele diria “eu te amo”. E ela faria todo o possível para que isso acontecesse.

Por que isso era tão importante para Helena? Desde pequena, ela fora condenada. Ela havia recebido o dom de alterar a realidade, mas, cada vez que o fizesse, uma rachadura iria aparecer pelo seu corpo. A morte só chegaria quando todo o seu corpo fosse estilhaçado ou se ela se tornasse mortal, o que só aconteceria se ela correspondesse ao amor de um homem que se declarasse. Ela já possuía três rupturas: A primeira era uma pequena na panturrilha, quando ela, inocentemente, evocou uma boneca quando criança. A dor imediata de sua pele rachando a fez aprender a lição. A segunda vez foi pior porque ela já conhecia a dor, mas precisava de dinheiro, gerando uma nova rachadura atrás de sua orelha que descia um pouco pelo pescoço. Ela não teve escolha, passava fome e havia perdido sua casa, queimada por pessoas que chamavam-na de bruxa. Pelo menos, ela escapara. Já adulta, quando não mais envelhecia, descobriu que poderia ser curada e ficou confiante. Teve inúmeros namoros, mas todos acabavam em desastre. Os homens a traíam, perdiam o interesse, afastavam-se dela quando descobriam suas rachaduras e chamavam-na de monstro. Alguns até chegaram a confessar seu amor, mas, nesses casos, ou eles mentiam ou não sabiam que aquilo não era amor. Algumas poucas vezes, Helena simplesmente não correspondia ao amor dos homens. Mas não queria ficar sozinha, então adotou Desastre, seu labrador e criou uma terceira rachadura, localizada no abdômen, ao deixá-lo imortal. Ela não queria perder mais ninguém.

Cinco minutos se passaram. Hora de se encontrar com Davi. “Me deseje sorte, amigo”, disse a seu cachorro. Helena tropeçou e quase caiu de seu salto ao sair de casa. Precisava se acalmar ou iria estragar tudo. A ida até o restaurante foi tranquila, com eventuais risadas e piadas sobre mulheres que se atrasam. No restaurante, eles pediram alguns Canapés de entrada e a refeição principal iria girar em torno de frutos do mar.

— Helena, tem algo que eu queria te falar — Davi falou, a tensão transparecendo na voz.

— O que foi, Davi? — ela perguntava tentando esconder a ansiedade que enchia seu peito.

— Eu… Nós… Precisamos terminar — Helena empalideceu e ficou paralisada. Não, de novo não.

— P-por… — ela engoliu em seco — Por que?

— Eu estou passando por tempos difíceis agora. Perdi meu emprego, meu pai está muito doente e tenho que pagar várias contas para hospitais e impostos. Eu simplesmente não tenho espaço para um relacionamento nesse momento.

Helena tentou convencê-lo a mudar de ideia, mas nada do que dizia parecia ser suficiente. O jantar acabou pouco tempo depois, sem muita conversa. Davi ofereceu carona de volta para casa, mas ela não quis. Queria andar sozinha por um tempo para absorver tudo o que havia acontecido. Em menos de 10 minutos de caminhada, já havia tirado seu salto e andava descalça para casa. Chegou cansada e com o rosto coberto de lágrimas, sendo recebida pelos latidos de compaixão de Desastre. Ela se abaixou e acariciou seus pelos dourados, murmurando para ele “Agora eu sei o que devo fazer, meu Desastre”.

Ela se levantou devagar e se concentrou. Ela estava cansada de ser diferente, cansada de viver nas sombras e, acima de tudo, cansada da rejeição. Ela amava Davi e sabia que ele devia ser o cara certo. Ela precisava tentar. Então, ela mudou tudo: Devolveu o emprego de Davi junto com uma promoção, curou seu pai e deu o dinheiro de uma loteria para ele pagar suas contas. A dor das rachaduras surgindo em sua pele era agonizante e inimaginável, mas ela não ia parar. Ao final, ela caiu exausta no chão, dormindo ali onde estava.

No outro dia, ela acordou apenas à tarde. Desastre havia dormido ao seu lado. Dolorida, ela se levantou e foi logo conferir-se no espelho. Havia várias rachaduras em todo seu corpo: Pescoço, tronco, braços, pernas e até uma perto do olho e passando pela bochecha. O que ela fez? Não importava, agora Davi poderia quebrar sua maldição e ela voltaria ao normal. Rapidamente, ela se trocou, colocando calça, luvas, um cachecol e um óculos escuro. Parte de seu cabelo na frente da rachadura da bochecha. Em pouco tempo, estava com Davi, esperando que ele o aceitasse. Pobre garota. Agora, Davi possuía tudo e não queria mais ficar com ela. Assim como na noite anterior, ela voltou para casa chorando. Mas dessa vez, tirou quase todas suas roupas não essenciais e mostrou ao mundo suas cicatrizes. Chamavam atenção, mas, naquele século, a maioria das pessoas não parava para olhar duas vezes. Chegando em casa, ela sabia que deveria dar o troco a Davi, mas pagaria com sua vida. Ela não queria isso. Queria gastar seu último resquício de magia com o único que já a amou. Com isso, ela beijou seu Cão fiel e usou um feitiço para torná-lo humano. Transformado num loiro alto, seu cachorro pôde dizer que a amava, mas já era tarde. Ela já estava sendo consumida, quebrada em mil pedaços. Como último pensamento, ela constatou algo que sempre parecera tão errado, mas que era o seu certo: Eu me apaixonei pelo Desastre.

Notas finais
Sinto muito pela brevidade. O desafio só permitia duas páginas e precisei ir até o limite para chegar no texto que postei hehe. Para quem não entendeu, o amor dela pelo Cão não era amor romântico, mas de amizade.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!