Royals
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Eu fui acordada com mãos geladas tocando meu rosto e meu pescoço. Era a enfermeira daquele lugar que já estava preparada trazendo uma bandeja cheia de frascos.
–Bom dia, criança. Se você puder sentar-se... –Eu sentei mesmo estando meio tonta ainda.
–O que houve? –Grunhi.
–Sua febre aconteceu, apenas. –Ouvi Thomas resmungar de algum lugar do quarto.
–Você pode voltar a dormir depois de tomar os remédios. –A mulher tentou soar reconfortante.
–Mas tem o baile.
–É só mais tarde, querida. Você estará bem melhor para ele daqui à algumas horas apenas.
–Unh. –Murmurei, assistindo-a misturar três frascos de cores e aspectos feios num copo branco.
–O gosto não é tão ruim, não se preocupe. Há apenas dárgeras negras, epiletes do deserto e pétalas de anasira. –Não sei porque ela se deu o trabalho de me explicar, eu certamente não seria capaz de entender.
Peguei aquele copo e tomei sem hesitar muito, deixando o líquido amargo e espesso descer o mais rápido possível, antes que meu estômago o repelisse. Aquilo era simplesmente horrível.
–Você ficará melhor em algumas horas se descansar e se alimentar. Se voltar a apresentar febre amanhã é só me procurar, certo? Mandei trazerem comida para você.
–Obrigada... Eu acho.
–Não precisa agradecer. Agora tenham juízo vocês dois. –Ela falou antes de sair. Óbvio que a cena deveria estar parecendo caótica. Eu estava deitada na cama de um ser do outro sexo, vestindo uma camiseta que obviamente não era feminina e meu uniforme estava dobrado sobre a mesa de centro.
–Não me olhe assim. –Thomas estava me encarando com reprovação. -Eu vou ficar bem.
Ele revirou os olhos e voltou a deitar ao meu lado na cama, passando uma mão por minha perna e arqueando a sobrancelha, com dúvida. É, meu corpo inteiro estava tremendo e minha pele estava totalmente arrepiada, mas e daí?
–Isso não é nada, vai passar. –Insisti. –Por que você não me faz algo de útil e me explica sobre os híbridos?
–Como quiser. –Concordou. –Eles são criaturas instáveis e não muito comuns. É quase impossível diferentes espécies conseguirem se reproduzir, só acontece de vez em quando. De qualquer modo, os híbridos não são proibidos, eles podem viver como qualquer outra criatura, porém eles devem ser registrados antes, isso é lei para todos os reinos.
–Mas a ruiva não era registrada?
–Não. Mas o irmão dela não possui qualquer tipo de magia. –Contou.
–Como você sabe?
–Porque foi fácil demais jogá-lo nas masmorras.
–E por que você fez isso?
Ele me olhou como se eu fosse uma anta.
–É aquele que te atacou após o primeiro baile, não lembra?
–Ah, sim. Você o prendeu? –Não sei, mas eu me senti bem comigo mesma.
–Sim, por que? –Ele franziu o cenho, confuso.
–Nada. Pensei que só o tivesse espantado de lá.
Seu olhar tornou-se duro.
–Por que você é tão insegura? Eu o teria matado se não tivesse recobrado o juízo.
–Eu não sou insegura.
Ele rolou os olhos.
–Eu não sou. –Insisti.
–Nós dois sabemos que sim, eu só não te entendo.
Respirei fundo
–Eu apenas não consigo com você. –Admiti constrangida.
Ele disfarçou um sorriso.
–Nós vamos dar um jeito nisso depois. –Eu não consegui não sorrir, mesmo entendendo o significado sujo daquilo.
–Como quiser.
Ficamos em silêncio pelo que durou vinte e três segundos contados mentalmente, depois bateram na porta entregando uma bandeja de comida.
Havia peixe, batatas e salada e eu tive que me arrastar para sentar novamente na cama. Consegui comer metade do prato uma vez que eu nem fome tinha. Felizmente Thomas não discutiu comigo e foi colocar a bandeja numa mesa.
–Eu vou ao banheiro. –Avisei.
–Precisa de ajuda? –O encarei como se ele fosse maluco, mas ganhei uma rolada de olhos em resposta. –Para andar até lá.
–Não, eu consigo. –Neguei e saí da cama me estabilizando no chão apenas para comprovar.
–Eu vou buscar suas roupas.
–Certo, mas só traga um conjunto de moletom, por favor. –Pedi, caso ele pretendesse já pegar o vestido do baile.
Thomas assentiu e saiu feito uma bala pela porta. Eu respirei fundo e fui até o banheiro.
Fiquei quase meia hora me encarando no espelho. Eu parecia uma mistura estranha de múmia com zumbi e portando um ninho de ratos nojentos no cabelo. Não saí do banheiro até estar mil vezes mais confortável.
Ele já tinha voltado quando eu saí do banheiro e trouxera o que eu havia pedido mais um par de meias e botas.
–Você é ótimo sabia? Daria um belo serviçal. –Provoquei. Thomas me olhou com alguma irritação.
–Você também é consideravelmente razoável quando mantém a boca fechada. –Retrucou. Mostrei-lhe a língua e peguei-lhe as roupas para ir me trocar no banheiro. –Eu já vi tudo.
–Eu estou seriamente tentando me esquecer disso. –Devolvi sem muita vontade de encará-lo e fui me trocar rapidamente no banheiro.
–Eu não acho que você vai se esquecer.
–Nem eu. Mas é desnecessário repetir a dose, não acha?
–Não. –Óbvio. Homens....
Voltei para a cama, porém fiquei sentada em sua frente ao invés de deitar-me e dar uma de bicho-preguiça.
–E o que você achou? –Não, óbvio que eu não pensei antes. Droga.
Ele me deu aqueles choques totalmente perturbadores enquanto seu rosto demonstrava diversão.
–Eu não vou te dizer. –Ele fez meu coração parar de medo.
–Foi tão ruim assim? –Estúpida, eu sei.
–Horrível. –Ele estava brincando, certo? Acho que eu empalideci.... –Porque doeu ter de cobrir-te novamente. –Ah, bem....
Minhas bochechas coraram numa velocidade que batia a da luz.
–Ás vezes eu acho que você está brincando comigo. Outras vezes eu tenho certeza. –Murmurei.
–Eu aprecio suas reações, apenas. –Ele deu de ombros. –Talvez fique mais fácil para você aceitar isso se conversarmos.
–Não é que eu não aceite, Thomas. –Não era um assunto muito fácil.
–Explique então.
Respirei fundo algumas vezes.
–Eu sei que vai acontecer eventualmente, nós vamos nos casar no final das contas.... E não é que eu queira esperar até o casamento, muito pelo contrário. –Respirei mais uma vez e tomei coragem para encará-lo. Ele estava sério, o que era bem reconfortante.
–O que você quer?
Não era possível uma pessoa precisar respirar tanto.
–Você, mas não é nenhuma surpresa também. Às vezes eu fico imaginando e é legal, só que conforme isso vai eu sei que você tem experiência e eu fico com medo de.... –Acho que era demais para mim.
–De?
–De você não gostar. –Eu completei e ele arregalou os olhos em resposta. Depois balançou a cabeça em sinal de negação.
–Você viaja bastante, princesa. –Ele murmurou antes de me puxar sem muita delicadeza para seu colo.
Ele puxou minhas pernas para que nos encaixássemos melhor e me manteve lá apoiando minhas costas.
–Tom.... –Não deu nem tempo de pensar em algo para falar que ele já havia tomado meus lábios com aquela delicadeza de sempre. A diferença, dessa vez, era que ele pressionava meu corpo contra o dele o máximo possível, e depois de certamente deixar meus lábios vermelhos, roxos e verdes, o que eu não duvidava muito, desceu para meu pescoço.
Se apenas um toque de seus lábios era suficiente para me fazer delirar, bem, eu não sei se sou capaz de descrever o que foi aquilo. Minha pele se arrepiou por inteira e eu precisei lutar muito para abafar alguns barulhos que simplesmente queriam sair de mim. Pela primeira vez na vida eu sabia que estava prestes a perder o controle sem saber quais seriam as consequências.
Quando ele me deitou na cama, com seu corpo por cima e uma de suas mãos apertando minha coxa, precisei tomar seus lábios antes que alguma coisa estranha acontecesse e que eu explodisse. E aí eu meio que parei de pensar em minhas ações, principalmente depois que uma de minhas mãos foi parar na barra de sua camiseta, roçando levemente em sua pele. Não sei o que aconteceu mas tivemos que parar, eu ofegante e ele parecia alienado pela primeira vez na vida.
Ele me rolou na cama para que eu ficasse por cima.
–O que eu faço com você? –Ele murmurou em meu ouvido. Estremeci.
–Eu estou quase para dizer o que você quiser. –Admiti.
Ele riu.
–Logo, princesa. Vamos tentar nos concentrar em mandar sua febre embora, depois iremos ao baile e depois a gente vê.
Dessa vez meu vestido era em tons pastéis e mais justo ao corpo. Não possuía corpete ou algo do tipo, apenas a renda quase transparente que era posta por cima do tecido, as costas desnudas e ele prendia ao redor do pescoço. Não coloquei nenhuma tiara, simplesmente prendi meu cabelo em um rabo bem alto e usei o resto dos acessórios em bronze. O sapato era bem alto e, felizmente, eu estava me sentindo bem melhor a ponto de evitar uma queda humilhante.
–Nós já estamos atrasados. –Thomas resmungou pela terceira vez da minha cama.
–Eu só preciso encontrar minha vontade. –Falei. –Já estou pronta, vamos?
Não sei como ele estava com vontade de ir ao baile, eu estava bem por fora, porém meio quebrada por dentro.
–À seu dispor, alteza. –Ele fez uma reverência e me estendeu a mão.
–Sua educação me surpreende, alteza. –Devolvi, aceitando sua mão com uma mesura. Depois eu ri.
–Eu me esforço. E você está bonita hoje. –Rolei os olhos.
–Não precisa se esforçar demais.
–Certo. Só para que você saiba, não saia de perto de mim esta noite. –Ele resolveu ficar sério.
–É carência? –Brinquei, recebendo um olhar dramaticamente chateado.
–E se for? –Ele arqueou uma sobrancelha. Eu não consegui pensar numa resposta rápido o suficiente. –Apenas não se afaste.
Foi a última coisa que ele disse antes de chegarmos ao salão, onde a música eletrônica soava estridente e quase ninguém dançava.
Eu encontrei meus amigos desconfortáveis em um canto, os vampiros da minha escola amontoados em outro e portando caras feias e uns seres esquisitos do outro. Acho que esses que vestiam ternos e vestidos roxos padronizados e tinham os cabelos todos negros eram os vampiros do Oeste e nossos convidados. Uma vez que eles estavam nos encaramos, provavelmente significava que uma apresentação seria adequada.
Olívia se colocou ao meu lado enquanto andávamos ao primeiro grupo de sanguessugas.
–Hunter, há quanto tempo. –Um garoto de uns 18 anos e olhos púrpura cumprimentou Thomas. –Sabe, nós convidamos sua família para o último baile. Uma pena que não pôde comparecer.
–Um ano, suponho. Eu estive bastante ocupado com alguns problemas políticos para resolver, sinto muito.
–No próximo então, quem sabe. –Ele não parecia estar jogando algum tipo de jogo ou ter algo escondido atrás de sua expressão. –Mas vossa alteza compareceu, princesa. –Ele falou com Olívia.
–Foi um baile memorável, sem dúvidas.
–Mas é claro. Fico feliz que tenha sido. –Então seus olhos caíram em mim. –Você deve ser Amy Winter, certamente. Quem mais portaria tal beleza? –Ele me fez uma reverência e eu senti que deveria retribuir. –Estou encantado. Eu sou Uriah Scolt, herdeiro do Oeste.
–O prazer é meu.
–Quando será o casamento? –Perguntou, parecendo animado. –Eu adoro festas.
–Ano que vem, em Outubro. –Thomas respondeu por mim.
Outubro? Legal, eu acho.
–Você é um cara de sorte, Tom. Conheçam meus amigos, por favor...
Eu parei de prestar atenção quando eles começaram a conversar sobre coisas inúteis como melhores caças, melhores noites, melhores bebidas e o quanto estavam indignados por conta da proibição do álcool que a diretora fizera para aquele baile.
Por falar em diretora, levei o maior susto da vida quando me virei e a encontrei quase que colada em mim.
–Srta. Winter, eu tenho um pedido a fazer. –Ela começou.
–Sim?
–Preciso que receba o senhor Arthur Lanisck agora. Ele já é um bruxo experiente, porém desconhece dos procedimentos da escola.
–Ahn.... Tudo bem, eu acho. Onde ele está? –Perguntei.
A diretora simplesmente deu dois passos para o lado e eu tive a visão do que era o segundo ser do sexo masculino mais atraente que eu já vira.
Seus cabelos eram dourados escuros, a pele era clara, porém bronzeada, e seus olhos pareciam caramelo. O garoto era bem mais alto que eu e apresentava um corpo bem trabalhado, que se era possível se ter noção mesmo pelo terno.
Não sei por que, mas meu coração deu uma parada legal quando o vi. Ele sorriu para mim de um jeito que fez minha cabeça doer de algum jeito e minha garganta secou, como se eu fosse começar a chorar. Bem, seu sorriso era reconfortante e estranhamente feliz. Respirei fundo para cumprimentá-lo, porém quando dei por mim ele já estava me abraçando e meu corpo entrou em combustão de algum jeito. Me senti mais fraca do que nunca. Por que seu toque parecia-me tão familiar de algum modo?
–Não se lembra de mim? –Ele sussurrou em meu ouvido, certamente para que ninguém mais pudesse ouvir.
–Vocês dois podem se retirar por alguns minutos. Estão chamando muita atenção. –A diretora interrompeu.
Droga. Pior que aquilo fazia sentido.
Minha avó tinha escrito “dois” e a música em meus sonhos geralmente diziam “duas joias”. Ele não se parecia tanto comigo à toa e também não me fazia sentir daquele jeito apenas por acaso.
Eu estava tentando me equilibrar nos sapatos para manter a cabeça ocupada até que pudéssemos chegar à meu quarto.
–Você não vai dizer nada? –Ele pareceu desapontado quando abri a porta de meu quarto. Respirei fundo.
–Eu não sei por onde começar. –Eu estava tremendo por dentro e por fora. Ele pareceu entender.
–Você não sabia, não é mesmo? –Neguei com a cabeça e deixei que ele me levasse até a cama. –Melhor para você, certamente. Eu passei minha vida inteira querendo saber de você.... Não sabe como estou me sentindo por finalmente tê-la encontrado, maninha.
Fale com o autor