Royals
30 Capítulo 30
Notas iniciais
–Como se sente? –Foi a primeira coisa que ouvi quando abri os olhos.
–Melhor do que ontem. –Murmurei, fazendo algum esforço para me sentar.
–Bom.
–De fato. Há coisas para serem discutidas hoje. –Ele fez uma careta, mas concordou, se sentando para beijar meu rosto.
–Há muitas coisas para serem feitas hoje, princesa. –Thomas mordiscou o lóbulo de minha orelha e eu corei automaticamente, sabendo o que ele tinha em mente.
–Mais tarde, Tom, ou vou acabar me esquecendo do resto. –O repreendi, mas aceitei seu ataque aos meus lábios.
–Por onde quer começar? –Perguntou, uma vez que meus lábios já estavam inchados pacas e eu me encontrava sentada em seu colo.
–Onde está Lupa?
–No quarto de Luce. –Respondeu de prontidão, como se fosse algum tipo de chamada oral. Eu sorri.
–Bom. E meu pai?
Ele fez uma careta.
–Deve estar dormindo, ele passou a maior parte da noite aqui. –Eu arregalei os olhos incrédula. –É, foi meio estranho. –Concordou.
–O que você fez?
–Fiquei conversando com ele.... E preciso te fazer uma pergunta, aliás.
–Então faça, oras. –Revirei os olhos, mas ele nem se incomodou.
–Se pudesse escolher, casaria comigo? –Por que ele não demonstrava qualquer emoção? Eu precisei me segurar para me manter calma.
–Se eu pudesse escolher entre você e o duende que você nunca me contou que é? –Provoquei, mas ele apenas sorriu. –Bem, supondo que estivéssemos no mundo mortal e eu pudesse escolher com quem me casaria, bem, eu ficaria frustrada se nunca fizesse a proposta. –Concluí. –Está preocupado se meus sentimentos por você mudaram? –Arqueei a sobrancelha, acertando o que se passava na cabeça dele.
–É idiota, mas os mortais me intoxicaram com o significado para duende, não gosto muito de me classificar assim. –Ele fez uma careta e eu ri. –Seu pai quer que casemos logo, eu só me preocupo se ficará infeliz.
–Eu ficaria infeliz em qualquer outra situação. Mas como você não é um vampiro de se jogar fora, acho que dei sorte.
–Bom, isso é agradável. –Brincou.
–E quais são os planos para nós? –Perguntei.
–Nós temos uma eternidade, acho que poderemos fazer o que quisermos. Mas nós ficaremos com o reino de meu pai, aprenderemos toda a magia que pudermos e teremos uma lua-de-mel excelente.
Eu ri, sem deixar o vermelho de minha pele para trás.
–E nós casaremos para acertar a maldita aliança entre nossas espécies, certo? –Ele fez uma careta, puxando-me de encontro ao seu tórax.
–Não. Eu me casarei com você por questões pessoais, princesa. O resto é bônus. –Eu sorri, mas então algo me veio à cabeça e minha expressão mudou drasticamente. Óbvio que ele percebeu.
–O quê? –Eu não soube como dizer, aliás, talvez tenha ficado com medo de sua reação. Ele percebeu outra vez, dois pontos para ele. –Podemos falar sobre Olívia, não quero que tenha receio de mim. –Murmurou e eu pude perceber o quanto aquilo o amargurava.
–Por que ela morreu? Não era como você? –Perguntei, tentando soar mais calma.
–Ela foi adotada quando nasceu. Minha mãe é uma duende, sabe? Ela e Jane eram bem amigas durante o tempo de escola, foi assim que decidiram que nosso casamento seria bom para unir as espécies, uma vez que já estava tudo calmo, apenas esperando por uma confirmação final.
–Entendi. –Balancei a cabeça. –Então aquela maldição era mentira?
–É claro. Eu só precisava ter uma justificativa caso acontecesse algo. –Explicou. –Mas agora vamos parar com isso, acho que você ainda tem gente para ver e mais tarde nós temos outra coisa para resolver. –Falou e eu estranhei, franzindo o cenho.
–O que?
–Você não queria voltar para mim e eu fiquei muito descontente com isso, princesa. –Ele falou e eu tive uma ideia de como o meu dia terminaria, seria deliciosamente perturbador e eu realmente não me preocupei.
–Eu senti sua falta, sabia? –Falei, roçando-lhe os lábios e me preparando para sair de lá e ir me vestir, mas ele me manteve presa à ele sem muita delicadeza e não hesitou em invadir minha boca.
–Agora vá se vestir antes que eu dê um jeito de acabar com o que você tem de energia. –Eu não consegui não rir, mas me levantei e fui me arrumar, vestindo um daqueles vestidos de mangas longas roxo e sapatilhas. Eu não poderia me arriscar a cair. Coloquei uma tiara mais simples na cabeça e então eu estava pronta para me encontrar com Lupa e Luce.
Não sei por causa de quem, mas fui jogada no chão assim que entrei naquele quarto. Era incrível como minha loba estava imensa e a menina loira havia crescido tanto.
–Você realmente cresceu, Luce! –Falei assim que consegui me levantar, tirando a criatura peluda de cima de minha barriga.
–Você não cresceu! –Ela murmurou e eu não pude deixar de rir. –Mas você está ainda mais bonita, sabia?
–Assim como você, pequena. Como está sua vida?
–Agora está bem melhor, antes não. –Fez uma careta. –Eu cuidei do seu cavalo.
–Rex? Oh, muito obrigada. Estou te devendo uma, não me deixe esquecer.
–Certo. –Ela riu. –Vocês vão se casar quando? –Perguntou, notando a presença de Thomas atrás de mim.
Não sabia responder aquela pergunta.
–Eu não sei, mas não vai demorar. –Tentei agradá-la.
–Certo. E vocês vão ter um bebê? –Oh, bem, dessa vez eu engasguei.
–Não discutimos isso ainda, Luce. –Era constrangedor demais ele responder aquilo. –Mas um dia....
Eu precisei me segurar para não iniciar a discussão, será que ele queria? Mas, de qualquer modo, eu ainda não podia.
–É que não tem mais crianças aqui. –Murmurou, parecendo triste.
Pensei um pouco.
–Nós vamos dar um jeito nisso, Luce. Vou falar com meu pai e então converso com você, pode ser? –Perguntei.
–Sim, sim. Depois a gente pode tomar chá? É que eu ganhei umas bonecas de aniversário....
–Mas é claro. –Sorri. –Você já tomou café?
–Sim, faz tempo já. Já está na hora do almoço....
–Oh, sim, é claro. Bem, então nos encontramos no almoço, pode ser? Tenho umas coisas para fazer.
–Certo. –Concordou sorrindo. –Só uma coisa que eu esqueci! –Falou antes que eu pudesse sair. –Lupa vai ter filhotes. –É o que?
–Como assim?
–Frederick disse que ela está grávida, oras. –Ela revirou os olhos e eu não pude não sorrir.
–Quem é o pai?
–O Joe, o lobo do Arthur. –Contou. Fazia sentido até, embora eu nunca tivesse visto o lobo de meu irmão.
–Bem, então vou precisar de gente para cuidar dos filhotes. –Pisquei para Luce que ficou bem alegre. –E nós vamos conversar em breve, moça. –Falei para Lupa, sabendo que a mesma me entendia, e então saí do quarto.
–Seu pai pensa em dar algum título à Luce. –Thomas me contou, passando o braço por minha cintura enquanto andávamos.
–Eu acho que é uma boa ideia, é o que eu faria. –Murmurei. -Vou dá-la um filhote, aliás, e para você também.
Ele me olhou arqueando uma sobrancelha.
–E quanto aos outros?
–Não sei, manteria todos comigo se pudesse. Eles não vão viver para sempre, não é? –Perguntei.
–Não, não vão. Mas podemos continuar sempre com seus descendentes. –Sugeriu.
–Não pensaria de outro jeito. –Concordei. –Bem, como é o palácio de seus pais?
Ele pareceu pensar um pouco.
–Parecido e tão frio quanto este, porém é feito de mogno tão escuro quanto petróleo.
–É deprimente?
–Não, tem um jardim enorme e milhares de flores coloridas que minha mãe gosta de cuidar. É um lugar bonito, não há piscinas de sangue no chão ou o que quer que esteja imaginando.
–Eu estou imaginando a minha linda pessoa tendo de correr de seres com presas afiadas. –Contei, fazendo uma careta um tanto típica.
–Não se preocupe, pelo que eu sei você é minha, apenas minha, e eu não acho que alguém teria coragem de tentar algo contra minha vontade.
–Você é tão fofo. –Revirei os olhos.
–Hey, casal? –Viramos automaticamente para encontrar Kate e Arthur no final do corredor, de mãos atadas. Será que eles tinham mesmo dado certo? Esperei que sim. –Teremos uma reunião de família na biblioteca em um minuto. –Arthur avisou.
–Estamos indo. –Respondi, mudando o rumo para a biblioteca nada humilde que ficava numa porta gigante na ala leste.
Bem, na antessala da biblioteca meu pai esperava por nós com uma expressão visivelmente feliz, várias xícaras com bebidas quentes e sofás que formavam um círculo. Ele ainda tinha um lobo negro enorme à seus pés.
–Um bom dia para vocês, crianças. –Começou. –Sentem-se, por favor, quero que tenhamos discutido certas coisas antes que as pessoas de fora comecem a se intrometer. –Fez uma careta e esperou pacientemente até que estivéssemos todos devidamente sentados. Amy, minha filha, devo informar-lhe que ganhou um dia próprio no calendário de festividade de nosso povo, meus parabéns.
Fiz uma careta. Como alguém pode ganhar um dia de honra por ter dormido quase um ano? Nem no Guinness como maior recorde.
–Oh, legal, eu acho.
–Sem dramas, mana, vou comemorar todos os anos.
–Questões pessoais depois, garotos. Precisamos ir ao que interessa. Nós vamos basicamente começar a organizar esse reino do zero, então creio que podemos modernizá-lo também.
–Definitivamente, pai. –Arthur concordou.
–Muito bem, então gostaria de ter sugestões sobre a organização das aldeias em primeiro lugar.
–Eu acho que a gente poderia aumentar a segurança em cada uma. –Fui a primeira a falar.
–Eu acho que o tamanho delas pode ser comprometedor, talvez devemos aumentá-las ou aumentar sua infraestrutura. –Arthur seguiu.
–Talvez nós possamos trazer mais segurança e conforto aos aldeões se aumentarmos suas propriedades, por exemplo. –Kate sugeriu e meu pai assentiu.
–Nós temos uma grande reserva de minerais resistentes, não será problema aumentar as casas. Talvez também possamos instalar algum tipo de transporte público que ligue aldeias vizinhas, por exemplo. –Meu pai disse.
–No mundo mortal eles têm trens que fazem isso, pai. –Falei. –E funciona.
–É, isso é algo que eu preciso resolver com urgência. Onde já se viu ficarmos atrás deles em alguma coisa? Eles têm internet, nós temos magia; eles têm satélites, nós temos magia; eles têm....
–Nós entendemos, pai. –Arthur cortou. –E talvez um feitiço de barreira mais potente possa ser instalado. Acho que pessoas sem registro de nascimento e de espécie não devem conseguir passar pela barreira sem análise prévia.
–Eu tenho de concordar com Arthur, não podemos com mais estragos. –Thomas falou ao meu lado. Era incrível como ele parecia soar tão sério enquanto parecia mais estar alienado uma vez que estava ocupado acabando com o bordado de uma de minhas mangas.
–Pai, eu acho que precisamos de uma escola maior, que tenha capacidade de manter crianças de todas as idades. Luce não tem amigos aqui e acho que é meio inútil uma criança ficar sem aprender direito até os dezesseis anos. –Falei.
–Tem razão, Amy. Eu venho pensado nisso há algum tempo, porém não tive tempo ou condições de colocar qualquer coisa em prática. Mas acho que se aumentarmos a escola que temos na Suíça, teremos condições de abrigarmos crianças de todas as idades e espécies sem problemas. Empregaríamos também mais professores e talvez isso faça com que o interesse pela magia pura aumente. –Concordou. –Vamos definitivamente colocar isso em prática a partir de amanhã e cuidarei pessoalmente das obras. Deixarei as manutenções nas aldeias e nas cidades com vocês, é claro. –Determinou. –Agora em relação ao entretenimento, o que me dizem?
–Campeonatos. –Kate começou. –Seria muito legal se fizéssemos campeonatos anuais onde qualquer um possa participar, não sei se para grupos ou individuais, mas esses jogos sempre são fantásticos.
–É uma boa ideia, Kate. –Meu pai concordou. –E quanto àquela coisa que os mortais tanto gostam.... cimema?
–Cinema. –Corrigi. –E sim, eu amava ir ao cinema.
–É legal até, fui uma vez para ver como era. Porém precisaremos dar uma avançada naquilo, é claro, onde já se viu ficar olhando para seres que não saem de uma parede? É ainda pior quando saem.... Nossos filmes vão ser mais realistas, onde nós poderemos entrar dentro dos personagens e termos mais emoções. Eu poderia fundar uma escola de cinema! –É, meu pai estava realmente animado.
–Nós deveríamos ter hotéis. As pessoas gostam de viajar e hotéis permitiriam que o fizessem com mais frequência. –Thomas sugeriu.
–Ótima ideia, meu caro. Eu vejo que teremos de trabalhar duro, mas valerá o esforço, vocês verão. –Então ele limpou a garganta. –Acho que isso será o bastante para um começo, o resto vamos ver quando conseguirmos dar conta do que já temos. Sem falar que temos um casamento ainda para planejar. Estou pensando em um mês, o que acham?
Olhei para Thomas e ele assentiu.
–Tudo bem para nós. –Falei.
–Ótimo. Agora por que vocês, garotos, não vêm comigo para enfrentarmos meus conselheiros chatos e o resto do conselho para mobilizar o pessoal que vamos precisar para essas mudanças? Vocês, garotas, podem encontrar-nos para o almoço em quarenta minutos, sim?
Nós todos concordamos e eu precisei deixar Thomas ir. Céus, eu estava realmente ainda doente por ele.
–Então, como foi a noite? –Kate perguntou, vindo sentar-se ao meu lado. Eu sorri.
–Foi minha melhor noite dentro de um ano inteiro, que tal? Mas eu não tinha forças para fazer qualquer coisa demais, então não me olhe assim! –Ela riu.
–Hoje você tem?
Senti meu rosto ruborizar um pouco.
–Eu acho que hoje ele não vai me dar escolha. –Falei e ela se engasgou com sua gargalhada. –Não ria de mim, você precisa me contar o que está havendo entre você e meu irmão!
Foi a vez dela de corar. Não soube se algum dia eu já havia visto Kate ficar vermelha.
–Resumindo? Bem, o começo do casamento foi tranquilo, conversamos e resolvemos que seríamos amigos.... Durante a guerra e depois da mesma foi um período turbulento e a gente mal se falava, depois você estava desaparecida e isso estava matando Arthur por dentro. Nós chegamos a nos beijar algumas vezes, mas nunca fizemos nada demais. Só ontem que, bem, a coisa pegou fogo e....
–E eu não preciso de detalhes. –A cortei, porém estava me sentindo muito contente. Era um alívio ver a melhor amiga e o irmão se darem perfeitamente bem num casamento arranjado. Nós rimos por minutos até que eu lembrei de algo. –O que aconteceu com Paul? –Perguntei, receando o pior.
–Ele está bem, não se preocupe. Ficou no hospital por algumas semanas porém deve estar com a família agora. As outras pessoas do colégio também ficaram bem.... Na verdade algumas ficaram perdidas na floresta durante a guerra inteira e só foram resgatadas depois, o que foi bom de certa forma. –Contou. –Mas Arthur e Thomas não pouparam a Sarah e o Alex.
Primeiro sorri agradecendo pelo bem-estar de Paul e então fiz uma careta. Estava tentando não pensar que havia confiado em pessoas não muito legais, aquilo feria muito o meu orgulho. Eu costumava ser boa em saber em quem confiar, porém havia errado feio.
–Então, vai me continuar com essa cara de adolescente apaixonada ou vai me mostrar as asas? –Falou e eu ri, fazendo com que as asas estranhas saíssem de mim como minha avó me ensinou que sairiam, sem prejudicar o vestido que estava usando.
–Por que a gente não faz uma viagem? –Kate sugeriu quando eu guardei as asas de volta.
–Como assim? –Perguntei, mas estava realmente curiosa. Eu sempre gostei muito de viajar.
–Poderíamos ir fazer algo diferente.... Podemos começar aqui e terminar em algum lugar com pouca gente no mundo mortal. –Explicou.
–Poderíamos estrear os hotéis que vão construir por aqui. –Concordei. –E poderíamos ir para a Groenlândia, o que acha?
–Muito bom, é um lugar fantástico pelo que eu via nos filmes. Poderíamos construir uma cabana e passar alguns dias lá perto de um povoado.
–Fantástico. –Concordei já empolgada. –Acha que eles vão concordar em irem conosco? –Perguntei. Kate deu de ombros.
–Duvido que eles vão ficar aqui se dissermos que iremos com ou sem eles.
–Certo. Levamos Luce e os lobos?
–Sim, é claro. Não vamos deixar a menina sozinha nesse lugar imenso. Vai ser legal para ela. –Kate assentiu e então os quarenta minutos se esgotaram e fomos nos juntar com o resto do pessoal na mesa do almoço.
Havia pelo menos um dia inteiro que eu não colocava qualquer pedaço de comida na boca, então não hesitei em comer tudo o que me serviram enquanto Kate falava da viagem para meu pai sem pedir a opinião de Arthur ou de Thomas. Felizmente meu pai concordou de bom humor.
–Mas vocês vão após o casamento. –Colocou sua condição. –Antes precisam me ajudar a colocar esse reino em ordem. –Eu e Kate concordamos de prontidão e Luce pareceu ter ganho a loteria.
–Vamos precisar de roupas mais humanas. –Kate comentou.
–Talvez vocês consigam achar algo quando descerem para a cidade hoje. –Eu não sabia que iria descer para a cidade. –Há uma costureira na terceira rua com a principal, seu nome é Mary. Ela me fez várias peças de roupa já.
–Certo, pai. –Falei. –Mas nós vamos fazer o que na cidade?
Ele deu de ombros.
–Compras, comer, beber, conversar, tanto faz. As pessoas estão querendo te ver tanto que eles resolveram iniciar um jornal com todas as notícias do dia para o reino inteiro, então não se assuste se der de cara com algum bruxo paparazzi.
Assenti, terminando de tomar minha bebida e me dando por satisfeita e obesa.
–Vocês podem ir, crianças. Se forem agora eu não mandarei meus guardas juntos.
Foi suficiente para que nós nos levantássemos da mesa e saíssemos com pressa em direção ao estábulo. Não era muito legal quando a guarda nos escoltava, era meio que um sufoco até.
Uma empregada me trouxe uma capa cinza e grossa e eu esperei que fosse ser suficiente para cessar meu frio, embora acho que eu nunca viveria um dia na neve sem precisar de algo quente para me envolver. Tudo bem que esse algo quente me envolvendo não necessariamente precisava ser um objeto inanimado....
–Não vai me perguntar se estou afim de viajar? –Thomas me perguntou enquanto me ajudava a montar no Rex.
–Você gostaria? –Perguntei quando o mesmo montou em seu cavalo ao meu lado.
–Sim, sim, parece ser algo interessante de se fazer.
–Nunca viajou antes? –Perguntei, mantendo a sobrancelha arqueada.
–Não. –Fez uma careta. –É algo muito típico dos mortais.
–Não seja preconceituoso! –Ralhei. –É algo muito legal. –Defendi. Thomas revirou os olhos e iniciamos uma cavalgada moderada para a cidade, sem necessidade de velocidade.
–Não estou julgando nada. Só o farei quando tiver tido a experiência. –Se defendeu.
–Mas não tem como não ser legal. Vamos ter cabanas, neve, lareiras, pessoas diferentes, paisagens muito bonitas e coisas assim.
–Você está soando muito romântica. –Fez uma careta.
–Estou descrevendo fatos, romance quem faz são aqueles que querem. –Retruquei.
–Filosofia legal, Amy. –Kate se aproximou e eu mostrei-lhe a língua. –Mas não se preocupe, Thomas, nós podemos ter quartos separados e à prova de som.
–É claro que sim, devemos poupar a Luce de certas coisas. –Arthur também se aproximou trazendo a menina em sua cela.
–Que coisas? –Ela perguntou lançando um olhar inocente. –Coisas de casais?
Eu sorri.
–Isso mesmo, Luce, coisas de casais. –Kate concordou parecendo orgulhosa. –Essa menina vai longe. –Comentou.
–Onde mesmo que precisamos virar? –Perguntei quando me vi chegando na cidade.
–Na terceira, mana.
Sabe aqueles desfiles onde as pessoas que desfilavam tinham de acenar estupidamente? É, eu me vi num deles durante todo o caminho até a costureira.
Bem, Mary era uma senhora muito simpática e sábia, parecia saber o que queríamos sem nem precisar fazer muitas perguntas. Levamos horas dentro daquela casa escolhendo milhares de tecidos para casacos, cachecóis, gorros e luvas.
–Vocês gostariam que eu forrasse algumas peças com algum manto impermeável? –Perguntou de sua mesa de trabalho enquanto nós estávamos sentados em sofás confortáveis de pano folheando algumas de suas revistas.
–Seria ótimo, Mary. –Kate respondeu. –Principalmente os casacos, por favor.
–Eu consigo arranjar calças de malha femininas, se quiserem. –Ela falou depois de algum tempo e certamente falou a minha língua.
Kate respondeu novamente e foi combinar quantas e quais calças seriam e Luce foi pedir alguma peça que achou numa revista.
–Está ficando escuro. –Arthur murmurou quando viu que o sol não estava mais o atrapalhando de ler um livro qualquer.
–Isso é bom. –Murmurei e Thomas me olhou com um olhar excepcionalmente sugestivo. Ruborizei um pouco e lhe mostrei a língua para completar o pacote.
Acabamos por levar mais uma hora inteira naquele lugar durante o processo de embalar as peças e pagar por elas, mas ainda tinha gente nos esperando pelas ruas quando saímos da casa.
–Está mais frio, eu gosto disso. –Murmurei quando senti a primeira rajada de vento gelado e fresco roçar meu rosto.
–Eu compartilho o mesmo sentimento. –Kate concordou, montando em seu cavalo e tentando equilibrar milhares de sacolas com ela. Não que eu pudesse falar algo, estava carregando no mínimo a mesma quantidade que ela. A diferença era que eu estava começando a me sentir cansada novamente.
A volta para o palácio foi mais silenciosa e rápida, acho que todos queríamos nos livrar das sacolas o mais rápido possível. Pelo menos o jantar já estava pronto quando chegamos e eu pude comer lindamente, porém sem me entupir tanto com a comida.
Papai nos liberou sem cerimônias alegando que precisávamos descansar para trabalhar no dia seguinte e eu fui meio que guinchada para o quarto pelo vampiro interesseiro.
–Mas eu ainda preciso tomar banho. –Grunhi quando ele fechou a porta do quarto e me puxou pela cintura.
–Depois, princesa. –Murmurou entre os beijos leves que distribuía em meu rosto.
–Eu não acho que vou ter energia para tomar banho depois. –Reclamei, tentando me manter sana para tentar discutir normalmente.
–Eu posso dar um jeito, não se preocupe. Agora.... Feche os olhos. –Mandou e atacou minha boca do jeito mais selvagem possível no momento em que meus olhos se fecharam. Esqueci que estava querendo tomar banho.
A noite foi como uma explosão de coisas relaxantes dentro de mim. Thomas não me torturou simplesmente porque não foi capaz de se controlar e eu não tive absolutamente nada de que reclamar, também estava precisando dele do mesmo modo, desesperado e louco. Ele também não foi cuidadoso ou delicado, dando-me a saber que o lado romântico dele já estava no final da sua passagem e quando ele realmente passasse, talvez as coisas voltassem a ser como antes, nós esquecêssemos o que havia acontecido no último ano e pudéssemos voltar àquele jogo onde não havia um vencedor, e eu também não me importava de estar alguns pontos atrás.
–Eu te machuquei? –Ele perguntou, embora soubesse que eu estava perfeitamente bem.
–Nem um pouco. –A sacanagem é que eu ofegava enquanto ele respirava tranquilamente.
–Bom, então pode parar de tentar esconder seu corpo. –Falou, jogando minha coberta para os pés da cama e me deixando o ser mais desconfortável existente. –Vamos tomar banho, lembra?
Eu sorri sem conseguir manter a coloração facial normal. Aquilo não devia fazer bem para a mentalidade saudável de uma pessoa.
Thomas me pegou no colo em um movimento tão tranquilo que chegava a dar inveja e me levou direto para dentro da banheira, entrando junto e ligando a torneira em seguida. Não posso dizer se a água fez alguma diferença, só sei que foi tão agradável que ele precisou levar um ser quase adormecido de volta para a cama.
Eu devia estar parecendo uma adolescente inútil apaixonada, mas só entraria na linha no dia seguinte, é claro.
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