Ruas Cegas
4 Calm envy
Notas iniciais
O título tem um pouco a ver... não só pela musica, mas pelo próprio dito, bem, vocês vão entender quando lerem... Aconselharia a ler ouvindo-a.
Kouyou POV. ~
A gente confia, ajuda, apóia e é assim que nos retribuem... Eu poderia ter esperado isso de qualquer um, mas não do Taka... Aliás, eu já podia ter esperado isso dele, mas não queria. Há muitos anos que nós somos muito próximos, mais próximos do que eu já fui com qualquer outra pessoa. Se ele realmente partisse, eu não me perdoaria... e mesmo que eu tomasse todas as medidas para que isso não acontecesse, seria tarde de mais quando eu chegasse em casa.
Corri à caminho de casa, corri mais do que meu fôlego, minhas pernas e minha mente pensavam que eu fosse capaz, mas se houvesse alguma chance, aquela era a última e eu não podia perdê-la. Cheguei finalmente em casa, a porta demorou a abrir, parece que tudo queria aumentar meu desespero, somente com um pouco de insistência ela abriu. A entrada dava na cozinha, e lá não havia nenhum indicio de sangue, ou de faca por cima das coisas. Andei apressado até a sala, Takanori estava lá sentado no sofá com uma expressão vazia no olhar, me aproximei dele apavorado, eu não sei o que faria se me encostasse nele e sentisse frieza, uma frieza gélida e cortante.
Sentei-me ao seu lado e o peguei nos braços, ainda estava quente, mas parecia estar em uma espécie de transe. Ele me abraçou suave, como se não tivesse forças... seus batimentos estavam fracos e sua respiração escassa, ele estava morrendo, estava morrendo nos meus braços. Lágrimas e cólera invadiram-me enquanto eu corria desesperado com o pequeno nos braços, até mesmo o carro na garagem parecia distante, e os minutos que levamos para chegar ao hospital, pareceram horas. Mas durante esse tempo tudo se passou pela minha cabeça... coisas em que eu nunca pensei antes, coisas que eu pensava ser desnecessárias e idiotas, mas que agora faziam claro sentido.
“Talvez, se eu tivesse abandonado o meu jeito estúpido e arrogante, apenas para demonstrar a ele o que sinto... talvez assim ele não precisasse se apaixonar pelo Yutaka, não precisasse cometer todas as bobagens que fez, e principalmente não estaria nessa agora. Talvez se eu conseguisse fazer com que ele me amasse, ele não precisaria sofrer tanto, eu sempre estaria ao seu lado, eu sempre estaria sempre com ele...”.
Chegamos ao hospital e o levaram na mesma hora, ele estava “quase morto” e isso não podia ser possível. Eu não conseguia explicar o que acontecia, nem mesmo eu sabia, minhas lágrimas cobriam meu rosto junto com o desespero.
Akira chegou algumas horas depois, e sua maior preocupação era em tentar me acalmar, não tenho certeza, mas acho que sabem o quanto considero o Taka, e isso não é pouco.
Eu nunca me vi numa situação dessas, nunca chorei, nem sofri tanto antes...
Yutaka POV. ~
São tão poucas as chances que temos de ser verdadeiros... quando eu tentei tudo desabou, e apesar de estar cego ainda posso chorar. Estar cego não é nada, ainda tenho a lembrança dos seus olhos, e isso é o suficiente. Sempre fomos apenas amigos e por mais que houvessem outros mais próximos, foi você que chegou em meu coração, mas como?
Depois de tudo que aconteceu, eu acho que Yuu tem um pingo de razão. Se o Takanori se matar, ele estará sendo egoísta, não estará se preocupando comigo, e o que ele sente é doença e não amor, não sei se sou capaz de conviver com isso, mas acho que realmente não sou capaz de conviver sem ele.
-Yutaka? O dia da sua alta chegou, já sabe para onde ir? – disse o médico entrando no quarto, me causando um total espanto, eu não tinha para onde ir... eu iria morar com Yuu, mas agora ele não quer olhar na minha cara, e eu também não.
-Ah, sim doutor... pode deixar... – menti
-Se precisar de auxilio de algum dos nossos enfermeiros para ir para casa...
-Sim, eu acho que vou precisar... Bem, já posso sair?
-Sim, só preciso preencher alguns papéis, mas se quiser ir descendo para a recepção, se não me engano, a enfermeira Sunei me disse que alguns dos seus amigos estão lá em baixo. Vou chamá-la para te levar até lá.
Sim seria difícil eu me adaptar a viver sempre com o auxilio de alguém para tudo, mas acho que seria pior saber que você se foi... Alguma coisa me indicava que você não poderia partir, alguma coisa me indicava que a realidade é sempre errada.
Akira POV. ~
A situação estava tensa, eu não sabia exatamente o que fazer, tudo estava ficando pior a cada segundo.
Yutaka saíra do elevador, e agora estava se aproximando de mim e Kou, que agora estava um pouco mais calmo, seus olhos estavam inchados, mas as lágrimas cessaram.
-Você está bem Uke-chan? – perguntei com cuidado, a situação se tornava cada vez mais delicada, e a qualquer momento qualquer um deles poderia desabar de alguma forma.
-Sim, estou um pouco melhor... Por qu-que vocês estão aqui? – havia receio em sua voz, tremula, eu tive medo de responder.
-É o Taka! – respondeu Kou no meu lugar com a voz grossa e embaçada. – Aquilo...- hesitou, deixando um clima tenso e frio no ar – É, ele fez.
-Eu imaginei... – a reação de Yutaka foi um pouco mais remota do que eu pensei, mas acho que na verdade é pelo choque.
Vi o doutor se aproximar, rezei para que ele trouxesse boas noticias.
-E então doutor como esta o Taka?! – logo perguntou Kou desesperado.
-Fiquem tranqüilos. – disse o médico em tom suave e macio, Kou e Yutaka suspiraram aliviados. – Ele estava em estado de vida e morte, mas conseguimos recuperá-lo bem a tempo. Um segundo mais e seu amigo não estaria mais aqui hoje...
Os olhos de Kou brilharam. E finalmente, após tantos dias um sorriso desabrochou nos lábios de Yutaka.
-Quando a gente vai poder visitá-lo? – perguntou Yutaka ansioso.
-Senhor Yutaka, se não me engano você acabou de receber alta não foi? – perguntou o médico com tom de descaso, Yutaka apenas acenou com a cabeça, despreocupado. – Acho melhor vocês irem para casa descansar um pouco, o estado do senhor Matsumoto ainda é muito delicado apesar dele estar fora de riscos. Voltem amanha e poderão vê-lo tranquilamente.
Apesar da má vontade, nós fomos, mas fomos tranqüilos. Íamos para a minha casa. Kou não suportaria olhar, sentir o local em que deixara o menor sozinho, o local em que ele estava morrendo.
Kouyou POV. ~
Minha cabeça dói, eu nunca sei direito o porquê, mas hoje tudo estava claro.
Eu não sei como chegamos a onde estamos, só sei que quero sair daqui o mais rápido possível e te abraçar forte.
Talvez o culpado por tudo isso seja eu, mas esse joguinho de culpa não tem mais objetivo, afinal o presente já se construiu.
Takanori POV. ~
Senti muito frio aquele dia, mais frio do que eu pensei ser possível sentir. Mas pelo menos com o frio me veio seus braços quentes, e junto a eles uma decisão. Eu realmente não queria fazer isso, as coisas se construíram sozinhas e eu ainda tinha esperança de estar ao seu lado, mas se o futuro não nos é promissor, então não adianta continuar trilhando-o.
Kouyou POV. ~
Estávamos nós três na casa de Akira, e de certo modo todas as vezes que olhava para Yutaka meu sangue fervia, o que isso queria dizer? Eu não queria ter inimizades com ele, afinal, nunca tive motivos... mas ele estava se mostrando muito voluntário a respeito do Taka, e isso me incomodava profundamente, afinal Taka sempre deixou muito claro que gostava dele e ele nunca mostrou se importar, acho que é por isso que nunca liguei muito, e agora que percebo que ele se importa, isso quer apenas dizer que Taka não estará mais comigo e só agora eu percebi o quanto isso é horrível.
-Você tá legal Kou? – perguntou Akira com um olhar preocupado.
-Tô, to sim. – eu o encarei por alguns segundos e ele se contentou com a resposta.
-Ok, depois do Uke você quer tomar banho também?
-Não... – voltei a fitar o nada com a expressão perdida. Meus pensamentos voavam nos últimos dias, quando eu protegia aquele que agora e aos poucos eu estava percebendo que amava.
As horas passaram lentamente, minha vontade de ver o Taka crescia com os minutos e eu me sentia aflito, aquele sentimento era completamente inconveniente, mas nós não os controlamos, não é?
Acordei cedo, aliás, eu não dormi, vi o sol nascer e as estrelas se despedirem, mas isso não era nenhuma grande novidade para mim, eu já estava acostumado a não conseguir dormir direito. Algumas horas depois e nos reunimos para ir para o hospital ver o Taka.
Takanori POV. ~
O médico veio me falar hoje mais cedo que o eu fiz foi errado, que foi uma loucura e que eu poderia estar morto. Foi realmente muito esclarecedor ele ter me dito isso, afinal, era o meu objetivo.
E quando eu disse em resposta que não agüentava mais a aflição que estava sendo a minha vida, ele respondeu com a voz calma, mas ao mesmo tempo cortante que fazendo isso eu tornaria a vida dos meus próximos ainda mais afliciante, e eu estaria sendo mesquinho e egoísta.
Eu não sei, mas de alguma forma aquela frase me causou um impacto muito forte. Eu pensei primeiramente no Kou, ele que sempre esteve tão próximo de mim e mais ninguém, eu que sempre fui o único capaz de me aproximar dele sem me ferir, e acabei me tornando para ele a única pessoa que ele confia; entãoachei melhor nem imaginar ele chorando em cima do meu caixão. Depois me veio à mente Suzuki. Nunca fomos muito próximos, mas sei que isso é por causa de sua timidez, mas apesar de tudo ele sempre esteve ao meu lado e foi um grande amigo.
E por último pensei no Yutaka, e um instantâneo vazio me preencheu. Eu não tinha exata certeza do por que gostava dele, meu coração pulsou forte e aos poucos se acalmou, e se talvez fosse melhor deixa-lo viver em paz? Só lhe causei problemas, e agora mais do que nunca eu acho que seria melhor esquecê-lo.
Pensar é tão fácil...
-Eu não tenho certeza, talvez ele ainda esteja dormindo, ok? Então façam silêncio, ele precisa repousar.
-Pode deixar doutor. – respondeu a voz de Akira, que entrava pelo quarto acompanhado por Kou e Yutaka.
Meu coração agora saltara, eu não sei se estava preparado para encará-los de frente. Kou me daria alguma bronca, e ainda não faço a menor idéia de qual seria a reação do Yutaka.
-Taka? – perguntou cautelosa a voz de Uke. Takanori não respondeu, o fitou com cuidado, e se sentiu profundamente aflito ao olhar para seus olhos vazies.
-Como você está pequeno? – perguntou Kou à frente de Yutaka, passando as mãos pelos seus cabelos, e sorrindo preocupado.
-Estou... bem. – Takanori respondeu com a voz fraca, quase inaudível.
-Por favor, Taka, não faça mais isso, ok? – disse a voz trêmula de Kouyou, enquanto caiam algumas lágrimas de seus olhos.
Takanori não respondeu. Sentiu-se aflito, culpado, e confuso. Sem que precisasse responder, o médico entrou no quarto.
-Doutor quando ele vai poder sair? – perguntou Yutaka se apoiando no braço de Akira. Que por mais que Kou não quisesse demonstrar, Yutaka conseguia sentir sua frieza, mas compreendeu tranquilamente, por que não só para ele, mas principalmente para Kou aquilo deveria estar sendo muito doloroso, eles eram muito próximos, mais próximos que irmãos e isso e agir friamente diante de um choque lhe parecia “natural”.
-Em uma semana, ou até menos. Sabem, realmente não era para esse pequeno partir... o veneno que ele usou no suicídio era realmente muito forte, mas seu corpo lutou bravamente contra.
O rosto de Yutaka se iluminou, Kou soltou um suspiro aliviado e Akira sorriu apreensivo.
-Bem, só mais dez minutos, ok? Ele precisa descansar se quiser sair daqui na próxima terça.
Todos acenaram com a cabeça e voltaram suas atenções à Takanori.
Os dez minutos passaram, Takanori não pôde falar muito, mas fora o bastante para tranqüilizar os outros em saberem que estava bem. Kou foi para casa, Yutaka ficou na casa de Akira, mas com os pensamentos em outro lugar, ou melhor, em outra pessoa...
Takanori POV~
Em breve, estarei saindo daqui.
Os minutos são horas e as horas dias... Mas em menos de dias eu estarei em seus braços...
Você se preocupa, mas isso não quer dizer que me ama, certo?
Fale com o autor