Royals
1 Capítulo 1
Notas iniciais
–Eu não quero ir! –Encontrei a mim mesma me exaltando sem conseguir nem um olhar de retorno de minha tia.
–Não está em suas mãos esse poder, criança. –Ela respondeu, mas continuou teclando irritantemente em frente ao seu computador.
–Mas devia. Afinal, é a minha vida que a senhora estará mudando drasticamente.
Ela respirou fundo.
–Você tem apenas 15 anos, então vai fazer o que eu disser.
–Por que você está me mandando para a Suíça? Se quer se livrar de mim, me mande para o Canadá que é mais perto.
Ela finalmente largou o que estava fazendo para me dar atenção.
–Essa seria a opção de sua mãe, Amy.
–Me enviar para um orfanato na Suíça? Aposto que ela sonhava com esse dia quando eu nasci. Pena que ela morreu dois dias depois. –Eu não achava que tinha ido muito longe, porém os olhos de Margareth brilharam.
–Não diga o que não possa afirmar. E é um internato, um dos melhores por sinal.
–Então por que não aparece em nenhum site? Eu simplesmente fui incapaz de achar qualquer coisa relacionada a Crossed Mazes no google.
–Porque não é um lugar para qualquer um! Eles aceitam apenas filhos de ex-alunos.
–Você estudou lá? –Perguntei.
–Não. Mas sua mãe sim, ela recebeu o convite. Você deve lembrar que sua mãe foi adotada, mas a escola é tão antiga que guarda todos os registros necessários.
–Como você pode me mandar para um lugar do qual nunca viu? –Provoquei.
–Apenas mandando! Você é a menor de idade aqui. Agora vá para o carro antes que perca o voo. Me ligue quando chegar lá. –Ordenou e me tirou de dentro da sua sala.
Essa era minha vida. Eu vivia com minha tia insuportavelmente chata, sem basicamente nada para fazer e tendo que seguir milhares de ordens sem qualquer nexo. E agora precisava ir para o aeroporto porque minha tia quer me ver tão longe que me mandou para o fim do mundo.
Bufei com minha discussão mental e entrei no carro que me esperava na porta do carro. Eu estava tão entediada e irritada que não houve espaço para dizer adeus ou ficar emocionada com o que eu estava deixando para trás. Como se eu tivesse opção.
Cheguei bem na hora de pegar o voo, e notei que minha tia resolvera me fazer um presente e me colocar na primeira classe, pois assim ela me acusaria de estar sendo injusta se eu reclamasse de qualquer outra coisa de agora em diante.
Eu não comi o voo inteiro simplesmente porque eu dormi. Podem pensar que seja um absurdo alguém gastar tanto dinheiro com uma passagem, mas eu estava revoltada dentro do meu próprio mundo, e eu manifestava isso de uma forma quieta.
Quando avisaram que estávamos nos preparando para aterrissagem, eu fui para o banheiro colocar o maldito uniforme. Honestamente, saias, blusas sociais e gravatas já eram coisa que deveria ter ficado presa no século passado.
Mas lá estava eu, parecendo uma assombração com aquela saia preta, a blusa extremamente branca, gravata vermelha, meia fina longa preta e sapatos da mesma cor. Sem falar que minha pele se igualava à de uma boneca de porcelana, de tão branca e pálida que era. Eu parecia um zumbi, também. Se meu cabelo fosse preto, aí sim eu poderia interpretar a Samara, porém ele era louro escuro, ondulado e com cachos nas pontas, acabando com a parte assustadora da coisa.
Eu levei o blazer em mãos, dizendo que apenas o vestiria se fosse realmente necessário. Mas é claro que foi.
A temperatura em Bern estava cerca de -13ºC e eu congelei antes mesmo de descer do avião.
Felizmente, minha tia tinha sido útil e chamado alguém para pegar minhas malas e me levar para o internato. Eu sabia que seriam mais algumas horas de viagem, uma vez que o lugar ficava isolado no meio dos alpes.
Eu dormi durante as duas horas de viagem.
Eu realmente tinha problemas com dormir, quer dizer, quando a situação era chata e eu não dava importância, eu dormia apenas para passar o tempo mesmo.
Finalmente chegamos e a primeira coisa que eu fiz quando desci do carro foi morder a língua.
Na minha frente se erguia um imenso castelo medieval com uma estrutura grotesca bem de época mesmo. Havia aquele portão esquisito de barras de ferro, algumas bandeiras penduradas e quase nenhuma janela.
Se seres humanos precisassem fazer fotossíntese para sobreviver, aquele com certeza seria a origem do fim da espécie.
–Seja bem vinda, Lady. Winter. –Anh, o que? Olhei para trás e me deparei com uma mulher de meia idade, usando roupas sociais, cabelos negros presos num coque e uma expressão que colocava medo até no Hulk.
–Ah, oi. –Falei.
–Senhora. –Ela corrigiu.
–Senhora. –Repeti, pouco à vontade.
–Bom. Agora vamos entrar, você terá apenas o final do dia para arrumar suas coisas. Você começará suas aulas amanhã, junto com todas as outras iniciantes de fora. Vou te levar até seu quarto e você pode ficar nele pelo resto do dia. Levaremos o jantar.
Eu ia adentrando cada vez mais no castelo e ela ia falando algumas coisas meio sem sentido, então eu meio que ignorei.
Era um lugar estranho por dentro. Era escuro e tinha corredores largos, tendo apenas bandeiras e armaduras em pedestais como decoração. Havia também um longo tapete vermelho que parecia não ter fim e algumas tochas presas às rochas das paredes. Lá dentro parecia ser ainda mais frio do que estava fora.
Nós viramos o corredor até chegarmos à um salão grande, porém vazio. Havia uma larga escadaria no meio, que de dividia em dois mais em cima. Nós viramos à direita.
–Os quartos ficam desse lado, enquanto as aulas e refeitórios ficam do outro. Você deve memorizar as portas. Seu quarto fica virando a terceira passagem à direita e logo depois a segunda à esquerda. Se você quiser contar, é a sexta porta.
Isso eu tive que prestar atenção. Não estava afim de acabar entrando no quarto de outra pessoa no primeiro dia de aula e nem nunca.
Uma coisa que me surpreendeu é que não havia muitas portas. Não que houvessem poucas, porém certamente não era o número que eu imaginava.
Quando chegamos na porta de madeira indicada como sendo a porta do meu quarto, não hesitei em abri-la e depois não sei se fiquei surpresa com o fato do quarto ser enorme ou se fiquei espantada com a decoração.
Era uma decoração de épocas passadas. Havia os móveis todos rústicos, não havia luz elétrica, um lustre de cristais sobre um tapete felpudo central e uns quadros estranhos. A cama era a única coisa que parecia mais atual. Se não contar a existência dossel, parecia extremamente aconchegante. Era uma cama de casal bem alta e larga, com um cobertor aparentemente fofo vermelho, além de alguns travesseiros brancos e vermelhos. O dossel era também vermelho, o que deixava o quarto meio sublime, contrastando com o tom escuro e frio das pedras.
–Você só vai achar eletricidade no banheiro, e tudo o que precisará já está arrumado. Devo lembrar-lhe que não precisa sair do quarto hoje e que não é permitido, jamais, deixar o quarto depois da meia noite. Nós somos extremamente rigorosos com essa regra e não nos responsabilizamos por quem desobedecer. Fui clara? –Ela perguntou de forma tão agressiva que eu balancei tão rápido a cabeça que a mesma quase saiu do pescoço.
–Sim, senhora. –Murmurei.
–Ótimo. Seu jantar chegará em torno das oito horas. Tenha uma boa estadia e leia as regras que estão sobre sua escrivaninha. Até mais.
Me senti um pouco aliviada quando a mulher deixou meu quarto e fui dar uma olhada no meu estado no banheiro.
Reparei que havia um espelho bem grande todo trabalhado na parede atrás da pia. Nas gavetas havia vários produtos necessários para higiene e perto do chuveiro, tinha uma banheira extremamente grande comparando com o esperado, que era nem haver uma. Respirei fundo.
Eu não estava numa escola ou num internato. Era pior.
Eu estava num lugar úmido, solitário, frio, assustador, rígido e sem graça. Minha maravilhosa tia havia me enviado para uma prisão. Muito obrigada.
Peguei um livreto de papel sobre a escrivaninha e resolvi ler, já que ficaria trancada em meu quarto pelo resto do dia.
Era impressionante como quase não havia regras naquele lugar. Porém, o que parecia ser mais importante era o fato de que não era permitido sair do quarto a partir da meia noite, estando sujeito à punições. No Século XXI, qual seria uma punição? Também havia aquelas regras sobre o uso de uniforme, que deveríamos usar basicamente sempre, e as roupas de educação física.
Num instante, olhei para o chão perto da minha cama e me assustei ao ver todas as minhas malas lá. Como que elas tinham chegado primeiro que eu? Bom, talvez houvesse outro caminho até o quarto.
Não havia nada também que falasse sobre uso de celulares em sala de aula e eu descobri a resposta quando tentei pegar o meu para ligar para Margareth. Não havia uma mísera barra de sinal naquele lugar.
Me irritei o suficiente para jogar o livreto para cima e resolvi ir desfazer as malas para gastar tempo.
Quando Margareth havia dito “internato na Suíça” eu colocara roupas legais na mala, mesmo irritada pelo fato de estar sendo despachada, elegera minhas melhores roupas e sapatos. Uma porção de calças rasgadas, shorts jeans e vestidos de festa que provavelmente jamais seriam usados novamente. Sem falar que tinha coisa lá dentro que nunca fora...
Arrumei tudo o que era de banheiro na maior calma do mundo e até consegui colocar as malas no topo do guarda-roupa, praticamente escalando as prateleiras.
Fiquei realmente frustrada quando eu já tinha terminado tudo. O que eu faria?
A primeira coisa que eu pensei em fazer foi dormir, e eu já estava indo me jogar na cama quando ouvi batidas na porta.
Seria o jantar já?
Tentei não demorar para abrir a porta, uma vez que se fosse aquela diretora estranha eu provavelmente levaria uma bronca por falta de prontidão.
–Por que você demorou tanto? –Alguém praticamente me atropelou para entrar no quarto. –Sabia que eles nos mandaram ficar no quarto?
Era uma menina da minha idade, cabelos lisos negros e olhos verdes. Ela era um pouco mais alta que eu, portanto ainda assim baixa, e tinha a pele quase tão clara quanto a minha.
–Desculpa? –Falei.
–Tudo bem. –Ela falou, mas analisava o quarto ao invés de olhar para mim. –Seu quarto é tão depressivo quanto o meu. –Resmungou. –A propósito, sou Kate. –Ela estendeu a mão e eu a peguei.
–Amy. –Falei. –Você precisa de algo?
–Claro. Preciso sair desse lugar antes que enlouqueça. –Ela falou. –Mas, como isso não parece ser possível, preciso de companhia.
–Seja bem vinda, então. Se é que é possível.
Kate revirou os olhos.
–Não é possível. Eu cheguei ontem à noite e eles me mandaram ficar no meu quarto, ou seja, eu só coloquei os pés pra fora agora.
–Eles te fizeram ficar sem sair do quarto durante um dia inteiro? –Assustei.
–Sim. Eu vou matar o juiz que me mandou para cá. –Ela disse. –Sabia que por mais que não tenha uma mísera janela nos quartos, o quarto venta que é uma desgraça e dá para ouvir os lobos à noite?
–Lobos?
–Sim. Aposto que é para a gente não tentar fugir desse hospício. –Resmungou. –Isso nem parece uma escola.
–Por acaso você viu gente por aqui? No caminho para cá eu não vi ninguém. –Perguntei.
–Não. Esse lugar parece oco. Eu só entrei aqui porque te ouvi chegando.
Antes que alguém pudesse falar algo, houveram mais batidas na porta. Kate se escondeu ao lado da mesma quando eu fui abrir.
E não havia ninguém em frente à ela, apenas duas bandejas de comida no chão.
–Eu acho que eles sabem que você está aqui. –Murmurei. Ela saiu do esconderijo para olhar.
–Estranho. Eu já olhei em todos os cantos do quarto e não há nenhuma câmera. –Falou.
Acabei por dar de ombros e peguei uma das bandejas.
Tinha macarrão e carne num estranho prato de prata e um cálice de suco de laranja.
–Então, de onde você é? –Perguntei quando nos sentamos na mesa para comer.
–Dublin. Você?
–Bristol. –Falei.
–E quem te mandou para cá?
–Minha querida tia. Acho que ela cansou de ter que tomar conta de mim. –Murmurei.
–Seus pais...?
–Minha mãe morreu quando eu tinha um dia de vida. Nunca ouvi falar de meu pai.
Ela apenas assentiu, sem falar que sentia muito ou coisa do tipo, e era melhor assim, porque eu não podia dizer que o que eu nem lembrava tinha acabado com a minha vida.
–Eu vivia com meus pais adotivos. –Ela contou. –Mas o juiz simplesmente decidiu mandar uma carta me mandando para cá quinze anos depois.
–Minha tia me avisou apenas um dia antes e eu estou mais revoltada agora do que quando ela me deu a notícia.
–Eu te compreendo. Mas então, você leu as regras?
Fiz uma careta.
–Só metade. Parei de ler quando descobri que nem celular pegava aqui.
–Sabia que o subterrâneo está proibido para nós?
–Subterrâneo? –Eu não tinha chegado naquela parte.
–Sim. Acho que era o calabouço antes, eu não sei. Mas morro de vontade de ir lá.
Sim, era tentador.
–Se ganhar uma expulsão desse lugar de brinde eu vou agora mesmo. –Falei.
–Talvez você ganhe sua morte de brinde. Não duvide. –Ela tinha um ponto. –Mas algum dia desses eu vou lá. Deve haver alguma coisa muito errada aqui.
–Necessariamente. Isso parece uma prisão.
–Ah, também não podemos seguir até o final nos corredores. –Lembrou. -Sabe, quando acabam os quartos.
–Sei.
–Eu acho que eles tentam nos deixar com medo, assim ninguém tenta descobrir nada.
–Não sei se funcionaria muito comigo. Eu começo a fazer o que é errado sem nem perceber. –Resmunguei.
–Então somos duas. Vamos ver em quanto tempo conseguimos uma expulsão. –Murmurou e eu sorri.
Uma expulsão parecia uma boa coisa. Não me importaria se Margareth me deixasse um ano de castigo quando voltasse.
Quando começou a ficar tarde, Kate foi para o quarto dormir e eu fui tomar banho. Felizmente a água era quente, porque o ambiente era tão frio que você podia tomar um choque térmico à qualquer momento.
Resmunguei ao olhar para meus pijamas. Por que eu não trouxera alguma coisa quente? Eu tinha apenas conjuntos de shorts e blusa, e a maioria ainda era de seda e malha fria.
Que fosse malha fria, então.
É claro que não havia secador de cabelo, e meu cabelo levava uma eternidade para secar. Tive que prendê-lo e só o soltei quando deitei na cama, a única coisa que era realmente agradável naquele lugar. As tochas que iluminavam o quarto pareceram se apagar sozinhas. Não sei se se apagaram mesmo ou se fui eu que dormi.
Eu estava congelando. Meus braços desnudos e meus pés descalços enquanto eu avançava em um corredor largo de pedras frias e úmidas. Não estava tão escuro assim, eu podia ver cada pedra que passava pelos lados, porém o que vinha a minha frente era somente escuridão.
“Quando todos os meus segredos não mais estiverem trancados
O que é de mais raro será elevado
Escolhas erradas não terão volta
E em meu coração,
Sofrimentos eternos serão
De minha joia que deixei em vão.”
Uma voz feminina cantava aquela música, e era suave e estranhamente familiar. A pessoa parecia estar perto, mas ela nunca aparecia. Comecei a correr em desespero para achar a origem da canção, mas nada aparecia.
Então houve um barulho alto, feito uma campainha....
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