Rubro como sangue

9 Ato II - O passado que me é esquecido


Notas iniciais
Ohayõ, Primeiramente, pegaram os lencinhos? Pois bem esse aqui está bem choroso(?). Tenho uma "penca" de agradecimentos que vão ficar lá para as notas finais. Enfim, boa leitura e espero que não desidratem lendo. p.s.: há referências nessa fic, portanto fiquem espertinhos.

— Vamos conversar... em outro lugar— disse o moreno mais velho, olhando para Grell.

O menor seguiu-o até o quarto, parando diante da porta, local onde ouvira toda a conversa dele com seu pai, poucos minutos antes.

— Ele não está mais aqui. — comentou William ao notar que Grell não havia entrado no quarto. O menor engoliu em seco e entrou.

Seu passo foi arrastado até uma das camas, na qual William se encontrava sentado. Seu olhar vagueou no espaço, notando este ser muito similar, se não idêntico ao que vira pelo corredor. Sua diferença era na decoração, pois as cores eram mais suaves que o tom mórbido daquele outro. O ruivo então sentou-se ao frente do outro, tocando seus joelhos úmidos com as mãos.

— Do que você se lembra Grellie? — perguntou o moreno sentindo-se um pouco tenso, mas tentando, falhamente, não demonstrar. Grell inspiro e espirou.

— ... n-não muito... — disse com o olhar baixo. Um nó se formava em sua garganta, conforme pensava na vaga lembrança que surgiu em sua mente. Ele arfou e continuou — ... e-eu estava em uma casa casa... tinha... alguém comigo... meu pai... ele me bateu... eu não sei, talvez eu tenha batido em algum lugar... minha cabeça doía e... tinha sangue... — Grell ergueu seu rosto à procura de respostas no do outro. Sua voz saía conforme seus pensamentos mais ou menos se reorganizavam dentro de sua cabeça.

William olhava para o menor, porém desviou os olhos quando viu os esmeraldinos procurando pelos mesmos. Nada era tão claro naquele quarto quanto o ritmo que batiam ambos os corações, não em sincronia, mas sim se completando, sem deixar o silêncio dominar totalmente o espaço.

— Foi na primavera de 2005...

Flashback (POV.: William Taylor Spears)

Naquela semana, eu e Grellie, tínhamos decidido brincar perto de um salgueiro que ficava na entrada do condomínio depois da escola. Ele estava tão animado, que parecia a ponto de sair por ai dando pulinhos e gritinhos histéricos, apesar de eu ter certeza de que ele não o faria, não por falta de vontade e sim por causa de seu pai e de sua timidez absurda.

Porém, de alguma forma, o pai dele descobriu e na terça-feira, dia em que ele dormiu na minha casa, seu pai entrou bruscamente pela porta e o arrastou pra fora, do futon, do quarto e da casa.

Meus pais tentaram até ajudar o meu amigo ruivo, mas nada adiantou com aquele homem, nem mesmo a ameaça de chamar o conselho tutelar, a qual fez os olhos de Grellie se arregalarem e implorarem para que não fizesse-o.

Na quarta, meu amigo ruivo apareceu diferente no ponto de ônibus. O seu lindo cabelo rubro que antes alcançava sua cintura, agora estava grosseiramente cortado acima dos ombros. Ele já não vestia o casaco vermelho, nem os coturnos com detalhes carmesins e pequenos saltos. Apenas o uniforme, escuro e sem graça. Não se parecia com Grellie, não se parecia com meu amigo. Mas eu não o deixei, eu gostava muito dele, ainda gosto, e mesmo com todas aquelas mudanças continuei com ele e com o plano de brincarmos perto do salgueiro.

Porém Grellie não queria mais, ele ficou realmente muito estranho depois de que o pai dele tinha o enxotado pra casa. Eu achava que, pelo mais provável, o senhor Sutcliff tivesse batido nele, mas na tarde da quinta-feira eu descobri que havia feito algo muito pior.

Grellie havia pedido para sair no meio da aula de Inglês, fato estranho considerando que ele nunca saia no meio das aulas. Ele disse que não estava se sentindo bem e saiu, mas quando se passaram 15 minutos e nada dele voltar, o professor Humphries pediu-me para ver se estava tudo bem com ele.

Eu fui até o banheiro e escutei um “ganido” de dor. Imaginei logo por ser pertencente a Grellie e nem perguntei nada antes de entrar no cubículo que tinha a porta encostada. Assim que vi o meu amigo ruivo fiquei horrorizado. Nas suas costas, que se encontravam desnudas, uma queimadura profunda marcava a pele clara, parecia, para mim, algo demasiadamente sério para que ficasse coberto apenas pela camisa fina do uniforme. Além dela um corte de uns 2 ou 3 centímetros de profundidade, tão mal costurado o sangue escorria por sua pele, manchando-a.

— Grellie. — chamei-o simplesmente. Ele se virou subitamente e gemeu com a dor causada pelo movimento. — Vamos cuidar disso. — disse apontando para suas costas, ainda sem ter olhado em seu rosto.

Quando ergui os olhos a procura dos seus, me deparei com as águas oceânicas. O verde esmeraldino de seu olhar, mergulhado nas profundas lágrimas de seu desespero lembrava-me o mar, que uma vez vira em uma fotografia, mas, além disso, aquele olhar me causou algo diferente, algo ruim, que mais tarde descobri ser ódio. Acho que foi esta a primeira vez que realmente vi o quão ruim o pai era para ele.

Naquela tarde, eu consegui fazer com que minha mãe viesse nos buscar. Não lhe expliquei o que havia acontecido, já que nem eu mesmo sabia direito, apenas pedi para que ajudasse Grellie a melhorar, sem contar ao pai dele.

Eu levei meu amigo para minha casa, onde minha mãe cuidou de suas feridas e tentei fazê-lo me contar o que havia acontecido, mas ele não o disse. Nada, nem mesmo quando minha mãe, gentilmente lhe fez companhia para que eu fosse ao curso de pintura.

Assim que voltei, estranhei o silencio, já que a aquela hora meu pai já deveria ter voltado do trabalho e estar sentado no sofá olhando um daqueles telejornais que ele tanto gosta, ou a novela que minha mãe assiste, porém não havia ninguém na sala ou na cozinha.

Andei até a escada e vi que a luz do meu quarto estava acesa “Grellie deve estar ainda aqui e meus pais estão com ele” pensei, enquanto saudava o nada.

Na hora não notei, mas algumas coisas estavam fora do lugar, reviradas, quebradas. Apenas vi algo de estranho quando olhei para o corrimão da escada onde segurava, nele, um grande “talho” na madeira havia sido feito.

Não, tinha algo errado. Jamais aquilo havia estado ali e minha mãe não o faria, seria necessária muita força e ela era uma mulher fraca fisicamente.

Andei com uma pluma até a beirada da porta do meu quarto e pela fresta observei. Minha mãe estava com Grellie em seu colo, cobrindo todo o seu corpo de forma defensiva, meu pai estava à frente dela, com as duas mãos erguidas enquanto o senhor Sutcliff tinha um olhar aterrorizante e um sorriso cruel nos lábios, assim como uma faca de lâmina afiada em punhos.

— Devolvam meu sucessor e os deixarei saírem desta cidade com vida. — Ameaçou o homem ruivo. Eu deixei um som baixo escapar pela minha boca e foi o bastante para que os olhares me encarassem. — Ora, ora, vamos fazer um troca então— falou sínico. Ele arrastou seu corpo até mim e me agarrou pelo pescoço, colocando a lamina rente a minha carótida — Minha cria, pela sua... viva — o olhar de meus pais agora estava colado em mim.

— Solte-o — ouvi a voz de Grellie se pronunciar. O homem riu com escárnio, mas mesmo assim o ruivinho soltou-se de minha mãe. — Vamos pra casa Otou-chan (papai), vamos contar historinhas, como aquela da moça bonita que era um passarinho. — disse suave, com o tom e o olhar inocente. Ele se aproximou aos poucos, porém parou. — vamos— chamou com a voz e a mão, em um gesto para que ele a segurasse.

Sem querer eu me mexi, não sei ao certo como, mas o ínfimo movimento que fiz, fez com que Grellie “pulasse” em minha direção e com que seu pai o empurrasse para trás violentamente. Aconteceu que, quando empurrado, Grellie atingiu em cheio a quina da cômoda próxima à porta. Assim que vi o sangue, me desesperei. Comecei a me debater, mas não foi preciso muito para que ele me soltasse.

Final do Flashback

— Depois disso, eu não me lembro de muita coisa, somente de deixarmos a casa e virmos direto para Londres. — finalizou William com um suspiro breve e o olhar se perdendo no corte ainda irregular do cabelo ruivo de Grell. O mais baixo estava amuado, seus olhos brilhavam, assim como naquela época, lembrando o mar.

Tudo parecia se encaixar na mente dele, cada detalhe, cada um dos menores detalhes parecia costurar, juntando cada um dos retalhos que era sua memória. Com a menção do incidente com seu pai, o ruivo levou sua mão até a nuca.

— Eu... posso sentir — seus olhos se fecharam enquanto dedilhava aquela área onde uma, não mais tão estranha, cicatriz se encontrava. William encontrou seus olhos com a expressão sofrida de Grell e por súbito instinto se aproximou dele. Queria abraça-lo, confortá-lo, como fazia quando eram pequenos e ele apanhava do pai.

Desde que se conheceram, no primeiro dia de aula, era como se conhecessem de outra vida, sempre prestativos um com o outro, tão carinhosos.

Porém, Grell se moveu antes que o moreno agisse. Era tudo tão confuso, tão certo, tão novo, tão velho. O ruivo agarrou-se nos ombros de William e enterrou seu rosto no ombro deste, suprimindo os soluços, deixando as lágrimas caírem novamente.

— Senti sua falta — disse Grell, chorosamente. O moreno estarreceu, mas no segundo seguinte pousou sua destra na cabeleira ruiva, em um carinho que a muito não era feito. O gesto pareceu ter o efeito desejado no menor e assim, por consequência, também acalmou o outro.

— Eu também — murmurou William, segurando o rosto delicado do ruivo com ambas as mãos, inclinando-o para baixo e depositando um suave osculo na testa do mesmo.

***

Enquanto isso na mansão XXXXX

— Eu lhe disse para que não fizesse aquilo.

— Perdão.

— Ah! Como se fosse fácil assim... já é a quarta vez!

— Perdão.

— Se fizer de novo... se fizer de novo... eu te mato!

— Perdão.

— Chega! Logo aqueles dois vão chegar e não teremos privacidade. Prepare meu banho e limpe essa bagunça.

— Como desejar.

***

Dois dias depois,

Cemitério

O dia decorria sombrio e mórbido. Desde cedo já era tudo minuciosamente organizado e preparado para o cortejo fúnebre do falecido Conde Phantomhive. As cores pesadas e tons escuros eram os detalhes mais notáveis em tudo o que havia naquele enterro. Até mesmo as flores, as quais foram preparadas para momento em que o caixão entrassem em sua sepultura, tinham uma cor forte, quase negra.

Estavam todos os parentes e amigos mais próximos presentes, constituindo-se em Ciel, Sebastian, Angelina, os primos Middleford, Elisabeth e Edward, Vitória, Charles Gray, Charles Phipps, Grell, William, Diederich e Undertaker, que alem de ser velho amigo de Vincent, também era dono da empresa funerária a qual sempre enterrara os Condes e Condessas Phantomhive. Os trajes do professor funerário(?) eram os de sempre, com a exceção da cartola, que usava apenas em ocasiões especiais.

Ciel vestia-se assim como mandavam a etiqueta e tradição. Seu cabelo estava penteado de forma a que não tivesse, visualmente, o mesmo corte de sempre, deixando apenas a franja sobre o olho direito. O terno bem ajustado de tom negro possuía aspecto fúnebre, mas elegante. Em seu semblante, apenas a expressão de sempre, muito embora apenas a usasse para esconder a tristeza de seu coração.

Nada de muito relevante além das homenagens que foram feitas, com palavras gentis e afetuosas, assim como votos de condolências dirigidos, principalmente, para Ciel, que ficou calado durante todo o cortejo, pronunciando-se apenas instantes antes que seu falecido pai fosse coberto por sete palmos de terra.

O pequeno desgarrou-se de Sebastian e ficou diante da cova aberta, segurando firme sua rosa. Um suspiro sofrido escapou de sua garganta, enquanto tentava falar. Seu olhar lacrimoso dirigiu-se até Sebastian, encontrando um fraco sorriso nos belos lábios do outro que lhe transmitia mais segurança que meras palavras poderiam fazer.

— Hoje nos despedimos de um bom homem. — murmurou, fazendo todos voltarem sua atenção para ele — Até alguns meses atrás, eu tinha, por menor que fosse, esperança de que ele acordasse e me recebesse de braços abertos, para um abraço cheio de saudade e carinho, porém isso... nunca acontecerá. — leves sopros de lágrimas já marejavam os olhos dos presentes, enquanto Ciel respirava tentando acalmar sua voz. Sebastian, que também tinha uma rosa em mãos, andou até o namorado e tocou seu ombro. — Mas sua lembrança alegre sempre estará em meu coração, assim como no de todos aqui, a lembrança da expressão gentil e bondosa, de seu grande coração e do amor que ele tinha para com cada um de nós. Com tristeza é que eu lhe digo “Até logo” meu pai, porém feliz fico em saber que minha mãe poderá seguir com o senhor para a luz donde hão de serem felizes. — finalizou, em seguida jogando a rosa para dentro da cova.

— Eu não cheguei a ter a honra de conhecer Vincent, mas sei que alguém como ele, que é capaz de fazer o que ele fez pela felicidade dos outros, tornar-se-á a mais brilhante estrela e desfrutará de todas as felicidades as quais lhe foram negadas em vida. — sua comoção chegou ao ápice quando ouviu os suspiros ao fundo. — Senhor Phantomhive, Vincent, a ti so tenho agradecimentos, a ti e a tua esposa, senhora Rachel. Vocês deram a mim, a pessoa mais importante da minha vida. Obrigado. Eu lhe prometo juro, pela minha alma, que irei cuidar dele, protegê-lo, nunca traí-lo, até o fim dos meus dias. — Sebastian olhava para Ciel agora e o puxou para um abraço apertado, que encerrou-se por um suave e discreto ósculo. Assim, o moreno também jogou sua rosa e os outros vieram, falando suas palavras de despedida e atirando suas flores até que enfim fosse tapado pela terra.

Instantes depois, quando os outros já partiam, Sebastian deixou Ciel por um momento, caminhando rapidamente até uma área mais isolada do cemitério, onde havia um enorme, provavelmente centenário, salgueiro chorão.

Por entre as cascatas que era sua folhagem, uma única sepultura se encontrava. O moreno parou diante da mesma e ajoelhou-se, espalmando a parte superior para retirar as folhas que caíram ali. O nome gravado era praticamente ilegível, porém Sebastian não tinha duvidas de que estava no local certo.

Ele abriu o terno que vestia e de um dos bolsos internos retirou um Cravo cor-de-rosa* e o colocou sobre a lápide, fazendo uma pequena prece interna. Quando se virou para ir embora e retornar para Ciel, viu a figura pequena que nunca saia de mente.

— Quem você veio ver?

Notas finais
* Cravo cor de rosa: remete para felicidade e gratidão. Quando é oferecido a alguém, significa que você sempre lembra dessa pessoa. Lembrem-se disso. -/*/- Sacaram a referência? Se sim digam ai nos comentários. ^^ Agora vamos as agradecimentos. Primeiro obrigada a quem comentou, obrigada a quem esta acompanhando (12 TuT), obrigada a quem favoritou e especialmente a Mitarashi-senpai (Mari Mitarashi) que recomendou a fic. Obrigada mesmo a todos vocês. Estou realmente muito feliz.♥♥♥ Enfim, さようなら、心にキス (Sayōnara, kokoro ni kisu ) Ass.: Michaelis. M