Ruas Cegas
1 Lie and Pain
Takanori POV. ~
“Eu era na verdade um objeto de uso, eu era apenas a chave que os ligavam, mesmo assim eu me tranqüilizava. Há dias coisas na vida que são simplesmente impossíveis de se evitar, há dias como hoje que é simplesmente impossível ser feliz.
Sai do local e fui para casa, tentar me convencer de que ele entenderia, não consegui, eu perdi. A madrugada fria virou meu abrigo, andando pelas ruas com os pensamentos avoados, mesmo assim era impossível ficar naquele local, aquela noite. Porque, para falar a verdade, o único lugar que eu gostaria de estar naquele (e em todos os momentos) eu não era bem vindo...”
Yutaka POV. ~
“Hoje acordei mal, minha barriga doía eu meus olhos estavam inchados, não me lembro, talvez eu tenha dormido após chorar muito, mas é difícil falar quando se esta inconsciente há semanas. Acordei em um quarto de hospital, e nem sequer me lembrava como chegara nele, mas eu queria sair logo, queria poder estar junto dele, queria saber a verdade, e eu não queria acreditar no que minha mente dizia, por que meu coração pulsava outra coisa, não poderia ser assim tão ruim.”
-Olá Uke... como você esta? – disse o maior com a voz receosa, porem entusiasmada de saudade.
-Não, não estou tão bem. – Respondeu com a voz seca e áspera.
-Não se preocupe Kai, vai ficar tudo bem, e nos vamos sair dessa juntos, ta? – o maior depositou a mão no ombro do garoto sentado à maca do hospital, tentando acalma-lo, com a voz dessa vez ainda mais receosa.
-PARA COM ISSO YUU! NÃO TA NADA BEM, EU ESTOU CEGO, SABIA?!
A voz do menor saíra alterada, ele não conseguia demonstrar em palavras o tamanho de seu desespero e tristeza. Desespero por estar cego, mais maior que isso era a tristeza que a verdade lhe apontava. Yutaka sentava-se à maca do hospital, ainda incrédulo, chorando em grandes quantidades que encharcavam e escorriam pela atadura em seus olhos.
-Calma pequeno, eu to aqui com você. – ele o abraçou e acariciou seus cabelos apertados pelo nó da atadura, enquanto que a outra mão roçava lentamente pelas costas do menor, como uma tentativa de consolá-lo. – não se preocupe, ta? Eu vou estar sempre aqui com você.
-Você Yuu, sabe... que o que na verdade mais me afetou nesse acidente não foi o fato de eu ter ficado cego e sim o fato de ter que acreditar que a pessoa que me cegou, é a na verdade a pessoa que eu amo. — O maior não comentou, ficou em silencio durante alguns segundos, seu coração enrijecera, e no fundo sentia uma imensa dor.
-Tudo bem uke, eu só quero que confie em mim um pouco... Mesmo sabendo que seu coração não me pertence, — suspirou visando os limites de que ainda podia dizer e ignorando-os – eu ainda te amo e sempre estarei ao seu lado. – sua voz entre as ultimas palavras saíram soluçantes em meio a algumas lágrimas. Yutaka se levantou da maca, encostou uma das mãos onde sentira ser o ombro de Yuu e sorriu decepcionado por não poder retribuir os sentimentos do maior.
-Yuu...Muito obrigado – Yutaka o abraçou em meio as palavras, encostando a cabeça no ombro do maior – Por ora não há ninguém em meu coração, esta bem? Mas pode ser que com o tempo alguém o reconquiste como deve. -O maior sorriu em retribuição, e apoiou a cabeça de Yutaka de volta a cama da maca para que descansasse.
Kouyou POV. ~
Estava andando pelas ruas da cidade a caminho do pequeno parque abandonado, por que como sempre... eu tinha insônia. Parei em frente ao lago e acendi um cigarro, traguei e fiquei apenas olhando a imagem da lua refletida na água. Sai andando ao redor do parque, enquanto dava profundas tragadas no cigarro (que era meu único meio de distração, quase como se o fato de ver a fumaça rodando pelo ar fosse divertido).
Espremi os olhos na cara para poder ver algo que se encontrava mais distante, do outro lado do lago, e com certo esforço consegui reconhecer quem era, e isso me admirava. Fui andando lentamente até ele, cheguei a suas costas e assoprei sua nuca, o fazendo dar um pequeno recuo de espanto.
-Que foi hein, chibi? Que ta fazendo aqui há essa hora?
O vi limpar rapidamente o rosto para que eu não visse as lágrimas que escorriam, mas era obvio distinguir o motivo, após o acidente com Yutaka.
-Hm, ta a fim de ir lá pra casa? – eu sei que de certa forma essas palavras não combinavam com o momento, mas eu não sou bom com palavras, apenas queria distrair o pequeno que concordara que aquelas palavras não foram boas.
-Se eu estivesse a fim de ficar em casa eu teria ficado na minha. – respondeu chibi com a voz séria e soluçante
-Pára de ser teimoso, se continuar ai vai ficar gripado, ta começando a garoar na ta vendo?
-Isso não deve ser pior que ficar cego, não acha?
Ele me lançou junto as palavras um olhar desafiador, mas ao mesmo tempo ele parecia que ia desabar.
-Aff, para com isso Taka, você sabe que a culpa não foi sua. – O peguei nos braços para tentar consola-lo. Ele apesar de ter feito cena de arrogante, na verdade estava desesperado, e sem rumo. “É, você fez pode de quem iria me empurrar e sair andando, mas na verdade você desabou em mim, né chibi?” – pensei, mas obviamente não disse apesar de eu ser desastroso com palavras, tenho meus limites.
-Ele nunca vai me perdoar Kouyou! Nunca! – ele suplicava mergulhando em minhas vestes, quase como se eu pudesse mudar tudo e fazer com que as coisas fossem diferentes, mas a minha única função realmente era poder consolá-lo.
-Se acalma Taka, ele vai sim! Ele só precisa descobrir a verdade... – Falei como em resposta para uma pergunta difícil, mas acho que nem assim consegui falar o que ele precisa ouvir. O abracei e fui guiando-o a caminho de casa.
-Kouyou, por que me trouxe aqui? – Ele limpava as lágrimas do rosto como um gatinho sem dono, parece ridículo dizer, mas me atraia.
-Pra você descansar um pouco, ou melhor... — pra ficar em baixo dos meus olhos e não tentar se matar. – é o que na verdade eu penso, mas acho que estou ficando experiente com as palavras, em fim. – pra você não ficar naquela garoa e acabar doente.
-Olha só quem fala! Você também estava lá.
-É, mas eu tenho er... “tamanho” pra me defender.
O menor logo fechou a cara, mas depois riu, olhou para mim com certa expressão de dúvida e disse.
-Hm, ainda bem que você estava lá, né Kou? – Ele disse aquilo ainda rindo, eu fiquei realmente muito feliz de vê-lo sorrindo, Takanori não fazia aquele tipo de brincadeira há semanas (desde o acidente de Yutaka, pra ser mais exato) Mas há pouco e ele voltou a ter a expressão de tristeza no olhar.
-Claro que sim, né? Eu vou estar sempre onde você estiver pra te proteger, sabia?
-Kouyou, eu realmente gosto do modo como você me trata, mas acho que não mereço... Sou o “vilão” da historia, lembra? Fui eu, ta? Fui eu quem cegou o Uke...
-Hm, eu nuca fui o mocinho... – ri baixo, quase despercebidamente. – então saiba que independente do que haja eu vou estar do seu lado. Seja lá o que você tenha feito, eu nunca vou mudar meu jeito de tratar você. – Os olhos de Taka se abriram me encarando, ele estava incrédulo com minhas palavras e isso me deixava meio sem graça. – Então... é melhor você ir deitar, já pegou muita friagem hoje...
Ruki se deitou e cobriu-se com o cobertor em um sorriso constrangido.
-Que foi Taka? Não precisa se incomodar, cê saber que a casa aqui é sua.
-Não! Não é isso Kou! – ele hesitou diante do meu olhar indagado depois continuou – Quando você respondeu, bem... você não disse nada exatamente sobre o Yutaka... você acha mesmo que ele seja capaz de acreditar em mim?
-Taka... etto... Takanori, essa é uma situação bem delicada. Eu nunca conversei muito com o Yutaka, então não faço muita idéia de como ele possa estar pensando agora, e nem como possa ser a sua reação. Mas sabe, ele costuma ser bem compreensivo... talvez se você contar a verdade ele entenda.
-Kouyou, você é o único que sabe que a verdade pode por certo lado ser até pior... Ele o amava, não é?
Kouyou acenou com a cabeça insinuando a Takanori a se deitar, cobriu-o e saio pelo quarto apagando a luz e finalizando a noite, mas ambos não conseguiram dormir com a noite atordoante.
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