Royals
23 Capítulo 23
Notas iniciais
–Eu acho que estamos sendo chamados. –Eu quase caí do salto quando ouvi Thomas atrás de mim. –Você não acha que essa abertura no vestido é longa demais? –Eu olhei para o espelho.
Estava usando um vestido vermelho-sangue, longo até o chão, de uma manga só e com a abertura que começava no meio de minha coxa direita. Estava me sentindo absolutamente bem.
–Por quê? Não gostou? –Perguntei, com certo medo.
Ele revirou os olhos e bufou em seguida.
–Como consegue ser tão insegura, princesa? Você é uma pessoa muito atraente, poderia ajudar usando uma burca.
Eu corei um pouco mas revirei os olhos, vendo sua tiara prateada e colocando a minha de mesma cor sobre o coque bagunçado que me fizeram.
–Estou pronta. Vamos? –Perguntei, encontrando-o já na porta.
–Como desejar, alteza. –Fez uma curta reverência, me estendendo o braço.
–Fico encantada com o seu cavalheirismo. –Falei e ele sorriu orgulhoso.
O castelo estava com segurança reforçada, decoração até nas masmorras e extremamente frio, como sempre. Mas o frio estava começando a não me incomodar mais.... Não que eu não o sentisse, mas eu não ficava mais travada com ele, era até bom sentir o vento gelado roçando meu rosto.
Chegamos à entrada principal que dava passagem para o pátio e um monte de organizadores nos pararam, logo à frente de Gordon e Olívia, ambos aparentando enorme desgosto. Pisquei um olho para Olívia e vi o casal de daminha e pajem sendo posicionado à nossa frente, a menina carregando uma cesta de coisas parecidas com sementes e o menino carregando os anéis. Esperamos cerca de dez minutos para que Kate chegasse, e meu queixo caiu.
Minha amiga estava simplesmente deslumbrante. Seu vestido era bege, longo e bem rodado, com várias camadas de tecido compondo a saia e um corpete todo trabalhado em fios de ouro. Ela também usava uma tiara dourada e seu cabelo estava preso num coque impecável. Além de tudo isso havia o buquê, composto por flores desconhecidas por mim brancas e amarelas, e ela parecia estar mais tranquila que o normal.
Kate havia aceitado bem quando soube do casamento. Ela parecia entender que era algo necessário e, embora um pouco confusa em relação ao que sentir, estava aparentemente calma e sorriu para mim, antes de ter seu pai indo em seu encontro.
Seus irmãos chegaram em seguida, ambos acompanhados por mulheres altas e loiras, as duas, mas não usavam tiaras como o resto de nós. Eu sabia que Kate havia ganho a tiara de ouro porque o casamento com meu irmão faria dela uma condessa, e logo mais receberia o título de rainha.
–Altezas, quando o portão se abrir, esperem um minuto depois que as crianças entrarem e comecem a andar, sim? –Uma mulher falou comigo e com Thomas. Nós assentimos e ela foi dar os comandos para iniciar a cerimônia. –Agora! –Anunciou e o portão abriu vagarosamente.
Contamos até sessenta exatamente para dar o tempo das crianças e então colocamos sorrisos felizes no rosto, saindo para o tapete branco que estava cercado de convidados com câmeras fotográficas em mãos. O mais estranho foi que as pessoas curvavam-se conforme passávamos e mesmo assim continuavam a filmar e fotografar tudo. Reparei que as sementes que a menina jogara tomaram o formato de flores brancas quando tocaram a neve e achei aquilo simplesmente maravilhoso.
Consegui ver Arthur um tanto tranquilo no altar, ao lado de meu pai. Ambos usavam branco, porém meu irmão tinha uma coroa dourada pontuda em sua cabeça enquanto meu pai tinha uma coisa bem larga e chamativa além de um cetro quase transparente em mãos. Percebi que era ele quem casaria os dois.
Fui posicionada numa coluna ao lado de meu irmão junto com Olívia e Gordon. Já os irmãos de Kate ficaram ao lado da noiva.
Quando Kate entrou, uma comoção enorme tomou conta do ambiente. As pessoas arregalaram os olhos, algumas olhavam com inveja, outras elogiavam. Eu apenas não era capaz de parar de sorrir, mesmo sabendo que o casamento era arranjado. Tinha certeza de que os dois se dariam muito bem juntos.
Quando ela chegou ao altar, meu pai começou a ler um texto sobre matrimônios e logo outro sobre o que o casamento influenciava na magia. Não havia votos ditos. Pelo que eu entendi, o casamento era aceito pelas forças maiores quando os anéis não repeliam os dedos dos noivos e, felizmente, eles se comportaram bem e todos aplaudiram, antes de se curvarem. Com exceção de quem tinha uma tiara na cabeça, todos haviam de se curvar.
Eles se beijaram quase espontaneamente e as pessoas souberam que era hora de acharem seus lugares definidos nas mesas de gelo.
Tudo estava extremamente bonito. Havia cristais de gelo flutuantes fazendo papel de lustres sob o céu estrelado, também havia flores das cores das do buquê enfeitando todas as mesas e cadeiras. A pista de dança era a única coisa que não era de gelo, provavelmente para evitar tombos, e havia faixas de cetim prateadas também flutuantes cruzando o céu.
–Nós devemos brindar à esse casamento. –Meu pai anunciou, levantando sua taça de champanhe. Todos em nossa mesa fizeram a mesma coisa com sorrisos no rosto. Aquele deve ter sido o casamento arranjado mais feliz já visto. –E que o jantar seja servido! –Foi só o que precisou para começarem o festival de comida com o objetivo de me entupir até o cérebro.
–Não consigo mais comer. –Reclamei quando acabei o terceiro prato.
–Ainda falta a sobremesa. –Thomas me disse.
–Eu não consigo, me sinto uma bola.
–Podemos dar um jeito nisso mais tarde. –Ele falou, me fazendo engasgar com a bebida.
–Você não presta mesmo! –Dei-lhe um soco no ombro mas quem sentiu a dor foi eu, óbvio.
–Você sabe que sim. Agora coma a sobremesa. –Mandou quando me serviram um bolo estranho com sorvete.
–Eu não consigo....
–Vai mesmo deixar tanta comida para ser jogada fora? –Ele fez sinal de decepção e eu me senti obrigada a enfiar aquela coisa na boca. Pelo menos era bom.
–Feliz? –Perguntei depois de ter acabado tudo, levando mais ou menos meia hora.
–Muito. Eles estão dançando há uns quinze minutos já.
–Você quer dançar? –Perguntei.
–Não sei se quero correr o risco de ter algum engraçadinho tentando te tirar de mim. –Ele fez uma careta e eu ri.
–Então acho que devemos ir falar com as pessoas. Somos os únicos ainda sentados aqui.
–Eu acho que poderíamos ir para o quarto. –Falou emburrado, mas me deu o braço enquanto andávamos em direção aos convidados.
–Daqui a pouco, pessoa. Nós sempre somos os primeiros a sair.
–Porque nós temos coisas mais interessantes para fazer, apenas.
Não tive tempo de retrucar. Pessoas começaram a vir nos cumprimentar e nós embalamos em conversas por horas, até a hora em que eles foram cortar aquela torre que chamavam de bolo.
–Eu acho que estamos livres agora. –Murmurei quando aquilo tudo acabou. Thomas me olhou com coisas no olhar e eu tive de me segurar para ficar muito sem graça.
–Eu sei que devemos aproveitar agora. Tenho a impressão de que amanhã vai ser um dia longo.
–Por quê? –Perguntei, deixando-me ser guiada para dentro do palácio.
–Porque seu pai precisou sair várias vezes. –Deu de ombros, apressando o passo até chegamos à porta de meu quarto. –Mas agora venha. –Falou, me pegando no colo sem qualquer cerimônia.
Saí do banho vestindo pijamas curtos normais, mesmo sabendo que Thomas reclamaria. Acontece que eu estava tão cansada que iria dormir em questão de segundos e não teria nem tempo de responder à qualquer coisa não-prestável que ele dissesse.
–É a primeira vez que você leva menos de meia hora no banho. –Ele murmurou, puxando as cobertas de minha cama. –Venha cá.
–Mais um minuto e eu dormiria e acabaria morrendo afogada. Você devia pegar mais leve comigo. –Falei, jogando-me na cama ao seu lado.
–Não sei se eu consigo, ou se você preferiria.
Fiquei quieta por alguns segundos.
–Você vai enjoar de mim depois? –Perguntei, me encolhendo em seus braços.
–Não há essa possibilidade. –Ele respondeu, puxando-me mais para perto.
–Unh.... Seria muito tosco se eu dissesse que te amo? –É, essa pergunta gelou meu estômago, mas alguma parte irresponsável de mim provavelmente achou importante perguntar.
–Por que seria? Talvez eu não seja um romântico incorrigível, mas eu também te amo, princesa.... E quero todas as partes de você de todos os jeitos.
Bem, eu não comecei a chorar emocionada quando ele disse que me amava, porém não consegui evitar o sorriso e a sensação de alívio que me consumiu. Talvez, quem sabe, eu pudesse começar a ter um pouquinho mais de segurança em relação a ele ou até mesmo à minha própria pessoa.
–Minha idiotice não te incomoda? –Ele me deu um beliscão na coxa.
–Pare de viajar, garota. Se por idiotice você quer dizer ingenuidade, então não. Isso me diverte. Eu só me preocupo com sua insegurança, não deve ser saudável para você.
–Eu vou tentar melhorar. –Murmurei, lutando contra minhas pálpebras pesadas.
–Eu posso te ajudar com isso. Mas agora durma. –Mudou o tom para sério. –Amanhã vai ser um longo dia e vou precisar de você bem disposta. –Falou, puxando as cobertas por cima de meu ombro. Não levei nem um minuto para apagar.
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