Royals
10 Capítulo 10
Notas iniciais
X
Só mais dois minutos.... Um e cinquenta e nove, e oito....
Não aguentava mais ficar naquela cama por um segundo que fosse. Nas últimas vinte e três horas e cinquenta e oito minutos eu não tinha movido nenhum músculo. Talvez só os da boca para amaldiçoar Thomas por cada colher que ele enfiava nela, e mesmo assim eu precisava de muito esforço para conseguir movê-la.
Aquele foi decididamente o pior aniversário que alguém pode ter.
Respirei fundo olhando para a cara de Thomas que estava mais focado no diário de minha avó. Não que eu o tenha deixado ler, porém não havia nada que eu pudesse fazer à respeito.
–Pode encher a banheira para mim, por favor? –Pedi. Ele levantou os olhos rapidamente.
–Sim. –Pelo menos ele não contestou. Enquanto eu sentia aos poucos meus movimentos voltarem, ele foi fazer o que eu pedi.
Cerca de três minutos depois eu senti a necessidade de correr para o banheiro e fazer o que precisava antes que acabasse me humilhando. Então me joguei na banheira de água quente com a maior vontade do mundo de tomar banho e passei uma boa meia hora sem fazer qualquer coisa lá dentro.
Como eu era uma pessoa bem prevenida por conta das pessoas que simplesmente apareciam no meu quarto, eu tinha algumas trocas de roupa lá mesmo, num armário. Peguei um pijama no estilo shorts e camiseta, pois era o que eu tinha e a arrumadeira levara o de frio para a lavanderia, e dei um jeito de secar meu cabelo na base de toalha.
Só saí do quarto quando o frio começou a consumir cada milímetro da minha pele. Thomas me olhou por um longo tempo e eu fiquei desconfortável, óbvio, até seu olhar virar reprovação.
–Nem comece, o outro pijama está lavando. –Comecei me defendendo.
–Por que não usa moletom?
–Porque eu posso me mexer muito melhor com meu pijama, é simples. –Respondi.
Ele revirou os olhos.
–Não vai para baixo dos cobertores pelo menos? –Ele sugeriu e eu fiz uma careta espontânea.
–Eu passei as últimas vinte e quatro horas da minha vida naquela cama. Prefiro congelar. –Isso não o agradou. –Você não pode fazer nada, Thomas! –Reclamei antes que ele pudesse me ameaçar.
–Então o que quer fazer? –Ele bufou, desistindo.
–Bem, eu poderia escutar sua história sobre como conheceu minha avó e não teve capacidade para me contar. –Falei, fuzilando-o. Thomas me deu os ombros e murmurou alguma coisa não muito útil, como sempre.
–Ela veio falar comigo, não sei muito mais do que você. Agora por que não abre os presentes? –Ele mudou de assunto.
É, eu tinha ganho presentes de aniversários que estavam empilhados na mesa simplesmente porque eu fui um vegetal durante todo o período do meu aniversário.
Mas eu não podia abrir aqueles presentes, minhas pernas estavam trêmulas e geladas.
–Você realmente prefere congelar? –Ele debochou, arqueando uma sobrancelha e me jogou na cama antes mesmo que eu pudesse contestar.
Eu juro que queria sair daquela cama, porém alguma coisa congelada em mim não queria obedecer. Pelo menos ele trouxe todos os presentes até mim.
–Obrigada, Tommy. –Provoquei, recebendo um olhar fulminante em troca. Eu não sabia se devia perguntar sobre sua capacidade de eletrocutar pessoas com os olhos. Ele se sentou ao meu lado e puxou o cobertor para cima das minhas pernas. –Como eles conseguiram comprar tantas coisas sendo que não podemos sair da escola? –Perguntei.
–Eles mandaram uma lista para a diretora semana passada. –E deu de ombros, me passando um embrulho vermelho. Era de Ryan. Era um pijama de frio vinho.
–Você por acaso tem alguma coisa a ver com isso? –Acusei.
–Kate me perguntou se tinha algo que você precisava, acho que ela espalhou isso. –Ele se fez de inocente.
Peguei a próxima embalagem, de Paul, e encontrei um pijama, só que era uma camisola de seda não muito longa ou fechada. Thomas não gostou.
–É só uma camisola. –Falei. Ele não me respondeu, apenas me passou o próximo pacote.
Kate me dera um vestido verde curto e justo, de um ombro só, junto com uma carta meio ameaçadora. Então tiveram mais pijamas como os de Scarlet, Lena e Matt. Sarah me deu um livro grande sobre mistérios nas criaturas, Alex me deu maquiagem e o restante variou entre livros de ficção e cosméticos.
A última coisa era um envelope da diretora, me desejando parabéns e me chamando para uma reunião no dia seguinte, em sua sala.
–Estranho.
–Ela não é tão ruim assim. –Ele murmurou.
–Bem, vou guardar as coisas. –Falei, me levantando para guardar todas as roupas e os presentes no armário, depois jogando as embalagens no lixo.
–Você não abriu o meu. –Ele murmurou depois de algum tempo.
Não sei porque mas eu fiquei muito mais satisfeita ao ouvir aquilo. Meu coração até pulou mais rápido, o que era um tanto constrangedor. E se ele só estivesse me zoando?
–Você tem um? –Consegui dizer, virando-me para encará-lo. Ele estava bem atrás de mim e me fez pular de susto.
–O que acha? –Murmurou, tirando uma caixa pequena do bolso.
A abri com um pouco de cautela e encontrei uma corrente dourada com um pássaro de pedras totalmente negras como pingente. Não era grande, mas o pássaro era hipnotizante.
–Eu não sei o que dizer. –Fui honesta. –É muito bonito....
–Você não precisa dizer algo, sabe? –Ele falou rouco, parecia até de propósito. Então me virou pelos ombros e eu segurei o cabelo para que ele pudesse prender a corrente. Me senti bem com ela.
–Obrigada. –Agradeci.
Thomas deu de ombros e se afastou, acabando com meu estado meio doido de existência.
–Agora é melhor você dormir, está cansada, sei lá como. –Disse, me arrastando de volta para a cama.
Eu estava aturdida demais para contestar, então deixei ser levada. As luzes se apagaram assim que ele me cobriu.
–Vai ficar? –Murmurei.
–Hoje não. Pode comemorar se quiser. –Não era a resposta que eu queria.
–Boa noite então. –Resmunguei infeliz. Pude ouvi-lo rir.
–Boa noite. –Respondeu e se debruçou sobre mim, beijando-me na testa, como fizera uma vez.
Eu já estava quase decidida a dormir quando senti seus lábios mais uma vez, porém não sobre minha testa, mas roçando delicadamente meus lábios.
Quando percebi o que havia acontecido ele já havia saído do quarto e aquele ser na cama era apenas eu, com os batimentos cardíacos descontrolados e sentindo os lábios como se eles estivessem anestesiados. Mesmo que não tenha durado nem mesmo meio segundo, foi suficiente para que meu estômago se revirasse. Seus lábios eram macios e de algum jeito eu sabia que eram totalmente irresistíveis.
.................
Bati três vezes na porta e a mesma se abriu sozinha, revelando uma sala grande, com uma mesa redonda de vidro no centro junto de algumas cadeiras, milhares de estantes de livros, quadros, tapetes e a mesa de madeira normal da diretora.
–Pode entrar, Srta. Winter. Sente-se. –Estranho ela ter sido tão não muito rude. Mas eu não quis arriscar e decidi que me sentar seria mais adequado. –Nós temos um assunto meio delicado, querida. –Ela começou. –Você precisará sair por um fim de semana daqui um mês.
Aquilo me pegou de surpresa mesmo.
–Por que?
–Seu pai vai recepcionar um grande baile no sábado. Sua presença é imprescindível.
Baile? Meu pai? Conhecer meu pai? Sair de lá? .... Era muita coisa para uma pessoa só.
–Como assim? Por que eu preciso ir?
A diretora franziu os lábios, como se não soubesse por onde começar.
–É um baile para você, de certa forma. Vão haver tanto bruxos como vampiros no ambiente e você precisa ser apresentada para confirmar. –Ela parou por aí.
–Confirmar o que?
Ela pareceu inquieta novamente e aquilo me deixou nervosa.
–Você é uma princesa, Amy. Um dia terá deveres em suas mãos, pessoas para reinar. O destino pessoal de uma princesa nunca é fácil, nunca é tão pessoal assim. Aliás, não só para princesas, mas muitas famílias em todos os reinos escolhem uniões propícias.
Eu não sei se eu simplesmente não havia entendido ou se não queria entender.
–Você não quer dizer....
–Casamento? –Ela completou. –Sim, querida, é uma festa de noivado.
Até minha respiração saiu trêmula.
Como assim? Ele simplesmente achava que podia me forçar a casar com qualquer um sem ao menos me conhecer? Eu tinha dezesseis míseros anos e aquela não era uma idade para casar.
–Por que? –Murmurei.
–Situações políticas, minha querida. Você é muito jovem, sim, porém vale muito. Vale o bastante para acabar com uma guerra, ou pelo menos com grande parte dela. Não vai se casar agora, é claro, mas quando completar dezessete a união já estará sendo providenciada. Irá ter aulas no palácio de seu pai ano que vem, aprenderá uma magia mais forte e aprenderá sobre o reino que irá governar. Durante esse ano precisará comparecer à todos os bailes e festas para quais será convidada e precisará marcar presença. É o dever de uma princesa e futura rainha saber com quem estará lidando.
Eu estava totalmente sem palavras.
–Não é justo. –Aquilo soou totalmente tosco.
–Talvez não seja, criança, mas é como é. O seu povo anseia por te ver enquanto o outro povo está dividido entre oposições e adoração. Precisará mostrar uma imagem forte nos próximos dias, aprenderá tudo sobre política, economia, sociedade e religião. Aprenderá utilizar sua própria magia e, acredite em mim ou não, será feliz.
–Eu não consigo ver como.
Ela sorriu cautelosamente.
–Eu sou todas as paredes desta escola, sabe? Então digamos que eu apenas sei. No palácio encontrará a noiva de seu irmão mais velho, creio que irão se gostar bastante e você poderá trazer Olívia com você para cá quando voltar do baile. Ela sabe muito, embora não seja uma bruxa, mas fica muito sozinha no palácio de seu pai, e é necessário que ela aprenda sobre sua espécie estando aqui.
–Quantos anos ela tem? –Perguntei, não sei se por raiva ou curiosidade.
–Dezesseis, assim como você. Ela é, na verdade, irmã de seu noivo.
Oh, claro. Ainda havia meu noivo.
–Haverá uma união proposital entre as famílias Hunter e Winter, com intenção de acalmar as rixas entre as espécies e também misturar ambas.
Engasguei com o ar.
–Você quer dizer Thomas? –Meu coração bateu mais rápido em desespero.
–O próprio, sim. –Ela assentiu devagar.
–E ele já sabia. –Não foi uma pergunta, porém a diretora confirmou.
–Não se perturbe, Amy. Você precisará pensar nas coisas que levará. Pegue as melhores joias, roupas de frio e poderá levar alguém com você, como uma dama de companhia. E se acalme, por favor. Se você não fosse capaz de fazer tudo isso não estaria aqui, está em seu sangue, meu bem. –Ela praticamente suplicou ao ver minha cara de raiva.
Era tarde demais, eu já estava atravessando a porta do escritório.
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