Running Away
17 Capítulo 16 - I’ll make you unbreakable
Notas iniciais
She finds it hard to trust someone
She's heard the words cause they've all been sung
She's the girl in the corner
She's the girl nobody loved
When you lose your way and the fight is gone
Your heart starts to break
And you need someone around now
Just close your eyes while
I put my arms above you
And make you unbreakable
She stands in the rain just to hide it all
If you ever turn around
I won't let you fall down, now
I swear I'll find your smile
And put my arms above you
And make you unbreakable
I'll make you unbreakable
(Unbreakable — Jamie Scott)
Oliver Queen
Os olhos de Felicity estavam em mim.
E eu estava morrendo um pouco por dentro por causa do olhar dela.
Ela olhava para mim como se eu fosse a resposta a uma pergunta terrível. Eu não entendia como eu estava recebendo esse olhar. O que ela via em mim que a aterrorizava tanto? Ela enrijeceu em meus braços e levantou-se depressa do meu colo dando alguns passos para trás, piscou os olhos várias vezes afastando as lágrimas que teimavam em querer cair, mas como se quisesse se provar como forte Felicity se esforçava para impedi-las. Novamente ela olhou para mim, suas íris azuis brilhando através da camada fina de lágrimas. A dor em seu rosto era palpável, e ver Felicity sofrer fazia meu próprio coração sofrer em resposta. Ela estava mantendo os braços ao redor de si mesma, tentando se isolar, se afastar e lidar com tudo sozinha como estava acostumada. Eu precisava fazer algo, eu precisava impedir Felicity de fugir novamente e se esconder atrás daquelas barreiras feitas de medo e autocomiseração que eu demorei tanto para derrubar.
— Amor... — A palavra escorregou de meus lábios de forma natural, e me surpreendi ao notar que já havia se tornado um hábito para mim chamá-la assim. Eu nem era ciente de que fazia isso há um tempo, era puro instinto, eu olhava para ela e a palavra simplesmente vinha a minha mente. Os olhos de Felicity pareceram um pouco mais cálidos e receptivos ao escutar a minha voz, a dor ainda estava ali, mas havia aquela nova emoção, os bons sentimentos que despertávamos um no outro lutando para se sobreporem a todas as coisas ruins. Me aproveitei daquele pequeno momento em que Felicity abaixara as suas defesas e dei passos largos até ela, determinado a não aceitar aquela distância. Removi delicadamente os braços dela ao redor de si mesma, e puxei suas mãos para o meu peito, sobre o meu coração. — Se precisa de um abraço, pode usar os meus braços. Eles foram feitos para envolvê-la, o calor do meu corpo para acalmá-la, pode usar meu peito para chorar, eu não vou me importar com o estrago feito na minha camisa. — ergui minha mão capturando uma pequena lágrima que tremia no canto do seu olho, era doloroso ver a força que Felicity fazia apenas para segurá-la. — Você não está mais sozinha. Agora você me tem. — A lembrei.
— Eu sei que não estou mais sozinha. — havia algo errado na forma como a resposta dela soava, era quase preocupada. Como se não estar sozinha representasse um problema maior. Mas ainda assim ela deixou que eu a abraçasse, ainda assim ela agarrou minha camisa com suas mãos e escondeu o rosto no meu peitoral. Acariciei suas costas e deixei beijos em seu cabelo, enquanto ela tomava o tempo necessário para se recuperar.
— Há mais uma coisa que eu preciso te contar. — comecei, sendo cauteloso. Eu deliberadamente evitei esse assunto o máximo que consegui, porque eu sabia o quanto isso a machucaria e eu não gostava de ver Felicity sofrer.
Mas chegamos num ponto em que era inevitável.
Felicity ergueu o olhar para mim, novamente a dor dela era a minha dor.
— É ruim, não é? — não gostei do tom pragmático da pergunta dela, era quase como se ela não acreditasse que coisas boas poderiam acontecer a ela. Abri minha boca desejando dizer que não, se havia alguém que merecia receber coisas boas da vida era Felicity, mas a vida a deixava na ponta de um precipício e continuava insistindo que ela desse um passo a frente. Por mais que eu quisesse vê-la feliz, por mais que eu quisesse segurá-la e a impedir de cair eu não poderia mentir para ela. Tudo o que eu podia fazer era segurar a sua mão e cair junto com ela.
— Eu sinto muito. — Ela fechou os olhos, e eu elevei minha mão acariciando a bochecha dela, lembrando-a de que eu estava aqui. — É sobre Gordon. — Ela abriu os olhos rapidamente a menção do nome do tio.
— Ele também está morto? — Perguntou com a voz quebrada e o olhar horrorizado, seu corpo todo tremia diante daquela possibilidade.
— Não, não está. — garanti rapidamente apertando seu corpo contra o meu, desejando que meu abraço fosse o que ela precisava para se acalmar. Eu não podia dar a ela certezas quanto a vida de Gordon, mas eu também não permitiria que ela entrasse em luto quando ainda havia esperanças. — Depois que você deixou Gotham seu tio Gordon começou a investigar sozinho o caso do seu perseguidor, mas desapareceu há algumas semanas. Ninguém sabe o que aconteceu. — ela tomou uma respiração profunda enquanto assimilava minhas palavras — Um policial de Gotham está aqui na cidade, nós estamos trabalhando juntos para descobrir o onde ele está. Se o seu perseguidor estiver com Gordon, nós vamos encontrá-lo e trazê-lo de volta.
— Ele pode estar morto. — Franzi o cenho ao notar que seu tom ia além de uma simples falta de esperança, era quase hostil.
— Nós vamos encontrá-lo. — assegurei novamente — Confie em mim. — pedi. Felicity já tinha demonstrado sua confiança em mim ao contar sua história, ao mostrar partes de si que ela escondia do restante do mundo. Mas eu precisava confirmar que os últimos acontecimentos não estavam mudando as coisas entre nós, e eu precisava ter a confiança dela para que executasse meu trabalho de protegê-la, de eliminar todas as ameaças.
— Eu confio em você, Oliver. — Ela disse com pesar na voz, suas mãos empurrando o meu peito enquanto ela dava um passo para trás, segurei a vontade de romper a pequena distância apenas porque eu sabia que Felicity estava pedindo um pouco de espaço para si. — Mas eu sei o quanto ele pode ser perverso. Pessoas já se machucaram antes. Deus! Pessoas morreram e vão continuar morrendo até que ele consiga o que quer. Ele matou Selina apenas para ter acesso ao celular dela! Se ele estiver com Gordon é só uma questão de tempo até... — ela não completou a frase — Ele não se importar em quantos ele terá que machucar apenas para chegar até mim. — A voz dela falhou na última frase.
— Ele não vai chegar até você. — Garanti firme. Eu não permitiria que ele chegasse perto dela novamente, eu iria me manter cada minuto do meu dia ao lado de Felicity. Inferno! Eu iria ao banheiro junto com ela se fosse necessário, mas ele não iria tirá-la de mim.
— Se ele está ferindo pessoas com as quais me importo, é porque ele já chegou. — sua voz era uma mistura de tristeza e um pouco de suavidade, a essa altura as lágrimas já caíam livremente. Felicity não estava mais se fazendo de forte, ela estava apenas aceitando o fato de que toda a merda do passado dela que ela havia deixado para trás estava de volta, e mais determinado do que nunca.
— Encontraremos Gordon vivo, e você ficará bem, eu prometo. — falei, porque eu não gostava de ouvir a desesperança na voz dela.
— Você não pode me prometer isso. — seu tom era condescendente — Isto é apenas um jogo para ele, eu o conheço bem, Oliver. — rangi os dentes ao escutá-la dizer isso, lembrando-me do tempo em que ele a manteve cativa. Do tempo em que ele a vinha perseguindo, eu não gostava de pensar nisso, mas sem dúvida Felicity conhecia o método dele melhor do que ninguém. — E não importa o quão bem eu me esconda dele, não importa se eu fugir para o outro lado do mundo. Não importa se eu me atrevo a ter uma vida e a ser feliz. Ele sempre encontra um modo de me achar e destruir tudo. Ele já começou matando Selina. E se ele tem tio Gordon também, ele logo vai usá-la para algum propósito sórdido. — o olhar de Felicity havia se perdido no nada, sua aparente aceitação de que não havia uma solução quebrou algo dentro de mim. Eu não suportava vê-la dessa forma.
— Felicity... — chamei sentindo o desespero tomar conta de mim enquanto seu olhar permanecia preso no nada, sua mente longe demais para eu alcançar. — Amor... volte para mim. — Pedi tocando seu rosto, eu precisava sentir uma reação dela, precisava ter certeza que ela ainda estava aqui comigo. Felicity finalmente olhou para mim. A dor em seu olhar novamente me destruindo, o pesar em seu rosto dizendo-me que ela não ficaria por muito tempo, que eu a perderia. Ela tomou uma respiração profunda e longa tentando buscar um pouco de controle sobre as próprias emoções antes de começar a falar comigo num tom quase conciliatório.
— Ele não vai parar até conseguir o que quer, ele vai transformar minha vida num terror novamente. — Felicity estava tentado me fazer entendê-la — E eu não posso suportar isso mais! Eu não posso ficar e vê-lo destruir todas as coisas boas que eu construí aqui...
— Não. — Meu corpo todo enrijeceu ao compreender onde ela estava chegando.
— Oliver... Por favor, eu preciso que você me entenda. — Inferno! Porque ela tinha que dizer meu nome dessa forma? Porque ela pedia para eu entender algo que meu coração se recusava a aceitar?
Eu sabia o que viria a seguir, eu sabia o que ela iria fazer. Porque fugir sempre parecia a única opção viável para Felicity.
Mas eu não estava disposto a deixá-la ir.
— O que você quer de mim? Permissão para fugir novamente? Ou para desistir de lutar? — Pressionei sendo rude, me deixando ser contagiado pelo medo de perdê-la, deixando que ele tomasse o controle de mim. — Você sempre pega a alternativa fácil. — minhas palavras a atingiram deixando-a atordoada, ela deu um passo para trás se afastando e olhando para mim surpresa com meu tom quase hostil. Eu não estava sendo justo com ela, eu estava jogando sujo para mantê-la e eu a havia magoado. Mas eu não iria me desculpar por isso agora, principalmente se eu conseguisse convencê-la a ficar. Então eu continuei — Você fugiu de mim no começo, você se recusou a aceitar que estava atraída por mim porque estava com medo de sentir algo e isso quase a privou de viver isto. — segurei a mão dela com a minha, meus dedos brincando com os dela, o toque suave e despretensioso deixando-me aquecido por dentro — Você não pode deixar que o medo controle você, Felicity. O medo nesse momento é o seu pior inimigo, se você fugir agora essa história nunca terá um fim. Você vai passar o resto da sua vida aprisionada dentro desse muro feito de medo, se escondendo de si mesma, se escondendo da vida — olhei em seus olhos buscando por uma conexão, por algum tipo de entendimento — E eu não desejo isso para você, Felicity. Eu quero que você seja feliz, quero que você viva e experimente cada coisa boa no mundo sem ter medo de que isso possa ser tirado de você. Eu quero que você fique, e confie que eu posso trazer a felicidade que ele roubou de você.
Um longo silêncio se impôs entre nós, até que Felicity finalmente o quebrou.
— Eu quero mais do que tudo ser feliz também, Oliver. Mas o que mais eu posso fazer? — A vulnerabilidade na voz dela foi uma surpresa para mim — Não há caminho fácil aqui, não há estrada de tijolos amarelos me guiando para a casa. Existem duas alternativas e nenhuma delas é boa: Eu posso fugir e não vê-lo machucar as pessoas que amo, ou eu posso apenas ficar e esperar pelo momento em que ele vai conseguir chegar até mim... Porque eu sei que ele vai. — ela meneou a cabeça, eu tinha certeza de que ela estava tentando espantar aquele pensamento ruim — Eu apenas não posso ficar parada observando ele tirar tudo de mim outra vez, mas eu estou ficando cansada de fugir e me esconder, cansada de sentir medo e de sofrer. E acima de tudo eu estou cansada de lutar contra alguém que parece invencível.
— Então descanse, amor. — falei e ela meneou a cabeça como se dissesse que aquilo era impossível — Eis a terceira opção: Deixe que eu lute por você, deixe que eu a mantenho segura e protegida. Ele não vai tocá-la enquanto você estiver em meus braços, ele não vai machucar a ninguém enquanto eu estiver cuidado de tudo. — Felicity olhou para mim me estudando, eu esperava que ela visse a determinação em meus olhos, que ela visse que eu falava sério.
— Você não tem que lutar minhas batalhas, Oliver.
— Não são apenas suas. — passei uma mecha do seu cabelo para trás da orelha, me sentindo um pouco melhor ao notar que Felicity estava me escutando ao invés de tentar me convencer que fugir era a melhor opção. — Nós estamos juntos agora. E isso faz delas nossas batalhas. Eu não irei lutar apenas pela sua felicidade, eu irei lutar pela nossa.
E então algo incrível aconteceu.
Em meio as lágrimas, a dor e o medo, Felicity sorriu para mim.
Foi um sorriso pequeno e ele desapareceu tão logo ela se jogou em meus braços apertando-me tão firme quanto conseguia, escondendo o rosto em meu peitoral e respirando profundamente várias vezes seguida.
— Eu não quero perder você. — Ela disse ainda com o rosto escondido em meu peito e eu finalmente me permiti relaxar. Ela não estava indo. Estávamos juntos, e enquanto estivéssemos assim, nós ficaríamos bem.
— Você não vai me perder, amor. — respondi, a abraçando de volta pelo tempo em que ela precisava ser abraçada.
O choro dela veio silencioso.
Eram apenas lágrimas vertendo em seu rosto, não havia som, não havia desespero. Ela chorava pela morte da amiga, pelo desaparecimento do tio que poderia também estar morto. Mas havia mais do que isso em seu choro, eu deduzia. Felicity acima de tudo chorava por si mesma. Chorava pela garota que havia perdido tanto no passado, e chorava pela mulher que temia perder tudo o que havia conseguido aos poucos recuperar.
Eu a mantive em meus braços, enquanto ela precisou de mim. E quando ela estava exausta demais até mesmo para continuar a chorar, eu a guiei para nossa cama, eu acomodei seu corpo junto ao meu e acariciei seus cabelos até que ela adormecesse em meus braços.
Eu não dormi, eu fiquei acordado vigiando o sono conturbado dela. Felicity acordou um par de vezes durante a noite, ela voltara a ter seus usuais pesadelos. Mas pelo menos desta vez eu estava ali, eu pude abraçá-la e consolá-la. Pude mostrar a ela que por mais terrível que seus pesadelos fossem, eles tinham ficado no passado e eu era o presente dela, eu estava aqui para ela.
Ela finalmente se acalmava e voltava a dormir. Mas eu permanecia acordado, observá-la dormir, ter seu corpo junto ao meu e a certeza de que ela era minha era a única coisa que me acalmava. E eu precisava me acalmar, porque desde o momento em que eu descobri que o homem que havia feito tanto mau a ela estava de volta, minha mente não descansava, havia um único pensamento que não a deixava por nem um segundo.
Eu lutaria por Felicity.
Eu lutaria por nós.
***
Felicity Smoak
Acordei sentindo uma forte e latejante dor de cabeça. Esfreguei meus olhos antes de abri-los notando o quanto eles pareciam inchados pelo choro da noite anterior. Me arrastei pelo colchão e me surpreendi ao não encontrar Oliver ao meu lado na cama, ele havia permanecido ali a noite toda, ele havia oferecido seu colo quando eu precisei chorar, ele havia suportado todos os meus pesadelos e não tinha sido menos do que compreensivo comigo. Eu devia tanto a ele. Não apenas por ter sido o meu porto seguro nesse momento de dor, mas por me mostrar que há sempre luz em meio a escuridão quando se tem alguém que está ao seu lado nesses momentos sombrios, alguém para lembrá-la que por mais escura e longa que a noite seja o sol sempre nasce no outro dia. E que quando se tem algo verdadeiramente bom, devemos lutar por isso.
Ele estava certo.
Já estava na hora de parar de fugir e me esconder. Eu precisava dar um fim a essa história, que fosse bom ou ruim, não importava. Eu apenas não poderia mais continuar a viver dessa forma, deixando tudo e a todos para trás todas as vezes que ele reaparecia na minha vida. Eu ainda sentia o medo correndo em minhas veias, medo do que o futuro me reservava, medo de perder mais pessoas, medo de que no fim ele vencesse. Mas esse medo alimentava minha vontade de lutar contra, e eu esperava que isso fosse o suficiente.
Levantei da cama, troquei de roupa, escovei meus dentes e joguei um pouco de água fria no rosto tentando aplacar a vermelhidão depois de chorar por tanto tempo. Quando eu estava deixando o quarto pronta para ir a procura de Oliver escutei o som de vozes em uma discussão e elas pareciam vir da sala.
— Isto está fora de cogitação, pense em outra coisa Diggle. — Oliver praticamente rugia num tom autoritário. Cheguei a sala e a primeira coisa que reparei foi na postura defensiva dele, na forma como seus braços estavam cruzados e a mandíbula rígida enquanto ele dispensava um olhar duro para o homem que me era levemente familiar e estava de pé ao lado de Sara.
— O que está acontecendo aqui? — Perguntei entrando na sala, todos os olhos se viraram para mim e aquilo me dizia que eu poderia muito bem ser o assunto em questão.
— Sinto muito, não queríamos te acordar. — Oliver veio imediatamente até mim, sua postura se tornando muito mais relaxada e a voz suave, seus olhos expressavam carinho e aquela preocupação que era algo permanente desde o dia em que eu contei a verdade sobre o meu perseguidor. Ele demorou-se um pouco mais enquanto deixava um leve beijo em minha testa e me enlaçava pela cintura, puxando-me para mais perto dele.
— Olá Felicity. — Sara cumprimentou com um pequeno sorriso nos lábios ao notar a interação entre mim e Oliver. Eu correspondi ao seu cumprimento balançando distraidamente com a cabeça, eu estava muito ocupada analisando a cena a minha frente e tentando entender o que estava acontecendo.
— Eu não sei se você se recorda de mim. — o homem ao lado de Sara disse dando passos a frente enquanto oferecia a mão a mim. — Meu nome é John Diggle, eu trabalho...
— Você trabalha com tio Gordon. Eu me lembro de você. — completei enquanto apertava a mão dele. Havia algo de agradável e confiável nele que me tranquilizava — Você foi um dos policiais que me levou até o aeroporto quando eu deixava Gotham. — falei e ele assentiu dando-me um pequeno sorriso. — Então... Vocês vão me explicar o que está acontecendo aqui? — Perguntei, sentindo Oliver ficar incomodado ao meu lado.
Tanto Sara quanto Diggle olharam diretamente para Oliver, como se pedissem permissão para ele. E não pude evitar erguer uma sobrancelha sugestivamente para ele também, ao notar aquela estranha hierarquia.
— Sara veio devolver seu celular. — Oliver disse, parecendo cauteloso demais.
— Vocês conseguiram algo dele? — perguntei esperançosa.
— Sinto muito, nós tentamos, mas não conseguimos nenhuma pista — Sara negou, mas seus olhos continuavam em Oliver. — E eu sinto muito por sua amiga também.
— Obrigada, Sara. — agradeci, sentindo um bolor se formar em minha garganta ao me lembrar de que Selina estava morta, tudo por algo tão mesquinho quanto um celular. — Vocês já avisaram os familiares dela? Eu queria saber se haverá alguma celebração, eu apenas gostaria de me despedir dela.
— Bem, não fizemos isso ainda. — Foi Diggle quem respondeu. Sua resposta parecia ter um significado muito maior, principalmente porque ele olhava diretamente para Oliver.
— Porque não?
— Na verdade Felicity, isso tem a ver com o fato de estarmos aqui. Passamos a noite toda procurando por alguma pista em seu celular. Policiais checaram as câmeras de segurança da cidade em busca de Floyd Lawton, esperando por um deslize. E não encontramos nada. Estamos em um beco sem saída. — eu não estava realmente surpresa com aquilo. Ele era metódico e inteligente o suficiente para se manter escondido e ainda assim por perto — Chegamos a conclusão que só há um modo de pegá-lo.
— Pare bem aí Diggle, eu já disse que não faremos isso. — Encarei Oliver não compreendendo sua atitude.
— Eu acredito que Felicity tem o direito a dar a opinião dela, se ela discordar de você. — Sara se intrometeu também, recebendo um olhar furioso de Oliver.
— Eu acredito que você não deveria se intrometer no que não é da sua conta Sara. Esta conversa já chegou ao fim, vocês dois deveriam ir. — Eu nunca tinha visto Oliver agindo de forma tão hostil, principalmente com Sara que era sua melhor amiga.
— O que você está fazendo, Oliver? Se há uma chance de pegá-lo, porque você quer me deixar de fora?
— Você não entende, só há um jeito de chegar até o seu perseguidor. — ele estava irritado — E é usando você como isca.
— Oh.
— Como eu disse, isto é um não. — determinou inflexível.
— Oliver! Pare de agir assim! É a minha vida, é a minha escolha. — Oliver ficou rígido ao ouvir determinação em minha voz, seu aperto ao redor de mim se intensificou, ele se virou de frente para mim impondo sua presença, seus olhos duros sobre os meus.
— E eu disse que a protegeria, te colocar na linha de frente não é uma opção para mim. — Havia aquela obstinação exalando de Oliver. Eu apreciava a forma como ele estava determinado em me proteger, mas havia um limite para isso, eu não poderia ficar sentada sem fazer nada e permitir que Oliver tomasse decisões por mim.
— Você também me disse que eu não posso me esconder para sempre. — devolvi suas palavras e ele fez uma carranca para mim — E eu não vou. Toda essa coisa precisa ter um fim, eu não aguento mais fugir, eu não aguento mais sentir medo todo o tempo. — tomei uma respiração profunda e falei a sentença seguinte de modo mais suave, eu queria que ele compreendesse — Eu preciso lutar por aquilo que realmente importa.
— Mas você não precisa se arriscar tanto. Eu posso proteger você. — seu maxilar estava rígido, ele lutava consigo mesmo.
— Eu não duvido disso. — toquei seu rosto tentando acalmá-lo. — Eu confio em você, Oliver, eu sei o quanto você leva o seu trabalho a sério, tio Gordon não teria me mandado a você se ele também não achasse que você é um dos melhores.
— Então faça o que eu peço e fique de fora disso! — Ele explodiu. Ele sequer estava tentando controlar a irritação, e foi nesse momento em que percebi que Oliver não ia dar o braço a torcer e eu teria que seguir firme na minha decisão.
— Eu vou fazer o que precisa ser feito para pegá-lo e vai ser com ou sem a sua ajuda. — determinei por fim, ao perceber que Oliver estava sendo inflexível demais. — Então senhor Diggle, qual é o plano? — Virei-me para o senhor Diggle ignorando Oliver que bufava contrariado ao meu lado.
— Tudo bem. — concordou ainda inconformado — Mas faremos isso nos meus termos.
Suspirei, sabendo que seria o melhor que conseguiria de Oliver.
— Ótimo. — forcei um sorriso fingindo que estava bem com aquilo — Qual é o plano?
***
O plano era bem simples. Sara e Diggle me explicaram que a polícia havia divulgado nos jornais da cidade que ainda não tinham conseguido obter a identificação da mulher que fora encontrada morta no restaurante. E que enquanto o meu perseguidor acreditasse que ninguém sabia sobre a morte de Selina, ele poderia continuar a usar o celular dela para manter contato comigo.
— Tudo o que você precisa fazer é mandar uma mensagem para o celular dela marcando um novo encontro. — Diggle explicou. — Faça-o de um modo simples, e deixe ele determinar o horário e o local, apenas para dar a ilusão de que está no controle.
Eu estava sentada no sofá com Oliver ao meu lado enquanto olhava para o telefone celular em minha mão tentando pensar em um modo de mandar uma mensagem para o meu perseguidor fingindo que ele era a minha amiga, que agora estava morta em um necrotério. Meus dedos simplesmente não conseguiam deslizar sobre as letras sem formar uma sentença que não estivesse completamente carregada de ódio.
— Tente pensar que essa é a única forma de pegá-lo e descobrirmos onde Gordon está. — Oliver falou calmamente para mim, depois de vetarem mais uma mensagem minha. Eu assenti, e tornei a escrever tentando manter toda a raiva que eu sentia controlada.
Ei Selina, me desculpe pelo bolo de ontem, tive uma emergência no trabalho. Se ainda estiver na cidade, que tal marcarmos algo para hoje?
Apertei enviar após Diggle e Oliver aprovarem a mensagem. Meu corpo estremeceu quando em menos de um minuto depois o celular vibrava com a resposta. Ele era bom neste jogo, a resposta veio simples, se eu não soubesse a verdade seria muito fácil acreditar que era Selina com quem eu realmente estava trocando mensagens.
Eu te perdoo por me deixar esperando ontem se você concordar em uma noite de garotas naquela boate em que fomos com sua amiga Helena. O que acha?
— Ele é esperto. — Diggle resmungou — Uma boate é um ambiente perfeito, baixa luminosidade, música alta. Vamos precisar de muitos policiais disfarçados para cobrir o espaço.
— É muito arriscado. Ele pode se misturar a multidão e nem perceberemos o momento em que ele se aproximar. — Oliver não estava satisfeito com aquilo, para ser honesta Oliver não estava sendo menos do que rabugento — Tente fazê-lo mudar de local. — ordenou.
— Ela não pode fazer isso, ele vai desconfiar que há algo de errado, e precisamos fazê-lo achar que está no controle. — Diggle retrucou.
— Errado é oferecê-la praticamente em uma bandeja de prata para ele. — Oliver se levantou e ele e Diggle continuaram a discutir sobre os prós e contras daquele plano. Eu sabia que Oliver encontraria um empecilho a cada momento, e se continuássemos desse jeito era bem provável que toda essa ideia de emboscá-lo nunca fosse adiante. Por isso eu fiz o que achei mais prudente naquele momento: Tomei minha própria decisão.
Combinado. Vejo você lá logo depois do trabalho.
— Não precisam mais discutir. Eu já aceitei. — informei, e Oliver olhou para mim parecendo que estava tendo um ataque cardíaco.
— O quê? — Oliver tomou o celular de minhas mãos e sua expressão foi de irritado para alarmado em um segundo ao ver que eu realmente já tinha aceitado. — Mas que merda, Felicity! — Oliver praguejou irritado, ele fechou os olhos e seus dedos se afundaram em seus fios curtos de cabelo, ele tomou uma respiração profunda e tentou se controlar e logo começou a dar ordens, ainda parecendo muito descontente com isso. — Sara, você fala com seu pai e veja com ele quantos policiais ele pode dispor essa noite. Explique que é de máxima urgência, e me ligue assim que tiver uma resposta eu também vou precisar que você me faça um favor gigante. — Oliver pausou, direcionando a amiga um olhar cheio de significado que me deixou curiosa — Diggle eu preciso que você cheque a planta da boate e descubra quais são os pontos cegos. Conto com você para treinar os homens na delegacia, mostre fotos do perseguidor, explique a situação, nós precisamos que eles sejam acima de tudo discretos.
Tanto Sara quanto Diggle assentiram e logo se despediram para realizar suas partes naquela tarefa. Oliver ainda estava de pé na sala, sua respiração alterada, a linha da mandíbula rígida e as veias de seu braço estufadas mostravam-me que Oliver estava muito puto, por não fazermos as coisas exatamente da forma que ele gostaria.
— Oliver... — Chamei tocando em seu braço, ele bufou ainda irritado, mas não me afastou.
— Você conseguiu o que queria, vamos emboscá-lo e usar você como uma maldita isca — Seu tom era amargo, ele estava realmente chateado com a forma em que eu havia nos pressionado para isso.
— Eu não queria chateá-lo, eu só queria que resolver logo isso. Eu estou preocupada com tio Gordon, eu preciso de respostas e você estava impedindo isso sendo protetivo demais.
— Vai me culpar por querer garantir a sua segurança? — Seus olhos vieram para mim acusatórios. — Está é apenas minha reação normal ao pensar que você vai se colocar em perigo. Que você vai estar no mesmo lugar que este monstro e que ele vai fazer de tudo para chegar até você. E apenas pensar nisso me deixa aterrorizado! Eu só quero colocar meus braços ao redor de você e te proteger de todo o mau, impedir que mais uma vez ele a quebre. É errado?
— Não é errado, muito pelo contrário é lindo. — falei me comovendo — Mas eu preciso que você se acalme e acredite que vai dar tudo certo. — garanti, mesmo que eu não pudesse garantir aquilo. Eu apenas não gostava de ser a razão para Oliver estar tão atormentado.
— Como pode ter certeza disso? — peguei uma vulnerabilidade na voz dele, um medo que eu nunca tinha visto antes, um medo tão grande de que algo ruim acontecesse.
— Porque eu terei você comigo durante todo o tempo. — falei, deixando meus dedos seguirem suavemente as linhas das veias estufadas em seus braços — E eu sei que você é o melhor policial que existe.
— Me bajular não vai me fazer amolecer com você.
— Não é bajulação, é apenas confiança em você. — Expliquei, um dos cantos de seus lábios se ergueu, eu sabia que aquilo era o mais perto de um sorriso dele que eu chegaria nesse momento, mas tudo bem, eu estava satisfeita por tê-lo conseguido acalmar um pouco.
***
Eu nunca tinha visto Oliver tão nervoso. E isso é algo grande, porque nos últimos dias ele não tinha estado menos do que desesperado quando o assunto era a minha segurança. O dia passou rapidamente, eu acho que é o que acontece quando há muita coisa para acontecer, você se perde no planejamento, você se perde em todos os detalhes e principalmente pensando em como as coisas poderiam dar erradas.
Se Oliver estava nervoso, eu estava muito mais. Eu sabia o que estava fazendo quando aceitei fazer parte daquela emboscada, eu estava fazendo isso por tio Gordon, por Selina e por todas as pessoas que ele ainda envolveria enquanto estivesse vindo atrás de mim. Mas isso não significava que por eu ter concordado que eu não estava apavorada de me ver de frente com ele novamente. Eu estava tentando ser corajosa e lutar por tudo o que eu conquistei, mas eu temia que quando estivesse frente a frente com ele novamente, eu fosse controlada pelo medo, eu me deixasse ser consumida pela escuridão que a presença dele sempre trazia para a minha vida.
Meus pensamentos saíram de foco quando um barulho de vidro se espatifando ao chão fez com que eu desse um pulo para trás. Era a segunda vez que eu derrubava uma bandeja no chão, na primeira vez a bandeja estava vazia, eu não tive tanta sorte na segunda.
— O que está acontecendo com você hoje, Felicity? Parece tão distraída quanto Roy. — Helena se aproximou, me oferecendo um pequeno pano para recolher os cacos de vidro.
— Hum, me desculpe Helena. Não vai acontecer novamente. — Me abaixei me concentrando em limpar a bagunça que eu havia feito.
— Há algo que você queira me contar? — investigou — Isto está relacionado ao Oliver e seus olhos duros que parecem segui-la a cada segundo? Ele parece pronto para matar qualquer um que chegue há uma distância de dois metros de você. — Olhei por sobre os ombros, e encontrei o olhar de Oliver em mim. Helena tinha razão, Oliver não tirava os olhos de mim, mas não era culpa dele que eu estivesse nervosa. Pelo menos, não completamente.
— Algum problema, Felicity? — Tommy apareceu me inspecionando com um olhar preocupado.
— Eu acho que ela e o policial estão algum tipo de briga através de olhares... — Helena respondeu por mim, me fazendo revirar os olhos.
— Ou vai ver são preliminares... — Tommy se recostou no balcão ao lado de Helena de uma forma descontraída- Preliminares a distância são bem excitantes, não são? — Questionou ela, com seu sorriso mais charmoso.
— Definitivamente. — Helena sorriu. Eu teria ficado contente por ver aquele pequeno momento de aparente coleguismo entre os dois, mas eles estavam fazendo isso as minhas custas, então eu não seria indulgente.
— Vão continuar falando de mim como se eu não estivesse ouvindo? — Me ergui do chão jogando os cacos de vidro na lixeira mais próxima.
— Eu aposto cem pratas que os dois vão se pegar no banheiro até o final do turno, esse tipo de preliminar gera muita tensão sexual, do tipo que é quase impossível ignorar. — Tommy falou olhando diretamente para Helena, me deixando ultrajada.
— Eu aposto que eles não duram nem a próxima hora. — Helena respondeu e eu observei boquiaberta os dois apertarem as mãos, selando a maldita aposta.
— Helena! Vocês dois não vão apostar na minha vida sexual. — Recriminei, e Tommy foi o único a abaixar a cabeça fingido uma falsa culpa, com a qual o sorriso divertido em seus lábios não combinava nem um pouco.
— O quê? Não me olhe com essa cara, Felicity. Você adora fazer sexo com Oliver, e Tommy Merlyn é rico, então me ajude a arrancar um pouco de dinheiro dele. Todo mundo sai ganhando. — Helena explicou, sem um mínimo de vergonha, como se explicasse a uma criança que dois mais dois são quatro.
— Vocês dois são inacreditáveis! Passaram os últimos dias trocando farpas, e agora se juntam contra mim? — Bati com a bandeja sobre o balcão, com força. Eu estava me descontrolando. Eu estava irritada. Eu estava triste. Eu estava nervosa. Muitas emoções contraditórias estavam borbulhando dentro de mim e eu tinha precisado de muito pouco para explodir.
Dei as costas para os dois e segui a passos firmes até o banheiro. Eu só precisava de um minuto para recobrar a minha razão. Joguei um pouco de água fria no rosto e respirei profundamente olhando para imagem da garota refletida no espelho. Porque eu parecia com um maldito gatinho assustado? Até mesmo minhas mãos tremiam.
— Felicity! — Oliver adentrou no banheiro abrindo a porta bruscamente.
— Merda! O que está fazendo aqui, Oliver? Este é o banheiro feminino! — Reclamei, e ele apenas ergueu uma das sobrancelhas como se dissesse “E daí?”
— Você está bem? — Ele perguntou, seus belos olhos azuis me inspecionando a procura de algo errado.
— Você não deveria estar aqui. — reclamei, ao vê-lo fechar a porta atrás de si, e dar passos apressados se colocando atrás de mim, seu rosto encarando o meu através do espelho. Era inacreditável a reação do meu corpo a sua simples presença, a tensão parecia aos poucos se esvair de mim, e tudo o que eu me tornava consciente era de Oliver, sua proximidade, seu cheiro, tudo nele trazendo-me um conforto íntimo.
— O inferno que não! Você está aqui, então eu estou aqui. — Explicou como se aquilo fosse uma questão de simples lógica — Agora responda a pergunta, você está bem? — Repetiu tentando ser mais suave, e percebi que Oliver não me deixaria em paz enquanto eu não respondesse, soltei um longo suspiro me apoiando minhas mãos no balcão da pia.
— Eu só estou um pouco nervosa com tudo o que vai acontecer hoje. — confessei
— Um pouco? — brincou, embora a preocupação não tenha saído do seu rosto — Amor, você derrubou duas bandejas e discutiu com seus amigos.
— Como meu namorado, você deveria oferecer um pouco mais de suporte e bem menos de julgamento. — Reclamei, e ele emitiu um pequeno sorriso ao escutar a palavra “namorado”. Oliver me abraçou por trás, deixei meu corpo se apoiar no dele, sentindo o calor da pele dele junto a minha, seu rosto se escondendo na curva do meu pescoço, enquanto Oliver me balançava quase que imperceptivelmente e aos poucos cada ponto de tensão em mim desaparecia quase que magicamente.
— Estou sendo um namorado melhor agora? — Sussurrou em meu ouvido, sua voz era como ter meu cobertor favorito me aquecendo e oferecendo conforto nos dias frio. Fechei meus olhos e deixei meu corpo ser levado por aquela estranha paz que apenas Oliver era capaz de me proporcionar. Girei em seus braços, prendendo minhas mãos em suas costas enquanto eu inspirava profundamente o perfume de sua camisa, aquele cheiro era como uma droga viciante, me acalmando lentamente, me lembrando de que eu estava com Oliver, e não havia motivos para me preocupar.
Ficamos assim, perdidos naquele abraço por um longo tempo.
Eu não gostava de admitir, mas eu estava me tornando dependente dos abraços de Oliver. Eu havia me acostumado a ser sozinha por tanto tempo, que havia me esquecido o poder que um simples abraço tinha. Nos braços de Oliver minhas inseguranças e medos não encontravam lugar, tudo o que havia ali era algo quente, bom e confortador.
E eu simplesmente não queria deixar isso para trás.
— Se sentindo melhor? — Oliver murmurou em meus cabelos, ainda mantendo-me em seu abraço.
— Muito melhor. — respondi.
— Então vamos voltar para o bar.
Sai do banheiro com Oliver segurando a minha mão. Helena olhou de soslaio para mim e levantou um dos polegares fazendo o sinal de positivo. Depois com um brilhante sorriso nos lábios ela esticou a mão na direção de Tommy que meneava a cabeça enquanto retirava a carteira e depositava duas notas sobre a mão dela.
Merda. Eles realmente achavam que Oliver e eu tínhamos transado no banheiro?
— Talvez você devesse conversar com Helena, contar a ela a verdade, Felicity. — Oliver falou, sua voz tão próxima distraindo-me por um momento.
— Ela não vai acreditar que nós não transamos no banheiro. — falei, ainda irritada com a maldita aposta dela e de Tommy.
— O quê você disse? — Oliver me olhou confuso.
— Hum? — devolvi, mordendo o lábio inferior me impedindo de falar mais bobagens para Oliver. E de repente ele sorriu, um maldito e sedutor sorriso de canto como se tivesse compreendido o que eu falei.
— Eu acho que você deveria contar a ela sobre a sua vida, Felicity. Um fardo é sempre menor quando há pessoas com quem você possa dividir. — Explicou. Suspirei, eu sabia que Oliver estava provavelmente certo, mas eu não estava pronta para isso ainda. — Ou ainda podemos transar no banheiro, já que Helena está pensando isso de qualquer maneira. — eu sabia que Oliver estava apenas brincando, era o jeito dele de tentar me deixar mais leve.
— Ollie... Está na hora. — Sara chegou por trás tocando o ombro de Oliver, olhei para ela, havia algo diferente em Sara, os cabelos estavam mais curtos a altura do ombro assim como os meus.
— Obrigado por avisar, Sara. — a postura de Oliver ficou mais rígida e o pequeno sorriso sedutor desapareceu completamente de seu rosto. Ele olhou sério para mim.
— Está na hora de irmos? — Perguntei num sopro de voz, o nervosismo me alcançando novamente, mas Oliver não me respondeu, apenas permaneceu impassível olhando para todos os lados do bar, como se verificasse se as pessoas estavam prestando atenção em nós.
— Vem comigo. — Ele simplesmente falou.
— Oliver, o que você está fazendo? — Perguntei confusa ao ver que Oliver me segurava pela mão e me guiava por uma saída que ficava na parte de trás do bar. Me deparei com uma rua praticamente inóspita, onde havia apenas um carro preto parado próximo a nós.
— Você não achou realmente que eu deixaria você ficar no mesmo local que o seu perseguidor? Eu te disse amor, faremos isso de um modo que eu possa suportar e te colocar como isca em uma emboscada não vai dar certo para mim. Eu vou perder o foco, e vou tirar a concentração de todos.
— Mas...
— Faremos isso do meu jeito. E o meu jeito inclui você o mais longe possível dele. -determinou naquele seu tom autoritário de quem finaliza um assunto — Sara tomará seu lugar, ela é loira, mesmo tipo físico, mesmo corte de cabelo. E o principal: ela é uma policial treinada que sabe se proteger muito bem.
— Eu não quero que ela se machuque por minha causa. — reclamei.
— E eu não quero que você se machuque! — ele se exaltou por um momento — Não se preocupe com Sara, nada vai acontecer a ela. — Oliver garantiu, colocando suas mãos sobre meus ombros seus olhos expressavam um pouco de culpa, mas ainda assim estavam determinados — Agora eu preciso que vá com Diggle. Ele te levará de volta ao apartamento, logo eu estarei lá com você e todo esse inferno vai ter chegado ao fim.
— Você mentiu para mim. — acusei, com mais raiva do que pretendia. Em minha defesa, eu ainda estava vivendo uma montanha russa de sentimentos e era difícil controla-los, no momento atual, eu estava simplesmente deixando que eles tomassem conta de mim.
— Não vamos fazer isso agora. — foi resoluto — Você pode brigar comigo, reclamar por eu ter tomado decisões sem te consultar, por ser controlador, depois. Agora você vai voltar para o apartamento, e ficar segura. Eu preciso que você fique segura para conseguir fazer meu trabalho.
— Não se preocupe, Oliver. Eu serei o melhor guarda-costas que existe. — Diggle falou se aproximando, e eu percebi que aquilo era um verdadeiro complô. E eu apenas bufei.
— Eu volto logo para você, amor. — foi a última coisa que Oliver me disse, ele tocou suavemente meu rosto. E eu dei um passo para trás me afastando, mostrando que eu ainda estava magoada com sua escolha em esconder aquilo de mim. Oliver suspirou, compreendendo e então me deu as costas, partindo.
Eu estava tão irritada por Oliver ter agido por minhas costas, que sequer me despedi dele. E agora, enquanto Diggle me levava de volta para o apartamento tudo o que eu sentia era um peso enorme sobre meu coração. E se algo acontecesse a Oliver? Sua última memória de mim seria de mim, seria aquela eu que eu me afastava.
***
Oliver Queen
Eu sabia que Felicity ficaria irritada comigo por mentir para ela. Mas se ela realmente acreditava que eu a deixaria vir nessa boate sabendo que o perseguidor dela estava aqui pronto para fazer um movimento, então ela subestimava e muito o quanto ela era importante para mim e que eu estava disposto a tudo para protegê-la.
Olhei para Sara em meio a explosão de flashes multicoloridos, ela parecia estar indo bem. Eu estava no segundo piso, onde a visão geral era um pouco melhor e Sara serpenteava em meio a multidão na pista de dança. Havia outros policiais espalhados por áreas estratégicas do lugar, mas nenhum deles tinha a motivação que eu tinha para pegar esse cara.
— O quão furiosa Felicity ficou com você, quando você contou a ela sobre a troca? — Escutei a voz de Sara pelo comunicador, não era suposto que ela falasse comigo a não ser que visse algo suspeito. Mas esta era a Sara, e além dela não ser conhecida por seguir as regras ela era minha melhor amiga, e nós não havíamos conversado muito sobre a situação. Tudo o que ela sabia, tinha sido informado por Diggle.
— Sara, mantenha o foco. — Pedi, não estava disposto a usar um momento como esse para conversar, ainda mais sobre a minha vida pessoal.
— Eu preciso saber para me concentrar, a curiosidade na vida alheia tem me corroído. — Suspirei eu conhecia Sara bem o suficiente para saber que ela não me deixaria em paz enquanto eu não lhe contasse.
— Ela ficou muito brava comigo. — confessei, me lembrando do ultraje na voz de Felicity por eu tê-la enganado — Agora concentre-se! — exigi, mas Sara estava ocupada demais gargalhando alto. — Do que você está rindo? — Perguntei mal humorado.
— Você terá excelente sexo de reconciliação quando tudo se resolver. — Ela devolveu.
— Eu não estou pensando em sexo agora. — Eu estava perdendo a paciência. Ela não via que eu tinha problemas maiores para lidar? Nós tínhamos?
— Eu sei, é incrível o quanto Felicity mudou em você. — falou com uma felicidade contida na voz — Eu nunca pensei que viveria para ver Oliver Queen apaixonado...
— Sara... — Chamei a atenção dela. — Esse não é o momento, você precisa...
— Oliver. — Ela me interrompeu adquirindo um tom mais sério.
— O quê foi?
— Acabei de receber uma mensagem da falsa Selina. — informou, e imediatamente cada músculo do meu corpo se tornou mais tenso.
— O que diz? — Perguntei.
— Apenas “Estou com problemas, me encontre na saída lateral da boate”. — Comunicou.
— Sara, eu preciso que você vá. — pedi — Ele pode estar te observando agora. Eu vou segui-la de longe, e mandar um comunicado para os demais policiais cercarem a área.
— Não se preocupe comigo, Ollie. Eu sei me cuidar, e, além disso, eu tenho uma 38 comigo, se alguém terá problemas não será a minha pessoa. — Sara disse com toda aquela confiança implacável dela, e então começou a se movimentar na direção que o perseguidor havia combinado.
Eu dei as ordens. Cada policial de deslocou para um ponto de saída, havia viaturas posicionadas nas ruas, eu não deixaria esse homem sair livre daqui. Segui Sara discretamente. Eu deveria me manter um pouco mais longe, mas a adrenalina no meu sistema aliada aquela determinação de acabar de uma vez com esse monstro me fazia ansioso, eu não conseguia me controlar tanto quanto devia.
Eu vi o momento que Sara deixou a boate pela saída lateral que dava para o mesmo beco que Felicity e eu tivemos um excelente momento certa vez.
Foco, Oliver. Eu disse a mim mesmo interrompendo a visão de nós dois que havia invadido a minha mente. Lembre-se que é por ela que você está fazendo isso, não pode cometer erros, há muito risco.
— Não há ninguém aqui, Oliver. — Escutei a voz de Sara pelo comunicador.
— Tem certeza?
— Ollie, o lugar está deserto e não parece que alguém esteja vindo.
— Espere um pouco mais, Sara. — Pedi ao identificar a sombra de um homem seguindo para mesma porta que Sara havia saído segundos atrás — Fique alerta, há alguém indo em sua direção. — Falei, e no mesmo instante me movimentei rapidamente em meio a multidão que dançava despreocupada, eu não fui educado eu apenas afastava grosseiramente as pessoas do meu caminho. Eu ouvi muitas reclamações, mas não me importei. Eu não deixaria Sara lidando sozinha com um psicopata e também eu queria ver a cara do desgraçado quando eu o mandasse para a prisão e garantisse que nunca mais ele atormentaria a vida de Felicity.
— Ollie? — Sara chamou pelo comunicador, a voz parecendo preocupada.
— Você o pegou? — Perguntei, alarmado. E no instante seguinte abri a porta que dava para o beco onde Sara estava de pé observando um corpo masculino com as mãos colocadas no meio das pernas e que se contorcia de dor no chão.
Eu sabia que não era ele.
— Eu o rendi no momento em que ele apareceu, mas não acho que seja o cara que estamos procurando.
— Não é. — Eu nem precisei dar uma segunda olhada para o cara ao chão. O cheiro de álcool que vinha dele era evidente, eu aposto que ele apenas tinha visto uma garota bonita se esgueirar para o beco e pensou que aquela era chance dele. Grande idiota!
Eu ainda vasculhei o local em busca de qualquer indicação de que o perseguidor tenha estado aqui, mas não havia nenhuma. Eu estava prestes a chutar uma das latas de lixo para extravasar um pouco da minha frustração, quando o celular de Felicity tocou na mão de Sara e ela imediatamente o entregou para mim, e no momento em que olhei para a tela o nome Selina Kyle debochava de mim.
Era ele.
Fazendo uma ligação.
Ele nunca havia sido enganado por nossa emboscada.
— Alô? — Atendi tentando controlar a raiva.
— Oliver Queen. — pronunciou meu nome com uma reverência inesperada. A voz dele era arrastada e rouca, com um leve ar sarcástico. Eu sentia a frieza passando por cada uma de suas palavras, mostrando-me claramente que tipo de homem vil ele era. - Eu venho esperado ansioso para falar com você uma segunda vez.
— Nós deveríamos nos encontrar então. — respondi — Eu não sou um grande fã de falar ao telefone. Que tal marcamos um encontro e dessa vez você realmente aparecer?
Ele gargalhou cinicamente, senti algo mórbido vindo de sua risada. Como se o ato dele rir não viesse porque ele achasse graça ou diversão, ela simplesmente representava que ele estava satisfeito com algo.
— Nós iremos. — ele afirmou com convicção, dizendo-me que ele tinha planos para aquilo — mas definitivamente não será hoje. Se me permite dizer, você foi um tolo por tentar me enganar, eu fiquei ofendido por me acharem tão fácil de ser pego, eu sou muito mais esperto do que isso, mereço um pouco mais de esforço da sua parte. Afinal, é Felicity que está em jogo. — a forma como o nome dela brincou na voz dele de uma forma suja, me irritou.
— Não diga o nome dela! — Me exaltei.
— Você é muito possessivo com ela, mas eu entendo o apelo. Ela é tão linda... Aqueles olhos de azul tão claro e puro, aquela pele alva e macia, os cabelos sedosos e aquele maldito corpo são a perdição de qualquer homem. — A forma vil que ele falava dela me fez ver vermelho.
— Você não chegará perto dela, eu vou me assegurar disso. Eu vou caçá-lo, eu vou transformar seus malditos dias num inferno, e você vai desejar nunca ter encostado um dedo nela. — Cuspi a ameaça com toda a raiva que eu tinha.
— Oh, promessas que você não é capaz de cumprir. - falou de um jeito leviano— Afinal deixá-la no seu apartamento com apenas um policial cuidando dela essa noite não é a melhor maneira de me manter longe.— um arrepio frio de medo percorreu minha espinha. Como ele sabia disso? — Agora mesmo eu estou olhando para ela. Ela parece tão solitária e preocupada debruçada sobre o balcão do seu apartamento, olhando para o céu... É uma imagem tentadora demais. — A forma como ele falava dela estava me deixando nervoso, descrevendo como se realmente estivesse perto dela, a vendo naquele momento. Tentei me convencer de que ele estava apenas tentando me provocar.
— Você está mentido. — Devolvi sem nenhuma credibilidade na voz, eu não conseguia me controlar, era óbvio que ele havia conseguido mexer com a minha mente.
— Estou?— riu novamente parecendo satisfeito — Eu vou mandar algo interessante para você, apenas para lembrá-lo que ela é minha e mais cedo ou mais tarde eu vou ter Felicity de volta, ela me pertence.
— Ela não pertence a você, seu psicopata filho da puta! — xinguei, mas ele sequer ouviu a ofensa já havia desligado.
Minhas mãos tremiam, a raiva crescia dentro de mim ganhando proporções devastadoras. Eu precisava descontar em algo, eu precisava fazê-lo pagar.
— Oliver, o que está acontecendo? — Sara perguntou, preocupada. Eu não tive tempo para responder, o celular tornava a tocar em minhas mãos trêmulas denunciando a chegada de uma nova mensagem.
Ele me mandou uma foto.
Não uma foto qualquer. Uma foto de Felicity no balcão do apartamento, exatamente da forma que ele havia me descrito que ela estava. Ela usava as mesmas roupas que usava no bar antes de eu manda-la embora com Diggle, então eu sabia que era real.
Ele estava perto dela.
E eu não.
Eu pensei que estava o enganando, mas não. Ele havia me enganado, e assim eu havia me afastado dela. A culpa me corroeu por dentro. Eu havia me afastado e deixado o caminho livre para ele chegar até ela.
— Mas que merda, Ollie, você está me assustando! Me diga o que está acontecendo! — Exigiu, seu agarre firme em meu braço forçando-me a focar em algo. Olhei para Sara, e joguei as palavras com todo o medo desesperado que parecia me consumir:
— Eu preciso voltar para Felicity.
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