Rua sem saída
6 Capítulo 6
Notas iniciais
♦ Capítulo 6 ♦
– Estou com mau hálito! Não tomei banho ontem de noite, nem escovei os dentes, eu só preciso disso para me sentir melhor...
Eu estava mentindo. Eu precisava dele. Isso é insano, não? Eu realmente estou maluca, maluca... perdi a sanidade, estou prestes a explodir de raiva. Quero algo que é impossível e improvável, algo que além de ser isso tudo, é novo e misterioso para mim.
Como posso querer tanto assim alguém, se antes não me importava nem comigo mesma?
Acho melhor eu tomar um banho e esfriar a cabeça mesmo...
– Relaxa, eu que deveria estar nervosa, preciso logo pensar em algo para falar aos meus pais, sabe... isso não é fácil!
– Eu quero uma toalha e uma escova de dente — disse resoluta.
– Vai lá embaixo comprar, o shopping não é muito distante daqui.
– Só pra você saber, eu nunca fui em um shopping! Era mais de uma hora e meia de onde eu morava!
– Ok, ok... — disse ela levantando-se de sua cama onde estava sentada pensando no que dizer para seus pais. Eu estava encostada no batente da porta, tentando parecer o mais normal possível em relação ao meu mau hálito e a minha falta de dignidade devido ao cheiro de suor insuportável que exalava de todas as mínimas partes do meu corpo. — Vamos juntas, mas antes você precisa de um banho.
– É isso que eu estou tentando te dizer desde que acordamos! — segui em sua direção e sacudi seus ombros. Ela virou a cara devido ao meu hálito.
– Usa uma toalha minha e chupe uma bala pra tirar o bafo.
♦♦♦
Alguns minutos depois nós saímos de casa.
Ao descermos no elevador, percebi que estava perdendo o medo dele e me peguei pensando em porque me desesperei tanto no primeiro dia em que tive que entrar em um. Falando nisso... que dia mesmo que foi que eu cheguei aqui? Lembro que foi no meu aniversário, mas que dia da semana?
O barulho da cidade grande é exorbitante, já não aguentava mais descer e ouvir buzinas, freios, motos, motores dos carros parados no sinal vermelho... Tudo isso estava me tirando do sério.
Seguimos em direção a calçada do lado esquerdo da rua, após atravessar o mesmo sinal pelo qual eu vi Hugo pela primeira vez. Depois fomos caminhando vagarosamente pela calçada quase que vazia. Bom, eram nove horas da manhã e como posso deduzir, a maioria deve estar no seu emprego a essa hora, então é por isso que as ruas estão mais calmas, mas aposto que na hora do almoço, tudo isso vai explodir de gente.
Enquanto caminhávamos, eu ia prestando atenção nas vitrines das diversas lojas e na portaria dos diversos prédios comerciais e residenciais.
Até que reconheço algo que eu posso dizer que realmente amei, antes do meu celular, antes de Hugo.
Uma boneca que tive com 11 anos. Ela caiu em um bueiro aberto uma vez quando estava indo para a escola correndo, pois estava atrasada, com ela na mão.
Não chorei, como também não chorei quando meu celular parou de funcionar e como também não vou chorar com mais nada.
Eu a perdi para sempre e era como se eu estivesse reencontrando-a.
Parei imediatamente e a apreciei o tempo que pude até alguém esbarrar em mim — isso é um pouco comum aqui — e me fazer quase cair em cima de outra pessoa.
Tudo bem. A boneca loira de vestido rosa continuava ali e eu estava bem, bom, pelo menos eu achava que estava bem.
– Natasha! — ouvi Amanda gritar, mas simplesmente não conseguia desgrudar a cara da vitrine. A loja de brinquedos parecia antiga e reconhecida mundialmente, pois podia ver ali várias bonecas que eu só conhecia de anúncios na televisão.
– Essa boneca não vende mais... eu sei disso. — sussurrei para mim mesma. Eu lembro de tentar fazer minha mãe comprar uma nova para mim e quando finalmente a convenci de que não foi por culpa minha que ela caiu no bueiro, ao chegarmos na lojinha do centro da cidade, não estava mais a venda e depois, sempre que eu passava por lá a procura da boneca, não a encontrava.
– Natasha, o que aconteceu? — perguntou Amanda aproximando-se de mim e segurando em meu braço. Logo depois ela olha para a vitrine que eu estava encarando e volta a me olhar.
– O que tem aqui?
– Essa boneca... Eu tive ela quando eu tinha onze anos.
– Você ainda brincava de boneca com onze anos?
– Não se esqueça de que eu sou criança de de cidade pequena. Morava longe do centro, meus pensamentos eram diferentes...
Meus pensamentos saíram da minha boca sem eu nem pensar.
– Vamos entrar! — disse puxando-a pelo seu antebraço até a porta de vidro enorme. Quando eu a empurrei e adentramos no salão gigantesco da loja de brinquedos, pude ouvir a melodia calma vinda de caixinha de música.
Sorri. Isso me lembrava minha irmã mais nova que só dormia com esse som.
Corri em direção a sessão de bonecas. A loja pareceu maior quanto mais eu pensava que estava me aproximando da Millie.
Cheguei na sessão e quando segurei a boneca Millie em minhas mãos fiquei receosa de deixá-la cair de novo e todo aquele sentimento ruim voltar a me assombrar. Apertei a boneca o tanto quanto eu pude, segurando-a com as duas mãos até que um papel sai de debaixo de seu vestido e sobrevoa até cair no chão. Amanda rapidamente abaixa-se e pega o papel.
Ele estava dobrado e a cada parte que ela abria, uma palavra aparecia. Primeiro me, depois salve. Até que ela me encarrou com os olhos arregalados percebendo que tudo isso estava ficando cada vez mais perigoso e confuso.
– Estou com medo... — sussurrou ela, com os olhos ainda fixos em mim.Não sabia o que dizer nem fazer, acabou que fui direto arrancando o bilhete de sua mão e devorei as outras palavras que apareciam nele.
Rua Siderópolis.
– O que tem ai? — pergunta ela pegando o papel da minha mãe e não conseguindo entender nada, pois tinha que desdobrar o papel na ordem, além de ter feito isso rápido de maneira com que só eu visse as palavras.
– Um endereço.
– Qual? Me diz, qual o endereço?
– Rua Siderópolis.
– O que? Que diabos de bilhete é esse? Uma rua, em que cidade? Onde fica essa merda!
Ela falava muito palavrão, isso me deixou desnorteada, não sou acostumada com esse palavreado, se bem que eu ouvia muito meu irmão dizer palavrões o tempo todo.
Fiz um shiu com o dedo indicador sobre minha boca e, ainda muito assustada, disse:
– Eu acho que... eu acho que conheço essa rua.
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