Running Away

8 Capítulo 7 - Do I wanna know?


Notas iniciais
Hey leitores! Me desculpem, apenas isso. Não vou me demorar com minhas explicações longas e cansativas porque quero muito postar esse capítulo. Muito obrigada pelos comentários maravilindos, eu tenho os melhores leitores do mundo =D vou responder todos amanhã, promessa de mindinho! E agradeço a Vick Queen que mandou mensagem toda preocupada achando que eu tinha abandonado a fic, mil desculpas ok? Gente o capítulo ta gigantesco, então basicamente é um dois em um aqui para compensar a demora. Espero que gostem, e desculpem qualquer erro ok?! Beijos!

Have you got colour in your cheeks?

Do you ever get the fear that you can't shift the type

That sticks around like summat in your teeth?

Are there some aces up your sleeve?

Have you no idea that you're in deep?

I've dreamt about you nearly every night this week

How many secrets can you keep?

Cause there's this tune I found

That makes me think of you somehow

And I play it on repeat

Until I fall asleep

Spilling drinks on my settee

(Do I wanna know?)

If this feeling flows both ways?

(Sad to see you go)

Was sorta hoping that you’d stay

(Baby, we both know)

That the nights were mainly made

For saying things that you can’t say tomorrow day

(Do I wanna know? — Arctic Monkeys)

Felicity Smoak

Oliver queria conversar sobre nós dois.

Mas, até onde eu compreendia não havia um nós para se conversar. Tudo bem, ele e eu tivemos um momento em que deixamos que a atração que sentíamos um pelo outro nos dominasse, mas rapidamente eu havia recobrado a razão e me afastado. Ficar com Oliver era bom, de um jeito que nunca tinha sido com mais ninguém. O beijo tinha sido quente, nossos corpos pareciam sedentos e desesperados um pelo outro, seu toque queimava em minha pele e se aquela pequena pegação sobre o balcão havia me provado algo era de que Oliver estava certo, sexo com ele seria explosivo. E eu queria, o inferno tenha piedade de mim, mas eu o queria desesperadamente.

Mas por mais que eu o quisesse eu também sabia que nossa relação, não deveria ser mais do que já era. Eu não fazia ideia do que Oliver esperava dessa conversa sobre “nós”, da minha parte eu apenas precisava que ele compreendesse que um nós nunca poderia existir. Teríamos que criar uma rotina de convivência, apenas isso. Eu não queria ser alvo de olhares lascivos, eu não queria suas piadas cheias de teor sexual, eu não queria vê-lo sem camisa passeando pela casa. Esse último apenas para evitar a tentação.

Era mais seguro, para nós dois.

Talvez esse devesse ser o tópico da nossa conversa: limites.

Entretanto eu confesso que estava curiosa, Oliver parecia diferente, extremamente pensativo e determinado. Eu via aquela pequena veia em sua têmpora esquerda pulsar rapidamente, e mesmo com o pouco tempo de convívio eu já tinha aprendido que aquilo não era algo bom, algum problema o incomodava e ele não sabia como resolver.

Será que eu era esse problema?

Depois que ele expulsou Roy tão sutilmente, ele me puxou pela mão, entramos no prédio e pegamos o elevador em um silêncio completo. Oliver sequer me olhou, seguiu encarando a porta do elevador, e para quem havia dito que precisávamos conversar ele também não falou nenhuma palavra comigo. Mas sua mão, no momento em que entramos na pequena caixa de metal, se apoiou deliberadamente em minhas costas, um toque sutil, sem nenhum significado, o tipo de toque que fazemos apenas para direcionar alguém.

Só que estávamos parados e a mão dele ainda estava ali.

Eu não sei se ele esqueceu, ou se apenas o toque era cômodo. Mas meu corpo inteiro era consciente daquela mão aberta na base da minha cintura. O calor ultrapassava o tecido fino da minha blusa e deixava a minha pele quase em brasa. Fechei meus olhos por meio segundo e meu cérebro já fantasiava com aquela mão percorrendo cada parte do meu corpo, me tocando, me apertando, puxando o meu corpo em direção ao dele e espalhando calor em cada poro meu.

Minha respiração começava a ofegar, eu tentei controlar respirando calmamente, mas tudo o que consegui foi exalar um suspiro frustrado. Seus olhos que antes estavam fortemente concentrados em encarar a porta do elevador se moveram para mim. E ele engoliu em seco.

Porra! Oliver engoliu em seco, eu vi com perfeição o momento em que o pomo de adão dele subiu e desceu por seu pescoço! Todo mundo sabe o que isso significa! Quando um cara te encara fixamente e engole em seco logo em seguida isso só pode significar uma coisa: ele estava pensando em sexo!

— Felicity... — O som rouco da sua voz fez com que uma onda de arrepio percorresse a minha espinha, mordi o lábio inferior me impedindo de dizer algo tolo. Oliver permaneceu me encarando com seus olhos famintos e predatórios, eles me faziam uma pergunta silenciosa, bastava eu assentir e aquele jogo torturante acabaria. Eu só precisava ceder e para ser honesta eu já estava ficando cansada de jogar.

Alívio me preencheu no momento em que as portas do elevador se abriram, eu saí rapidamente antes que fizesse algo do qual eu me arrependeria. Percebi que Oliver não me seguiu imediatamente, na verdade ele permaneceu mais alguns instantes dentro do elevador e só saiu quando as portas ameaçaram se fechar pela segunda vez. Dentro do apartamento o silêncio permaneceu, apenas a respiração de nós dois preenchia o lugar.

Como chegamos naquele nível de tensão?

Palavras não eram necessárias uma vez que nossos corpos exprimiam o que queriam.

Eu precisava mudar aquilo.

— Então Oliver... Você queria conversar. — comecei cautelosamente e cruzei os braços adotando uma postura mais defensiva. Oliver se jogou no sofá da sala, esfregando as têmporas com as pontas dos dedos parecendo verdadeiramente cansado de algo.

— As coisas não estão funcionando entre a gente, Felicity, e hoje antes de você sair para o bar foi uma prova disso. — Abri minha boca, mas fechei logo em seguida sem saber o que dizer. — Eu sei que eu posso ser muito obstinado, quando eu quero algo ou nesse caso alguém. — Suas íris azuis queimaram como fogo em mim — Eu não vou negar a atração, mas eu entendo que isso dificulta o nosso convívio. — Comecei a entender onde Oliver queria chegar, meu estômago se contraiu ao perceber o que ele queria.

— Então você vai me mandar embora da sua casa porque não consegue manter o pequeno Oliver quieto dentro das calças quando está perto de mim? — Devolvi num tom ácido.

— O quê? — Oliver exclamou chocado e imediatamente se colocou de pé, deu passos duros se colocando rapidamente a minha frente, como uma muralha intransponível. — Primeiro, não há nada de pequeno aqui.

Revirei meus olhos, qual o problema dos homens que precisam defender desesperadamente o tamanho de seus brinquedinhos?

— Isso é típico de vocês homens. — acusei dando-lhe as costas e aumentando um pouco a distância entre nós, me encostando no balcão da cozinha — Só porque uma mulher fecha as pernas e se recusa a dar sexo fácil vocês já querem a dispensar...

Algo brilhou por trás dos olhos de Oliver, ele parecia sinceramente ofendido. Novamente ele rompeu a distância entre nós, parando centímetros a minha frente. Por que ele sempre fazia isso? Por que não podia simplesmente ficar longe? Não via que seria muito mais fácil ignorar a atração e manter a conversa racional se estivéssemos longe um do outro?

— Você estava com as pernas bem abertas para mim neste balcão. — espalmou as mãos sobre a superfície a alisando com certa reverência. Eu me vi obrigada a fechar meus olhos impedindo as lembranças de virem, a prender a respiração para que seu cheiro não confundisse meus sentidos, mas era quase impossível. Sua simples proximidade ligava algo em mim, senti seu braço roçar em meu seio, não me atrevi a abrir os olhos, não queria ver o desejo nos dele, não queria me entregar novamente. Mas, para minha surpresa seu toque não evoluiu para algo mais, muito pelo contrário, seu corpo se retraiu e ele se afastou do meu bruscamente — Mas que inferno, Felicity! — Oliver amaldiçoou dando um passo para trás — Isso não é o ponto! Como você faz isso comigo? Eu tento começar uma conversa racional com você e quando percebo eu já estou...

— Excitado? — Completei, tentando ler a sua frustração.

— Irritado com você! — Meneou a cabeça. — É tão difícil para você aceitar que eu não penso em sexo vinte e quatro horas por dia? — Sim, era impossível. Cada parte de Oliver tinha sido moldada para o sexo, em cada ato seu, cada frase dita eu via o apelo sexual gritando.

Percebi algo.

Mas que merda. Grande merda. Gigante mesmo.

Não era Oliver.

Era eu.

Era eu que não conseguia parar de pensar nisso quando estava com ele! Eu que levava tudo para o lado sexual! Como isso foi acontecer? Quando eu me tornei essa garota? Eu não era assim! Eu pensava em sexo, mas não o tempo todo, eu não desejava isso o tempo todo. Mas Oliver Queen havia me transformado em uma tarada sexual e nós dois sequer havíamos dormido juntos.

— Que merda. — Oliver me olhou confuso, suspirei tentando voltar a ser a racional — Então, por que você me quer fora do seu apartamento? — Cruzei meus braços esperando por sua explicação.

— Eu não a quero fora daqui, Felicity. — Seu tom não deixava margens para dúvidas.

— Hum... Mas você disse que a nossa convivência era complicada e...

— E é. Mas somos adultos e podemos lidar com isso. — assenti entendendo o seu ponto, embora não tivesse mais tanta certeza de que poderia lidar com toda aquela vontade dentro de mim — Nós apenas precisamos colocar alguns limites na nossa relação, para que as coisas não acabem indo por um caminho que ambos não queremos.

— Oh. — Exclamei, finalmente o compreendendo. Estranho, era isso o que eu queria também. Limites. Não ter que ver Oliver andando apenas de cueca, seria um bom limite, minha sanidade agradeceria.

— Seríamos apenas duas pessoas que dividem um apartamento, colegas e teremos regras e... — Parei de escutar seu pequeno discurso quando percebi o que aquilo parecia. Sabe quando seu namorado está tentando te dispensar e dizer que vocês ainda podem ser amigos depois? Soava exatamente como isso. — ...Enfim, o que acha Felicity, ainda podemos ser amigos? — Pisquei ao ouvir a pergunta. Agora era oficial, eu estava sendo dispensada. Eu sequer havia dormido com ele e Oliver já estava me chutando.

— É claro, Oliver, nós podemos ser amigos. — Me surpreendi com a amargura em meu tom. Por que eu estava tão irritada? — Eu espero que como meu amigo isso signifique que você não vai mais interferir na minha vida pessoal?

— Do que você está falando? — Ele parecia realmente confuso.

— Estou falando de você, me dizendo o que devo vestir para o trabalho, ou ainda intimidando os clientes da Helena quando eles me olham por muito tempo. — Oliver abriu a boca pronto para protestar, mas eu ergui a mão o impedindo de continuar — nem tente, eu sei bem que você faz isso, eu já vi. E por fim você não vai tratar Roy da forma que você o tratou agora a pouco!

— Roy? — Havia algo incomum em seu tom quando pronunciou o nome do meu amigo, uma espécie de raiva misturada a incredulidade — Você deveria estar me agradecendo, eu salvei você de ter que dizer não e magoar os sentimentos do pobre garoto quando ele te convidasse para um encontro.

— Talvez eu quisesse dizer sim! — falei exasperada recebendo um erguer de sobrancelhas de Oliver. Ok, eu não queria dizer sim para Roy, mas também não gostava de Oliver pensando que ele podia tomar decisões por mim.

— Você não queria. — afirmou convicto.

— Como pode ter tanta certeza? Roy é um cara legal e fofo. — Dei de ombros.

— Legal? Fofo? — não gostei de ouvir o desdém em seu tom — É isso que você espera em alguém? Que ele seja apenas legal e fofo? Um cachorro é legal e fofo, você faz carinho, e ele te lambe de volta e ele sempre trás de volta o brinquedinho que você joga, isso não significa que devemos dormir com ele.

— Do que você está falando? — questionei, não compreendendo onde Oliver queria chegar.

— Roy é como um cachorro. — concluiu e eu não segurei o riso.

— Lá vamos nós de novo! Não iríamos apenas tentar ser bons colegas de apartamento?

Oliver suspirou.

— Você está certa. — admitiu voltando a um tom bem mais leve, algo brilhou em sua tez e um sorriso único se estendeu por seu rosto — E como prova da nossa trégua, devíamos fazer algo amanhã.

Seu convite me pegou de surpresa, tudo em Oliver estava me surpreendendo hoje.

— Não posso. — neguei apressadamente.

— Claro que pode, amanhã é domingo e o bar da Helena não abre aos domingos. — Oliver estava certo, eu não tinha uma escapatória — Então você está livre a não ser que tenha algum compromisso logo pela manhã. — seu rosto se contorceu assumindo certo mau humor — Você tem? — Tornou a perguntar estreitando os olhos para mim.

— Não, eu não tenho. — admiti.

— Ótimo. — Sorriu abertamente parecendo feliz — Então você tem um compromisso comigo, é melhor irmos para a cama agora, já que eu pretendo te cansar pela manhã. — Engoli em seco, minha mente pensando em inúmeras maneiras de ficar cansada por culpa de Oliver. Aquilo não podia ser apenas coisa da minha cabeça, a forma como Oliver me dizia as coisas, tudo tão repleto de duplo sentido ou como seu olhar era cheio de segundas intenções. Ou ele realmente me desejava, ou apenas gostava de brincar comigo, em qualquer uma das duas opções ele me arruinava. — Amigos, Felicity, somos apenas amigos. — Ele disse com um sorriso e em seguida tocou de leve a minha bochecha com seus lábios quentes, o ato terno me surpreendeu, eu nunca esperaria ternura vindo dele. Quando sua boca se afastou da minha pele eu segurei um suspiro de protesto, o seu olhar se demorou no meu me dizendo algo que eu ainda não estava pronta para ouvir. E então ele se afastou, e eu senti um estranho vazio assim que ele me deu as costas indo para o seu quarto.

Eu queria tentar ser apenas amiga de Oliver, eu queria muito colocar limites em nossa relação tão estranha. Para o bem de nós dois, isso seria o melhor a fazer. Mas eu não sabia se isso seria mais possível, eu já havia cruzado o limite, eu já o queria como não se deveria querer um amigo.

E isso arruinaria a nós dois num futuro próximo.

***

Ele enrolava a faixa ao redor do meu pulso com força e raiva, fazendo o corte latejar ainda mais. Porém, eu me recusei a chorar diante da dor, eu não tinha mais forças para fazer isso e além do que, não faria a dor ir embora. Na verdade, naquele momento eu era grata pela dor. Ela me deixava alerta e ainda mais consciente do que estava acontecendo comigo.

— Da próxima vez que tentar fazer algo do tipo, eu não serei tão condescendente. — prendi a respiração quando sua mão se colocou ao redor do curativo recém feito, ele apertava com tanta força que eu tinha certeza que o ferimento estava sangrando novamente. — Estamos entendidos, querida? — Seus olhos raivosos prenderam-se nos meus e eu assenti, porque era isso o que ele queria de mim. — Me responda.

— Sim.

— Excelente. — Sorriu docemente. Como ele conseguia isso? Ser absurdamente amedrontador num momento e agir com suavidade no seguinte? Sua mão que antes me machucava veio até meu rosto e instintivamente me afastei daquele toque repulsivo — Ainda resiste ao meu toque? — Seus olhos estreitaram para mim, mágoa brilhando neles. — Você irá descobrir em breve que não é inteligente me contrariar. — Sua mão se colocou agressivamente em minha nuca puxando o meu rosto para o seu, enquanto a outra ele apertava meu ferimento com força. Trinquei meus dentes resistindo a dor e ao mesmo tempo controlando a náusea que estar tão perto dele me provocava — Será tudo mais fácil se você aceitar o amor que eu lhe ofereço, querida.

Amor. Como se ele sequer conhecesse esse sentimento!

Sua mão deixou o meu pulso, se arrastando até meus ombros. Seu toque era frio e áspero e causava-me nada menos do que repulsa. Senti sua mão se colocar em garra ao redor do meu pescoço, pensei que ele fosse me estrangular, mas quando sua mão me puxou para ainda mais perto do rosto dele, seus lábios tão próximos aos meus, eu desejei que o aperto eu meu pescoço se intensificasse, eu desejei ficar sem ar e a inconsciência que viria, eu desejei a morte a dar o que este monstro queria de mim.

Seus lábios finos estavam entreabertos, a respiração ofegante e quente dele cada vez mais próxima de mim, um cheiro leve de álcool batia em meu rosto. Eu não conseguia me mover, ou me afastar por isso apenas fechei meus olhos apertados, eu não precisava ter essa visão gravada em meu cérebro.

Mas para a minha sorte a campainha tocou naquele exato momento. Ele me soltou parecendo confuso e irritado. Eu aproveitei a sua distração e me arrastei para a parede ficando o mais longe possível dele. Respirei aliviada ao vê-lo subir as escadas e fechar a porta do porão, e o pânico se alastrou por mim.

Eu precisava sair dali, antes que algo pior acontecesse. Mas como? Meus pensamentos não colaboravam, eu não tinha uma ideia sequer, um plano para sair desse lugar. Havia um, mas não, seria degradante demais e eu preferia morrer a me sujeitar a isso.

Antes que eu pudesse pensar muito ele voltava, descendo as escadas com passos apressados, seu rosto estava contorcido em algo muito pior do que a raiva que eu já estava habituada a ver, era crueldade.

— Você ligou para a polícia? Garota estúpida! — Ele gritou e eu sequer tive tempo para assimilar o que estava acontecendo, apenas senti a bofetada arder em meu rosto e caí sobre o chão duro, sentindo o gosto metálico de sangue se espalhar por minha boca.

Tentei me levantar apoiando ambas as mãos no chão, mas eu não tinha força suficiente para me erguer. A pancada havia me deixando tonta demais e acabei vomitando um pouco de sangue no chão.

— Está vendo as coisas que você me força a fazer? — Ele estava ali novamente, agachado ao meu lado, me encolhi ali mesmo no chão, já que não havia um lugar para correr dele. Ele me tocou novamente, forçando-me a erguer meu rosto para ele, que analisava friamente o machucado que havia me causado. — Eu odeio machucar você, macular esse rosto tão belo é quase imperdoável. — Alisou com certa reverência o lado esquerdo do meu rosto, retirou um lenço caro no qual estava gravado suas iniciais e o usou para limpar o sangue que sujava a minha boca — Mas quando você age como uma menina má, eu preciso te punir. — A forma como ele falou aquilo me fez estremecer, olhei em seus olhos frios e soube que aquilo era apenas o começo. — Entende que mereceu o que eu lhe fiz, não entende?

— Sim. — Eu disse num sopro de voz, assustei-me ao ouvir a mim mesma. Não havia vida, não havia esperança. Ele estava conseguindo me destruir aos poucos.

— Muito bem. — Acariciou a minha cabeça, como se me parabenizasse pelo meu bom comportamento, apertei meus olhos sentindo as lágrimas quentes caírem incontroláveis por meu rosto. Eu as havia segurado por tanto tempo, eu tentei ser forte, mas agora toda a minha força se esvaía, toda a minha esperança era esmagada. Eu estava começando a entender que não havia uma saída, eu não conseguiria fugir e ninguém procurava por mim. Eu estava perdida. — Não precisa se preocupar com os polícias. — Ele garantiu para mim, secando minhas lágrimas com o lenço sujo de sangue — Eu não permiti que eles entrassem, mas agora teremos que nos mudar, antes que eles voltem com um mandato. Mas não se preocupe, querida, ficaremos juntos.

Ele me puxou para seus braços me abraçando, minhas lágrimas agora se misturavam a soluços de desespero que apenas pioram ao sentir seus braços ao redor de mim. Quanto mais eu tentava o afastar, mais ele me apertava, mais era difícil respirar.

— Para onde você vai me levar? — Me atrevi a perguntar quando ele finalmente me soltou, e para minha surpresa havia um sorriso em seu rosto. Um sorriso diabólico.

— Para um lugar onde ninguém será capaz de tirá-la de mim, querida. — Seus olhos brilharam animados, e causando-me um medo sem igual — Mas antes eu preciso que você durma um pouco, eu não quero que se canse durante a viagem. — E então ele retirou a seringa do bolso, era a mesma que ele sempre aplicava em mim.

— Não, não, não, por favor, não... — implorei enquanto sentia a agulha perfurar o meu braço, e continuei implorando até que não tivesse mais forças e sucumbisse novamente a inconsciência.

***

Acordei abruptamente com meus pulmões arfando em busca de ar. Era sempre assim quando as minhas lembranças invadiam meus sonhos os transformando em pesadelos tão reais, que acordar era bem-vindo, como estar afogando em um lago profundo e escuro mas sentir algo te puxando de volta para cima onde havia luz e ar fresco e eu finalmente podia respirar.

— Você costuma ter muitos pesadelos? — Virei a cabeça em direção a voz que me fez a pergunta e me surpreendi ao ver que Oliver estava ali, sentado casualmente na minha cama me observando como se aquilo não fosse nada demais.

— O que faz aqui? — perguntei confusa, com sua presença.

— Eu te trouxe um pouco de café, não queria te ver rabugenta por sairmos tão cedo. — Esclareceu dando-me um pequeno sorriso. Peguei a xícara fumegante de suas mãos e respirei fundo o aroma que eu tanto apreciava. Agradeci por ter algo para me deixar mais desperta e espantar as lembranças ruins que teimavam em tentar adentrar mais uma vez. — Você está bem? — apenas assenti, evitando encarar Oliver e desviando o olhar para janela, eu percebi que ainda estava escuro lá fora. Não estava gostando do jeito que Oliver me olhava, tentando me ler, tentando me entender.

— Obrigada. — Bebi o líquido quente, sentindo-me aquecer por dentro. Os olhos de Oliver me olhavam com suspeita, ele queria respostas ou pelo menos que eu me abrisse com ele, mas eu não era capaz de dar isso. — Então, vai me dizer aonde vai me levar assim tão cedo? É praticamente madrugada. — Tentei começar uma conversa capaz de desviar sua atenção para outra coisa que tirasse seus olhos analisadores de mim.

— Se não quiser ir, Felicity, eu entendo. — suspirei ao ver seus olhos me encarando com preocupação.

— Eu estou bem. — Forcei um sorriso.

— Não, você não está. — ele discordou com um sorriso compassivo — Durma mais um pouco.

— Mas eu quero ir. — eu insisti.

— Eu não acho que...

— Eu preciso ir, Oliver. — Enfatizei o interrompendo e agarrando sua mão impedindo-o de se levantar da minha cama. Ele não entendia, mas eu queria, eu precisava fazer algo naquele dia, eu não conseguiria simplesmente voltar a dormir, eu precisava fazer qualquer outra coisa apenas para suprimir as lembranças ruins. Eu queria uma lembrança boa, e eu sabia que teria isso com ele, ainda que acabássemos discutindo ou brigando, Oliver seria uma ótima distração.

— Tudo bem. — Cedeu, seu olhar pedindo por uma explicação que obviamente eu neguei a dar — Então é melhor se arrumar rápido, vamos sair em cinco minutos, ok?

— Vai me dizer aonde vamos? — Perguntei curiosa e me levantei rapidamente, me concentrando em pegar algumas roupas.

— É claro que não, Smoak. — Piscou para mim e lançou um sorriso de canto daqueles de tirar o fôlego antes de sair do quarto e me dar um pouco de privacidade. Definitivamente, Oliver era uma bela distração.

***

— E então o que achou do lugar? — Oliver me perguntou mantendo as suas mãos dentro dos bolsos enquanto caminhávamos lado a lado por uma pequena ponte que passava por sobre um lago limpo demais para uma cidade grande. Amanhecia ainda, e o céu tinha aquele tom adorável de azul cinzento marcado por marchas vermelhas aonde o sol se prepara para nascer, aquela mistura estranha de cores me trazia uma paz incomum. Nunca pensei que existisse um lugar assim no meio de Starling City, a cidade inteira parecia mais como uma grande metrópole, era bom encontrar um pequeno refúgio da natureza escondido e tão perto de nós.

— Eu pensei que você fosse me levar a um lugar diferente. — Confessei, e Oliver ergueu uma das sobrancelhas esperando por mais — É tudo muito verde aqui. — Expliquei e Oliver riu.

— Eu achei que esse seria um bom lugar para conversarmos. Além disso, deve ser uma boa mudança, não é? Gotham é sempre tão cinzenta e sombria, que às vezes me pergunto se todos os vampiros do mundo vivem naquela cidade.

Eu ri alto, porque eu mesma cheguei a pensar assim quando me mudei para lá.

— Eu sei que ano passado a cidade estava sofrendo com a infestação de morcegos — Entrei em sua brincadeira fazendo Oliver rir em sincronia comigo, era bom manter a conversa em um tópico leve e despretensioso.

— Está vendo só? Eu tenho razão. — Disse convencidamente jogando a cabeça para trás — Por isso é bom que tenha se mudado para cá, garanto que está muito mais segura aqui comigo, sem vampiros, eu garanto. — Eu não ri dessa vez, ao invés disso eu encarei seus olhos tentando descobrir se ele sabia que segurança era motivo da minha mudança para cá. Mas seus olhos azuis tinham apenas um brilho de diversão, nada além disso.

Não, ele não sabia. Suspirei, sem saber ao certo se era de alívio ou frustração. Eu não queria admitir, mas parte de mim desejava contar tudo a ele, eu estava cansada de ter isso preso dentro de mim, me assombrando noite após noite. Mas a outra parte temia a sua reação, temia que o olhar de desejo que eu via nele sempre que ele olhava para mim se transformasse em pena, o que era o normal sempre que alguém conhecia a minha história.

— Eu disse algo errado? Estou te aborrecendo? — Oliver parou a minha frente me impedindo de continuar a andar, ele apareceu tão de repente que tive que espalmar minhas mãos em seu peitoral antes que trombasse nele.

— Oh, não. — Menti rapidamente, enquanto pensava em uma forma de forçar minhas mãos a se afastarem de seu corpo másculo e não percorrerem seus músculos, da forma que estavam tentadas a fazer. — Eu apenas estava pensando porque você queria vir a esse lugar tão cedo, não me interprete mal é tudo lindo, mas o sol ainda sequer nasceu. — Contornei, satisfeita comigo mesma por mudar de assunto tão sutilmente e também por ter conseguido, usando toda a minha força de vontade, tirar minhas mãos do corpo rígido de Oliver.

— Exatamente. — Pisquei confusa com sua resposta, e ainda mais confusa com o sorriso cheio de expectativa em seu rosto. — Vire-se. — Não foi um pedido, Oliver nunca fazia pedidos. Por isso no instante seguinte suas mãos grandes se apoiaram e minha cintura me guiando e quando percebi eu já estava inclinada sobre a pequena mureta da ponte, seu corpo posicionado atrás do meu de uma forma que era impossível ficar alheia a sua proximidade. Era normal amigos ficarem tão perto assim, certo?

— Agora mantenha seus olhos na direção daquelas montanhas. — Seu braço passou roçando pelo meu corpo, e tentei manter minha concentração onde ele indicava e não naquele arrepio conhecido de excitação que percorreu meu corpo ao sentir a pele dele junto a minha.

— É uma bela vista. — Comentei educadamente concentrando toda a minha atenção no local indicado por Oliver, enquanto tentava ignorar e ao mesmo tempo dissipar a tensão entre nós.

— É sim. — Concordou, sua voz próxima demais do meu ouvido me fazia hiperventilar. — Mas observe devagar, a forma como o sol parece surgir por detrás das montanhas, imponente. E como ele muda a cor de tudo ao seu redor. O céu deixa os tons de cinza, e se torna azul, rosa, laranja e vermelho. O verde das árvores brilha mais forte, e a forma como a luz do sol transforma esse lago em um grande espelho de águas cristalinas... — Continuou, mas eu quase não prestava atenção em suas palavras, era difícil fazê-lo uma vez que sua fala mansa em meu ouvido me deixava tonta e me fazia desejar não apenas seus sussurros, mas seus lábios quentes tocando em minha pele.

— Oliver, o que você está fazendo? — Girei entre seus braços ficando de frente para ele, eu não conseguia ler seu semblante quando nossos olhos se encontraram, mas havia algo diferente nele.

— Nada. — Oliver disse simplesmente, dando um passo para trás se afastando de mim. Aquilo estava errado, Oliver não recuava quando eu me aproximava, ele atacava esse era o seu modus operandi. Por que estava sendo tão cauteloso comigo agora? Será que falava realmente sério sobre a ideia de ser apenas meu amigo?

— Oliver... Por que me trouxe aqui? — pressionei, em busca de informações que pudessem clarear seu comportamento.

— Eu gosto de vir aqui quando me sinto... Aborrecido com algo. — suas sobrancelhas se uniram dizendo que era muito mais do que aborrecimento o que o fazia vir até aqui. Oliver encostou seu corpo deliberadamente na mureta da ponte enquanto tomava uma respiração funda e me encarava com seriedade, seus olhos azuis pareciam enxergar através de mim — Eu não sei o que está acontecendo com você, Felicity. Eu sei que como todas as pessoas você tem seus segredos e fantasmas, que muitas vezes te assombram durante o seu sono. — instantaneamente eu travei, Oliver havia desvendado parte da verdade, eu era assim tão fácil de ser lida? — Eu não sei o que é, e você obviamente não quer falar sobre isso comigo. Mas se tem algo do qual eu sei também, é que você precisa encontrar algo bom e belo, e usar isso como escudo, como sua força para lutar contra seus fantasmas, não deixe isso tirar seu sorriso. — não sei o porquê, mas suas palavras cheias de inspiração trouxeram um pequeno sorriso aos meus lábios — Eu te trouxe até aqui porque queria que você começasse o dia com algo bom e belo. — Sorri ainda mais e mordi o lábio inferior impedindo que o sorriso tomasse conta do meu rosto. Considerando que minha primeira visão após acordar tinha sido Oliver Queen sentado na minha cama, eu podia dizer que tinha sido uma visão muito bela para começar o dia. — O quê foi?

— Nada. — Desviei meus olhos.

— Felicity! Nunca é nada com você, me diga o que está pensando. — Seu tom foi imperativo, seu olhar exigia respostas.

— Eu apenas não imaginava que existisse um lado fofo de você. — Confessei.

— Ouch. — Oliver deu um passo até mim, seu corpo parando completamente a minha frente, seu rosto inclinado para o meu me encarando, me impedindo de fugir do seu olhar — Nunca mais me chame de fofo outra vez. — Falou pausadamente, tive vontade de rir do seu tom de voz tão sério e ofendido.

— Por quê? — Questionei, curiosidade me dominando.

— Me sinto emasculado, as mulheres só chamam de fofos os seus cãozinhos poodle ou os amigos gays. — Disse seriamente. Eu juro que tentei segurar, mas não consegui e explodi numa gargalhada alta. Esse era o problema de Oliver? Que seu momento terno me fizesse o tratar como meu amigo gay? Isso seria algo impossível, considerando que meu corpo se lembrava muito bem da forma que Oliver havia me tomado em seus braços, de como seus beijos eram possessivos e exigentes, de como suas mãos me faziam queimar de desejo. Gay e Oliver Queen eram duas palavras que nunca seriam ditas juntas em uma mesma sentença.

— Vai por mim, Oliver, você é o oposto de gay. — Eu disse ainda rindo, antes que pudesse frear as palavras, antes que pudesse pensar no que estava dizendo. O clima leve que tinha se instaurado entre nós voltou a ficar carregado, aquela névoa de tensão misturada a desejo tomando conta de tudo. Eu parei de rir ao perceber o quão perto de Oliver eu estava, o quanto eu queria diminuir a distância ainda mais e tocar seus lábios com os meus. Eu sabia que ele queria fazer o mesmo, a forma que ele me olhava e o jeito deliberado com o qual passara a língua pelo lábio inferior o molhando, não deixava margens para dúvidas.

Ele iria me beijar.

A qualquer momento.

E eu queria isso desesperadamente. Fechei meus olhos e entreabri os lábios esperando ansiosamente pelo momento em que estaria colado nos de Oliver e seria inundada por aquela sensação de prazer que eu só senti quando o beijava.

Eu esperei. Eu senti o gosto da sua respiração bater em minha boca, mas o beijo que eu tanto queria não veio.

— Vamos tomar um café. — Oliver disse, saindo da minha frente e começando a caminhar sem esperar que eu o acompanhasse. Por um momento eu fiquei ali, parada e confusa com o que acabara de acontecer. Eu tinha sido dispensada?

Depois desse momento Oliver e eu caminhamos pelo parque como se nada tivesse acontecido, ou melhor quase acontecido. Eu estava surpresa pela forma que ele estava mantendo a conversa em tópicos simples, amenidades sobre seu trabalho, informações desnecessárias sobre a cidade. Criava uma certa distância que estava começando a me incomodar.

Em um momento durante a nossa caminhada, quando o sol já estava bem mais quente eu parei e me apoiei sobre a mureta da ponte, fechei meus olhos por um momento e respirei fundo aquele ar puro. Como era bom me sentir livre, me sentir segura, depois de tanto tempo trancada dentro de apartamentos e vivendo com medo, eu tinha me esquecido qual a sensação de simplesmente parar e aproveitar algo tão simples como o calor do sol.

— O que está fazendo? — Oliver me perguntou, quando o encarei notei um brilho diferente em seus olhos.

— Aproveitando um pouco do sol. — expliquei — Gotham é quase sempre fria e chuvosa e eu mal saía de casa enquanto eu estava lá, eu senti falta do sol e do clima quente de... — Parei abruptamente ao perceber que iria revelar mais de mim.

— De...? — Perguntou, seu olhar cheio de expectativa.

— Las Vegas. — Resolvi contar, não fazia sentido esconder coisas assim — Nascida e criada. — Oliver sorriu, com minha pequena concessão.

— Você não me parece uma garota de Vegas. — Comentou.

— Porque você provavelmente só conhece as peitudas que são dançarinas de cassino. — Alfinetei.

— Você provavelmente está certa. — Disse passando as mãos pelos cabelos, segui o movimento sexy, que me desconcentrou por um momento.

— Eu me mudei quando comecei a faculdade, mas minha mãe ainda vive lá. — Mordi o lábio inferior, ao notar que eu estava contando mais do que deveria. Esperei que Oliver me perguntasse sobre a faculdade porque eu a havia largado, ou ainda sobre minha mãe. Mas ele não o fez.

— Me lembre nunca jogar pôquer com você. — Eu ri alto com sua afirmação.

— Eu sou muito ruim no pôquer... — Eu disse — Na verdade, nós deveríamos jogar um dia desses, você poderia me ensinar, assim eu não perderia sempre que vou visitar a minha mãe. — Pedi inocentemente.

— Eu sou um policial treinado e sei dizer quando alguém está mentindo para mim. — Disse seu dedo indicador tocando a ponta do meu nariz me fazendo bufar em frustração. Teria sido algo divertido de se fazer, mais divertido ainda seria a cara de Oliver quando perdesse para mim. — Além disso, eu só jogo strip poker, se quiser arriscar... — Piscou para mim deixando a sugestão no ar — Eu estou brincando, Felicity. — afirmou rapidamente ao ver minha expressão, mas eu não acreditei nenhum pouco que aquilo fosse brincadeira.

Sim, ele jogava strip poker.

E sim, vergonhosamente eu queria muito jogar com ele.

— Eu nasci em Gotham. — Me surpreendi com a mudança abrupta de assunto, ainda mais para um assunto tão importante — Fiquei órfão de pai e mãe aos quinze anos, eu tinha todos os motivos para seguir um caminho sem volta, Gotham não é uma cidade fácil para órfãos, mas seu tio me salvou, ele disse que viu um potencial em mim. — sorri um pouquinho ao ver que Oliver falava de tio Gordon de uma forma muito carinhosa — Ele me deu um teto sob o qual dormir, comida na mesa e um conselho que eu jamais esqueci.

— Que conselho? — perguntei.

— Não deixe que o seu passado defina o seu futuro. — sorri novamente, ele já havia me dito algo assim também.

— Isso soa exatamente como tio Gordon.

— Ele é uma pessoa incrível.

— É sim. — concordei um pouco saudosa, eu ainda não tinha falado com ele hoje — Eu sei o que você está fazendo, Oliver. — Suspirei — Você me conta algo sobre você e espera que eu conte algo sobre mim de volta?

— Eu não estou fazendo nada, eu sei que você tem segredos, Felicity. Eu não espero que você me conte nada agora, e o que eu contei sobre mim não era um segredo. Era meu passado, um pedaço de mim que eu queria compartilhar com você, é isso o que os amigos fazem, eles compartilham partes de si mesmo.

Amigos. Assenti ao escutar Oliver dizer aquilo, ainda não fazia muito sentido isso para mim. Mas eu precisava ao menos tentar, Oliver estava tentando. Eu ia dizer algo a ele, talvez tentar essa coisa de compartilhar, mas naquele exato momento seu celular tocou, ele se desculpou dizendo que era do trabalho e se afastou.

Observei de longe Oliver falar ao telefone, ele parecia sério e compenetrado. Eu nunca pensei muito em como Oliver seria como um policial, eu conhecia apenas o Oliver mandão, sexy e que bastava apenas olhar para uma garota para que ela lhe desse qualquer coisa. Mas algo me dizia que apesar do estilo “bonito, mas ordinário” ele era muito sério e competente no que fazia, até porque tio Gordon não me confiaria a ele se não fosse assim.

Desviei meu olhar para o lado, eu precisava parar de babar em Oliver se quisesse que essa coisa de amigo desse certo. Quando tornei a olhar na direção em que ele estava e não o vi, eu me senti imediatamente estranha.

O ar parecia mais frio ao meu redor, eu me abracei com força tentando conter o arrepio que subia por minha espinha e espalhava por minha pele. E então veio, aquela estranha sensação de estar sendo vigiada que fazia meu estômago se revirar. Olhei para trás, por entre as árvores e escutei o barulho de folhas secas sendo pisadas.

Havia alguém ali.

Meu coração começou a palpitar.

Era um homem, eu o vi se escondendo rapidamente atrás de uma árvore, ele usava um moletom preto com capuz, eu não podia dizer com certeza se era ele, mas fazia uns 25° C ninguém em sã consciência estaria de blusa de frio nesse calor. Por isso o meu primeiro instinto me dizia para correr na direção oposta, em direção a Oliver.

E foi o que fiz.

Não tive que dar mais do que poucos passos, quando bati de frente com Oliver o qual para a minha sorte, tinha bons reflexos e me segurou antes que me chocasse com ele.

— Hey, Felicity! — Ele me chamou, me apertando firme — Fique calma, e me explique o que aconteceu?

— Hum... — Virei minha cabeça para trás, tentando ver se ainda havia alguém ali, mas não, o lugar estava completamente vazio. Será que eu estava apenas imaginando? Não seria a primeira vez. — Não foi nada, eu apenas não te vi e pensei que tinha me perdido. — Eu me apressei a dizer, e Oliver estreitou os olhos para mim parecendo descrente. Inferno! Oliver era um detector de mentiras humano.

— Tem certeza que é isso? — Assenti com a cabeça, me forçando a sair do seu abraço apertado — Certo... — Oliver concordou, parecendo um pouco sem foco por um momento. — Eu... eu preciso ir a delegacia. — Disse num tom de quem se desculpa.

— Acho que isso coloca fim ao nosso... — Franzi o cenho, era difícil encontrar a definição correta — ...Encontro de amigos?

Oliver conteve um sorriso.

— Ou eu posso te levar comigo, se quiser. — Propôs. — Eu não vou demorar muito, prometo. — Cruzou os dedos.

— Tudo bem. — concordei, primeiro porque não queria ficar sozinha e segundo essa era a primeira vez que Oliver não me pedia algo num tom de ordem, ele tinha realmente feito um pedido, no qual minha opinião contava.

Ele pegou minha mão e a puxou enquanto seguíamos para a delegacia. Eu estranhei o movimento, eu tinha muita certeza, que amigos também não seguram as mãos, da forma que Oliver segurou a minha.

Mas não me importei, eu gostava do toque dele.

Talvez ser amiga não fosse tão ruim afinal.

***

Eu estava sentada na cadeira de Oliver, girando de um lado para o outro enquanto ele estava na sala do capitão Lance, conversando sobre algo que eu supunha ser muito sério.

— Hey, Felicity! — Me assustei com Sara que simplesmente apareceu do nada, e sentou-se sobre a mesa a minha frente.

— É bom vê-la, Sara! Como tem passado? — perguntei educadamente.

— Bem. — Disse sorridente demais para o meu gosto. — Não que eu esteja reclamando por te ver aqui, mas estamos em uma delegacia, o quê você está fazendo aqui, Felicity?

— Oliver e eu estávamos juntos quando ele recebeu uma ligação da delegacia e...

— Juntos! Então você e Ollie estão...? — Deixou a pergunta no ar, mas seus olhos grandes pareciam querer pular da órbita com tanta animação.

— Nós somos apenas amigos, Sara. — seu sorriso se tornou maior e eu sabia que ela estava pensando em alguns benefícios — Amigos que apenas conversam, que não se beijam, nem fazem sexo. — Deixei claro.

— Isso é bom, isso é muito bom, Felicity. — Por que ela continuava animada com isso?

— É sim. — Confirmei, ainda sem entender porque Sara ainda estava com aquele sorriso tão grande nos lábios.

— Você não parece incomodada. — Sara comentou do nada.

— Por que eu estaria incomodada? — Questionei.

— Estamos em uma delegacia... — Apontou o momento em que dois policiais entravam arrastando um homem algemado que gritava alguns xingamentos e ameaçava aqueles que o haviam prendido.

— Eu já estive em muitas delegacias. — Dei de ombros, desviando o olhar da cena.

— Tem ficha suja é? — Os seus olhos claros brilharam em interesse.

— Não! — Neguei prontamente.

— Deixe-me adivinhar... Você parece quietinha, mas aposto que pode ter aprontado muito, todo mundo sabe que as quietinhas são as piores... Me deixe pensar em uma contravenção. — Pediu, forçando uma expressão de quem estava pensando — Já sei! Eu aposto em atentado violento ao pudor! — Fiquei chocada com suas palavras — Andou desfilando nua na rua, Felicity?

— Eu não! — Me apressei em me defender, mas Sara apenas riu.

— Oliver foi quase preso por isso uma vez, saiu completamente pelado correndo pelas ruas de Starling City, tudo para ganhar uma aposta! — por um momento me cérebro parou apenas imaginando a visão de Oliver completamente nu, correndo pelas ruas com tudo a mostra — Está vendo só? Você e ele tem muito em comum, por isso serão ótimos amigos.

— Por Deus, Sara! Meu tio é comissário da polícia de Gotham, é só por isso que estou acostumada a delegacias! — Quase gritei, eu precisava que Sara desse um tempo.

— E você ia visitá-lo muito na delegacia? Aliás, por que se mudou de Gotham? E por que você está morando com Oliver? Porque nenhum tio em sã consciência deixaria uma sobrinha morar com alguém tão pervertido quanto Ollie... — Sara estava me enlouquecendo, ela ia muito rápido de uma pergunta para outra, e seu jeito direto de me perguntar as coisas me deixava um pouco confusa. Antes que eu pudesse pensar em responder o seu interrogatório escutei uma voz feminina irritante se dirigir a mim num tom acusatório.

— Você! — Olhei para a morena a minha frente, eu a reconhecia de algum lugar, mas não me recordava ao certo qual.

— Hum... Eu? — Tentei ser cautelosa, ao ver a cara de desagrado em seu rosto. Sara, por sua vez tinha um sorriso deslumbrante no rosto.

— A área das rejeitadas é ali naquele cantinho, Mackenna. — Sara disse, fazendo um movimento com os braços como se tocasse um cachorro para fora.

— Que seja, ele vai se cansar dessa daí rapidinho, ele sempre se cansa rápido, logo enxota ela também. — A mulher me fuzilou com o olhar e então eu me lembrei, era ela que estava no apartamento de Oliver no dia em que eu cheguei.

— Acho pouco provável, Oliver e eu nos damos muito bem. — eu disse jogando meu cabelo para trás fazendo o tipo coquete, eu sabia que estava dizendo mentiras, mas eu não tinha gostado nem um pouco do tom arrogante daquela mulher.

Ela tentou manter o ar superior, mas pareceu ver algo por trás dos meus ombros e deu meia volta rapidinho.

— Algum problema aqui? — Oliver chegou se colocando ao meu lado, era impressão minha ou ele parecia um pouco distante?

— Nenhum problema, apenas acabei de descobrir que Felicity é minha alma gêmea. — Sara disse, pulando da mesa. — Agora eu preciso ir falar com o meu pai, mas devíamos combinar algo, só nós três. Eu acho que precisamos nos divertir um pouco mais. — Disse, lançou-me uma piscadela e saiu saltitando. Sara era um pouco maluquinha, mas eu estava começando a me adaptar e a gostar do seu jeito.

— Temos que ir. — Foi a tudo o que Oliver disse para mim, sua frase curta não veio acompanhada de um sorriso, muito ao contrário, ele tinha um semblante carregado e preocupado.

— Oliver, algo está errado? — Perguntei, estranhando o seu comportamento.

— Aqui não. — Me disse soando rude enquanto íamos para o lado de fora da delegacia.

— Suas mudanças de humor estão me confundindo. Me diga o que está preocupando você? — Pedi que me dissesse, a distância que ele estava nos impondo estava acabando comigo.

— Eu não tenho certeza se morar comigo é seguro para você. — Pisquei confusa, aquilo não fazia o menor sentido, eu estava com Oliver porque tio Gordon me garantiu que não haveria lugar mais seguro para mim. Eu me sentia segura com ele, como eu jamais havia me sentido antes.

Algo estava errado.

— Oliver... O que você não está me contando? — instintivamente coloquei minha mão sobre o seu peito, não sei porque, talvez eu precisasse de algum contato físico, algo que lhe disse que ele poderia confiar em mim.

Seus olhos se fecharam por mais tempo do que o normal, ele parecia buscar por controle, no fim, quando seus olhos recaíram sobre mim eu notei que ele não o encontrou. Havia algo diferente nele, eu via uma escuridão em seus olhos, algo que eu reconheci como medo. Sim, eu sabia que era medo, porque era o que eu via no espelho todas as manhãs.

— Quer dizer que você pode ter seus segredos, mas eu não posso ter os meus? — Ele riu amargamente tirando minha mão que estava apoiada nele — Esquece. — meneou a cabeça — Vou te levar para casa, agora, ligarei para Gordon e ele arrumará um lugar longe daqui para você ficar, vai ser o melhor. — Seu tom era decidido.

— Oliver... — Tentei insistir, eu precisava fazê-lo mudar de ideia, ou ao menos me dizer o que estava acontecendo, para que encontrássemos uma saída.

— Não! — Oliver gritou, eu conhecia seu lado grosseiro, mas eu nunca tinha visto seu lado assustado. — Nem tente me fazer mudar de ideia, Felicity, você vai embora daqui ainda hoje.

Suas palavras duras me fizeram dar passos cambaleantes para trás.

Por que era sempre assim? Sempre que eu começava a ter esperanças de que tudo poderia ser normal, de que eu poderia ter um lar outra vez, isso era arrancado de mim.

Notas finais
Porque será que Oliver quer que Fel vá embora? Eles estavam indo tão bem... Deixem seus palpites, opiniões!