Rubro como sangue
16 Acte Trois - Boa noite, demônio
Notas iniciais
Ciel estava comendo um pedaço de bolo que havia encontrado na cozinha enquanto esperava que o namorado ficasse pronto. Algo dentro de si lhe dava um mal pressentimento, mas ele nada disse, apenas pensou. “Talvez seja pela falta de sono” disse para si mesmo enquanto levava outra garfada para a boca.
— Ciel... você deveria dormir um pouco — disse Ash, entrando pela sala. Ash era tio de Sebastian por parte de mãe, era ele o único parente de sangue vivo do moreno e o mesmo ficou extremamente contente quando o sobrinho que ele julgava estar morto, o viera procurar.
Ash era muito parecido com Ângela*, tendo os mesmo olhos violetas e cabelos brancos finamente cortados, onde o lado esquerdo da frente é mais pronunciado. Tudo nele lembra Sebastian, comprovando a consanguinidade deles. Ash veste-se em trajes elegantes onde o branco predomina. Camisa branca e colete roxo, sob uma jaqueta militar branco são itens que sempre estão presente no vestuário.
— sim... eu concordo — afirmou Sebastian se aproximando deles com a toalha enrolada nos cabelos negros. Ciel balançou a cabeça negativamente e ficou de pé, tirando a toalha dos cabelos do de olhos rubros.
— depois. Agora temos que estar lá no hospital para Grell. Ele precisa de nós todos e você sabe disso. — disse decididamente largando a toalha sobre a guarda da cadeira. Sebastian balançou a cabeça fazendo os cabelos se ajeitarem na posição de sempre, mesmo que ainda estivessem úmidos.
— Você tem razão. — concordou o moreno — Tio, não me espere esta noite — avisou, tomando Ciel pela mão e andando junto com ele em direção a porta.
***
Enquanto isso... hospital
A Senhora Spears terminava de enfaixar o pescoço ferido* de Grell após desinfeta-lo e aplicar um antibiótico de forte efeito. Durante todo o processo, ela torcia para que algum dos amigos do garoto chegasse ou até mesmo seu filho, para que ela não precisasse contar a verdade, devido à instabilidade a qual ele estava sujeito, mas ela ia terminando e ninguém chegava.
Enfim ela terminou e foi em direção ao banheiro, para lavar suas mãos e, secretamente, tentar ganhar algum tempo, mas, depois de 10 minutos, decidiu voltar e encarar a situação.
— então... — murmurou ele continuando a encarar as próprias mãos. A mulher respirou fundo e, hesitante, tocou-lhe o ombro delicadamente, evitando encostar ou apertar devido aos hematomas ali presentes.
— Q-querido... — ela pronunciou com o tom embargado, denunciando as pequenas lágrimas que se formavam nos cantos dos seus olhos verdes.
Porém, antes que a mulher pudesse continuar, a porta vítrea do quarto foi aberta e uma figura passou rapidamente por ela, chegando esbaforida ao lado da cama.
— Desculpe pela demora Grellie, mas se eu precisasse te contar o que aconteceu antes de conseguir isso eu... — disse William erguendo a pequena embalagem com a torta, mas interrompeu-se ao notar as lágrimas nos olhos da mãe. — O que... — ele murmurou intercalando o olhar entre a mãe e o amigo de forma nervosa. A mulher secou a lagrima que lhe escorreu pela bochecha e lançou um olhar para o filho que foi o bastante para ele entender o que se sucedera.
— Eu vou... eu tenho que... checar outro paciente... eu voltarei em breve Grell... qualquer coisa é só chamar... — disse ela pausadamente enquanto dava passos de costas em direção à porta, passando pela mesma quando disse a ultima parte da frase.
Assim que a mulher saiu, William virou-se para o amigo. No semblante do moreno, uma expressão séria dominava, os lábios estavam pressionados em uma linha praticamente reta, os olhos observavam de forma analítica a situação e em sua testa, uma suave linha se mostrava presente enquanto ele franzia o cenho.
Grell engoliu em seco. O ruivo ainda estava com a cabeça baixa, mas agora deixava lágrimas silenciosas escorrerem, assim como quando era menor, quando seu pai lhe surrava e o único que lhe ajudava era justamente William.
— E-eu acho q-que eu não deveria d-dizer isso agora, mas... — gaguejou Grell, torcendo os dedos no lençol e atraindo o olhar do moreno. — aquilo... sabe... o que você disse antes... mais cedo... quando eu acordei... — o tom embargado e as lágrimas apertavam o peito de William, que mantinha a expressão séria apesar de estar desmoronando por dentro. — eu ouvi... n-não foi sua culpa... isso... eu não lembro d-do que aconteceu... tenho ideia do que possa ter sido — disse francamente, encolhendo-se ainda mais em seus ombros ao ouvir em sua cabeça a sua teoria do que havia acontecido ressoando — mas... Wiru... e-eu sei que não é sua culpa... e e-eu... — o tom dele diminuiu conforme ele se aproximava do final da frase, acabando por não termina-la. Os orbes oliva se arregalaram levemente com a afirmação do ruivo e tentaram acompanhar, em uma péssima leitura labial, a frase até o final, falhando miseravelmente.
Um sentimento, uma espécie de desejo passou a tomar conta do pensamento do moreno, algo que seria considerado anormal, algo que seria, na mente do mesmo, recebida com ojeriza pelo ruivo. O desejo dele? “Ele disse... eu te amo”
***
Enquanto isso, em um lugar não muito longe
Claude andava com as mãos nos bolsos pela rua. O sorriso cruel ainda restava em seus lábios mesmo após horas de ter cometido aquela atrocidade e os dedos longos ainda estavam no gatilho do revolver, muito embora ele não precisasse de uma arma como aquela. O crepúsculo se aproximava quando o professor se dirigiu até a casa de seu protegido, Alois Trancy.
Porém os planos do homem não eram nem um pouco como o que se esperaria de um tutor se dirigindo à casa de seu mestre. Trancy era o único que sabia do que acontecera, Trancy era o único que podia negar algo à Claude, Trancy era quem devia ser protegido ou eliminado. Por um tempo, Faustus preferira a primeira opção, mas devido ao curso que a situação tomava, aquele ponto fraco deveria ser destruído.
Com aquele intuito o homem se dirigia naquele momento em direção a mansão Trancy. Chegando lá, Claude tratou de seguir até o aposento reservado a ele na ala dos empregados e trocar de roupas, livrando-se do revolver e vestindo um fraque de mordomo, assim como o mestre lhe ordenara desde sempre. Depois de trocado, o moreno seguiu em direção a cozinha e apanhou, de dentro de uma gaveta, uma faca toda feita em ouro puro, a qual o mesmo tivera o cuidado especifico de gravar com as próprias unhas, sobre o ouro ainda liquido, as suas iniciais de um lado e do outro as de seu mestre.
Com o som dos seus passos ressoando contra o piso de madeira, Claude se dirigiu ao lugar onde sabia que Trancy estaria. Era um quarto moderadamente grande, confortável, melhor dizendo.
Tudo ali lembrava ao esplendor que um dia havia sido a família Trancy, tantos anos antes que os Phantomhive tivessem ocupado o seu lugar. As joias encrustadas nas paredes, móveis e adornos, o ouro reluzindo em tudo, mas o principal, que era a razão de Faustus saber que seu mestre ali estaria, e realmente estava, era a escultura de aranha presente no centro da sala.
Feita em ouro, a aranha possuía um tamanho pouco maior que uma caixa de vídeo k-7. Os olhos, 6 deles, eram joias : Uma esmeralda, uma ametista, um rubi, um âmbar, uma safira e um quartzo rosa-arroxeado.
Os dedos pálidos de Alois tocavam o olho esmeralda e o rubi. Um suspiro ecoou na sala que, apesar de estar cheia de itens, parecia vazia.
— Então, depois de todos esses anos... você me trairá dessa forma novamente... você é sujo Claude. — praguejou o loiro cerrando os dentes e punho.
— acha isso highness?— perguntou Claude de forma cínica, aproximando-se com a faca em punhos. O garoto sorriu com os olhos marejados e girou sobre seus calcanhares ficando de frente para o maior.
— te vejo no inferno mi amor — disse o loiro se perfurando com a faca que ainda estava na mão de Claude. Os olhos âmbar se estreitaram, curiosos, mas não durou muito tempo, pois, apenas alguns segundos depois, ele foi atingido por um objeto cortante em suas costas.
— boa noite, demônio
***
Grell respirava pesadamente. Ele havia dito uma coisa importante a William, mas o moreno não respondera ou reagira a aquilo. Certo, talvez o maior não tivesse lhe ouvido, mas ele não repetiria aquilo, não agora. Sua coragem se esvaíra.
O ambiente estava pesado. William se mantinha calado, agora com a respiração um tanto quanto acelerada, olhando para o ruivo sem ter certeza de como prosseguir. A duvida em seu peito lhe impedia de falar o que sentia. O medo de ter entendido errado o que o amigo dissera era o suficiente para fazê-lo travar.
O som dos suspiros baixos emitidos por Grell em meio ao seu pranto fizeram o moreno voltar a si. Ele expirou e sentou-se na lateral da cama, de modo a que pudesse estar de frente para o ruivo.
— Grellie... o que te aconteceu... eu não posso... você... não quero que você se lembre... — disse tentando segurar as lágrimas que insistiam em fazer cócegas em seus canais lacrimais. O menor ergueu levemente o rosto, deixando seus olhos verdes inundados a mostra, ele soluçou, pois aquela frase foi o bastante para ele concluir que sua teoria estava correta, a teoria de que havia sido abusado.
Quem havia sido não importava, ele perdera algo que guardou com carinho para uma pessoa especial, perdera sua pureza, perdera aquela única coisa que desejava compartilhar com a pessoa que amava. Grell soluçou vezes seguidas até que William o abraçou. Não foi um abraço como outro qualquer, foi algo a mais, mesmo que dado de forma desajeitada, aquela troca de calor corporal e carinho que estava no limiar entre o fraternal e o romântico.
O ruivo se moveu tentando encolher-se nos braços do maior, como muitas vezes fizera na infância, mesmo com a dor que surgiu com seu movimento bruto e descuidado, que a propósito o fez soltar uma espécie de “guincho” agudo. Após mais alguns movimentos dolorosos a Grell, ele estava encolhido no colo do amigo, chorando contra seu peito e molhando sua camiseta com as lágrimas.
William passava sua mão pelos cabelos ruivos do amigo tentando confortá-lo, deixando algumas lágrimas amargas caírem silenciosamente. Após minutos, Grell parou de chorar alto e agora apenas tinha os olhos úmidos. Sua cabeça estava apoiada próxima ao coração de William, que palpitava, quando ele reuniu toda a coragem que as lágrimas permitiram para dizer o que seu coração mandava.
***
Angelina estava em sua mesa arrumando alguns papéis de sua ultima paciente quando uma enfermeira bateu em sua porta.
— Sim? — questionou ela abaixando os óculos de leitura e fitando a mulher morena de cabelos claros que carregava uma prancheta.
— Doutora Dalles, telefone para a senhora no setor 3. — avisou a enfermeira. — É um homem, disse que era importante.
— Obrigada Hannah, pode levar isso para Caterine na emergência?— perguntou lhe estendendo um prontuário. A mulher acenou positivamente pegando a pasta parda da mão da medica.
— Claro que sim doutora, até depois — falou saindo pela porta. Angelina cerrou os dentes e também saiu de seu escritório, indo em direção ao local indicado pela enfermeira.
Chegando lá, ela pegou o telefone do gancho e o atendeu.
— Dalles.— murmurou se identificando.
— irmã. — cumprimentou a pessoa do outro lado da linha.
— Peter! — exaltou ela — Já lhe disse para não me ligar enquanto estou no trabalho! — ralhou, recebendo um murmuro qualquer como resposta.
— Tanto faz. Angie, tive alguns imprevistos, você poderia vir esta noite? — perguntou, quase que em uma ordem. Angelina sentiu raiva do apelido que o irmão usara, mas se controlou.
— Imprevistos... — ela parou sua fala quando a Supervisora entrou no recinto. — bem, claro. Assim que terminar meu expediente estarei ai. Espero que as flores aguentem até lá. — disse finalizando a chamada.
— Dalles, com quem falava? — perguntou a Spears caminhando em direção a cafeteira que havia no canto da sala.
— Peter. Nós havíamos combinado de visitar o túmulo de Rachel amanhã, porém devido a toda a situação com Grell, ele achou melhor irmos hoje. — respondeu simplesmente — com licença, tenho coisas a fazer. — disse e saiu batendo a porta.
***
— Wiru, eu sempre...— balbuciou Grell, afastando-se minimamente do amigo, olhando-o nos olhos. O coração do ruivo estava descompassado e sua respiração abafada. William escorregou e mão do topo da cabeça dele até o maxilar e acenou para que ele continuasse. O menor tomou ar e finalizou a frase — ...sempre te amei
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