Rubro como sangue
6 Ato II - O que esse homem deseja?
Notas iniciais
“Não sei o que está acontecendo, mas eu sinto que algo realmente ruim está para acontecer”
Grell pensou soltando um suspiro baixo. Seu pulso doía pelo aperto causado pela ira do outro e seu rosto estava corado de vergonha por estar sendo “agarrado” dessa forma. O moreno arfou mais alguns instantes antes de erguer o rosto, endireitar a coluna e sorrir de uma maneira nervosa pra o ruivo.
— Perdoe-me se eu o assustei Gureru-san, mas eu tenho que... falar com alguém... — William fez uma pausa. As palavras saiam de forma confusa e o moreno parecia ocultar algo pela forma como movia os olhos de um lado para o outro sem encarar Grell diretamente. — er... perdoe-me por não acompanha-lo até seu quarto, mas eu preciso mesmo resolver isso. — desculpou-se novamente, agora fazendo uma pequena mensura. O ruivo mordeu o interior do seu lábio inferior, ele estava confuso, assustado, mas ainda assim sentia que o calor daquele aperto incomodo, era confortável. — Ah... bem... entre no prédio e se seguir pela segunda porta vai ver um corredor, no final dele vai ver um balcão, atrás dele vai estar um rapaz, o nome dele é Agni, ele vai te ajudar. — explicou rapidamente, girando o corpo e soltando o pulso do menor, fazendo Grell cerrar o punho em descontentamento.
— C-certo, o-obrigada William-kun. — murmurou o ruivo com as bochechas avermelhadas. William deu um breve sorriso e saiu em disparada na direção oeste.
Grell continuou onde estava. “porque meu coração está batendo assim?” questionou-se levando a mão trêmula em direção ao peito.
— Você se perdeu? — questionou uma voz baixa e doce, que parecia pertencer a uma garota. Grell girou o corpo para trás e se deparou com uma figura baixa de cabelos castanhos. Era um garoto que vestia um blusão verde em composição com um colete marrom, calças de sarja bege e coturnos negros. Atrás de óculos ovais de armação fina estavam olhos esverdeados e assim que viu aqueles olhos, o ruivo imediatamente o reconheceu.
— Alan? Alan Humphries? — questionou. Grell queria ter certeza de com quem falava antes de ter qualquer reação que pudesse ser considerada estranha.
— Grell!?!— exclamou o mais novo abrindo um sorriso. — Quanto tempo! — disse abraçando o amigo. O ruivo abriu um singelo sorriso e timidamente correspondeu ao abraço de Alan.
— Caham! — pigarreou alguém próximo a eles. Grell ficou estático e engoliu a seco se afastando instantaneamente do moreno. Atrás de Alan estava um rapaz mais alto e mais velho do que ambos. Ele vestia uma camiseta azul clara, calças jeans escuras e um tênis branco. Seu cabelo era de um tom loiro e razoavelmente comprido, pois estava preso em um rabo de cavalo. Os olhos cinzentos estavam cobertos por óculos ovais de armação fina. Na orelha direita uma pequena argola prateada se fazia presente.
— Eric-senpai, desculpe-me, este é Grell Sutcliff, ele foi meu senpai quando eu morava no distrito de Shinigami. Grell, este é Eric Slingby, ele é o meu atual senpai. — Alan os apresentou e os dois se cumprimentaram de maneira sutil.
— É um enorme prazer finalmente conhecê-lo Grell Sutcliff. — disse Eric fazendo uma leve mensura. Grell teve um suave rubor cobrindo suas bochechas com a frase do outro e rapidamente desviou o olhar para Alan.
— E-eu digo o m-mesmo Slingby-kun — respondeu o ruivo lançando um breve sorriso ao mais velho. Alan sorria abertamente quando pareceu se lembrar de algo e instantaneamente correu os olhos até seu pulso, verificando em um pequeno relógio as horas.
— Ah, droga! — praguejou baixinho, fazendo com que os dois senpais olhassem para ele de forma curiosa. — Perdão, senpais. — pediu curvando-se levemente, com as bochechas extremamente coradas. Em seguida Alan ergueu o rosto e mirou os olhos de Eric. — Eric-senpai, nós temos que buscar as caixas que o professor Undertaker nos pediu lá da sala do diretor, mas temos apenas 10 minutos! — disse exasperado. Eric sorriu de forma carismática para seu kouhai e tocou seu ombro de leve.
— Hey Alan, não se preocupe, nós vamos conseguir. — Eric confortou o mais novo. Alan expressou uma careta de descontentamento e puxou suavemente a alça da bolsa que carregava. — Alan, não fique com essa cara, por favor. — pediu com uma expressão suave. O mais novo bufou e sorriu de volta, movendo sua mão em direção a de Eric e segurando-a.
— Ah, certo senpai. — Alan correu os olhos até Grell, lembrando de que ele estava ali e soltando a mão do loiro e sentindo a face queimar de vergonha. — Grell-san para onde está indo? — questionou. O ruivo ficou estático, tentando processar o que havia visto e demorou alguns segundos até responder.
— ... e-eu preciso saber qual meu quarto. Sabe onde eu poderia... — balbuciou ele.
— Claro! Venha conosco. — Alan estendeu a mão para Grell, que segurou-a de imediato, sendo levado pelo amigo para dentro do edifício.
O edifício, que havia sido construído poucos anos atrás, era muito bonito por dentro, apesar da estética externa não ser muito convidativa. Seu interior não possuía nenhum revestimento, ou seja, tanto as paredes quanto o piso exibiam suas sólidas pedras de traço elegante e sofisticado.
Alguns quadros, pinturas e fotografia enfeitavam, ou, na opinião de Grell, enfeiavam, as paredes. No teto, um lustre iluminava o corredor largo que se estendia da entrada até poucos metros a frente de onde eles estavam.
Grell não dera ouvida a nenhuma das palavras que Alan deu em sua rápida explicação sobre o lugar, pois sua mente e seu coração estavam confusos. “Será que o que vi está correto? Ou, o que penso está errado? Eles serão apenas amigos próximos? E por que meu peito bateu naquele ritmo descompassado antes?” o jovem Shinigami* questionava-se enquanto seguia o mais novo que tinha a empolgação de um guia turístico ao falar a respeito da história do local.
— ... Sabe, dizem até que o demônio ainda vive aqui, junto com a assombração de seu mestre. — Finalizou Eric, que intrometeu-se na narrativa de Alan a respeito de uma das lendas.
Grell voltou à realidade e mirou os olhos do amigo de seu ex-kouhai de forma profunda. Na mente do ruivo o caminho até a mesa de Agni lhe pareceu infinito até o momento em que ele escutou a frase de Eric.
— D-demônio? — questionou Grell com os olhos arregalados. Alan o cutucou tentando fazê-lo se calar, lançando-lhe um olhar suplicante.
— Com licença, como posso ajudá-los? — questionou alguem atrás de Grell.
O ruivo levou ambas as mãos aos lábios e respirou aceleradamente tentando controlar seu coração que quase parara pelo susto causado pela voz. Eric riu da reação de Grell enquanto Alan apenas observou a cena, soltando um suspiro nervoso.
Grell lentamente girou seu corpo e deu de cara com um rapaz, aparentemente não muito mais velho que o mesmo. Seu rosto continha traços fortes, porém gentis, assim como seus brilhantes olhos azuis ardósia. No meio de sua testa havia um bindi* vermelho, provando pertencer a outra cultura. Sua pele é de um tom oliva escuro e seus cabelos são brancos como a neve, bem curtos com a pequena exceção de duas grandes mechas, que são adornadas por algumas miçangas e contas. Ele veste uma camiseta social listrada de bege e azul, juntamente a uma calça de marrom acinzentado e uma gravata vermelha, ou melhor, bordô. Seu braço direito está vedado com ataduras, como se tivesse quebrado algum osso ou estivesse se curando de um ferimento profundo.
— a-a-a ... oi... er... desculpe... o senhor seria por acaso o senhor Agni? — questionou Grell timidamente com as faces totalmente dominadas pelo rubor. O homem assentiu e o ruivo engoliu a seco. — bem... será que teria como o senhor me informar qual o meu quarto? — pediu de forma doce e envergonhada.
— claro. Qual o seu nome? — confirmou Agni, sorrindo de maneira gentil. Grell sentiu como se uma tonelada tivesse saído de cima de seus ombros e mordeu a parte interna do lábio inferior. “nota mental: agradecer a William por isso” pensou antes de responder.
— Sutcliff, Grell Sutcliff. Transferido da província de Shinigami.
— Certo. Vamos ver... Faustus... Humphries... Knox... Michaelis... Phantomhive... Slingby.... Spears... Sutcliff! Vejamos, Sutcliff Grell, dormitório numero 2, quarto 21. Seu colega de quaro chama-se… William. — disse o mais velho. — Deseja mais alguma coisa? — questionou com um sorriso no rosto.
Antes que o ruivo pudesse dizer qualquer coisa, um garoto passou por trás dele e ficou a seu lado em frente a mesa de Agni. Era um rapaz de estatura média, com olhos dourados, pele escura e longos cabelos cor de ameixa na altura dos ombros. Em sua testa, assim como na de Agni, jazia um bindi indiano. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo alto, quase no topo de sua cabeça. Ele vestia um moletom esverdeado e calças jeans marrom-claro. Alem disso, em sua orelha direita, existia uma pequena argola.
— Big Brother! Are you busy? [Irmãozão! Você está ocupado?]² — perguntou o garoto à Agni. O mais velho suspirou e sorriu.
— Yes Soma, why? [Sim Soma, porquê?] — retrucou ao menor, este ultimo expressando um careta desanimada.
— I would like us to go get ice cream ... [Eu gostaria que fossemos tomar sorvete…] — disse em um muxoxo. Agni franziu o cenho e suspirou.
— we will, let me just finish this and I promise that we will little brother. [ Nós iremos, deixe-me somente terminar isso aqui e eu prometo que nós iremos maninho] — respondeu gentilmente ao irmão, movendo seus olhos para Grell. — Posso ajuda-lo com mais alguma coisa? — perguntou novamente.
— ...n-não... quer dizer... sim... er... não sei... — gaguejou o ruivo de forma confusa. O olhar paciente de Agni praticamente pedia que Grell se explicasse e foi o que o mais novo fez. — D-digo... n-não sei onde ficam o-os dormitórios... — suas bochechas ardiam de vergonha.
— Creio poder ajuda-lo com isso senhor Sutcliff. — disse o professor Claude, surgindo de uma das portas presentes naquela pequena salinha. O ruivo engoliu a seco e olhou para seu professor.
— N-não se incomode c-com isso, o-o senhor deve t-ter ainda aulas p-para ministrar... — disse Grell, tentando desviar dos olhos e mãos do moreno mais velho. Foi neste momento apenas que notou a ausência de Alan e Eric e internamento os amaldiçoou por isso, assim como a William.
— Por favor, eu lhe devo algo por ter lhe confundido com uma jovem. — pediu lançando um olhar “gentil”, que na verdade escondia o sorriso lascivo presente nos lábios finos do professor.
— ... e-está bem... apenas n-não me culpe caso atrase-se para as aulas — Grell murmurou sem erguer o olhos. Claude passou discretamente a língua entre s lábios e andou suavemente até a porta que dava para o corredor por onde Grell havia entrado.
O garoto ruivo deu um leve aceno para Agni e Soma e seguiu o professor. O homem caminhou ao seu lado, guiando-o pelo mesmo caminho o qual vira William seguir. Durante parte do trajeto, Claude comentou coisas sobre o lugar, tal qual Alan, porém, ao invés de citar lendas urbanas, apenas deu detalhes sobre a construção.
— Este lugar foi incendiado algumas vezes enquanto ainda era lar do clã Phantomhive. A maioria dos incêndios foi criminoso, tentativas de assassinar seus moradores, chegando a consegui-lo no ano de 1885... — Grell não teve interesse na história contada pelo professor e continuou a segui-lo sem dizer nada. Por algum motivo ele sentia que se dissesse algo ao mais velho, este acharia que haveria de aceitar o pedido feito mais cedo.
Claude continuou a falar, até que notou o olhar distraído do aluno. “Que tentador” pensou parando de falar e continuando a andar. O caminho entre o prédio de onde saíram e o dormitório não era realmente grande, porém a companhia do professor tornou aquele trajeto muito longo, na opinião de Grell, que agradecia aos seus botões pelo homem ter finalmente se calado.
Mas o que o ruivo não contava era que o olhar de Claude caísse sobre si a partir daquele momento. “Por que Kami-sama?Preferia mil vezes a tagarelice de antes a ter este olhar sobre mim” pensava consigo mesmo, sentindo o rubor lhe tomar a face mais uma vez.
— Você fica muito adorável demonstrando seus pensamentos desta forma. — comentou o professor, fazendo Grell corar mais ainda. “O que este homem deseja?!” pensava inocentemente.
— N-naa professor, não diga isso... soa um tanto quanto... — o ruivo não teve coragem de continuar e amaldiçoou-se por ter aberto sua boca. Claude desviou o olhar e se deparou com o prédio do dormitório de seu aluno. “Maldição, porque este maldito caminho é tão curto” praguejou soltando um suspiro descontente.
— Está entregue. Siga pelo corredor até encontrar seu quarto, eu preciso ir. — disse Claude, rispidamente. — Foi uma honra acompanhá-lo — completou trocando seu tom por um galante. E tomando a mão do menor na sua, depositando um suave osculo em seu dorso e caminhando de volta pelo caminho que viera.
Grell arregalou os olhos e assim que o professor virou de costas, correu para dentro do prédio. “O-o que foi isso?” questionava-se assustado e esfregando o local onde Claude o beijara contra o moletom que vestia. O ruivo se escorou contra uma das paredes e tentou se lembrar de qual havia sido o quarto indicado por Agni instantes atrás. “20.. 30... não... er... 22? Naa, não consigo me lembrar!” reclamou com seus botões. “Acho que vou bater de quarto em quarto até encontrar o certo..” disse a si mesmo suspirando. Algo em sua mente lhe dava certeza de que o numero era maior que 20, porem ele não se lembrava ao certo de qual era este numero maior que 20.
O garoto ruivo caminhou pelo corredor analisando o lugar. Algumas das portas estavam abertas e permitiam a visão de seu interior. Um deles era completamente pintado de negro e tinha seus moveis e acessórios em uma matiz de roxo mais escura que o violeta, mas não tão próximo ao preto. Na cama do lado esquerdo, pela perspectiva de Grell, estavam sentados dois rapazes, um com uma capa escura lhe ocultando o rosto e um bloco de desenho em mãos e o outro tinha uma cicatriz no olho esquerdo e o cabelo albino cortado em um moicano. Esse ultimo, notou estar sendo observado e lançou um olhar violento para a porta, cruzando seu olhar com o de Grell, que se arrepiou e saiu de perto da porta rapidamente.
“Que estranho...” pensou assustado com a ação do rapaz de moicano.
Após mais algumas portas, Grell ouviu duas vozes familiares discutindo.
— ...Você sabe que aquele traste vai te causar problemas! — disse um homem alto de cabelos ruivos vermelhos como sangue seco, uma expressão de desgosto, a barba mal feita e o halito cheirando a álcool.
— aquele “traste” é seu filho, espero que ainda se lembre disso Peter. — confrontou William, mostrando desprezo pelo homem a sua frente ao pronunciar seu nome.
— aquela coisa? Não... aquilo não é meu filho, o menino que criei com tanto amor e carinho... — os olhos esverdeados do homem deixavam a mentira que ele contava transparecer.
— Não seja sínico Peter Sutcliff! Você é a pior escória e não tem o direito de dizer nada a respeito de Grell. — protestou com veemência segurando-se para não socar o homem a sua frente.
— Aquela aberração nunca retribuiu o amor que lhe dediquei! — vociferou Peter Sutcliff com ódio no olhar e tom bêbado.
A porta do quarto rangeu e os olhares se voltaram para a mesma, onde Grell mostrou-se presente. Lágrimas inundavam seus olhos, que brilhavam de ódio e das lágrimas. Em meio ao nó em sua garganta, o ruivo mais novo esbravejou:
— Amor?! Você é um enorme mentiroso! Você... é a única aberração aqui!
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