Running Away

20 Capítulo 19 - I have no words


Notas iniciais
Hello leitores, vamos bater um papo? Eu vou ser bem honesta aqui, eu fiquei muito surpresa com os comentários do último capítulo. Não porque foram ruins, longe disso foram muito positivos, dos meus leitores mais fieis e que sempre deixam aqueles comentários dignos de uma recomendação de tão perfeitos. Mas a quantidade de comentários simplesmente despencou ladeira abaixo. Aí eu paro e penso: Como uma fanfic que tem 306 pessoas acompanhando recebe 13 comentários? Não é nem 5% dos meus leitores. Eu já estou acostumada com os fantasmas, a maioria dos leitores nunca comenta mesmo e eu nunca fui o tipo de escritora que precisa ser adulada e exige comentários, favoritos ou recomendações para postar um capítulo. Mas quem comentava também sumiu, e vocês não fazem ideia o quanto isso me preocupou. Porque já é uma ruim escrever e não ter um feedback de quem tá lendo e nunca comenta, mas escrever acreditando que quem lia abandonou a fic dá uma deprê, e isso meio que me bloqueou a continuar a escrever. Então eu me sinto na obrigação de perguntar se vocês estão abandonando a fanfic justo na reta final e o porquê. Os capítulos estão longos demais? Cansativos? Tá ruim? Falem comigo, eu não mordo. E antes que eu me esqueça Ju esse capítulo de RA é especial para você, afinal fez uma recomendação linda para War of Hearts depois de finalizada e eu não podia te deixar sem um presente de agradecimento! Obrigada por sempre me apoiar nas fics =D E a música do capítulo tem um vídeo olicity lindo, deem uma olhada: https://youtu.be/D1r9fT7YEOA Boa leitura =D

Waiting on you

Trying to keep your head strong

With nothing to lose

You raise your voice with something to prove

And all the things you say to me

I can't forget them

You don't leave

But you tell me with your eyes what you need

Oh, please

Do you think that I don't know what it means?

All the things you hide for me

I accept them

But I need you next to me

If I can't hold you now

Keep thinking that you might not come around

I have no words, I have no words to say

If I can't change your mind

Keep thinking, is this our last goodbye?

You say it first, you say it first to me

(Words — Birdy)

Tommy Merlyn

Felicity estava certa. Eu estava sendo um covarde, eu queria resolver as coisas com Helena, mas eu nunca dava um passo mais arriscado nessa direção. Sim, eu a provocava e a irritava constantemente, mas eu a conhecia bem para saber até que ponto eu poderia ir sem me queimar, e não ultrapassava nenhum dos limites. A verdade que eu não queria assumir é que eu estava numa situação confortável, eu não me importava se olhar dela para mim era repleto de raiva, ou se às vezes ela brincava deliberadamente com meus sentimentos. Eu estava perto dela e isso era muito mais do que eu merecia.

Eu não queria ter que lidar com a rejeição dela mais uma vez.

Porque é óbvio que ela me rejeitaria. Podíamos até estarmos em uma espécie estranha de trégua na qual ela parecia apenas tolerar a minha presença se controlando para não me apunhalar com o primeiro objeto afiado que visse pela frente. Mas isso era apenas porque ela precisava de mim, eu havia salvado o bar da família dela da falência e imposto minha presença no dia a dia dela, ela não poderia apenas chutar meu traseiro porta afora como ela gostaria de fazer.

Eu nunca fui o melhor com planos, depois de anos tentando uma abordagem mais sutil eu consegui usar o bar para me aproximar dela, mas isso não mudava nada. Embora eu tentasse mostrar a Helena que eu apenas queria ajudá-la, ela olhava para mim cheia de desconfiança e ainda via o mesmo riquinho egoísta acostumado a ter tudo. E talvez ela tivesse certa razão, tudo o que eu tinha para oferecer à Helena era um vergonhoso “Eu sinto muito” com cinco anos de atraso e uma lista estúpida do que eu deveria fazer para tentar reconquistá-la.

Eu queria ter mais a oferecer à ela.

Porque não havia nenhuma dúvida de que ela merecia mais de mim.

Eu poderia arriscar tudo agora e fazê-la me escutar sobre o nosso passado e aceitar que depois disso não haveria mais meio termo, não haveria mais trégua. Ou Helena me chutaria para o inferno com minhas desculpas vencidas, ou com muita sorte, talvez, só talvez ela pudesse ver que eu estava sendo sincero e me desse mais uma chance.

Talvez era uma grande merda.

Eu odiava a imprevisibilidade de um talvez.

Eu queria a porra de uma certeza de que apesar de tudo eu ainda tinha uma chance de me redimir com ela, e talvez recomeçarmos o que perdemos. Olha aí, a porcaria de um talvez novamente.

Mas eu não podia prologar isso por mais tempo, já era hora de Helena e eu acabarmos com esse joguinho, as coisas precisavam ser esclarecidas entre nós. Era hora de eu deixar de ser o covarde que Felicity me acusara de ser. Eu precisava me desculpar com todas as palavras, mesmo que com cinco anos de atraso.

Nem que isso acabasse em uma grande merda.

E iria. Eu conhecia minha Helena bem o suficiente para saber que um “me desculpe” não consertaria nada, e apenas abriria velhos ressentimentos, mas eu precisava estar pronto para o que eu recebesse dela. Respirei fundo e abri a porta do estoque fechando-a silenciosamente atrás de mim, dei passos ainda mais silenciosos até ela que tinha uma prancheta na mão e checava alguns itens das prateleiras, enquanto cantarolava uma música qualquer. Me permiti um momento para contemplá-la, seus quadris balançavam sutilmente de um lado para o outro seguindo a batida da música que apenas ela escutava, seus cabelos negros caiam em sedosas camadas até a cintura, lembrei-me da época em que eu costumava enrolá-los em meu ante braço e puxá-lo para trás durando o sexo apenas para escutá-la gemer enquanto eu deslizava minha boca pela extensão do seu pescoço gracioso, ou ainda como eu gostava de deslizar meus dedos por ele durante as manhãs enquanto ela ainda estava dormindo.

Eu sentia tanta falta disso.

De poder tocá-la, de sentir a maciez dela.

— Helena. — Sem que eu pudesse perceber o nome dela escorregou de meus lábios num tom lânguido de pura saudade. Ela pulou virando-se para mim completamente surpresa com minha presença. Eu tolamente sorri, não era sempre que eu a pegava com a guarda baixa. — Você continua sendo uma péssima cantora.

— O que faz aqui, Merlyn? — Seu olhar, como sempre veio até mim cheio de repreensão e uma dose de hostilidade.

— Apenas apreciando o show. — ela torceu o lábio para mim numa carranca, e eu soube que tinha começado com o pé esquerdo. Nada de charme barato com ela, seu burro! Me critiquei, se havia alguém que havia desenvolvido uma estranha imunidade ao meu charme esse alguém era Helena Bertinelli.

Eu estava fora do meu elemento. Sorrisos de canto não funcionariam e era melhor jogar meu estoque de cantadas na lixeira, a não ser que eu quisesse acabar fatiado em pedacinhos e guardado dentro do freezer.

— Eu pensei que poderíamos conversar. — tentei novamente sendo mais sério dessa vez.

— Por quê? — Cruzou os braços se colocando na defensiva, seu olhar era frio debaixo das sobrancelhas erguidas daquele seu jeito tão característico.

— Porque... Droga Helena... — me aproximei e tentei tocá-la, eu não poderia conversar com ela se ela fosse adotar sua postura cética de rainha do gelo, mas é claro que ela se afastou do meu toque, dando um passo para trás, quase chocando-se com a prateleira. — Uma hora ou outra teremos que falar sobre o passado, não podemos trabalhar juntos todas as noites e evitar o assunto para sempre, não acha melhor apenas terminarmos logo com isso? Colocar todas as cartas na mesa?

— Você pode simplesmente parar de trabalhar aqui, eu não preciso de você. — eu poderia congelar com a frieza em seu tom.

— Nós precisamos acertar as coisas entre nós. — Insisti. — Nós devemos isso um ao outro, depois de tudo o que vivemos.

— Diabos, você poderia ser mais cínico? — revidou num tom ácido, mandando a aparente frieza para o inferno — Porque agora? Porque não cinco anos atrás quando eu estava numa cama de hospital? O que você quer de mim agora, Tommy? Eu não entendo! Você fugiu naquela época e para a sua sorte as coisas terminaram bem para você. Eu perdi o bebê que você não queria e te livrei de todas as responsabilidades daquela época. Pode me explicar, porque diabos depois de tanto tempo você quer retomar essa história? — ela explodiu deixando a mostra o quanto aquele assunto ainda mexia com ela — Eu estou te dando carta branca para ir embora agora e esquecermos isso, mas você continua aqui, me rondando como uma maldita e irritante mosca.

— Porque há coisas que eu não te disse naquela época! — Quase gritei tentando me impor em meio ao furacão que era Helena Bertinelli, eu devia à ela não apenas desculpas, mas também algumas explicações, eu queria que ela me ouvisse, mas fazer aquela mulher me ouvir era como colocar fogo na água — E há algumas coisas que eu gostaria de não ter dito. — Completei, me lembrando com vergonha do que havia dito à ela quando discutimos há cinco anos.

— Qual delas? — seu tom ficou assustadoramente calmo, quase apático me adiantando que eu não gostaria do que viria a seguir — A parte em que você sugeriu que talvez não fosse o pai? Ou ainda ofereceu dinheiro para que eu apenas sumisse da sua vida e te desse um minuto de paz? Ou a parte em que você me chutou para fora da sua vida no instante em que eu te contei sobre a gravidez? — Ela disse friamente e eu me encolhi, ela havia me pegado no pior momento possível para me dar aquela notícia, isso não justifica o que eu fiz, eu tentei voltar atrás, eu tentei ir até ela, mas aí já era tarde demais, Helena já havia perdido tudo e eu me afastei, porque eu sabia que me ver apenas seria ainda mais doloroso para ela.

— Eu sinto muito, Helena... — Ela me ignorou revirando os olhos, como se minhas desculpas passassem por ela e sequer a atingissem. — Eu sei que nada do que eu diga vai mudar o passado, mas...

— Ainda bem que sabe! — me interrompeu passando por mim sem despender um olhar, e caminhou até a porta girando a maçaneta várias vezes — Você trancou a porta! — Me acusou apontando o dedo em riste — Seu filho da puta!

— Eu não! — Me defendi indo até ela e forçando a maçaneta.

— Eu te conheço, você não é exatamente o tipo de cara que aceita um não! E isto é tão estupidamente a sua cara! — Ela reclamava enquanto eu tentava forçar a porta a se abrir e a bendita maçaneta simplesmente soltou na minha mão. Helena olhou para o objeto de metal, e depois para mim, e se um olhar matasse eu seria nada mais do que um cadáver agora — Então qual é o plano, ficarmos trancados aqui até que eu aceite suas pobres desculpas? Ok, está desculpado, Tommy, pode tirar esse peso da sua consciência e voltar a vida de riquinho mimado. Agora destranque a porta!

— Eu não tenho a chaves, Helena! — me defendi — Felicity deve ter nos trancado aqui achando que nós... — balancei a cabeça, aquela loirinha teimosa iria me pagar por tentar dar uma de cupido, eu pensaria nisso depois, mas agora eu tinha que lidar com Helena e suas tendências assassinas — Acha que gosto da ideia de estar trancado com você? Tem facas aqui, Helena, você poderia me picar em vários pedacinhos — Tentei soar divertido, mas pelo olhar mortal que Helena me lançou, dava a entender que ela estava cogitando seriamente aquela opção.

— Eu vou acreditar nas suas boas intenções. — ele fez sinal de aspas com os dedos, deixando claro que não confiava nenhum pouco em mim, mas que iria ignorar isso por enquanto — Apenas me dê seu celular antes que alguém saia gravemente ferido daqui — pediu esticando a mão, esperando. Enfiei as mãos nos bolsos de minhas calças, encontrei minha carteira, chaves do carro, a lista qual dobrei rapidamente voltando a guardá-la seguramente no bolso. Praguejei baixinho me lembrando de tê-lo deixado em cima do balcão do bar.

— Eu não estou com ele. — murmurei.

— Mas é claro que não está! — ela jogou as mãos para o alto. — Que conveniente. — ironizou.

— E onde está o seu?

— Sem bateria. — deu de ombros.

— Que conveniente. — repeti no mesmo tom irônico, recebendo seu olhar assassino de volta — Teremos que esperar por Felicity até amanhã a tarde? — perguntei um pouco aflito, eu não sei quanto tempo duraríamos ali, sem que Helena começasse a atirar coisas em mim.

— Pare de agir como se estivéssemos naufragado em uma ilha deserta no meio do nada.

— Na ilha ao menos eu teria melhor chance com os tubarões. — Helena revirou os olhos e continuou a falar.

— A diarista chega às nove da manhã, ela tem que limpar o estoque e tem uma chave reserva. — comentou, não parecendo muito satisfeita.

— Ao que parece vamos passar a noite presos até amanhã, eu quero a poltrona que parece mais confortável. — falei, já jogando meu corpo nela e apoiando os pés sobre a mesa.

— Sem chance. Eu já tive minha amostra grátis do inferno, não preciso de oito horas trancadas com você, para mais reviver isso. — ela veio até mim me erguendo pelo braço e me obrigando a ficar de pé — Faça alguma coisa de útil e arrebente essa porta.

— Como? — pisquei.

— Como todos os homens fazem nos filmes, é só tomar distância e correr em direção a porta, Merlyn. Não é grande coisa! — explicou sem muita paciência.

— É uma porta de metal, eu vou me arrebentar todo! — ela lançou-me um olhar de desafio e cruzou os braços e encostou o corpo contra a parede apenas esperando, eu ainda tinha um pouco de orgulho masculino em mim, o que me tornava susceptível à ideias ruins. Tomei um distancia até o outro lado do cômodo, e corri em linha reta em direção a porta, na metade do caminho eu achei que aquela era uma péssima ideia, e quando eu trombei com tudo na porta eu tive a certeza.

— Merda! — Eu gritei assim que senti o impacto, a maldita porta sequer se mexera, enquanto meu corpo escorregou mole que nem gelatina para o chão. Levei a mão ao ombro que latejava, ergui meu olhar cheio de orgulho ferido para Helena que apenas ria. Eu não sei ao certo o que eu esperava, eu não tinha pensado muito sobre isso, e definitivamente eu devia ter pensado, eu culpo Helena e seu olhar desafiador, eu me culpo por ser um idiota sempre tentando provar algo à ela.

— Eu não achei que você fosse realmente fazer algo tão tolo. Mas eu me esqueci que você é Thomas Merlyn e que sempre está fazendo coisas estúpidas. Você provavelmente deslocou o ombro. — ela se aproximou balançando a cabeça — Eu acho que tenho um pouco de gelo aqui.

— Eu não tenho culpa se me deixo influenciar por você. — devolvi com certo humor enquanto ela voltava jogando para mim o que deveria ser um saco de ervilhas congeladas — Você é sempre o diabinho sobre o meu ombro. Lembra-se daquela vez no segundo ano, quando me convenceu que seria uma ótima ideia alterar as notas dos testes de matemática? — Não sei o que ativou a memória no meu cérebro, mas foi uma boa jogada, Helena sorriu parecendo se lembrar daquela época com o que me atrevi a pensar, pudesse ser saudade.

— Eu ainda me pergunto como você conseguiu entrar na sala dos professores sem ser pego. — ela escorregou na parede se sentando ao meu lado.

— Esse é um segredo que levarei para o túmulo. — brinquei e Helena me lançou um olhar de esguelha, seus malditos olhos azuis me cativando por trás dos longos cílios pretos que ela piscava para mim, foi fácil me tornar refém deles novamente — Eu cantei a secretária. — Confessei e Helena começou a gargalhar.

— Eu sabia! Era por isso que a Sra. Robbins sempre me olhava torto quando a gente passava juntos pelo corredor! Você é um prostituto Tommy, não acredito que se vendeu por causa de uma nota!

— Urgh. — expressei meu horror — Eu não fiz isso, eu só me aproveitei da preferência dela por garotos mais novos. — Helena ergueu ambas as sobrancelhas para mim — Isso soou terrível! O importante é que fui pego e fiquei suspenso por três dias, então a Sra. Robbins não recebeu o acordado, não que eu pretendesse dar nada à ela de qualquer forma. — me apressei a deixar claro.

— Prostituto. — ofendeu com humor.

— Mais cuidado com as ofensas, se me lembro bem o prostituto aqui, mesmo sendo pego, te garantiu um A+ na matéria.

— Merda, aquilo salvou meu ano letivo, vou ficar em débito com você nessa.

Nós dois rimos.

Helena e eu estivemos juntos por muito tempo, a nossa história podia ter acabado de um jeito terrível, com muita dor e mágoa. Mas tivemos nossos momentos bons, e eles foram muitos e foram incríveis. Será que algum dia as coisas boas poderiam superar as ruins?

— Nós éramos bons juntos, Helena, quando eu olho para trás eu vejo apenas lembranças nossas, cada momento feliz da minha vida, você estava lá, e até mesmo nos ruins, você estava lá os tornando melhores e suportáveis. Quando foi que deixamos de ser bons um para o outro? — eu sabia a resposta para essa pergunta, e a medida que Helena pensava na resposta também eu vi o seu riso sumir e seu rosto endurecer — Eu nunca desejei que você perdesse o bebê, eu amava você e o bebê era parte de você, parte de nós, parte do que sentíamos um pelo outro eu o amava também. Eu queria ter dito isso antes que tudo desse errado — o olhar dela deixou de me encarar — Eu estava assustado, estava tendo problemas com meu pai e agi como um babaca descontando em você, eu me arrependi no mesmo instante. — confessei — Eu realmente sinto muito, Helena, por como as coisas terminaram, eu só queria...

— Precisamos sair daqui! — Suspirei vendo Helena se levantar e caminhar em direção à porta, cortando o que eu tinha a dizer a ela. Eu estava quase conseguindo chegar até ela, eu vi suas defesas caírem, mas ali estava ela novamente, parecendo impenetrável, como se as minhas palavras não tivessem importância para ela.

Não dessa vez.

Eu estava cansado do falso autocontrole dela, ela precisava desabafar explodir e destruir tudo a sua volta como o vulcão que era a antiga Helena Bertinelli. Ela tinha guardado muitos anos de ressentimento, e isso tinha feito apenas mal à ela, já era hora do vulcão entrar em erupção, mesmo que eu saísse destruído por estar no seu caminho.

— Porque você sempre foge? — me ergui jogando o saco de ervilhas no chão e ficando de frente para ela — Porque não para de se esconder atrás do sarcasmo e do sorriso forçado e me enfrenta? Porque coloca essa máscara de foda-se o mundo e finge que nada é capaz de te atingir? Vá Helena, coloque para fora, diga toda a merda que você realmente pensa de mim! Faça o seu pior. Eu estou aqui, eu sou o culpado por toda a dor e reviravolta que a sua vida sofreu desde aquele dia cinco anos atrás, faça-me pagar! — exigi, tentando forçar uma reação dela.

— Você foi um cretino, um riquinho mimado e eu te odeio. — ela cuspiu as palavras, o brilho de fúria em seu olhar dizendo para que eu tivesse cautela, mas eu não teria — É isso o que quer ouvir? Eu te odeio seu desgraçado filho da mãe!

— É o melhor que pode fazer? Estou desapontado... — ela bufou para mim — Vamos Helena, você sabe que eu mereço mais do que alguns xingamentos! Você perdeu nosso bebê por minha culpa, seus pais morreram por minha culpa. — as palavras amargaram em minha garganta, mas eu não hesitei e continuei — Faça o seu pior! — E ela fez, sua mão veio direta e sem aviso e estalou no meu rosto fazendo-o arder. Helena olhou da palma da própria mão para o meu rosto, e expirou pesadamente. E então ela me bateu outra vez, dessa vez em meu peitoral com as mãos fechadas em punhos, a cada novo golpe ela soltava um novo palavrão e eu sentia um pouco mais dela se soltar, um pouco mais da raiva contida que ela jogava em mim deixava seu coração. Até que em um momento ela simplesmente parou e me encarou com seus olhos grandes brilhando, sua respiração descompassada fazendo seu hálito fresco inundar meus sentidos.

— Já me bateu o suficiente? Já descontou toda a raiva que sente de mim? — Me atrevi a perguntar. Sim, eu tinha tendências masoquistas.

— Agora eu acabei. — Ela disse depois de acertar mais um tapa na minha cara e eu segurei o sorriso porque, bem, primeiro porque minha face doía um pouco para sorrir e segundo eu a conhecia bem, ela precisava ter sempre a última palavra.

— Bom. — estávamos pertos, mas me aproximei ainda mais, tão perto que nossas respirações se mesclavam, tão perto que eu conseguia escutar a pulsação acelerada dela — Talvez seja a hora de resolvermos isso de um outro jeito então. — Meu olhar caiu sobre o dela, eu não a deixaria fugir dessa vez.

— Talvez. — Ela soprou a palavra e eu não sei que agiu primeiro, Helena ou eu, mas eu não me importava. Ela enlaçava meu pescoço puxando minha boca para si, eu a empurrei até a mesa mais próxima, batendo em algumas prateleiras pelo caminho e fazendo coisas caírem ao chão, mas isso não vem ao caso. Me instalei entre as penas de Helena que estava sentada sobre a mesa, e nós nos beijamos.

Eu havia me esquecido o quão era fácil me perder naqueles lábios carnudos, o quanto estar com ela parecia certo. Deslizei minhas mãos por seu corpo, tentando não agir como um adolescente eufórico quando finalmente consegue ficar com a garota que tanto queria. Eu queria ir mais devagar e tornar esse momento memorável para nós dois, mas Helena não jogava limpo, suas mãos adentram sob o tecido da minha blusa, suas unhas grandes arranhando-me na região do tórax enquanto sua boca sugava a minha de um jeito sexy e apaixonado que apenas Helena conseguia.

Eu deslizei uma das mãos por seus cabelos sedosos os torcendo envolta do meu ante branco como eu tanto queria fazer, Helena gemeu contra meus lábios e eu desisti do meu intuito de ir devagar, as coisas entre nós nunca foram devagar de todo modo. Éramos explosivos, desesperados e acelerados, e isso era bom e ao mesmo tempo ruim.

Nós éramos insaciáveis no sexo, mas também nas brigas.

Era um extremo ou outro.

Nada de meio termo.

— Helena. — com muito custo afastei minha boca da dela e a encarei — Tem certeza disso? — Perguntei, mas segurando firme em sua cintura e inclinando meu corpo para o dela deixando claro o quanto eu queria isso.

— Talvez dê certo. — Ela me olhou por meio segundo e voltou a me beijar calando qualquer dúvida minha.

Talvez houvesse uma chance para nós afinal.

Talvez minha lista não fosse tão estúpida assim.

Talvez.

Talvez.

Talvez era a palavra mais linda e cheia de esperança que existia.

***

Felicity Smoak

Eu me vi novamente naquele porão escuro.

Na verdade a escuridão me impedia de ver muito além da luz amarelada que entrava pela pequena janela que ficava no alto e do outro lado do cômodo, mas eu não precisava enxergar para saber que eu estava lá mais uma vez. Eu sentia o chão frio sob meus pés descalços, o odor fétido do que eu sabia ser do corpo morto de Cooper entrava pelas minhas narinas e fazia meus olhos arderem.

Esse lugar havia deixado uma impressão muito marcante em mim, eu o reconheceria mesmo de olhos fechados, mesmo que apenas estivesse passando por perto. Não havia como não reconhecer o arrepio gélido que percorria a minha espinha fazendo todos os pelos do meu corpo se arrepiarem, a sensação de medo antecipado tomando conta de mim, porque eu sabia que se eu estava novamente nesse lugar, ele também estava.

Eu andava tocando as paredes tolamente em busca de uma saída, mesmo que eu soubesse que não havia uma. O desejo de sair me sufocava, era mais forte do que eu, porque eu sabia que nada de bom aconteceria naquele lugar, as coisas ficariam apenas piores e eu precisava sair antes que isso acontecesse. Maldita esperança que não nos permite desistir jamais, que planta em nossos corações que há sempre um jeito ou uma saída, ou ainda que temos coisas boas pelas quais vale a pena continuar lutando. É tudo muito lindo e belo, mas nada disso funciona na prática, não quando você precisa lutar contra um monstro, não quando tudo o que esse monstro quer fazer é destruir você, seus sonhos, sua vida, sua maldita esperança.

E às vezes os monstros vencem.

Eu fechei meus olhos assim que a luz se acendeu. Escutei o som de passos descendo as escadas e de alguma coisa pesada sendo arrastada por ela, eu apenas deixei meu corpo se encostar contra a parede áspera enquanto tomava uma última respiração. Eu não queria vê-lo, eu não queria permitir que aquela imagem novamente entrasse em minha mente e formasse novas lembranças ruins, por isso apertei meus olhos forçando-me a não ter nada além da escuridão, eu a preferia mil vezes a ter que encará-lo. Mas fui ingênua, a escuridão não me impediu de sentir sua presença quase tóxica ou ainda de ouvi-lo, e verdade seja dita a sua voz me causava ainda mais calafrios do que a simples imagem do seu rosto.

— Oh, querida! Abra seus olhos, eu tenho um presente para você e você vai amar. — a voz reverberou pelo cômodo, causando uma estranha amplitude me impedindo de saber se ele estava muito perto ou não. Processei aquelas palavras com cuidado tentando entender o que ele escondia por detrás delas, a mera ideia de amar algo vindo dele me preocupava fazendo meu estômago revirar. — Abra ou eu terei que ir até você e ensiná-la a ser mais obediente! — Eu abri meus olhos, porque não o queria perto de mim, mas ironicamente, ao fazê-lo o que vi, o tal presente que eu amaria, me fez dar passos desesperados em sua direção.

Essa era a primeira e possivelmente a última vez que eu corria para ele, e não dele. Mas eu tinha um motivo muito bom para fazê-lo.

— Oliver. — seu nome saiu de meus lábios como um lamento, eu sabia que isso aconteceria, e eu sabia que tudo terminaria assim. Lawton tinha Oliver consigo. Ajoelhado ao chão a sua frente, mãos presas às costas e tão ferido e machucado que era uma surpresa que ele ainda conseguisse se manter erguido.

— Seu nobre policial. — Lawton disse com sarcasmo — Ele fez o melhor para te proteger, ele deu tudo de si apenas por você. Eu me questiono se valeu a pena fazer tudo isso, se ele a amava tanto assim ao ponto de sacrificar a se mesmo. — Com muito esforço Oliver ergueu o rosto para mim, seus olhos me dizendo que valera a pena cada minuto e que ele faria tudo outra vez, quantas vezes fossem necessárias.

— Oliver? — Me aproximei um pouco mais, sem saber o que eu deveria fazer ou dizer. Meu coração estava agoniado, eu tinha na minha frente homem que me ensinou a amar novamente, que abriu meu coração e reivindicou seu lugar dentro dele. Oliver me curou, quando eu sequer queria ser curada, ele me mostrou a luz quando eu estava tão acostumada a viver na escuridão que até mesmo ela me feria. Ele me mostrou que a vida pode ser mais, que eu tinha o direito de vivê-la e de ser feliz, que não deveria deixar um monstro como Lawton tirar isso de mim. Mas eu olhava para ele ali, subjugado, e eu sabia que era culpa minha, eu coloquei um alvo em suas costas no instante em que atrevi a amá-lo. — Eu sinto muito. — Desculpas, era tudo o que eu poderia oferecê-lo nesse momento.

— Ele não pode falar, querida. — a voz de Lawton soou divertida ao me ver encarar Oliver, esperando que ele dissesse algo para mim, me desculpasse por tê-lo trazido para a minha vida — Achei que seria mais divertido se ele nunca conseguisse pronunciar as últimas palavras.

Eu olhei com horror para o meu captor, para seu semblante descontraído com um meio sorriso vencedor. Eu não fazia ideia do que mais ele poderia ter em mente, mas eu não me importava mais, tudo o que eu tinha na minha era Oliver, se esse era o nosso fim, eu queria lhe dar uma última lembrança feliz.

Me aproximei me ajoelhando a sua frente. Meus dedos trêmulos tocando seu rosto ferido com delicadeza, fazendo-o suspirar ao sentir meu toque, eu o encarei e segurei as lágrimas sentindo um bolor se formar em minha garganta, eu não sei como, mas no meio de tanto horror eu simplesmente sorri para ele.

— Eu amo você. — as palavras soaram fortes, contrariando tudo em mim que se sentia fraco e impotente naquela situação. Oliver conseguiu exibir um sorriso amplo sujo de sangue, seus olhos brilharam de volta para mim. Deus! Ele ainda me olhava com tanto amor, com tanta devoção, que palavras se fizeram desnecessárias tamanho eram os sentimentos que um único olhar era capaz de transmitir. Eu sorri para ele uma última vez, meu sorriso contrastando com as lágrimas mudas que desciam pelo meu rosto porque eu sabia o que aconteceria a seguir. Não havia outro meio de isso terminar, eu ergui meu rosto para meu captor, pronta para barganhar pela vida de Oliver, pronta para abrir mão da minha liberdade, da minha própria vida por ele se fosse necessário. — Floyd... — Senti o primeiro nome amargar em minha boca, eu odiava sequer pensar em seu nome, por isso que por muito tempo me referi como “ele” na ilusão de torná-lo um monstro e não apenas uma pessoa real com um nome, que me fazia sentir suja apenas em dizê-lo. Ele direcionou um olhar para mim, parecendo curioso e interessado por um momento, mas não o suficiente para soltar Oliver. — Eu faço...

— Qualquer coisa que eu quiser, se eu apenas for misericordioso e soltá-lo? — ele sorriu abertamente depois de completar a minha frase, fazendo minha alma congelar por dentro enquanto eu assentia com a cabeça. Mas não era como se ele fosse alguém que estivesse disposto a negociar. Ele já tinha minha vida em suas mãos, o que quer que viesse a seguir seria apenas mais uma parte do show de horrores que ele me apresentaria.

— Por favor? — Eu estava tão desesperada, e não me importava se tivesse que implorá-lo.

— Eu vejo o quanto você o ama — as palavras dele soaram apáticas e seus olhos vazios me encararam. Ele poderia até dizer que via meu amor por Oliver, mas alguém como ele jamais seria capaz de compreender esse sentimento. — E esse é o problema, querida. Eu não quero que você ame ninguém, e a essa altura você já deveria saber que é melhor fazer o que eu mando. — havia algo em seus olhos vazios de qualquer sentimento ou emoção, ou ainda na voz monótona e arrastada que me assustava, era quase como se ele estivesse se controlando demais — Amor é uma bala no seu cérebro. — Pisquei diante da frase aleatória — É isso o que acontece quando você ousa amar alguém. — A voz de Lawton soou monótona e num movimento rápido ele tirou um canivete do bolso, o pressionou com força no coração de Oliver e jogando o corpo dele ao chão. Eu caí de joelhos e apenas observei aquela imagem terrível na minha frente. Foi como se o tempo congelasse, enquanto eu me dava conta de que Oliver estava morrendo. Meu coração parou, eu não enxergava nada mais a minha frente que não fosse o vermelho do seu sangue se amontoando sobre o seu peito e escorrendo pelo assoalho de madeira, tudo o que eu escutava era um grito desesperador e agonizante que ecoava pelo cômodo, entrando por meus ouvidos e me fazendo surda para todo o resto ao meu redor.

Demorou um espaço longo de tempo para eu compreender que era eu.

Era eu.

A pessoa gritando desesperadamente era eu.

Era a minha alma que havia se partido ao se dar conta de que Oliver estava morrendo e não havia nada que eu pudesse fazer a não ser assistir, e eu ainda era a culpada da morte dele. Porque ousei amá-lo.

Me arrastei até seu corpo sem vida, tocando-o esperando que meu toque fosse capaz de curá-lo magicamente, busquei por seus olhos azuis que ainda permaneciam abertos, mas que não tinham mais aquele brilho travesso que me irritava e ao mesmo tempo me cativava — Eu vou tirá-los de você, um por um, Felicity. Até que não sobre mais ninguém. — Floyd alertou, senti suas mãos pesadas acariciando meus cabelos enquanto ele dizia a última frase — Você pertence a mim e a mais ninguém, eu vou matar qualquer um que ouse pensar ao contrário.

***

— Não! — Gritei tão alto que senti meus pulmões arderem, sentei-me a cama levando a mão ao meu coração que palpitava tão desesperadamente que parecia querer saltar do peito a qualquer instante. Tateei o colchão em busca de Oliver, eu precisava tocá-lo, sentir que ele ainda estava aqui, comprovar a minha mente de que nada naquele pesadelo tinha sido real. Mas meus braços buscavam por seu corpo ao meu lado da cama e nada encontravam além do vazio, deixando irracionalmente desesperada. — Oliver! Oliver! Oliver! — Comecei a chamar sentindo um bolor maior se formar na minha garganta, cada vez que notei que ninguém me respondia.

O pesadelo tinha sido real?

Ele havia matado Oliver?

Meu coração reagiu a isso violentamente, eu tentava o convencer de que tinha sido apenas um pesadelo. Mas minha mente estava confusa, era difícil desassociar o que era real do que não era, porque a dor de perdê-lo era real demais para ser ignorada.

Escutei o som de uma porta batendo com força contra a parede e a luz se acendeu de repente machucando meus olhos ainda desacostumados e vi Oliver de pé, do outro lado do quarto próximo ao interruptor. Exalei um suspiro de puro alívio, me dando conta de que havia sido apenas um pesadelo, impactante, mas ao menos diferente dos outros esse não era feito de lembranças, era apenas meu medo de perder Oliver.

— Você teve um pesadelo? — Oliver me perguntou, se aproximando com o cenho franzido e eu apenas assenti com a cabeça, ainda abalada demais com a imagem de ver Oliver sendo assassinado diante dos meus olhos. — Você nunca teve pesadelos quando dormimos na mesma cama. — Eu já havia notado isso também, quando eu me mudei para o apartamento dele era normal, eu já estava acostumada aos meus pesadelos vívidos, mas a partir do momento em que passei a dormir nos braços de Oliver, eles haviam desaparecidos magicamente, como se Oliver fosse uma espécie de calmante natural ou apenas tivesse o dom de tirar de mim as lembranças ruins, substituindo-as por boas.

Oliver se aproximou ainda mais sentando-se a cama e encostando o tronco na cabeceira, seus braços buscando meu corpo ainda um pouco trêmulo e o puxando para si, deixei-me ir sem resistência enquanto me abraçava ainda mais nele, meus braços se enroscando em seu torso, minha cabeça se aninhando ao travesseiro perfeito que era a curva entre o pescoço e ombro. A nossa proximidade, o cheiro dele, o calor dos nossos corpos juntos me lembrando de que Oliver estava aqui comigo e nada tinha sido real.

Isso era bom.

Amá-lo era bom.

— Você não dormiu. — Toquei seu rosto ao ver as sombras escuras sob seus olhos.

— Eu não consegui. — revelou — Me desculpe, eu deveria ter ficado com você, mas minha mente está agitada demais e eu não quis incomodá-la. Você precisava descansar.

— Você precisava descansar também. — Falei, não gostando desse hábito de Oliver de colocar minhas necessidades acima das dele. — Quer falar sobre o que o manteve acordado? — Perguntei, ciente de que eu não era a única sendo assombrada por um monstro nessa noite, Oliver precisava de mim e eu queria estar aqui por ele e não me sentir tão impotente quanto naquele sonho. Ele merecia mais de mim.

— Eu... — ele olhou para mim hesitante, e eu ergui meus olhos para ele esperando que ele continuasse — Eu apenas não entendo como ele conseguiu entrar no meu apartamento, e eu não consigo dormir enquanto não descobrir isso. — Me senti culpada, quando voltamos na noite anterior e Oliver vira aquela rosa vermelha sobre a cama em que dormíamos e ele simplesmente surtou. Ele ligou para o detetive Lance e minutos depois seu apartamento estava cheio de policiais averiguando tudo, tocando em tudo, buscando por pistas e Oliver achou melhor ficarmos num quarto de hotel até que terminassem o serviço.

— Talvez ele tenha uma capa de invisibilidade que nem o Harry Potter. — Sugeri, e um quase sorriso se formou nos lábios dele, Oliver deixou um pequeno beijo sobre a minha testa.

— Você não precisa ser engraçada para mim. Na verdade eu não sei como você não está surtando com isso. — Oh, eu estava surtando, se meu pesadelo era um indício de algo era o quão perto da borda de um precipício eu estava. Mas eu não iria dizer a Oliver que já havia me acostumado com os joguinhos mentais dele. Isso o deixaria apenas num humor muito pior e eu já havia trazido muita merda para vida dele. — Na verdade eu acho que está — olhou para mim mais atentamente estreitando os olhos, aquele maldito olhar intimidador que parecia ver além de todas as barreiras que eu tentava erguer — Quer falar sobre o seu pesadelo?

— Não. — Neguei rápido demais desviando o olhar e deixando Oliver ainda mais suspeito.

— Felicity? — insistiu, sua voz com uma nota de preocupação.

— Foi apenas um pesadelo, eu sei que não é real e eu sei que não vai acontecer. — Falei não tendo muita certeza quanto a última parte, o que me fez apertar meu corpo contra o de Oliver ainda mais.

— Posso fazer algo por você? — Sussurrou em meu ouvido.

— Talvez devêssemos fazer algo por nós dois. — expliquei — Vamos dormir Oliver, você precisa descansar, foi um dia longo e uma noite péssima, eu não quero que você perca o sono por isso, e você precisa descansar para se sentir melhor. — Ele olhou para mim docemente, enquanto se ajeitava na cama comigo em seus braços.

— E do que você precisa para se sentir melhor? — Eu sorri com essa pergunta, porque minha mente andava uma confusão só, eu não era muito capaz de responder à nada sobre como eu estava me sentindo naquele momento, mas essa pergunta era a exceção, até porque para essa pergunta só havia uma resposta.

— Eu só preciso de você.

***

Eu acordei novamente, dessa vez sem pesadelos, apenas sentindo a irritante luz do sol em meu rosto. As cortinas estavam bem fechadas deixando o quarto do hotel numa escuridão agradável, mas havia uma brecha em uma delas e era exatamente por essa pequena brecha que o sol entrava, uma luz amarelada que veio incidir diretamente sobre o meu rosto.

Virei-me de lado fugindo da luz e encarando Oliver que dormia pesadamente, toquei suavemente seu rosto deslizando a palma da mão por sua barba por fazer, lembrando-me da primeira vez que o vi e de como seu belo rosto me atraiu. Tinha sido um longo caminho daquela época até chegarmos ao que tínhamos agora, eu não achara que Oliver pudesse ser mais do que um idiota que para o meu azar era muito gostoso e eu tinha que dividir o apartamento. Senti falta do seu olhar malicioso e divertido, da sua boca sempre pronta para me irritar quando eu discordava dele, do seu sorriso sexy e provocativo, mas que no qual agora eu percebia sempre escondia algo doce. Eu temia perder esse Oliver por causa de tudo o que estava jogando sobre seus ombros, eu temia ser demais para ele. Eu olhava para o seu rosto cansado, ainda havia círculos escuros debaixo de seus olhos e isso me preocupava. Oliver mudara a minha vida de um jeito muito bom e eu temia não estar fazendo o mesmo por ele.

Me desvencilhei com muito custo de seus braços não querendo acordá-lo, Oliver precisava descansar. Desde que toda a bagunça da minha vida explodira na frente dele, ele não havia feito nada além de se preocupar comigo, e tentar a todo custo pegar Lawton. Esse era seu único objetivo, cuidar de mim, me manter segura, eu odiava essa sensação de ser um fardo para ele, e principalmente odiava o fato de que Oliver não estava preocupado consigo mesmo. E se ele não estava cuidando de si mesmo era meu dever fazê-lo.

Andei pelo quarto de hotel a procura de um relógio ou um celular, qualquer coisa que pudesse me situar no tempo. Tudo havia sido tão corrido na noite passada que eu mal assimilei o lugar, mas não havia nada de especial, era apenas um quarto de hotel impessoal e comum. Encontrei a pequena mala que Oliver fizera as pressas antes de virmos, ela estava entreaberta sobre uma das poltronas com a calça jeans que ele usava na noite anterior jogada de qualquer jeito.

Inspecionei os bolsos em busca de um celular, mas encontrei algo que não esperava.

Era uma foto, mas não uma foto qualquer.

Era uma foto nossa, minha e de Oliver no parque em que ele me levara pouco tempo depois que eu chegara aqui, com a promessa de tentarmos nos acertar e sermos amigos. Amizade era o que ele havia me oferecido, mas pelo jeito em que estávamos próximos um do outro, como nossos olhares pareciam se atrair, a foto dizia outra coisa. Nós queríamos algo diferente, eu havia tentado ignorar antes, mas era óbvio que Oliver vinha mexendo com meus sentimentos muito antes que eu me desse conta. Sorri para a foto, me lembrando de que aquele dia tinha começado bom, quase como um pequeno recomeço.

Mas meu sorriso desapareceu assim que percebi o que estava errado. Eu me lembrei de sentir uma presença naquele dia e bastava dar uma segunda olhada para a foto para perceber que ela havia sido tirada de longe, eu não precisava de muito para saber que aquilo era obra de Lawton.

Ele esteve perto de mim esse tempo todo?

Eu inspirei, mas o ar parecia não encontra o caminho para os meus pulmões. Se Floyd estivera perto o tempo todo, desde o começo, porque só agora ele agia? Qual era o objetivo desse maldito jogo de espera? E porque Oliver estava com essa foto? Respirei fundo novamente tentando me acalmar, mas o ar não era suficiente.

Caminhei pelo quarto em direção à porta que parecia dar para uma pequena varanda, eu precisa sair, respirar antes que eu sufocasse naquele quarto. Eu precisava clarear minha mente e me acalmar antes que começasse a surtar. Abri a porta e recebi grata a claridade do sol e o ar frio e um pouco úmido daquela manhã, finalmente consegui respirar.

Eu não sei quanto tempo eu fiquei ali, de olhos fechados apenas sentindo o vento bater em meu rosto deixando meus cabelos emaranhados, concentrando-me unicamente em senti-lo e varrer todos os meus pensamentos por um momento, eu só queria o vazio de não sentir nada.

— Não me assuste desse jeito novamente, eu quase tive um ataque do coração ao não acordar com você em meus braços. — Abri meus olhos ao escutar a voz conhecida de Oliver, que soava aliviada e ao mesmo tempo tinha um toque de repreensão, seus braços me envolveram por trás abraçando-me, colando o seu corpo junto ao meu. Eu estava lutando para não sentir nada, mas bastava ter Oliver perto de mim e eu simplesmente sentia tudo. De bom ou ruim. — Você está gelada — pelo seu tom eu sabia que ele não gostou daquilo, Oliver me abraçou ainda mais forte, tentando passar seu calor para mim — Vamos para dentro, você precisa se aquecer.

Oliver segurou minha mão a puxando levemente, mas meus pés sequer se mexeram.

— Felicity? O quê está errado? — seu tom veio preocupado.

Virei-me para ele, com a foto ainda em minhas mãos. Ele a reconheceu imediatamente, a expressão de culpa e a forma surpresa como ele abriu a boca ao vê-la o denunciaram.

— Oliver, o que você não está me contando?

***

Oliver parecia envergonhado por ter sido pego, mas isso não o fez recuar. Acho que nada no mundo fazia Oliver Queen recuar. Ele preencheu o pequeno espaço entre nós impondo sua presença, ele delicadamente colocou suas mãos grandes sobre meus ombros, seu toque me acalmando quase que imediatamente. Ele me fitou, seus olhos tornando os meus reféns dos seus.

— Eu sinto muito. — se desculpou num tom baixo, porém sincero, enquanto suas mãos desciam dos meus ombros fazendo um caminho lento pelos meus braços, deixando uma trilha de calor até chegarem as minhas mãos. Seus dedos se entrelaçaram aos meus, e minha vontade de tocá-lo era tanta que eu sequer notei que a foto escorregava para o chão. Eu estava presa por seu toque confortador e por seus olhos que eram calmos e preocupados, mas nunca deixavam meu rosto enquanto observava minha reação às suas palavras. — Eu não pretendia esconder coisas de você, mas para mim é mais fácil não dizer nada do que te deixar assustada e com medo. — falou um pouco ansioso demais — Porque é você que me mantem são, saber que você ainda está bem é o que me impede de perder a cabeça completamente, se eu te assustar, se eu vê-la quebrá-la isso vai lançar o inferno para fora de mim, porque eu não vou conseguir me manter racional, eu não vou conseguir me controlar, eu vou me assustar também e isso não será bom para nenhum de nós dois.

Eu não podia culpá-lo quando ele falava coisas assim para mim. Ele estava tentando me proteger, a todo o tempo, de tudo e todos. Eu sorri minimamente lembrando-me que Gordon havia me mandado para Oliver para que ele me protegesse, e definitivamente Oliver fazia isso a todo momento, ele não estava apenas me protegendo como o bom policial que recebeu uma missão, ele tentava proteger meu coração e meus sentimentos também.

Quem diria que havia alguém tão doce por trás daquela fachada policial durão?

— Tudo bem. — murmurei.

— Tudo bem? — suas sobrancelhas se uniram o deixando com um ar confuso — Não vai brigar comigo por esconder as coisas de você?

— Oh, eu definitivamente vou brigar se você fizer isso novamente, ou ainda se não me contar exatamente de onde essa foto veio. — o alertei batendo com nossas mãos unidas em seu peito — A nossa situação é complicada, eu entendo que seu primeiro instinto tenha sido me preservar, mas eu não quero que isso aconteça novamente, Oliver. Eu não sou uma maldita bonequinha de porcelana que vai se quebrar ao menor toque, eu posso ouvir notícias ruins, eu passei por muita coisa, e eu aguento muito mais. — garanti e ele balançou a cabeça concordando — Eu quero que sejamos sinceros um com o outro, Oliver, porque essa é a base de toda relação, sinceridade e confiança. Se nós quisermos ter um futuro juntos, como um casal, teremos que estar disposto a sermos honestos um com o outro, mesmo que a honestidade as vezes machuque.

— Ok. — Ele me deu sorriso tão lindo, daqueles que chegavam aos seus olhos e os fizeram brilhar em felicidade. Eu estava dando uma bronca nele, não conseguia entender como ele estava feliz com isso, eu iria perguntar, mas Oliver se inclinou para mim, e antes que eu percebesse eu tinha seus lábios sugando os meus num beijo doce. Oliver levou nossas mãos unidas para as minhas costas puxando o meu corpo em direção ao seu, fazendo meu corpo até então frio, se aquecer apenas por estar em contato com o dele. — Vamos entrar. — Ele sussurrou contra a minha boca o calor do seu hálito me distraindo momentaneamente.

— Apenas ok? — consegui dizer depois de recuperar o ar que Oliver havia me roubado com seu beijo — Eu te faço todo um sermão sobre sinceridade e tudo o que ganho é um ok seguido de um beijo para me distrair? O que vem depois? Sexo para me fazer esquecer? Não vai me contar de onde a maldita foto veio? — Bati o pé, e cruzei os braços, eu não o deixaria me enganar, eu tinha oferecido compreensão, mas ele estava me enrolando.

— Você é tão esquentadinha. — ele jogou a cabeça para trás e riu parecendo encantado — Eu apenas não quero conversar aqui fora, está frio e você está descalço e sem um casaco.

Merda.

Oliver estava sendo apenas fofo e cuidadoso, eu acho que preferia quando ele apenas agia como um macho alfa mandão, pelo menos eu costumava ter razão em nossas discussões.

— O quê? Sem nenhum ataque? — falou com um sorriso brincalhão que desapareceu tornando a expressão de Oliver muito mais série e compenetrada assim que ele pronunciou as palavras seguintes — Vamos para dentro, eu vou te contar de onde essa foto veio, mas eu quero te aquecer antes. — Ele voltou a segurar minha mão na dele, levando-me de volta para o quarto.

— Oliver... — eu disse num tom repressivo.

— Eu não disse te aquecer com sexo! — eu suspirei, sem saber se era de decepção ou porque novamente Oliver me surpreendia — Felicity, amor, depois falaremos sobre a razão de você associar qualquer coisa que eu diga à sexo, eu acho que você tem um sério vício — piscou para mim — Mas agora, sente-se a cama e eu vou te contar onde eu encontrei a nossa foto.

E Oliver contou.

Ele não me poupou, ele não amenizou as coisas ele apenas foi sincero comigo. A sensação térmica dentro do quarto pareceu cair uns quinze graus, enquanto eu me dava conta do que Oliver me dizia. Floyd ficava no apartamento em frente ao nosso, ele tinha uma coleção de fotos minhas, desde que coloquei meus pés em Starling City. Eu nunca consegui fugir dele, nem em Gotham, nem em Starling, ele sempre esteve por perto desde o início, me vigiando, me observando tentar seguir com minha vida depois que ele a arruinava. Ele poderia ter me pego a qualquer momento, mas ele brincava comigo, deixando que eu me acostumasse com um falso senso de segurança, deixando que eu construísse algo, e esperando pelo momento certo para tirar tudo de mim.

Em Gotham ele tinha me deixado em paz por quase um ano, retornando à minha vida no instante em que eu comecei a ter uma. Quando eu me vi disposta a ter amigos, a sair e tentar me divertir, ele simplesmente apareceu e retirou tudo isso de mim.

Eu olhei para Oliver, para seus olhos que me fitavam preocupados e compreendi imediatamente o porquê dele estar sendo muito mais agressivo dessa vez. Porque antes eu me atrevi a ter poucos amigos ainda que me mantendo cautelosa, mas dessa vez era diferente, porque eu estava diferente. Eu construí uma vida em Starling, eu tinha bons amigos aqui, um trabalho que não era o melhor do mundo, mas que me divertia e me fazia feliz.

E eu tinha Oliver.

Eu amava Oliver e eu nunca tinha me atrevido a amar alguém assim antes.

“É isso o que acontece quando você ousa amar alguém.” Escutei aquela voz que tanto me aterrorizava e um flash de Oliver sendo assassinado diante dos meus olhos, me fez parar de respirar por um instante.

— Você está assustada. — não foi uma pergunta, por isso eu nem neguei nem confirmei.

— Eu estou bem.

— Suas mãos estão geladas, amor, você não está bem. — ele afagou minhas mãos entre as suas tentando mandar o frio embora com seu toque. — Está preocupada com o que eu contei ou é outra coisa? — suspirei — Isso é sobre seu pesadelo? — Como Oliver conseguia me ler tão perfeitamente? Mordi o lábio inferior nervosamente, eu não queria pensar e definitivamente não queria falar sobre isso. — Eu acho que toda a coisa de sinceridade se estende à isso também, vai me contar? — Oh, inferno! É claro que o filho da mãe iria usar minhas próprias palavras contra mim!

— Não! — neguei chegando a ser rude ao puxar minhas mãos das dele e erguer da cama lhe dando as costas. Fiquei de pé no meio do quarto, num ato instintivo abracei a mim mesma e tentando afastar as memórias daquele pesadelo.

— Amor, porque não quer falar sobre isso? — escutei a voz de Oliver, macia e preocupada atrás de mim, sua mão hesitante tocando o meu ombro, me despertando de meus pensamentos.

— Porque é doloroso demais. — confessei numa voz fraca.

— Foi uma lembrança? — Ele tentou de modo sutil, senti o calor do seu corpo atrás de mim enquanto a mão deslizava por meu braço, num movimento constante e acolhedor. Balancei a cabeça sentindo as lágrimas arderem em meus olhos, eu não queria pensar mais nisso.

— Ele te matou. — falei num sussurro, e imediatamente a mão de Oliver parou com seu movimento. — Ele te matou, e eu não pude fazer nada para evitar. — falei com mais força, colocando todo o meu tormento para fora, sentindo a dor retornando e o medo se tornando ainda mais real ao pronunciar essas palavras.

A respiração de Oliver batia pesadamente em minha nuca, eu notei a diferença no instante eu que eu pronunciei as palavras “ele te matou”, era possível sentir a tensão cortando o quarto como se fosse uma corrente elétrica. Oliver não disse nada, e eu desejei virar-me e encarar seu rosto, saber o que ele estava pensando, mas não o fiz, porque temi ver a verdade estampada ali. Temi que ao olhar em seus olhos, Oliver me dissesse que meu pesadelo poderia ter um fundo de verdade, que aquilo não era impossível.

— Eu estou vivo, amor. — Senti braços fortes me envolverem por trás, a cabeça de Oliver tombou na curva do meu pescoço e seus lábios se pressionarem ali, meu corpo inteiro se arrepiou, não apenas por causa do efeito da sua boca em minha pela, mas por causa de suas palavras. Girei-me em seus braços e o fitei. Oliver estava certo ele estava ali, vivo, com seu coração batendo acelerado, com seus olhos sempre tão apaixonados fixos em mim, embora aquela preocupação estivesse sempre presente neles agora.

Oliver ergueu uma das mãos acariciando meu rosto, e sorriu para mim, mas desconfiei que havia algo de errado quando percebi que o seu sorriso não chegava aos seus olhos.

— Eu acho que você deveria ir embora de Starling City. — suas palavras foram pontuadas pausadamente para dar uma impressão de calma, mas eu observava a agitação de emoções dentro de seus olhos, e eu sabia que calma era tudo o que Oliver não estava sentido.

— O quê? Por quê? — Pisquei, me questionando como ele havia chegado a essa conclusão absurda. Aliás, quando foi que o assunto mudou tão drasticamente? — Do que está falando, Oliver? — perguntei, dando um passo para trás me afastando dele, tentando ficar livre de suas mãos que sabia me distrair muito bem. — Nós estamos bem, de onde surgiu essa ideia de me mandar embora?

— Amor, eu não estou te mandando embora. — falou na defensiva, mas eu já estava bufando e me afastando ainda mais — Não faça isso apenas me escute. — ele me segurou pela mão, me impedindo de ir — Eu posso conseguir um lugar seguro longe daqui, bons policiais para ficarem sempre a postos. Eu só preciso que você fique longe por um tempo curto, se eu não estiver preocupado com você eu tenho certeza que será mais fácil pegá-lo. — Novamente a voz calma, mas que não chegava aos seus olhos. Porque Oliver dizia uma coisa quando seus olhos expressavam outra?

— O que garante que ele não vai me seguir? — Perguntei num sopro, mais por curiosidade de saber um pouco mais do que realmente dando algum crédito aquela ideia.

— Eu vou garantir isso. — quase sorri ao escutar a confiança em sua voz, eu não esperava menos de Oliver, mas ele estava errado.

— Oliver, meu tio me mandou para Starling acreditando que iria despistá-lo por um tempo e você acabou de me dizer que Lawton sempre esteve no meu rastro, ele nunca me perdeu, porque acha que seria diferente dessa vez? — Deixei a pergunta, e Oliver enrijeceu.

— Porque eu não quero você aqui preocupada comigo! — ele soltou e eu finalmente compreendi a verdade, ele sabia que havia alguma chance de algo acontecer a si mesmo e novamente queria me proteger disso. — Eu irei caçá-lo e não quero que você esteja por perto, as coisas vão ficar feias e eu não quero você no meio disso.

— Oh, então vai me trancar numa caixa forte até que o peguem? Como isso resolve as coisas? — Fui irônica.

— Te mantem segura, enquanto eu faço o que deve ser feito. — balancei a cabeça, por vários motivos aquela era uma péssima ideia — Não vê que isso é para o seu bem? Estou tentando te proteger, Felicity. — Oliver insistiu, seus dedos massageando suavemente a minha mão — Porque você não quer fugir?

Suspirei frustrada.

Eu sempre fugi.

Fugir parecia ser a resposta certa e fácil. Todas as vezes em que ele apareceu na minha vida, eu não hesitei em fazer as malas e desaparecer, mas as coisas eram diferentes agora.

Olhei para Oliver.

— Porque fugir é tudo o que eu tenho feito! Desde a primeira vez eu corro e me escondo ao primeiro sinal dele, e isso não vai ter fim enquanto eu não parar de fugir. — expliquei — Eu não estou dizendo que quero enfrentá-lo frente a frente, eu não sou estúpida. Mas correr e me esconder não é a solução, a verdade é que quando eu fujo ele vence.

— Felicity... — tentou me interromper, mas não permiti, eu precisava falar isso em voz alta.

— Quando eu fujo ele consegue me afastar do que é importante para mim. — apertei nossas mãos unidas, sentindo as palavras saírem de mim com urgência — Eu estou cansada de deixar para trás tudo o que conquistei, principalmente agora porque pela primeira vez na vida eu parei de fugir não apenas dele, mas de mim mesma, dos meus sentimentos, da vida em si. Eu me permiti me jogar sem medo no desconhecido e eu ganhei tanto eu tenho algo que não quero perder, Oliver. — olhei para ele, meu olhar dando um significado muito maior as minhas palavras — Por favor, Oliver, não me faça ir.

Nós dois não dizemos mais nada.

Embora nossos olhos não se perdessem um do outro e as palavras não ditas naquele olhar eram quase palpáveis. E então Oliver suspirou e apenas me abraçou apertado. Encostei-me em seu peito escutando as batidas do seu coração, enquanto o segurava firme em mim e calava as palavras que eu tinha tanto medo de admitir.

Eu o amava.

E eu estava aterrorizada, antes era fácil fugir e me esconder. Eu normalmente não estava deixando muito para trás, mas agora a mera ideia de deixar Oliver era impensável.

— Eu amo você também. — Eu o encarei surpresa, sentindo a emoção daquelas palavras tocarem meu coração, me sentindo plenamente feliz e grata não apenas por ter o seu amor, mas por estar ligada a Oliver de tal jeito, que ele conseguia ver o suficiente de mim para saber que eu o amava também mesmo sem eu dizer as três palavras.

— Oliver...

— Você não precisa dizer de volta. — Ele se adiantou, com um sorriso suave no rosto.

Eu queria dizer. Desesperadamente. Eu queria gritar o quanto eu estava apaixonada, o quanto Oliver mudou a minha vida ou ainda, mas eu ainda não conseguia. Não porque meu amor por Oliver não fosse real, ele era, cada parte de mim o amava. Mas eu me lembrava do meu pesadelo daquela noite, de Lawton matando Oliver diante dos meus olhos e da voz arrastada dele “É isso o que acontece quando você ousa amar alguém. Eu vou tirá-los de você, um por um. Até que não sobre mais ninguém

Eu tinha consciência de que era apenas um pesadelo.

Mas eu também tinha consciência de que aquilo era verdade. Eu era o objetivo final dele, mas para chegar até mim ele iria destruir quem eu amava antes.

Notas finais
Eu espero que tenham gostado, mesmo que Oliver tenha dito as três palavrinhas, mas Felicity não tenho dito de volta (ainda) Deixem seus comentários! Beijos!