Rubro como sangue
1 1st act - Introdução - Primeiro dia
Notas iniciais
Ciel olhou para o portão de ferro do prédio imponente que se erguia a sua frente. Os cabelos negro-azulados de dimensões um pouco maiores que o normal, caia-lhe sobre os olhos heterocromáticos, um azul e outro violeta. O semblante sério deste, que não parecia nem um pouco animado com o primeiro dia de aula, se converteu em uma carranca quando viu uma figura vestida de negro se aproximando.
A figura, ou melhor, pessoa, trajava um jeans escuro, um moletom negro listrado com um capuz que lhe cobria os negros cabelos, coturnos de couro preto e óculos de sol. Por sua pele estranhamente pálida e seu pavor em ralação ao sol, unido ao fato de seus olhos serem vermelhos, este belo rapaz fora conhecido como vampiro durante todo o colegial.
A aproximação lenta do maior deixava Ciel furioso. “Controle-se! Lembre-se da terapia, não desista da terapia...” dizia para si mesmo enquanto apertava fortemente com seus dedos a costura da parte interna de seu casaco. Uma voz interna na mente do menor cochichava-lhe coisas como “se este baka não chegar logo, esfaqueá-lo seria uma boa punição” e “ver o sangue dele escorrendo após levar uma facada seria delicioso”. Ciel balançou a cabeça tentando esquecer tais pensamentos. “A terapia... esfaquear não é legal... Ciel concentre-se... esfaquear pessoas não é certo...” sussurrava com os orbes fechados e os dentes cerrados.
Sua respiração se tornava cada vez mais descompassada e ele parecia que teria um colapso a qualquer momento. O maior pareceu notar isso e, mesmo a contragosto, acelerou o passo para se juntar ao outro o mais rápido possível.
O dia estava nublado, o que era uma verdadeira benção para o maior, e uma brisa simpática fazia com que os cabelos do menor balançassem, mas sem bagunçarem.
O gótico estava agora parado diante do menor e, vendo o estado deste, tocou-lhe o ombro de leve com a mão calçada em uma luva branca.
— Ciel. — Chamou ele, com sua voz rouca. A sua face estava bem próxima ao ouvido do outro, fato que deixava clara a intimidade entre eles. O pequeno sorriu de sua típica maneira psicótica e abriu os olhos, logo encarando os avermelhados do maior.
— Sebastian, está atrasado. — repreendeu dando um soco fraco em seu braço. Sebastian forçou um sorriso e segurou a mão do outro, envolvendo-a carinhosamente e deixando o menor com as bochechas rosadas.
— Desculpe-me, eu... não mereço alguém que me espere durante tanto tempo... — disse ele cabisbaixo. O menor tocou-lhe a face de maneira gentil, sorrindo, e em seguida apertou a parte inferior do queixo do rapaz.
— Tudo bem, querido. Apenas não repita isso de novo — um brilho insano ocupava os olhos de Ciel, nada fora do comum para um psicótico.
— Você vai se atrasar se não formos agora — murmurou Sebastian sem olhar nos olhos do menor. Ciel soltou o queixo deste e levou a mão aos próprios lábios, arrependido de sua ação. “Maldição! Por que faz isso seu baka!” insultava a si mesmo sentindo um nó formar-se em sua garganta.
— Desculpa Sebby, e-eu não deveria ter feito isso, foi muito grosseiro, e-eu... você sabe... as vezes... perco o controle... — pequenas lágrimas já se formavam nos grandes olhos heterocromáticos e suas mãos tremiam. O maior, percebendo isso, passou sua mão nos cabelos do menor e o puxou para um abraço apertado, fazendo-o se acalmar.
— Tudo bem, tudo bem Ciel. Não tem problema, eu não me importo com isso. E se fazê-lo te deixar feliz, sinta-se livre para isso. — seu tom e suas caricias em muito confortadoras e fazia o pequeno questionar-se “será que eu mereço alguém tão bom assim?”, mas seus pensamentos foram interrompidos pelo estridente som do “sino” que indicava a troca de períodos.
— Vem você não pode perder o começo da aula, afinal sua dificuldade é em trigonometria e o professor não costuma repetir os conteúdos. — sussurrou-lhe Ciel pegando sua mão e puxando-o levemente em direção à construção.
— Sim, sim — disse Sebastian em resposta, sem muito animo e acompanhando o menor para dentro do colégio.
*** Momentos depois ***
Uma chuva torrencial começou há cair poucos instantes depois e tal acontecimento, nem tão incomum na Inglaterra, foi o motivo do atraso daquele rapaz. Sua pele alva e seu cabelo ruivo, não tão curto e repicado, pareciam combinar perfeitamente com os olhos verdes e as sardas que se mostravam nas maçãs do rosto deste. As grossas lentes com armação vermelha, sua postura, levemente curvada, seu moletom branco e seu olhar triste, mostravam ser este um garoto tímido e quieto.
Pequeninas gotas de água escorriam dos cabelos molhados do jovem que tentava chegar a sua instituição de ensino antes de o final do terceiro período. “Mas que droga, porque esta chuva começou do nada logo hoje?” dizia para si mesmo pedalando o mais rápido que suas pernas finas conseguiam. As poças d’água e a parte de terra da estrada tornavam o percurso acidentado e perigoso, fazendo com que o garoto quase fosse de encontro ao solo diversas vezes.
A estrutura secular de Phantomhive’s University já era visível em meio às arvores que cercavam a área ocupada pela universidade, formando uma pequena floresta particular para os seus estudantes.
Enquanto o ruivo descia desajeitadamente da bicicleta vermelha tentando, em vão, proteger sua mochila onde estava seu material, outro garoto vinha andando calmamente embaixo de um guarda-chuva colorido. Por causa do piso escorregadio, da chuva e dos sapatos alagados, o garoto escorregou e caiu no chão soltando um baixo gemido de dor pelo impacto. “Droga!” xingou em pensamento.
Os olhos verdes escuros, também adornados por óculos de lentes grossas e uma armação negra, do outro garoto chocaram-se com os esmeraldinos do ruivo. “Esse garoto parece estar com problemas...” pensou o moreno de guarda-chuva indo rapidamente em auxílio do outro.
As passadas largas, feitas pelas longas pernas do moreno, logo dizimaram a distancia entre eles e com um sorriso amigável estampado no semblante belo e gentil, o de olhos mais escuros o cumprimentou.
— A chuva te pegou de surpresa ‘né amigo? — questionou ele colocando sua proteção sobre a cabeça do ruivo que parecia incrédulo com algo. Os esmeraldinos correram de leste a oeste algumas vezes antes de responder.
— V-você... está... falando... com...comigo? — seu tom baixo e trêmulo podia ser facilmente explicado pelo simples fato de ele estar encharcado, mas o moreno sabia que não era este o caso e o maior coçou a nuca de leve antes de estender sua mão para ajuda-lo a levantar-se.
— Sim. Por que não estaria? — perguntou divertido — Meu nome é William T. Spears... — disse ainda oferecendo a mão. O ruivo olhou temeroso para a mão a sua frente e, hesitante, a segurou, impulsionando o corpo para cima.
— É que... e-eu... — fez uma pausa “vamos seja como alguém normal! Deixe essa timidez de lado” lembrou o menor do que seu pai havia lhe dito antes de sair de casa. — n-não importa. — gaguejou apertando a mochila molhada contra seu peito, de forma protetora. Um meio sorriso surgiu nos lábios do moreno, que olhava para o outro de forma curiosa.
— E você é...? — questionou lançando um olhar interrogativo para o outro. Este, ainda parecia um pouco atônito com a situação e levou alguns segundos para entender a que o moreno se referia.
— Ah... hum... e-eu sou Grell, Grell Sutcliff... — disse um pouco trêmulo. William sorriu mais abertamente e balançou suas mãos unidas.
— É um prazer conhecê-lo Grelly— disse pronunciando acidentalmente o nome do ruivo errado, fazendo-o corar de maneira suave. — Digo, Grellie... não... perdoe-me, mas eu não consigo pronunciar seu nome... isso é tão embaraçoso... — murmurou o pedido de desculpas curvando seu corpo suavemente para frente.
— N-não se incomode com isso, estou acostumado às pessoas zombarem do meu nome... sabe... por ser um tanto quanto... feminino... — as bochechas que antes eram apenas coradas agora já eram comparáveis ao tom carmesim das suas madeixas. William lança um olhar de compreensão para o outro, tendo sua face levemente rosada.
Eles começaram a andar, lado a lado, debaixo do guarda-chuva. “Ele parece triste, talvez se dizer algo a ele... faça-o sentir-se melhor” pensou o moreno apertando o cabo do seu guarda-chuva com certa força.
— Bem... de toda forma, não se preocupe com isso... eu, de algum modo, sei o que você passa... — os orbes escuros escureceram mais ainda, tornando-se quase como as trevas. Grell voltou-se para o outro após os minutos de silêncio
— William... o-o que quer dizer co-com isso? — perguntou o ruivo, curioso, correndo os esmeraldinos até a face do mais alto, deparando-se com uma expressão séria, sombria. “O que aconteceu com ele” pensou inocentemente, analisando situação de seu novo “amigo”.
— E-eu... — sussurrou William com o coração apertado. “Por que você sempre fala demais?” repreendeu-se o ruivo ao notar que o outro fechando os olhos por um instante. — Argh, é um motivo muito idiota... — o moreno agradeceu aos céus por ser interrompido, pois não queria falar sobre aquilo.
— Perdoe-me, n-não quero que se aborreça. E-e tem mais, nós nos conhecemos há poucos minutos... você não precisa me contar se não quiser... — disse Grell com o rosto completamente corado. O coração do ruivo batia de modo acelerado “porque isso assim de repente?” pensou desviando o olhar para o chão enquanto para de andar.
— Ah, não. Não se desculpe por isso é só que... — William move a cabeça para o lado e coçou a nuca, girando o corpo e ficando de frente para o mais baixo. — bem... eu sempre me destaquei em artes e eu gosto muito mesmo das cores... por isso, bem... os garotos da minha sala, eles... — um tom rosado cobriu a expressão triste do moreno e uma brisa fria passou no espaço entre ele e Grell, fazendo com que o ruivo tremesse — Oh, parece que a chuva parou e... — o menor espirrou e levou o braço tremulo para frente do nariz e da boca. — Grelly você está encharcado! — disse ele olhando o menor de cima a baixo. O ruivo apenas assentiu espirrando novamente. “O que eu posso fazer? Vamos William pense!” disse para si mesmo olhando a sua volta.
Faltavam alguns metros até o portão de ferro, mas este já estava fechado, então eles precisariam entrar pela porta do ginásio esportivo, que ficava na lateral da universidade.
“Francamente... ele vai se resfriar desse modo” pensou enquanto olhava o outro espirrar repetidamente. “talvez se eu... não, não isso seria... mas que droga!” praguejou em pensamento, fechando os olhos e bufando.
— William? Está tudo bem...? — perguntou o ruivo tirando William de seus pensamentos — digo, é que nos já chegamos à entrada. — o moreno olhou para frente e viu que o que o outro dissera era realidade.
— Ah sim, eu só estava pensando que você pode ficar doente se continuar com esta roupa, então seria melhor se você a tirasse quando entrarmos. — ele disse de forma natural, mas por algum motivo o ruivo corou violentamente e abaixou a cabeça, mordendo a parte de dentro do lábio inferior.
— V-você t-tem r-razão — as orelhas do menor queimavam. O moreno ao notar o desconforto do outro tentou sorrir para aliviar a tensão do momento.
— Vem vamos entrar — disse William empurrando a pesada porta de madeira e agarrando o pulso do outro, mas soltando logo em seguida com uma expressão espantada. — você está frio — murmurou em um tom baixo. “Tenho que levá-lo para dentro” pensou e segurou o pulso do outro novamente, desta vez, puxando-o para dentro do ginásio que coincidentemente é a segunda e outra única entrada da universidade.
Dentro do cômodo, apenas os diversos armários onde os alunos deixavam suas roupas para os períodos de Educação Física* (n.a.: Na minha história têm educação física independentemente das cadeiras que eles estão cursando) e a entrada para os vestiários.
O moreno suspirou, aspirando o cheiro de produto de limpeza misturado ao da chuva, e se voltou para Grell soltando seu pulso.
— Suas coisas já chegaram ao campus? — questionou deixando o guarda-chuva no espaço apropriando e caminhando até o aglomerado de armários.
— N-não... meu pai me mandou trazer as coisas nos finais de semana quando fosse para casa. — disse ele cabisbaixo espirrando novamente. William suspirou fechando os olhos “então ele deve ter ganhado uma bolsa... interessante.” Ele abriu os orbes novamente e abriu seu armário.
— Bem, se é assim... Você é mais ou menos do meu tamanho então eu acho que essa aqui caberá em você — murmurou retirando uma camiseta de manga comprida na cor vermelho sangue e estendendo na direção do menor. Grell se sobressaltou e corou suavemente torcendo os lábios.
— N-não precisa fazer isso, e-eu posso pedir a coordenação, tenho certeza que eles terão alguma coisa para me ceder, pelo menos por hoje. — disse o ruivo desviando os olhos do outro rapaz. William bufou e andou até Grell, ainda segurando a blusa.
— Nada disso, tire logo pelo menos o moletom, se continuar com essas roupas pode pegar uma pneumonia. Depois que vestir algo seco ai nós conversamos. — impôs o moreno alcançando o zíper da vestimenta superior do outro. Grell arregalou os olhos surpreso pela atitude do outro.
— Naa! Eu sei me despir, mas não o farei na sua frente! — o ruivo estava corado até as orelhas e com um expressão raivosa, bateu nas mãos de William para que ele soltasse o zíper.
— Está bem! — exclamou retirando as mãos dali — Apenas faça isso rápido. — um leve rubor queimou a face do maior enquanto ele desviava os olhos. Grell o olhou, suavizando sua expressão. — Go-Gomen’nasai... — disse William curvando o corpo para frente.
— Ah. Tudo bem, e-eu a vestirei — o ruivo curvou-se um pouco, como sinal de entendimento e depois pegou a camiseta.
— .... ah que adorável... mas acho que deveriam estar na aula... vocês não acham? — sussurrou uma voz suave vinda de um local mais escuro.
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