Royals
15 Capítulo 15
Notas iniciais
–Droga, Thomas! Por que não bateu na porta? –Sua presença me deu um belo susto quando saí do banheiro.
–Entrei pela janela. –Deu de ombros. –Não entendeu meu desgosto por seus gostos ao escolher pijamas?
Olhei para baixo sem muita paciência e encontrei minhas pernas e coxas quase que totalmente descobertas. Nunca fui fã de camisola mesmo.
–Não entendeu que não me importa o que você acha? –Retruquei. –Mesmo que eu sentisse que devesse usar uma burca perto de você. –Lembrei.
–Vamos conversar, então. –Ele falou, soando totalmente seco. Esperei de braços cruzados, mas ele não disse nada. –Você pode começar a falar assim que se cobrir.
Não fui para a cama porque ele mandou, fui porque queria sentar e porque estava congelando.
–Melhor? Por que você não começa me dizendo se tinha um motivo ou se você realmente não vale nada?
–Por acaso alguma vez eu te faltei com respeito, te ataquei ou qualquer coisa que a fizesse ter medo? –Ele perguntou, parecendo irritado.
–Tudo bem, talvez tudo o que tenha feito foi cuidar de mim feito uma criança estúpida. –Concordei. –Mas eu também me sinto obrigada a considerar que você é amiguinho do meu irmão, que não gosta nem um pouco de mim ou ao menos respeita a sua própria irmã.
Ele me encarou como se pudesse voar em meu pescoço e se aproximou sem qualquer hesitação, me empurrando para deitar e segurando meus braços acima de minha cabeça.
–Acha mesmo que sou tão estúpido, princesa? Se há duas coisas para eu fazer hoje em dia seriam proteger minha irmã e você. Eu poderia ter acabado com seu irmãozinho antes se não houvesse alguma coisa que eu precisasse saber. Se ele precisa de palavras sujas para não desconfiar de mim, então que ele as tenha. –Ele fez uma pausa. –Mas eu não tenho como controlar sua cabeça, minha irmã e seu irmão ao mesmo tempo.
E lá estava eu me sentindo uma completa retardada, só para variar.
–Você poderia ter me dito antes. –Falei, mas não soou nada confiante. –Eu tenho que te contar uma coisa, então. –Ele me olhou com receio e me soltou, sentando-se à minha frente. Eu também sentei, mas não consegui encará-lo conforme contava o que eu e a irmã dele tínhamos feito mais cedo porque sua expressão começou a ir de péssimo à pior.
–O que você tinha na cabeça? –Ele quase gritou, seus olhos se descarregavam sem qualquer barreira sobre mim.
–Ela estará mais segura assim, ele não vai poder tirá-la de perto de mim se eu não autorizar. –Me defendi.
–E quanto à você? O que você acha que ele vai fazer quando descobrir? –Esbravejou.
–Você não tem que tomar conta de mim! –Retruquei.
–Você é minha noiva!
–É um casamento arranjado e eu não sou nenhuma criança! –Minha vez de me exaltar.
Tomamos fôlego por uns dez segundos antes de continuar.
–Eu não a vejo como uma criança e nem te trato feito uma. –Ele contestou, porém em um tom mil vezes menor.
–Você quase tem um colapso por causa dos meus pijamas.
–Quer mesmo saber? Meu problema não é que você congele. –Ele me olhou com alguma hesitação. –Meu problema é querer arrancar tudo o que está vestindo. –Rosnou.
Eu poderia jurar que meu rosto nunca teve uma coloração tão vermelha e eu também nunca fiquei tão sem saber onde me esconder durante toda a minha vida.
–Mas você disse que....
–Porque você é tão ingênua quanto uma, e eu não faço o tipo romântico da coisa.
–Bem, eu nunca pedi por um príncipe. –Falei.
–É meio irônico, não é? Só que não vou ficar discutindo isso com você, você vai dormir agora. –Eu quis gritar de raiva quando ele me empurrou para deitar na cama.
–Depois você não me trata como uma criança. –Reclamei. Ele só revirou os olhos.
–Dezesseis anos para mim não é nenhum adulto.
–Você não é muito mais velho. –Retruquei. Thomas bufou.
–Eu disse que não vou ficar discutindo. Boa noite, princesa. –Falou e eu pude perceber que ele estava de pé.
–Onde você vai? –Quis saber.
–Caçar. Não saia do seu quarto. –Avisou e então escutei um vento não muito normal no quarto. Ele havia pulado pela janela.
Dormir naquela noite, por mais cansada que eu pudesse estar, pareceu tarefa impossível. Eram tantas coisas que explodiam em minha cabeça em uma única tarde que eu desejei poder vegetar por pelo menos uma semana para poder recarregar as energias e a vontade de querer me mover ou pensar ou qualquer coisa que fosse.
Também havia aquela sensação de solidão. Não que algum dia eu tivesse me importado, mas pelo menos naquela situação eu me sentia totalmente sozinha e perdida, porque eu sabia que quando acordasse amanhã eu erraria o caminho para o banheiro e então perceberia que eu não estava na escola. Teria de relembrar o dia anterior inteiro, cada detalhe, e então ficaria me sentindo o ser mais inútil do mundo, como me sentia agora.
Sim, eu era uma pessoa muito inútil. Tudo que eu tinha de fazer era sorrir, entender, ficar quieta, seguir ordens e não tinha nem argumentos ou experiência alguma para contestar ou para me fazer ser vista como alguém decente.
Eu tinha certeza de que ele me via como uma criança. Pelos deuses, ele precisava me mandar para a cama e me salvar de problemas o tempo todo. O quanto uma pessoa pode aguentar fazendo tudo isso de boa vontade? Era tão frustrante me sentir um completo nada, ou pior, um parasita que necessita dos outros para sobreviver.
Simplesmente eu não deveria mais me sentir desconfortável quando as pessoas me deixavam, deveria pensar “melhor para elas” ou coisa do tipo. Eu deveria ser um completo pé no saco ou pior.
De algum jeito eu me envergonhava por dentro por sentir falta da escola mortal, dos problemas fúteis que eles precisavam resolver, de ir ao cinema ou de passar a noite inteira acordada assistindo filmes fantásticos enrolada num cobertor. Eu também sentia falta de Margareth e me perguntava por que ela havia simplesmente cortado o contato. Nunca pensei que ela desgostasse tanto de mim para me mandar para longe e ao menos mandar uma carta. Nem mesmo no dia do meu aniversário e aquilo era decepcionante.
Agora eu tinha de cuidar de Olívia, conhecê-la melhor, entender qual é a do meu irmão e conseguir ficar viva. Thomas me dissera que havia algo a mais.... Mais do que a vontade de herdar o trono, talvez?
Fazia sentido. Minha união com Thomas só garantiria governo para um dos reinos, nunca para ambos, e meu irritante e atraente noivo era também o primeiro filho, então não significava nada. Se me mandassem ir governar vampiros, então Gordon ficaria com o trono. Bastardo ou não, ele era o único na linha de sucessão depois de mim.
–Você não vai conseguir dormir se não parar. –Céus, eu precisei afogar um grito no travesseiro. Procurei desesperada por uma figura, mas não vi brilho algum. Não havia ninguém em meu quarto.
–Onde você está? –Perguntei quando recuperei a respiração.
–Bem longe, querida, bem longe.... Mas isso não importa agora.
–Meu pai sabe que você está viva?
–Não, ele não sabe e por enquanto não deve nem sonhar com isso.
–Por quê?
–Porque devemos ser muito cuidadosas, querida. Você precisa entender que há complicações em nossa família e agregados que podem simplesmente danificar à todos.
–Você quer dizer Gordon? Por quê?
–Você vai precisar entender meu diário, Amy.
–Por que a senhora simplesmente não me conta?
–Eu já disse que o cuidado é pouco para nós. Você acha mesmo que consegue se controlar se souber mais? E não me chame de senhora, parei de envelhecer quando...
–Quando? –Insisti.
–Nada.
–Quando você fez todos pensarem que estava morta? –Chutei.
–Você não compreende, criança. Foi na noite em que você nasceu. –Eu esperei até que ela tivesse a bondade de me contar. –Quando sua mãe engravidou, recebeu uma maldição antiga de uma feiticeira dos Vales Quentes. Sua mãe seria incapaz de conceber qualquer criança. Entretanto, Jane não se barrou por aí. Ela lembrou seu pai que a magia era capaz de salvar uma vida.
–Uma vida por uma vida. –Murmurei.
–Exatamente.
–Mas e quanto à você? –Perguntei.
–Não pegue as informações tão rápido assim, Amy. –Repreendeu. –O que as pessoas acreditam é que a vida de sua mãe não foi suficiente para que você vivesse, então eu dei a minha.
–Mas você não está morta.
–Exatamente. –Ela concordou e alguma coisa fez meu coração se acelerar.
–E quanto à Jane? Ela está morta?
O silêncio me matou, por mais que só tenha durado alguns segundos.
–Não. –Ela foi curta e séria demais até para ela. –Isso é um segredo, Amy. Pode custar a sua vida, a minha, de Jane, seu pai, Thomas e qualquer um que tente interferir. Você me entende?
Eu assenti com a cabeça, sem conseguir falar.
–Esse assunto jamais deve ser mencionado. Você sequer pode se permitir pensar sobre isso por um tempo que exceda dois segundos. Essa informação é arriscada e desnecessária para você agora.
–É por causa de Gordon? –Perguntei.
–Não é tudo por causa desse ser, porém grande parte. Deixe-o saber e comece a contar o fim de nossa existência.
–Você não pode me dizer onde você está, não é mesmo?
–Correto. Isso também deve ser mantido em sigilo. Agora é o seguinte, minha querida, esqueça tudo isso. Vá para a escola, estude, aprenda a maior quantidade possível de feitiços e poções possível, divirta-se com moderação, veja quem são realmente seus amigos e não se envergonhe por precisar de ajuda. Ninguém gastaria tempo cuidando de outra pessoa se não fosse de extrema importância.
–Thomas sabe?
–Eu acredito que sim, querida. Mas esse assunto não deve ser conversado. –Ela pareceu sentir pena de mim. –Entretanto, Jane sempre esteve olhando por você. –Me senti bem, de certa forma.
–Por que ele se importa tanto comigo? –Eu senti que minha avó estava sorrindo.
–Ele te dá o que você precisa.
–À troco de quê?
Ela riu.
–O seu bem-estar é de interesse coletivo, eu suponho. Mas eu entendo o que você quer dizer, sim. Porém terá de perguntar à ele.
–Eu já devo ter tentando. –Bufei.
–Então pare de tentar e viva um pouco. Se eu tivesse alguém assim quando tinha sua idade.... –Eu corei, mas fiquei feliz por não haver ninguém lá para me ver. –Agora vá dormir, querida.
–Eu não consigo.
–E por que?
–Porque eu não quero ficar sozinha. –Choraminguei. Ridículo, eu sei, mas eu não queria mesmo.
–Você estará acompanhada em breve, eu garanto. Eu preciso ir. Espero que durma bem, Amy, e relaxe.
-Boa noite. –Falei.
–Nos veremos em breve. Lembre-se de ter juízo. –Foi a última coisa que ela disse antes de desaparecer no ar.
E eu estava sozinha de novo, que maravilha.
Rolei por aquela cama inteira umas dez vezes, fiquei irritada umas cinco vezes, caí uma só e contei trezentos e vinte e um carneiros. Só parei de contar os animais quando perdi a conta, na verdade, e fiquei irritada outra vez.
–Eu não consigo acreditar que ainda esteja acordada. –Eu estava cansada demais para levar um susto, gritar ou me mover muito abruptamente.
–Você não tinha ido caçar? –Retruquei.
–Já deu tempo de fazer um banquete, princesa. –Ele estava perto. Suspirei. Esperava que ele soubesse o que eu precisava. –Eu não me lembro de tê-la visto com medo antes.
–Eu não estou com medo. –Falei em meio dos bocejos.
–O que você tem, então? –Perguntou. Senti a cama mexer e então ele estava ao meu lado.
–Frio. E eu não quero ficar sozinha hoje.
–E por que? –Ele sempre tinha tempo para brincar comigo, era impressionante.
–Porque não. –Respondi, sem ter muito uma resposta pronta. Felizmente ele aceitou aquilo e puxou os cobertores por cima de meu ombro. –Se você não entrar debaixo do cobertor eu vou me sentir presa. –Reclamei.
–Quem sabe assim você se mexe menos? –Brincou, mas aceitou entrar debaixo dos panos. Ele passou um braço sobre mim e eu senti que ele estava usando uma simples camiseta de mangas curtas.
–Como você consegue usar isso? –Minha pergunta foi quase um sussurro.
–Eu não tenho fio. Entretanto, como você consegue usar isto? –Provocou, sua mão desceu rapidamente para minha perna, que felizmente já estava arrepiada antes por causa do frio então não teve como ficar de novo.
–Tanto faz. –Grunhi.
–Bem, agora eu quero que você feche a boca e os olhos. Acha que consegue? –Debochou.
–Se eu tivesse em condições você perderia uma língua. –Ameacei.
–Boa noite, princesa.
Bufei, dando-me por vencia.
–Boa noite, projeto de irritação personificada. –Eu juro que se estivesse num estado mais consciente teria ofendido mais dignamente, porém eu acabei dormindo sem nem ouvir a reposta. Tenso.
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